sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Aroma (2) a legião do Huno, e a religião Una

No ano passado escrevi algumas coisas na Wikipedia (portuguesa) sobre o período das "Invasões bárbaras", e aproveitarei para trazer a história da imperatriz mãe Gala Placídia, do Conde Bonifácio, e do general Flávio Aécio... uma história que, mesmo que fosse inventada, mereceria ser contada.
Para já, colocamos as coisas no ambiente que antecede o colapso.

Será fácil entender que o colapso favoreceu apenas uma causa - a destruição das religiões pagãs, e da sociedade romana baseada nelas, visando a implantação do cristianismo como religião única. 
O cristianismo começou a destruição da Roma pagã ainda antes da chegada dos bárbaros, e isto foi convenientemente negligenciado, procurando responsabilizar apenas os bárbaros pela destruição.

O Cáspio e os Hunos
Normalmente a história bem conhecida, começa com a pressão dos Hunos, que saem da Ásia, possivelmente da Mongólia, e vão conquistando territórios em direcção à Europa, gerando uma fuga acumulada de refugiados, e uma pressão invasora sobre o Império Romano.
Na fuga, o que os une?... os Hunos.
O que teria mudado, para haver essa pressão asiática sobre a Europa?
Já avancei a hipótese do Mar Cáspio ter sido mesmo um mar e não apenas um lago, conforme apontam alguns historiadores da Antiguidade (hipótese que não se pode colocar na Wikipedia, como é óbvio). A mudança geográfica teria ocorrido com uma pequena transição climática, possivelmente no Séc. IV (ou seja, teria sido nessa altura que os romanos deixaram de mostrar as pernas!)
O recuo das águas do Mar Cáspio, foi dando origem a regiões pantanosas, que entretanto solidificaram com uma vegetação, que foi depois coberta pela taiga siberiana. Isso terá definitivamente fechado o Cáspio como lago, e terá permitido o avanço da cavalaria de mongóis em direcção às paragens europeias. Se foram convidados, ou se se fizeram convidados, pois isso é outra questão mais complicada, mas...
- os Hunos permitiriam a implantação do cristianismo como religião una.
Possível fecho do Mar Cáspio e avanço dos Hunos para a Europa (Séc. IV).
Há um primeiro registo de Guerra Gótica em 376, contra o Império Romano Oriental, que dura 6 anos, e é já justificada pela pressão da chegada dos Hunos. Apesar de diversas derrotas militares, os romanos obtêm uma vitória conseguindo resolver a ameaça, incorporando os Godos derrotados no seu exército e atribuindo-lhes terras nas fronteiras do Império.

Foederati
O problema dos Romanos era complicado. Com o cristianismo, a cultura de violência era menosprezada, o exército romano já não teria a dimensão e motivação doutrora. Numa cultura urbana, mais dada aos luxos das cidades, faltaria um número significativo de combatentes, nascidos numa cultura de guerra. Incorporar no seu exército elementos estrangeiros tinha sido sempre uma solução (tal como hoje em dia, no exército americano abundam emigrantes latino-americanos)... esses mercenários de tribos aliadas eram chamados "federados" (foederati). É assim que na transição para o ano 400 uma boa parte dos militares romanos teria origem germânica, e isso vai estar na origem de um problema seguinte - a ordem da chacina das suas famílias.
Para além da ameaça externa, a divisão entre Império Ocidental e Oriental, foi uma constante fonte de guerras civis, com as pretensões de um imperador de uma parte reclamar a outra. O último a agrupar ambos os lados foi Teodósio I, durante 3 anos, mas quando morreu em 395, dividiu de novo o império entre os filhos.

393 - Fim dos Jogos Olímpicos
Nesta altura, além de disputas pessoais, estava em curso a completa implantação do cristianismo como única religião. Com Teodósio I, terminou qualquer tolerância ao paganismo, o que implicou a destruição generalizada de templos na Grécia, especialmente com os éditos do ano 393. 
Os Jogos Olímpicos, com mais de mil anos de existência, eram dedicados a Zeus, e por serem considerados parte de um ritual pagão, foram igualmente suprimidos (já nem se tinham realizado em 392). 
Assim, outra fonte de guerra interna era a divisão religiosa, não apenas entre cristãos e pagãos, mas até entre as tendências cristãs (quando o arianismo tinha ainda um grande peso).
Porém o principal trabalho era o de desmantelar a velha cultura romana pagã, considerada impura e depravada. Com o objectivo de instaurar uma pureza cristã, que levaria às trevas da Idade Média, não faltaram vários "santos" cristãos, apelando e financiando a destruição dos antigos monumentos e templos (por exemplo, São João Crisóstomo, arcebispo de Constantinopla).

Santo Agostinho, na sua obra "A cidade de Deus", tenta responder aos que culpavam os cristãos sobre a destruição que chegaria a Roma e a todo o império, com os bárbaros.
No entanto, parece óbvio que o cristianismo ao pretender arrasar toda a estrutura pagã, em que assentava a sociedade romana, teria uma enorme vantagem em convocar os bárbaros à sua ajuda.
A ideia seria perigosamente simples.
Os éditos de Teodósio responsabilizavam o cristianismo pela destruição da Roma antiga, pagã. 
No entanto, ao favorecer uma invasão externa, seria esse inimigo, que seria responsabilizado pela destruição de Roma. Não seriam os cristãos, seriam os bárbaros. Este argumento foi ensaiado, e repetido à exaustão até hoje.
Santo Agostinho é claro no seu argumento... os romanos que abraçavam a religião cristã eram até poupados pelos bárbaros, porque afinal de contas, o trabalho de cristianizar os godos já estava em curso. Portanto, o problema de Roma não eram os cristãos - que os godos poupavam, por "piedade divina"... mas sim os pagãos, que não escapavam ao fio da espada, pela sua impiedade.
Santo Agostinho morrerá depois no decurso do cerco que os vândalos irão fazer a Hippo.

Os filhos de Teodósio
Teodósio divide na herança o império: Arcádio no Oriente, e Honório no Ocidente, ambos jovens, e com o poder delegado em tutores - Rufino no Oriente, e Estilicão no Ocidente. Rufino será morto no mesmo ano em que Arcádio toma posse, e o seu rival Estilicão será condenado à morte uns anos mais tarde. Por detrás do poder, está um poder de bastidores muito mais complicado e efectivo.

Estilicão era parcialmente de origem vândala, mas como para a maioria dos bárbaros em contacto com o império, Roma não era vista como um objectivo a abater, mas sim como um objectivo a alcançar. Estilicão tendo chegado ao topo da hierarquia militar romana, considerava-se defensor de Roma, e para Edward Gibbon terá sido o "último dos generais romanos".
No dia 31 de Dezembro de 406, passam a fronteira do Reno simultaneamente os Suevos, Alanos e Vândalos, e o pretexto para a entrada no império é a fuga aos Hunos, causando grande instabilidade na Gália.
Antes disso, a paz com os Visigodos terminara, também pela pressão dos Hunos, que levara o rei godo Radagaiso a sair da Hungria em direcção a Itália. Estilicão consegue parar a ameaça em Florença, e Radagaiso será morto (não cumprindo a sua promessa de sacrificar os senadores romanos aos seus deuses pagãos).
Apesar das diversas vitórias militares de Estilicão, a sua derrota será política. Não conseguindo ao mesmo tempo parar a entrada dos bárbaros pelo Reno, e demorando também a intervir decisivamente contra o rei godo Alarico, será acusado de conluio com este. O jovem imperador Honório, que ele protegera no trono, irá condená-lo à morte no ano 408.
Pior, é ao mesmo tempo lançada a suspeita de que todos os foederati de origem germânica eram efectivamente inimigos de Roma, e Honório emite ordem de morte a todos, inclusive famílias.
Perante tal ordem irracional, e com o começo das matanças familiares, os militares germânicos desertam em massa para o lado do rei godo Alarico, que tinha sido nomeado chefe do exército de Arcádio, irmão de Honório, imperador do Oriente.

410 - Saque de Roma
Ao contrário de Radagaiso, Alarico era cristão, ainda que ariano.
Assim, com Estilicão morto e o exército romano desfalcado, não é difícil a Alarico chegar a Roma e impor cercos.
No ano 410 as tropas de Alarico acabam por entrar na cidade de Roma, algo que não acontecera desde o tempo da incursão do gaulês Breno em 387 a.C. Não será Alarico a provocar nenhuma destruição significativa a Roma, essa acontecerá mais com a incursão dos Vândalos, alguns anos mais tarde.
Sendo Alarico cristão haveria a tal piedade com os que se refugiavam em igrejas cristãs, conforme salientava Santo Agostinho, antes deste ter sofrido o ataque e cerco vândalo à sua cidade de Hippo.
Assim, a incursão dos visigodos de Alarico em Roma, quando Honório estava refugiado em Ravena (a nova capital), foi essencialmente um saque.
Nestes cercos, alguns romanos, para não padecerem pelos sofrimentos dos cercos, acabavam mesmo por abrir os portões da cidade, calculando que o cerco causaria mais vítimas, por doença e fome, do que as espadas dos invasores.

Alarico acaba por morrer no ano seguinte, em 411, e é sucedido por Ataúlfo, que tinha casado com Gala Placídia, filha de Teodósio e meia-irmã de Honório. Ela irá desempenhar um papel fulcral nos últimos tempos da Roma imperial, sendo mãe do futuro imperador Valentiniano III.
Nesta altura, a ameaça não são apenas os povos que fogem dos Hunos, são os próprios Hunos.
Mas, conforme é relatado, o Papa Leão I toma então a iniciativa singular de ir ao encontro de Átila, evitando a incursão em Roma.
Por essa altura, poderá ter sido considerado que religião implantada já era Una, e a legião do Huno era dispensada!

domingo, 31 de julho de 2016

Aroma (1) a Roma, que sucede, a Roma

Passados dois séculos das incursões bárbaras que devastaram o Império Romano, o que sucedera?

O que acontecera à língua que falavam os invasores godos?
- Desaparecera. A documentação oficial de toda a Idade Média seria escrita... em Latim.
O que acontecera à religião dos invasores godos?
- Desaparecera. A religião oficial mantinha-se o Cristianismo, com sede... em Roma.
O que acontecera à estrutura independente dos reinos godos?
- Desaparecera. Estava sujeita à chancela eclesiástica do poder papal com base... em Roma.
Portanto, o que sucedera a Roma?
- Roma.

Como já aqui referimos algumas vezes, a língua mais comum no Império Romano não seria o Latim, haveria uma vertente popular, a Língua Romana, depois chamada Língua Romance ou Provençal. Essa sim seria a língua dominante, estando espalhada nos territórios franceses, italianos (cisalpinos) e hispânicos. A origem desta língua romana é provavelmente celta, da Gália, do Languedoc. O latim seria apenas uma tentativa erudita de formalizar uma língua comum, tal como foi o esperanto, e muito provavelmente era só aprendida pela elite romana, e funcionários do Império... devendo-se a isso o seu completo desaparecimento, enquanto língua popular (que nunca o terá sido). A maior prova disso é que praticamente a complexidade da sua estrutura formal não foi herdada por nenhuma das línguas "latinas".
Como facto adicional podemos ver o que ocorreu no Império Bizantino, que sucedeu no Oriente ao Império Romano. A língua dos Romanos a Oriente, em Constantinopla, era o Grego, na variante Koine.

Portanto, em termos de linguagem temos a ocorrência de algo aparentemente contraditório...
No Império Ocidental, conquistado pelos Godos, a língua formal era ainda o Latim.
No Império Oriental, que manteve a herança romana, a língua formal passou a ser o Grego.
Acresce ainda o delicioso detalhe da Roménia estar na parte Oriental, numa região que só num curtíssimo período fez parte do Império Romano, e apesar de estar nessa parte Oriental, foi manter a sua vertente latina como popular.

Ocorreram mudanças a partir do Édito de Milão, em que o Cristianismo é consagrado como religião oficial do Império. Constantino ao definir a capital em Bizâncio-Constantinopla, não a muda apenas de Milão (Mediolanum, para onde já tinha sido transferida em 286 d.C. por Diocleciano). Essa mudança anterior não tinha sido tão radical para os Romanos, como foi a de Constantinopla, pela qual o centro de decisão começou efectivamente a fugir de Roma. Tal como não foi significativa a mudança final para Ravena em 402 d.C., quando já se anteviam os cercos dos bárbaros a Roma.

A importância de Roma era mantida como centro da nova religião do Império, o Cristianismo, sendo sede do poder papal e da cúria romana. Mesmo assim, as disputas entre o Império Ocidental e Oriental foram sendo sucessivas, mesmo no aspecto religioso, tendo levado à separação entre o cristianismo romano e ortodoxo.
Ora, pelo lado Ocidental, Roma reinventou-se. Caiu, para se poder erguer de novo, com uma estrutura de poder completamente diferente.
Assim, é considerado que o papa Gregório (590-604) ao manter sob sua alçada os reinos francos, ostrogodos e visigodos (que tinham antes optado pela vertente cristã-ariana), detinha muito mais poder do que qualquer dos últimos imperadores romanos.

A missão de Roma era reconquistar os territórios, agora não pelas armas, mas sim pela fé, espalhando o Cristianismo a ocidente, até às ilhas Britânicas. Roma recuperava assim o seu papel de centro do antigo Império do Ocidente... impondo até o Latim como língua litúrgica. A única influência que terá ficado dos Godos, pelo menos no nome, foi estética... com as "letras góticas" do alfabeto romano.

Na Europa, esta nova Roma foi além da anterior... a partir de Carlos Magno.
Ao consagrar Carlos Magno como Sacro-Imperador Germânico, em 800 d.C., o Cristianismo expandia fronteiras para a Alemanha, para além do Reno, onde antes ficara sempre a fronteira do Império Romano.
Até ao Séc. XI ainda irá mais longe.
Parecendo que os reinos cristãos estavam ameaçados a sul pelos árabes muçulmanos, e a norte pelas incursões vikings, que dizimavam as costas europeias, o estabelecimento da Normandia em 911 d.C., aparece como mais uma concessão aos invasores bárbaros do norte.
Só que passado pouco mais que um século e temos os mesmos Normandos a liderar as Cruzadas, contra os novos inimigos a oriente, os Turcos Seljúcidas. A partir desta altura, temos o Império Romano Oriental a sucumbir lentamente, enquanto Roma tem capacidade de enviar exércitos para ajudar a rival Constantinopla, e mesmo libertar Jerusalém.
Pouco tempo depois, toda a Escandinávia era cristianizada, os Vikings deixavam de ser inimigos dos cristãos, e passavam a inserir-se como reinos dependentes da chancela papal.

Portanto, sendo difícil entender isto como um plano a longo prazo, tão moroso de efectivar, acidentalmente ou não, a nova Roma, agora como centro de fé cristã, conseguiria expandir o seu poder na Europa, muito mais do que alguma vez tinha sido tentado pela antiga Roma imperial.

Ainda antes do Cisma que separaria definitivamente as Igrejas Romana e Ortodoxa, São Cirilo fazia a mesma expansão cristã pelo lado da Europa Oriental, bem caracterizado pela influência no alfabeto círilico, que permanece até hoje na Rússia. Portanto, pelo lado ocidental com as reformas de Carlos Magno, e pelo lado oriental com evangelização cultural de São Cirilo, toda a Europa ficava sob influência de novas expansões dos antigos impérios romanos.

Perder-se-ia neste processo toda a zona de influência islâmica, na parte sul e oriental do Mediterrâneo, anteriormente unida como uma só pela Roma imperial. Mas afinal não era o Islão uma religião cuja referência base era também o Antigo Testamento judaico?
- Não serviu também a expansão islâmica como forma de silenciar por completo as velhas religiões pagãs, em particular destruindo a memória da antiquíssima religião egípcia?

Apesar do violento confronto religioso definido pelas Cruzadas, não estava nessa altura todo o antigo mundo romano livre de religiões politeístas, centrado em religiões monoteístas, todas tendo como base o Antigo Testamento judaico? Para além disso tinha chegado muito mais longe. À Germânia, Escandinávia, ou Rússia, pelo lado cristão, e até à Pérsia pelo lado islâmico. Os pontos de contacto destas novas religiões, eram muito maiores do que alguma vez tinham sido antes, com as pagãs, mas estranhamente, dado o seu carácter belicoso e fundamentalista, iriam facilmente entrar em conflito e divisões por discordâncias em detalhes irrelevantes (basta ver que a diferença entre xiitas e sunitas se resume a considerar o genro de Maomé como seu único sucessor válido).

Tudo isto poderia parecer acidental, e sem nenhum fio condutor que ligasse os diversos assuntos.
Por coincidência, ou por mérito natural, os locais onde se tinham imposto as velhas religiões pagãs, gregas, romanas, egípcias, ou até celtas, estariam todos rendidos a uma filosofia religiosa monoteísta cujo registo mais antigo conhecido era o de Akenaton. Desse novo mundo saído do antigo império romano, partiriam nos descobrimentos os novos evangelizadores, missionários, levando a Bíblia, e a ideia de Deus único a todo o globo.

No entanto, o retrato seguinte, mostra outro preço desta transformação.
Este retrato é normalmente entendido (ainda que haja muitas dúvidas) como sendo o retrato da família imperial romana no início do Séc. V, ou seja a imperatriz mãe Gala Placídia e os seus filhos (o futuro imperador Valentiniano III, e Honória).

O preço da nova filosofia religiosa que iria atacar o antigo mundo romano seria dramático:
- Foram precisos mais de mil anos para se poderem voltar a retratar feições com este detalhe...
... e esta foi só uma pequena consequência da queda de Roma!

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Jogo da Bola

A expressão "jogo da bola" é hoje praticamente associada apenas ao futebol, mas há diversos registos antigos que mencionavam este nome, muito antes do futebol ter sido estabelecido na Inglaterra, por volta de 1850.
Assim, alguns sítios com o nome "rua do jogo da bola" ou "travessa do jogo da bola", não se reportavam ao desporto mais recente, mas sim a uma forma bastante mais antiga, e pouco relacionada.
Procurei um pouco mais sobre o assunto, mas apesar de haver registos de popularidade entre o Séc. XVI e o Séc. XIX, caiu em completo desuso, tendo-se praticamente perdido.

A melhor informação que encontrei sobre este jogo está num livro de Manuel J. Gandra
Jardim do Cerco (Mafra) - campo do "jogo da bola" (foto in M. J. Gandra)
Nesse livro encontram-se algumas regras, tal como se pode encontrar uma referência a elas num tratado sobre vários jogos (incluindo cartas e dados) escrito em 1806:
(Jogo da Bola - Tomo IV - páginas 225 a 232) 

Nesta forma mais sofisticada, que exigia um recinto apropriado, o jogo terá sido praticado entre cortesãos, e M. Gandra refere mesmo que houve leis de D. Manuel para proibir o jogo no paço, e que o ambiente escaldante dos ânimos teria provocado a morte do Conde de Vimioso pelo cunhado, o Conde de São João.
Tratando-se de um jogo de derrube de paulitos, teria alguma correspondência com o mais popular jogo da malha, ou chinquilho, ou ainda com o actual bowling. Apesar da popularidade nacional, a sua origem é provavelmente exterior, e mesmo em território nacional haveria mais do que uma variante de regras.

Por vezes é considerado que a origem do futebol remete mais ao Calcio Florentino, um jogo praticado em Florença, muito mais semelhante ao râguebi, dado o seu contacto extremamente violento.
(Barbaric Version of Soccer Is the Original Extreme Sport)
Vídeo acerca do Calcio Florentino - uma brutal variante histórica de futebol

Este Calcio Florentino, de onde resulta em Itália o nome "calcio", dado ao futebol, tem possivelmente origens ainda mais remotas, sendo ligado a um desporto romano (e grego) denominado "harpastum", do qual restam poucos relatos, mas que seria usado para manter a forma física das legiões romanas.

Surge isto atrasado face ao propósito do recente Euro 2016, mas ainda a tempo dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016, que se vão iniciar em Agosto.
Apesar de sabermos bem que os Jogos Olímpicos existiram na Grécia, servindo de referência a data da primeira Olimpíada de 776 a. C. (ou seja, 23 anos antes da fundação de Roma), cai-se na ideia habitual que o desporto é uma actividade recente. Ou ainda, que as populações na Antiguidade não perderiam tempo com desportos, dedicando-se directamente ao trabalho ou à guerra.

Essa parece-me ser uma ideia que resultou da Idade Média, onde praticamente tudo o que não fosse trabalho ou devoção a Deus, era considerado uma actividade pecaminosa. Uma filosofia bastante conveniente para manter os servos focados no trabalho, resultante de um fundamentalismo religioso, que pouco tinha de religioso, e muito mais tinha de manipulação social.
De qualquer forma, é extenso o registo de jogos e actividades desportivas que foram existindo ao longo dos tempos. Os jogos de dados eram bastante populares na Antiguidade, a origem do Xadrez também se perde no tempo, podendo ter entre 1 a 3 milénios, consoante as versões.
No decurso da Idade Média, a recriação era mais um privilégio dos cortesãos, mas isso não impediria alguma actividade lúdica, ainda que reprimida religiosamente. As justas ou torneios serviram várias vezes para resolver conflitos entre as partes, faltando motivação suficiente para convocar exércitos.

Interessa que a ideia de sociedades antigas extremamente violentas e muito distintas das actuais, é muitas vezes uma enfabulação moderna, que não resulta apenas da vertente medieval, mas é também alimentada com o propósito de criar a ideia de que os novos tempos são sempre muito melhores do que foram antes...
São lembradas as arenas romanas com os gladiadores, e os martírios cristãos, mas se isso foi uma parte infeliz da história, também convém não esquecer que essas arenas romanas serviam igualmente para grandiosos espectáculos de recriações históricas, nomeadamente Naumaquias, e portanto as arenas romanas funcionavam como autênticos pavilhões multiusos da Antiguidade.

Passam agora 80 anos sobre a Guerra civil de Espanha, e haverá ainda quem se lembre de ver transformadas as arenas tauromáquicas, em areias ensanguentadas pelos fuzilamentos que ali tiveram lugar. Reduzir o Séc. XX espanhol a esse episódio, seria daqui a uns mil anos dizer que as arenas espanholas serviam para o toureio, mas também para a matança de opositores políticos. É também assim que julgamos o jogo da pelota maia, que era suposto redundar sempre na morte da equipa perdedora, ou ainda que alguns atribuem o nascimento do futebol com cabeças humanas em vez de bolas de couro.
Essa simplificação do discurso, ainda que possa ter alguma parte de relação histórica ou suposição verosímil, serve sempre a ideia favorável aos tempos modernos, por comparação com os anteriores.

No entanto, basta olhar para alguns mosaicos da Vila Romana del Casale, para vermos que já na Antiguidade se praticavam desportos com troca de bolas, e que o Bikini não foi nenhuma invenção "explosiva" do Séc. XX:
Villa Romana del Casale

segunda-feira, 25 de julho de 2016

dos Comentários (22) cobre e cobra

(continuação)
Na sequência do texto anterior, há múltiplos aspectos por onde se pode seguir, e sob pena de não cobrindo todos, não cobrir nenhum, deixo algumas ligações, umas com mais interesse e relevância que outras.

Cocatrice e Serpe
A Coca aparece ainda ligada a uma figura heráldica, semelhante a um Basilisco (de que já falámos), chamada Cocatrice, que tem uma cabeça de galo, e aqui convém lembrar as palavras Cock (inglês) e Coq (francês), bem como a designação popular "Cocó", para um galo pequeno. Aliás, de certa forma a onomatopeia "cocóró" reflecte talvez a origem do termo.
A Cocatrice sendo um animal fantástico alado, prolonga-se com cauda de cobra, é ainda identificada a um tipo de dragão ou quimera, tendo a mesma faculdade do basilisco - um olhar petrificador.
Cocatrice
De igual forma, com aspecto muito semelhante, considera-se a Serpe, que é igualmente uma espécie de dragão alado com duas patas, e que é considerada na heráldica da vila de Serpa. O nome em inglês "wyvern" é ligado à origem latina de viper, ou seja, víbora.

Sefes
Na descrição do poema de Avieno, onde se fala de Ofiússa, são nomeados os povos Sefes e Dragani, prestados ao culto de serpentes ou dragões, que teriam expulsado os Oestrimínios.
O nome Ofiússa vem da designação grega para cobra que era ofio, e tal como ainda hoje usamos o termo serpentina para uma forma enrolada (como nas serpentinas carnavalescas), relacionar ofio com "o fio", ou seja com um fio, um filamento alongado, parece igualmente ajustar-se ao aspecto de uma cobra.

Povos ibéricos, na descrição de Avieno
Ainda a designação de Dragani ocorre-nos uma possível alteração para Bragani... ou seja, uma eventual ligação ao nome da cidade de Braga, pois a diferença entre Draga e Braga é razoavelmente pequena.
Mas talvez mais interessante será considerar uma eventual ligação dos Sefes (ou Saefes) à palavra "sefardita" usada para designar os judeus ibéricos. Isto porque já mencionámos há uns anos como o tetragrama judaico YHVH se poderia ligar à palavra JEFE, ou chefe... e há aí uma certa proximidade à designação Sefe. Acresce que o prefixo cefe pode ser remetido à chefia, à cabeça, pela palavra grega cefalo.

Ofiúco, Hermes e Pítia
Cefeu é uma das várias constelações, associada ao mito de Andrómeda e Cassiopeia, respectivamente filha e mulher desse lendário rei da Etiópia. Para além destas três constelações, outras duas são Perseu e Pégaso, o herói e o seu cavalo alado, que salvam Andrómeda, do monstro marinho Cetus, outra constelação também chamada Baleia.
Perseu usa a cabeça da Medusa para petrificar o monstro, copiando assim a ideia do poder do Basilisco, ou Cocatrice. Ao lado da constelação de Cefeu, encontra-se Dragão e depois Hércules, Serpente e Ofiúco. A constelação de Ofiúco corta a constelação de Serpente em duas partes - a cabeça e a cauda. Sendo contígua a Sagitário, tem sido apontada como candidata a 13º signo zodiacal, dada a deslocação da eclíptica.
Ofiúco esteve associada à medicina, justamente por essa ligação à serpente, lembrando que também o bastão de Asclépio, símbolo médico, é um bastão com uma serpente enrolada. Este símbolo tem sido apontado como resultante do tratamento da Dracunculiase, a infecção pelo verme-da-Guiné, um tratamento milenar, conhecido dos egípcios, em que o verme é retirado do paciente, enrolando-se num pequeno pau.
História diferente, ainda que sejam confundidas, tem o caduceu, bastão de Hermes, onde duas serpentes se enrolam em oposição uma à outra. É entendido que este bastão teria sido colocado entre duas cobras em competição, levando a que ambas se enrolassem, ficando presas ao bastão...
Nesse sentido, seria entendido como um símbolo de paz.
A associação das serpentes a Hermes é remetida por via de Apolo, no culto de Delfos, onde a Pítia (ou melhor, Pútia) celebrava a morte da cobra Pitão pelo deus-sol. Isso também estava associado a um mito de criação mais antigo, de Orfeu, relacionado com o "ovo cósmico".
Curiosamente, é na constelação de Serpente, na Nebulosa da Águia, que estão os famosos Pilares da Criação.

Ovo cósmico
Uma representação deste mito é a de uma cobra que envolve um ovo, o ovo universal. Pelo lado grego, encontra-se assinalado na tradição de Orfeu, mas o mito está espalhado em partes tão distintas, que vão da Polinésia ao Egipto, passando pela China e Índia.

Poderá ter havido várias razões para optar pela cobra como animal simbólico deste mito.
Por exemplo, é referida a característica das cobras mudarem de pele, o que simbolizaria uma eterna renovação, onde o substituir duma pele antiga por uma nova, não alterava o ser portador... permitiria aliás um rejuvenescimento.
O simbolismo do ovo como origem de toda uma estrutura seria particularmente visível nos répteis e nas aves, e dessa forma seria bem ajustado a qualquer mito de criação.

Mas há uma diferença... Entre as aves os progenitores acompanham a saída do ovo, têm que chocá-lo, não o podem abandonar os filhos ao seu destino individual.
É diferente com os répteis, o réptil nasce para o mundo isoladamente, normalmente sem reconhecer quaisquer progenitores, e esse também será o caso da maioria das cobras.
Portanto, o mito de uma divindade auto-gerada, sem conhecer antecessores, pode ser tipicamente associado à figuração do nascimento de um réptil, como uma cobra.

Por outro lado, a ideia da incubação de diversos universos, como ovos, isolados entre si até à eclosão, também se adapta bem a algumas concepções metafísicas, que não entendiam o universo como único, mas apenas como uma manifestação de várias realidades possíveis.

Há uma diferença entre encarar o passado como o progenitor de um único futuro, e admitir que o mesmo passado pode gerar diversas possibilidades para o futuro... será o mesmo que admitir que o passado coloca diversos ovos, e que somos nós que decidimos em que universo, em que ovo, vamos parar, determinando isso pelas nossas acções, pelas nossas escolhas.

Finalmente, apesar da cobra ser um tetrapode, a sua evolução singular suprimiu a manifestação das quatro patas, tornando-a praticamente numa manifestação de um grande e flexível tubo digestivo.
Este aspecto é particularmente interessante, porque o tubo digestivo é o principal aspecto comum a todos os animais.
Ao contrário das plantas, os animais desenvolveram-se em torno do tubo digestivo, que processava uma alimentação baseada na interacção com a realidade exterior.
A alimentação passou ainda do sabor ao saber (palavras com raiz similar), no sentido em que os animais definiram-se não apenas pela matéria que processavam, mas também pela informação que passou a ser a ser processada no cérebro. E o circuito de memória, que privilegia umas informações em detrimento de outras, que despreza ou ignora, é especialmente tido como analogia digestiva.

Cobra e Cobre
Convém ainda mencionar a Cobra de Cobre, Nehustan, associada a Moisés, e que fez parte do culto hebraico, tendo depois sido banida, como todos os cultos secundários, num purismo monoteísta.
As palavras cobra e cobre não serão semelhantes por mera coincidência.
O problema do Cobre foi o des-Cobre... o descobrir dos metais.
Os metais foram mortais no desequilíbrio de forças.
Até ao aparecimento do cobre, a arma mais mortífera seria provavelmente a utilização de setas envenenadas, por exemplo, com veneno de cobra. Para uma elite com acesso a protecção metálica, essas setas nunca conseguiriam perfurar a armadura, e isso causaria uma enorme diferença de vulnerabilidade, entre quem tinha acesso a metal e quem não tinha... 
Afinal cobrir-se com escudos ou armaduras de cobre, tornaria os seus detentores autênticos deuses, invulneráveis a investidas das populações mais selvagens.
A descoberta dos metais pode ter ocorrido fora do contexto dominante, face a civilizações que usariam preferencialmente matérias clássicas - madeira e pedra, e poderá ter levado a profundas mudanças estruturais na organização social em todo o mundo.
A ilha do Chipre ficou definitivamente associada pelo seu nome (Cúpros) ao "cobre", e foi também a ilha onde Vénus terá saído da sua concha, a partir das ondas formadas pelo corte genital de Urano.

Há ainda diversas outras associações, nomeadamente com a própria evocação da serpente na Bíblia, enquanto reveladora de um conhecimento proibido... mas aí não tanto por cobres, massas ou maças, mas sim pela simples maçã proibida. Em todo o caso, parece claro que a cobra foi um animal venerado e associado numa religião mais antiga, que depois caiu em desuso, quando a sociedade se mudou ao entrar na Idade do Cobre.

sábado, 9 de julho de 2016

dos Comentários (21) da Coca à Cola

Coca é um nome que faz parte do folclore português e pode ser representada como Dragão, em luta contra São Jorge. Essa tradição parece estar ainda bem presente no rio Minho, quer em Monção, do lado português, quer em Santa Tecla, do lado galego.
Festa da Coca - Dragão contra São Jorge, em Monção (img)
Sendo o nome desse dragão "Coca", se falei na Cola do Dragão, enquanto Draco Cola, ou mesmo Dracola, seria uma falha imperdoável não ter associado directamente o Dragão à Coca, em suma 
o Estreito de Magalhães à Coca Cola...
Na nomenclatura tradicional, um Dragão é a Coca.
Assim, a Cola do Dragão seria Cola da Coca... ou Coca Cola.
Bom, é verdade que o assunto da Cola do Dragão, segundo o mapa de que falava António Galvão, dado pelo Infante D. Pedro ao irmão Infante D. Henrique, tomou aqui um espaço especial, por se tratar de uma localização do Estreito de Magalhães, antecipada de um século... ou mais!
Referimos que "cola" tinha aqui o significado hispânico de "cauda", ou conforme escrevi há mais de 5 anos:
A referência ao nome Cola do Dragão, em mapas antigos, onde também aparecia muitas vezes a eclíptica (como é o caso da esfera armilar adoptada no final do séc. XV), onde a Cauda Draconis  representava o Sul (e a Caput Draconis  , o Norte), pode ainda ser uma justificação adicional para o nome visto nesse mapa antigo que o Infante D. Pedro teria oferecido ao irmão, Infante D. Henrique.
Ainda no blog Odemaia, quis juntar o assunto à marca "Coca-Cola" por duas vezes (aqui e aqui)... mas convenhamos, foi uma associação sem efectiva ligação directa.
Como tantas vezes vemos fazer, seria fácil dizer agora, a posteriori, que esta ligação da Coca, ao nome de Dragão, sempre a tive presente... simplesmente não a tinha escrito. Mas isso não foi verdade, tanto quanto me lembro... e as menções à Coca-Cola sem o referir, apenas acentuam que procurei uma ligação, mas simplesmente não a vi! Simplesmente não dei especial atenção a esse mito da Coca, o que certamente não aconteceria se tivesse nascido em Monção.

Assim, foi apenas agora que liguei os dois pontos, a propósito de um comentário de Fernanda Durão, que remetia para o seu site:

que trata do mito de Ofiússa, Terra de Serpentes, relatada no poema romano Ora Maritima de Avieno (Séc. IV), uma terra que se situaria acima do estuário do Sado.

Citando Fernanda Durão, sobre o Culto da Serpente:
Rufio Festo Avieno informa que os Oestremínios, isto é, os antigos habitantes do extremo ocidente da Península Ibérica, terão sido expulsos do seu território pelos Saefes e pelos Draganos, povos conhecidos pelo "adoradores de serpentes", os quais deixaram marcas em Portugal e na Galiza que continuam a ser visíveis e palpáveis.
(...)
No Alentejo, o famoso Castro da Cola está situado sobre um monte com a forma de uma serpente que entra pelo Rio Mira, como uma península. Do mesmo modo em Monção, onde ainda se vêem os restos de um geoglifo com a forma de um enorme lagarto inscrito ao longo da margem sul do Rio Minho, ainda hoje se comemora a antiquíssima Festa da Coca, um enorme dragão que, na sua luta eterna contra S. Jorge, sem a orelha, perde a força...
Portanto, ainda que considere que uma boa parte das associações de "geoglifos" possam ser associadas a uma disposição para as ver (fenómeno que é desigando como "Pareidolia"), acaba por ser interessante também a autora ter ido cair no Castro da Cola. Eu sigo mais "a orelha", e foi pelo som da Cola, e do Colo, que ali caí. Bom, e não foi preciso "estar à coca", para a Coca aparecer assim na conversa. E já há muito que entendi que não é uma questão de procurar, é muito mais uma questão de estar disposto a encontrar, ou a não ignorar.

Coca e Coco
O artigo da Wikipedia sobre a Coca está bastante instrutivo sobre este aspecto, e praticamente limito-me a resumi-lo. O artigo cita João de Barros (Década Terceira, Livro III, pág. 309)
Esta casca por onde aquele pomo recebe o nutrimento vegetal, que é pelo pé, tem uma maneira aguda, que quer semelhar o nariz posto entre dois olhos redondos, por onde ele lança os grelos, quando quer nascer: por razão da qual figura, sem ser figura, os nossos lhe chamaram coco, nome imposto pelas mulheres a qualquer cousa, com que querem fazer medo às crianças, o qual nome assim lhe ficou, que ninguém lhe sabe outro
para explicar afinal como o nome do fruto "coco" resultava desta tradição da coca e do coco. 
Acresce que o se remetia isso a uma tradição celta-ibera, de suscitar medo, colocando as cabeças dos inimigos espetadas em lanças. Menos agreste, seria o medo era incutido às crianças com abóboras esculpidas como caveiras, que eram (e são) chamadas "cocas". 
Coco - cabeça galaico-lusitana. O fruto Coco. Abóbora em forma de Coca.
Portanto, quando parece que estamos a importar uma tradição americana do Halloween, isso poderá reportar-se a uma tradição ibérica bem mais antiga, ou pelo menos é isso que defende o galego Rafael Loureiro, acerca da festa do Samain na época de Todos-os-Santos. A descrição de João de Barros sobre o "coco" concorda perfeitamente com essa tese.

Assim, a designação Coca Cola pode ser vista como oposição entre Cabeça (coca) e Cauda (cola). Uma oposição, ou então uma junção... se atendermos à representação da Ordem do Dragão
Símbolo da Ordem do Dragão 
(continua)

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Arrumar de Botas (2)

A forma como o regime irá encobrir a Salazar a sua demissão por Américo Tomás, é especialmente bem retratado numa entrevista que Roland Fauré, o director do jornal francês L'Aurore, caracterizava desta forma:
«Salazar dominava a actualidade política francesa. Sabia da substituição de Charles De Gaulle por Georges Pompidou [ocorrida em Abril desse ano]. Era bizarro: sabia tudo quanto se passara em França com De Gaulle e ignorava o que se passara consigo mesmo...»
Assim quando Fauré regressa a França, o jornal fará disso uma história sensacional - com o título "Salazar acredita que ainda governa Portugal":
L'Aurore - entrevista a Salazar depois da "queda da cadeira" (in Expresso)
Para conseguir a entrevista, segundo consta a única que Salazar deu, Fauré, admirador e amigo de Salazar, teve que solicitá-lo à guarda da reclusão, ou seja, a governanta Maria de Jesus.
A história parecia demasiado incrível, retirada de uma tragédia shakespeariana, ter um rei enclausurado no seu castelo, tendo a ilusão de que ainda reinava, e Fauré decidiu investigar por si mesmo. A promessa que teve que fazer - não revelar a Salazar que já não era ele o Presidente do Conselho.
O Expresso publicou parte dessa entrevista de Roland Fauré, pela ocasião dos 40 anos da morte de Salazar:
» Durante a sua doença, até que ponto participou na direcção dos negócios do Estado?
»» Ainda não estou completamente restabelecido e a minha única e verdadeira preocupação é de conservar força suficiente para continuar a assumir as minhas funções.
» Recebe aqui os ministros do Governo? (Sem hesitação, o doutor Salazar responde:)
»» Sim, aqui mesmo, é mais agradável neste jardim que dentro de casa.
» Todos os ministros vêm aqui prestar conta do respectivo departamento?
»» Sim.
» E dá-lhes directivas?
»» Eu não imponho as decisões. Elas são tomadas colectivamente pelo Conselho de Ministros.
» Que se reúnem aqui?
»» Não, as decisões aqui esboçadas são tomadas oficialmente nos conselhos a que preside o Presidente da República no seu palácio.
» Mas todos os ministros do actual Governo foram escolhidos por si e têm a sua confiança?
»» Sim, evidentemente.
» E se algum deles não aplicasse a política por si definida, demitia-o e substituía-o por outro?
»» Pois claro (diz, com toda a naturalidade, com um gesto negligente da mão direita.)
(...) Eu sabia que só dispunha de mais três ou quatro minutos, o tempo para a governanta regressar do interior da casa, acompanhada de outros visitantes. Arrisquei então uma última questão: aquela que eu talvez não devesse colocar.
» Desde há algum tempo que se fala muito de um dos seus antigos ministros, Marcello Caetano. Que pensa dele? (Dez segundos de silêncio que me pareceram demasiado longos.) Depois, o doutor Salazar disse muito naturalmente:
»» Conheço bem Marcello Caetano. Foi várias vezes meu ministro e aprecio-o. Ele gosta do poder: não para retirar quaisquer benefícios pessoais ou para a família: é muito honesto. Mas gosta do poder pelo poder. Para ter a impressão exaltante de deixar a sua marca nos acontecimentos. É inteligente e tem autoridade, mas está errado em não querer trabalhar connosco no Governo. Porque, como sabe, ele não faz parte do Governo. Continua a ensinar Direito na Universidade e escreve-me às vezes, a dizer-me o que pensa das minhas iniciativas. Nem sempre as aprova - e tem a coragem de mo dizer. Admiro a sua coragem. Mas parece não compreender que, para agir com eficácia, para ter peso sobre os acontecimentos, é preciso estar no Governo.
» Mas diz-se que foi o senhor que não o quis mais como ministro...
»» Talvez, talvez...
Portanto, esta entrevista de Fauré, em 20 de Agosto de 1969, é o testemunho mais incrível do teatro em cena.
Salazar aparece como suficientemente lúcido para manter uma conversação sólida, e a pergunta que ficará é a de saber se o próprio tinha consciência de que tinha sido afastado. Afinal, com a assumpção de ignorância, ele acabava por obrigar a que os ministros continuassem a visitá-lo, a darem-lhe conta do que se passava, e a ouvirem a sua opinião sobre cada assunto.

Afinal, sejamos claros... o que tivemos aqui foi uma absoluta "teoria da conspiração".
O que tivemos aqui foi aquilo que é sistematicamente negado poder acontecer.
Ou seja, é negado sucessivamente que haja poderes de bastidores que, mantendo uma fachada de poder ao líder, tenham em funcionamento um governo completamente diferente, indiferente à sua opinião, condicionando a informação que chega a uns e a outros.

Só que a situação é sempre muito mais complicada do que aparenta ser.
Salazar, ao forçar a visita dos ministros, ainda que fosse no simples encenar da palhaçada, conseguia manter funções essenciais... de influência. Ou, conforme ele dizia - "eu não imponho decisões", as decisões eram ele "esboçadas" e tomadas "oficialmente no conselho" a que presidia Américo Tomás.
Mas afinal, não era sempre isso que acontecia? - Ele nunca poderia controlar por completo todas as decisões... qualquer líder é sempre limitado pelas informações a que tem acesso.

Se o sistema arranjara outro pé para aquela bota, o pé de Marcelo Caetano, a encenação forçava a que os ministros, afinal escolhidos por Salazar, não pudessem ser demitidos por Marcelo, enquanto durasse a encenação. Assim, quem aparecia afinal como figurante naquele teatro, no Verão de 1969?
Marcelo ou Salazar?
Consta que Marcelo tentou, mas pouco conseguia mudar o rumo político anterior.
Ainda que tivesse um novo pé, a bota tinha o número de Salazar. O sistema funcionara como uma bota que apenas calçara o seu pé, qual Cinderela eleita para se casar com um poder inerente à sociedade portuguesa. Para manter o pé, Marcelo teria que conformar a sua cabeça à medida do "Botas".

Marcelo ficaria furioso com esta entrevista de Salazar, e depois do afastamento de Franco Nogueira, e das eleições de Outubro 1969 (posteriores à entrevista), em Janeiro de 1970, Marcelo Caetano procederá a uma maior reformulação ministerial. Decidira calçar as suas próprias botas.
Se Salazar mantinha alguma lucidez, já não podia dizer "como sabe, ele não faz parte do governo". O sucessor estava finalmente encontrado, e aquele teatro já seria muito mais difícil de manter. Nos seis meses seguintes o estado de saúde de Salazar vai agravar-se sucessivamente até à sua morte em 27 de Julho de 1970. A conta apresentada pelo Hospital da CUF, envolvendo um total de 43 médicos, e a visita de especialistas americanos, foi considerada exorbitante. O sistema arrumava o "Botas".

Na perspectiva da "teoria da conspiração" vigente, Salazar terá sido enganado por todos. Pelos mais próximos, com o pretexto da "verdade poder afectar a sua saúde", e pelo sistema que aceitara Caetano como sucessor. Se todos os fiéis, desde a governanta Maria de Jesus, ao Cardeal Cerejeira, e tantos outros, aceitaram sem pestanejar esta decisão, parece inverosímil, ainda que sejam bem conhecidos casos em que as famílias decidem enganar, pensando no "melhor" para o enganado. Talvez muito mais natural é que Salazar desviasse o assunto, sempre que lhe pretendiam dar a entender a realidade, preferindo assim a situação de afastamento, com influência, conforme descrevera a Roland Fauré.
Depois, quando ficou definitivamente afastado, já lhe seria indiferente o resultado, dada a sua clara impotência para influir nas decisões, e terá esperado pelo fim, mais ou menos apressado pelas circunstâncias da doença.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Arrumar de Botas (1)

Nas últimas décadas, em que Fernando Pessoa foi elevado ao estrelato nacional, é de certa forma inconveniente um seu pequeno opúsculo de 31 páginas, escrito em 1928, onde defendia a implantação da Ditadura em Portugal:

Fernando Pessoa (1928)

Citamos uma parte do manuscrito que o mação Pessoa se viria a arrepender de ter escrito, ao mesmo tempo que à época não deixa manifestar orgulho nele - "Não há hoje quem, no nosso país ou em outro, tenha alma e mente, ainda que combinando-se, para compor um opúsculo como este. D'isto nos orgulhamos.";  e se isto parece um excesso egocêntrico, é justificado, pois a sua análise é boa.
Talvez seja mesmo brilhante, mas quando o próprio exibe grande conta, dispensa mais superlativos. Deixo então um extracto (pág. 27)
Concentrados, dos Filipes ao liberalismo, numa estreita tradição familiar, provinciana e religiosa; animalizados, nas classes médias pela educação fradesca, e, nas classes baixas, bestializados pelo analfabetismo que se distingue nas nações católicas, onde não é mister conhecer a Bíblia para ser cristão; desenvolvemos, nas classes superiores, onde principalmente se forma a opinião de intuição, a violenta reacção correspondente a esta acção violenta.
Desnacionalizámos a nossa política, desnacionalizámos a nossa administração, desnacionalizámos a nossa cultura.
A desnacionalização explodiu no constitucionalismo, dádiva que, em reacção, recebemos da Igreja Católica.
Com o constitucionalismo deu-se a desnacionalização quase total das esferas superiores da Nação. Produziu-se a reacção contrária, e, do mesmo modo que na Russia de hoje, se bem que em menor grau, a opinião de hábito recuou para além da província, para além da religião, em muitos casos para além da família.
Surgiu a contra-reacção: veio a República e, com ela, o estrangeiramento completo. Tornou a haver o movimento contrário; estamos hoje sem vida provincial definida, com a religião convertida em superstição e em moda, com a família em plena dissolução. Se dermos mais um passo neste jogo de acções e reacções, estaremos no comunismo e em comer raízes - aliás o terminus natural deste sistema humanitário. É este o estado presente dos dois elementos componentes da opinião pública portuguesa.
Em poucas palavras, indo ao princípio físico newtoniano, da acção-reacção, Pessoa procura estabelecer o processo de repetição histórica entre uma visão local e global, como oscilação pendular. Ou seja, quando domina o estrangeirismo, é desestruturada a cultura provinciana, familiar, depois por reacção nacionalista, esses valores familiares, religiosos, são de novo elevados ao topo, e o país fecha-se a qualquer influência estrangeira. Segundo a visão de Pessoa, isto só teria sido diferente aquando da expansão marítima: 
No caso notável do início dos nossos Descobrimentos, a opinião de hábito se opunha à novidade deles, a de intuição a promovia; porém uma e outra não pensavam fora do ideal de grandeza pátria, ou seja, no fundo, do ideal do império. Assim pôde o Império Português, quando por mal ou bem, veio a ser, ser informado por toda a alma de Portugal.
Porém, a ditadura que trazia alguma ordem ao caos republicano, não rumou no sentido de um grande império global, ao invés, conforme a reacção local prevista ao entrangeirismo republicano, voltou a fechar-se na cultura provinciana, tacanha, de dimensão local, ainda que espalhada pelo globo. 
Assim, passados alguns anos já exibe a sua feroz crítica a Salazar
Coitadinho do tiraninho! Não bebe vinho; nem sequer sozinho…
Bebe a verdade; e a liberdade; e com tal agrado; que já começam a escassear no mercado.
Coitadinho do tiraninho!
O meu vizinho está na Guiné; e o meu padrinho no Limoeiro; aqui ao pé, e ninguém sabe porquê.
O rei reside em segredo; no governar da Nação;
Que é um realismo com medo; chama-se nação ao Rei; e tudo isto é Rei-nação.
A República pragmática; que hoje temos já não é a meretriz democrática;
como deixou de ser pública; agora é somente Ré.
Parece-me que a dimensão que Pessoa pretendia em Portugal, era simplesmente a detida pela Grã-Bretanha, e depois pretendida pela Alemanha, na sua pretensão imperial nazi. Mas ao contrário do que previa Pessoa, o comunismo não se resumiu "a comer raízes", e a disputa por um império de influência global, ocorreu no confronto entre EUA e URSS, ambas desprezando ou suprimindo os interesses locais. 
A análise de Pessoa só é mais notável porque facilmente a encontramos plasmada de novo, no confronto entre os interesses nacionalistas locais, e a imposição de impérios de comércio global que destroem ou ignoram a dimensão local, as tradições culturais e a estrutura familiar, e com isso o bem estar individual é sacrificado face ao plano global.

O problema geral de Pessoa seria o mesmo que uma boa parte dos portugueses... nasceram educados nas grandezas passadas, para uma pequenez presente. Como costumo dizer, ou a mãezinha, ou o espírito santo de orelha, disse-lhes que tinham "grande queda", mas nunca encontraram sítio onde cair, onde exibir tão excelso dote. No caso de Pessoa, essa frustração pessoal encontrou maior âmbito como frustração de toda a nação portuguesa, cada vez mais reduzida na sua influência global.

O "Botas", a forma pejorativa como era identificado Salazar, misturando o seu problema nos pés, com uma sarcástica forma de gozo citadino contra o seu provincianismo, não era certamente o líder da ditadura que Pessoa vira como necessária na transição de regime. Por muito brilhante que tenha sido a condução política de Salazar a nível internacional, o país fechou-se, mantendo aberto um império que não acompanhava minimamente o progresso tecnológico internacional. Como se não bastasse o ridículo, por falta de indústria aeronáutica, e por boicote da NATO ao império colonial, os aviões eram sempre uma segunda escolha.
Assim, se Salazar tinha a amizade e pretensões nacionalistas de Charles de Gaulle, ao contrário disponibilizava uma logística miserável ao exército, contando sempre com sacrifício total, como quando não aceitou a rendição de Goa perante o avanço das tropas de Nehru. E esse miserabilismo era razão suficiente para arrogar ao mesmo tempo uma grandeza da nação e uma conformação do povo à pequenez.

Porém, isto serve apenas como primeira parte da tragicomédia de Salazar, que terminará os seus dias com a ilusão de que ainda era Presidente do Conselho.
E a questão é muito simples... se Salazar tinha o poder nacional tão concentrado na sua pessoa, na figura de ditador único e intransmissível, quem então arriscou a decisão de o demitir?
Formalmente, foi o Presidente Américo Tomás, mas este "obviamente, demito-o" foi a perdição do seu concorrente, Humberto Delgado... portanto não seria uma decisão que Américo Tomás tomasse facilmente, e muito menos sozinho. 
Ou seja, a questão é - quem detinha o poder que decidiu colocar Salazar numa casa de bonecas?
Procurei, e estranhamente não vi nenhuma resposta significativa a esta ligeira questão.

sábado, 18 de junho de 2016

Arrisca, seguir à risca

A observação seguinte não é minha, mas fui dar com ela "naturalmente".
Trata-se da semelhança entre as velas representadas em barcos vikings e barcos fenícios:

in http://redqueenwhitequeen.com/wordpress/?page_id=36

Bom, e já aqui tínhamos falado da bandeira da Companhia das Índias inglesa:
Bandeira da Companhia das Indias (B. Lens, em 1700)
onde as riscas vermelhas e brancas, sugerem na forma a bandeira dos Estados Unidos da América, mas sendo igualmente semelhante na disposição à bandeira grega (com a diferença de aí as riscas serem azuis e brancas). O autor do site refere ainda o caso japonês (Rising Sun Flag), mas que é substancialmente diferente na orientação.
Ainda que possam haver cores das velas dos barcos normandos na Tapeçaria de Bayeux, não temos propriamente uma representação colorida do passado fenício, e desconheço se algum historiador refere a forma das velas fenícias, para co-substanciar esta relação vermelho-branca entre velas normandas/vikings e as velas fenícias. Certo parece ser que o vermelho e branco foi ainda seguido nas velas com a Cruz de Cristo. Não é ainda de excluir que parte do legado fenício tenha sido assente na região veneziana, e como o próprio nome indica, a região Venécia e a Fenícia partilharam ligações que Júlio César ligava ainda aos Venetos gauleses, da região da Normandia. (Notar ainda na bandeira de Aragão, que será meia bandeira espanhola com a união dos reis católicos).
Galleaza veneziana  (reconstrução EPFL)

Outra questão é... para onde foi o legado Fenício, da Fénix que renasce das cinzas?
Ou, de que forma o símbolo do pelicano de D. João II, se assemelharia a essa Fénix? 

Como há a suspeita, mais que natural, de navegações fenícias que teriam atingido as paragens americanas, ter riscas fenícias no símbolo da bandeira americana, seria até bastante adequado.
Mas, não é apenas isso.
Com efeito, a maçonaria insiste bastante na história de Hirão Abi, o arquitecto fenício que teria dado a vida para proteger o segredo do Templo de Salomão.

Com a queda de Cartago em 146 a.C., a herança dos navegadores fenícios e cartagineses aparentemente perdeu-se, mas não é de excluir que os judeus tenham tomado para si esse legado, relembrando a velha associação de exploração naval entre o rei hebreu Salomão e o rei fenício Hirão, em direcção às paragens míticas de Ofir.

O poder comercial e o poder militar
A característica principal do poder fenício e cartaginês era a sua faceta comercial, e se houve algo que caracterizou a transformação de Roma, que na sua queda passou a ser o centro de decisão medieval foi o fecho do comércio, que permitiu consolidar o poder militar feudal.

Há uma substancial diferença entre a queda de Cartago às mãos romanas, que é basicamente terraplanada, e a queda de Roma às mãos das invasões bárbaras, já que renasceu imediatamente como único centro de decisão de todas as disputas medievais, através da figura papal que se colocava acima dos reis bárbaros.

Conforme referimos no texto Sete Monarquias, pretendeu-se haver uma continuidade numa certa "Monarquia Universal", que desde o tempo dos Assírios foi passando por diversas mãos, mas só chegou às mãos dos gregos com a investida de Alexandre Magno, e depois passou para os seus generais - Ptolomeu e Seleuco.
Os seleucidas ficaram com o legado fenício, e tal como os cartagineses foram hostis aos romanos até à conquista romana em 60 a.C. Apesar de estar no território seleucida, terá sido mais Alexandria do que Antioquia, a tomar o estatuto de mega-cidade da Antiguidade, após a conquista da Babilónia. 
Na rivalidade natural entre os Seleucidas e o Egipto dos Ptolomeus, levaria uns a apoiar Cartago, pela ligação natural à Fenícia, e os outros a favorecer Roma. 
Assim, a continuidade da monarquia na Antiguidade ficará no Egipto ptolomaico, até ser passada a Júlio César por Cleópatra. É aí que começa a monarquia romana, especialmente com a morte de Cleópatra à chegada de Octávio Augusto, o primeiro imperador.

Mas onde fica mais clara esta circunstância é com o que se irá seguir.
Não é difícil seguir um percurso dos dois lados em confronto.

1) Poder comercial, naval 
Celtas, Fenícia, Grécia, Cartago, Judeus, Árabes, Normandos, Templários, Veneza, Portugal, Holanda, Inglaterra

2) Poder militar, territorial 
Mesopotâmia, Ptolomeus, Roma, Sacro Império Germânico, Espanha, Áustria, Alemanha

Será extenso entrar com cada uma das explicações particulares, mas podemos dizer que a primeira linha terá levado à formação da Maçonaria, enquanto a segunda linha seguiu durante bastante tempo o domínio que a Igreja Romana teve na Europa.

Segue-se uma tentativa de resumo explicativa:

terça-feira, 14 de junho de 2016

Virando para Meca

Saindo de Lisboa, e desviando um pouco dos caminhos habituais, virei um dia para Meca.
Sim, há uma Meca perto de Lisboa, no concelho de Alenquer, pouco conhecida.
Já sabemos que há nomes estranhos em localidades portuguesas, mas não estava propriamente à espera de encontrar aí uma basílica de dimensões assinaláveis, construída ao tempo de D. Maria I (1799), em honra de Santa Quitéria.
Basílica de Santa Quitéria em Meca (imagem)
O estilo da basílica não se afasta muito da Basílica da Estrela, tendo sido construída na mesma altura - e se é óbvio que não tem a mesma dimensão da lisboeta, muito menos tem as dimensões esperadas para uma igreja numa freguesia do concelho de Alenquer.

A fonte para saber mais alguma coisa seria o Portugal Antigo e Moderno de Pinho Leal, que remete para o nome "Espiçandeira e Meca" (pag. 60, Volume 3). 
A aldeia de Espiçandeira tinha um culto a São Sebastião, com uma igreja igualmente interessante, mas muito menos imponente. No Séc. XIX, nalguma reforma administrativa habitual, as freguesias teriam estado juntas, e o nome da aldeia de Meca nem era "oficial".

Pinho Leal refere o seguinte:
Na aldeia de Meca está fundada a famosa igreja de Santa Quitéria, virgem e mártir, que é capela real. É um templo rico e majestoso, e muito concorrido de fiéis de povoações de muitas léguas em redor, pela muita devoção que tributam a esta santa imagem.
Segundo a tradição, no ano de 1238, aparecera num espinheiro, na Quinta de S. Braz, uma pequena imagem de Santa Quitéria, advogada contra a hidrofobia. Edificou-se logo ali uma capelinha para colocar a santa. (...)
Formou-se uma confraria, que veio a ser das mais ricas de Portugal, e no final do Séc. XVII decidiu edificar-se um templo vasto e sumptuoso. D. Maria I, a quem foi pedido auxílio para as obras, deu por várias vezes avultadas esmolas, e as construções principiaram com grande solicitude. É tradição que o mestre de obras não as viu concluir, por morrer da queda de uma das torres. (...)
Concluída a capela, D. Maria I obteve do Papa Pio VI que fosse declarada pertença da Basílica de S. João de Latrão, de Roma, e como tal goza das grandes indulgências e graças espirituais desta famosa basílica. (...)
É um dos mais vastos, ricos e majestosos templos rurais de Portugal. (...)

Portanto, a Basílica de Meca, sendo pertença de Latrão, seria propriedade do Vaticano... o que não deixa de ser curioso. Nada é dito sobre a origem do nome "Meca"... Pinho Leal remete diversas vezes para o nome "Meca", indicando que teria intenção de escrever mais, porém isso não vai acontecer.
Fazendo parte da chamada "região saloia", talvez o nome "Meca" seja remanescente de alguma comunidade muçulmana que ali se tenha mantido, depois da reconquista cristã, mas não vimos nenhuma informação nesse sentido. Já o culto de Santa Quitéria, é tipicamente lusitano, e encontra-se espalhado pelo país, sendo as preces dirigidas para as vítimas de raiva - uma doença ainda mortal, que afligia as populações rurais. A procissão local envolve ainda uma benção aos animais domésticos.

Cabeço de Meca - Chaminé vulcânica
Umas centenas de metros a norte da Basílica de Meca, encontra-se uma cratera com um pequeno lago, que terá tido origem como chaminé vulcânica, em tempos remotos, do complexo vulcânico de Lisboa. 
Cabeço de Meca (imagem - Rui Nunes, 2000)
Este registo é igualmente estranho, pois não sabia de "lagos vulcânicos" no continente (nos Açores são bem conhecidos)... ainda que este seja pequeno e tenha sido bastante destruído pela exploração mineira de basalto, que terá danificado significativamente a forma da cratera da chaminé vulcânica original. 
Google Maps - Cabeço de Meca 
O "cabeço" também aparece com o nome de Santa Quitéria, e não será de excluir que para a hidrofobia (raiva) fossem consideradas as águas da lagoa vulcânica como alguma forma de cura.
Na sua forma actual, tendo sido destruídas paredes laterais, a lagoa não terá aspecto muito diferente de um vulgar charco de uma pedreira, mas ainda assim nota-se bem a forma do "cabeço".

Meca-ventos
No mapa da Google notam-se ainda umas ruínas - provavelmente da antiga exploração mineira, mas não tendo encontrado nada sobre isso, fui parar não muito longe, a umas ruínas igualmente interessantes, a sul, já à vista de Lisboa - no cabeço de Montachique.
Sanatório Grandella - Cabeço de Montachique (imagem - Paulo Benjamim Cardoso)
Já aqui falámos dos Macavencos, uma sociedade "secreta" presidida por Grandela, que reunia vários bon.vivants de Lisboa (incluindo Rafael Bordalo Pinheiro, Bulhão Pato, Ferreira do Amaral, etc.), e que serviria um pouco como escaparate sexual, ou bordel, para devaneio de alguns maçons na transição para o Séc. XX.

Na sua faceta de benemérito, ciente dos problemas de saúde no início do Séc. XX, Grandela terá financiado um sanatório para "raparigas indigentes e tuberculosas", ou como é dito no anúncio abaixo transcrito - aceitava também "candidatas a tuberculosas", o que reflectiria melhor o espírito do clube Makavenko. 
Anúncio do Sanatório Grandela pelo "Clube dos Makavenkos"
Já meio apagado, deveria ler-se a citação do Antigo Testamento - Eclesiastes - Cap. III, que reúne duas frases do ideal hedonista do clube dos Makavenkos:
12 - Descobri que não há nada melhor para o homem do que ser feliz e praticar o bem enquanto vive.
13 - Descobri também que poder comer, beber e ser recompensado pelo seu trabalho é um presente de Deus.

O imóvel não terá sido completamente acabado, e na prática o sanatório nunca terá funcionado, mesmo depois de doado a uma associação nacional de tuberculosos. No entanto, apesar disso no alto do cabeço de Montachique, com uma vista esplêndida sobre Lisboa, as suas ruínas ficaram hoje como um monumento digno de nota.

Mecânica
Para a mecânica universal, não há qualquer acrescento cognitivo quando os homens são felizes, tendo razões materiais para isso, e igualmente muito pouco, quando complementam isso com alguns actos de generosidade colectiva. A grande interrogação cognitiva do Mecanismo universal é entender a disposição dos restantes, na ausência de tudo isso.
As regras mecânicas conhecidas servem a tecnologia, que nos serve, mas na ausência de mecânica conhecida, surge o deus ex machina, uma última esperança de que há uma lógica ulterior que poderia impedir profundas injustiças. Enquanto a população de Meca e arredores endereçava preces para uma cura de raiva, de hidrofobia, numa última esperança de que a mecânica universal se vergasse perante as suas orações, os makavenkos encaravam-se como pequenos deuses, por dominarem pequenas regras do mecanismo, pelo simples facto de terem acesso a uma herança de botões negados aos restantes. Ora, não é novidade nenhuma que os botões controlam um mecanismo, e que a potência pode ser exercida. É com a potência dos maxilares que os animais predadores dilaceram as presas, desde o tempo em que se definiram predadores e presas. Pode parecer estranho, mas ainda assim faz parte de uma mecânica evolutiva, que a mãe de uma cria esteja disposta a arriscar a sua vida por ela... pois está em causa o seu material genético. Agora, o que ultrapassaria toda a mecânica, que se faz do passado para o presente, seria que houvesse homens capazes de se sacrificar a sua vida por uma causa humanitária, que não lhes traria nenhuma vantagem pessoal. E a partir desse momento, a mecânica maternal, que se faz do passado para o presente, deixa de ser o único factor em jogo. Entra em jogo a mecânica paternal, que se faz do presente para um futuro com sentido racional, numa racionalidade que não está escrita do passado por uma ciência exterior, mas sim se escreverá por uma avaliação interior, com valores universais e intemporais, escritos em espirais murais que definiram a igualdade nos nossos espíritos morais.

_____________________________
Nota adicional (17/06/2016)
Alguns links deixados pelo comentador J. Ribeiro:
- Basílica de Meca - por J. Hermano Saraiva na RTP
- Sanatório Grandella - reportagem Abandonados na SIC

sexta-feira, 10 de junho de 2016

A teia global

A designação Dios ao invés de Zeus é frequente quando olhamos para transcrições dos textos gregos, e não para as suas traduções. A wikipedia espanhola fala numa excepção gramatical, de declinação para o genitivo.
En griego el nombre del dios es Ζεύς Zeús en el caso nominativo y Διός Diós en el genitivo. Las formas más antiguas del nombre son las micénicas di-we y di-wo, escritas en lineal B.
Interessa que, aprendida essa justificação, os tradutores invariavelmente omitem qualquer menção a Dios como nome alternativo a Zeus, nem para dizer que seria um equivalente de escrever "de Zeus". Acresce que aparecem outras declinações (como Diés), pelo que a excepção terá como causa muito provável evitar confundir o nome Deus com o nome Zeus, ainda que em português é preciso ser um pouco surdo para não notar uma semelhança. Isso resultará ainda da outra variante Θεός, transcrita como Theos, associada à divindade.
Como já referimos há bastante tempo, consta ter havido uma introdução de novas letras gregas após a Guerra de Tróia, e aí se incluem o zeta e o theta, sendo assim natural suspeitar que o original fosse o mesmo e escrito como Dio, conforme sugere a mais antiga escrita Linear B.

É ainda natural que a divindade correspondesse ao Dia, não no aspecto de Hemera, mas sim na suas vertente de tempo, unidade de contagem... e no seu aspecto de luz, associada ao Sol. Enquanto unidade de tempo, o Dia-Zeus seria naturalmente visto como o filho do Tempo-Cronos, assim como pela sua ligação ao Sol, estaria colocado no topo das divindades, como os egípcios faziam com  (também lido em copta como "Rei"). O que mais ensombraria os dias seriam as suas manifestações com tempestades, trovões e relâmpagos, entendidas como armas de Zeus. Qualquer uma destas divindades esteve associada ao "touro".

Curiosamente acresce que a habitual transcrição deturpada do upsilon em ypsilon, ou seja de ύ em y, não é feita neste caso... se fosse feita, de Ζεύς falaríamos em Zeys e não em Zeus (e talvez fosse apropriado ser conotado com o número 6, pelo menos em português, e triplamente sendo a terceira divindade na teogonia, após Úrano e Cronos).

Também Úrano é escrito como Οὐρανός ... devendo ler-se Ouranos, ou usando o y seria Oyranos, e não deixa de ser significativo que tanto temos "ouro" como "oiro", ou ainda "touro" e "toiro", provavelmente relevando dessa variação propositada de transcrições.

Nada tem de especial este assunto, apenas reitera a desconfiança em todo o legado antigo que se arrasta como uma permanente codificação desde a Antiguidade, destinada a baralhar as fontes, separando coisas iguais, ou juntando coisas diferentes.

Afinal, quando falamos em filosofia ateia vamos ao grego para explicar para explicar filo como amiga do saber sofia, e em que o prefixo a nega a religião teia, numa variante no feminino do theos divino (ou di vino, de vinho, como sangue presente na Eucaristia).
Porém parece naturalmente vedado associar a teia à religião.
Também se fala mais facilmente em rede global do que em teia global, sendo que a palavra web se usa mais para a teia da aranha.

El ... "eles"... "seus"
Uma divindade do panteão antigo judaico é El, nome da divindade suprema dos Cananeus, também usado em hebreu, que na sua vertente plural é Elohim.
El (divindade)
El seria depois considerado pelos judeus como Deus único, na forma de Jeová, numa vocalização próxima à do romano Jove, o correspondente a Zeus, também escrito como Jupiter.
Na sua forma plural, seria natural nós declinarmos El como Eles.

"Eles"... é ainda o nome culpado numa boa parte de "teorias de conspiração" que vemos circular. Mesmo que se evidencie um nexo de culpabilidade de "alguém", é depois muito mais difícil de concretizar e apontar culpados, surgindo assim facilmente "eles" como uma entidade impessoal, culpada naturalmente. Depois é frequente ouvir perguntar:
- Mas quem são "eles"?
Ora, e "aí é que são elas", porque a menos que o sujeito invoque os culpados de serviço (maçons, judeus, etc...), dificilmente consegue apontar alguém em concreto.

É pois interessante que, ao fim de tantos milénios, se use quase o mesmo nome para agentes não identificados que condicionavam o bom desenrolar dos acontecimentos. Antes seriam divindades, hoje serão "eles"... mas estes "eles", ainda que humanos, parecem estar numa esfera igualmente inatingível ou imprescrutável.

Acresce que os motivos, igualmente não declarados, são "seus", tais como seriam os de Zeus ou de Deus... e mais uma vez se mantém a forma não prescrutável das suas intenções finais.
Só que aí o problema é bem mais vasto, e, se podemos vislumbrar nexos fáceis, tipicamente animais, em acções de favorecimento, para benefício competitivo, num padrão evolutivo darwiniano, parece também claro que isso só explicaria a faceta pouco profunda do problema. Ou seja, ainda que "eles" julguem que sabem, que têm um nexo e orientação na sua acção, é inevitável que não façam a mais pálida ideia, e assim, os nossos "eles" têm outros "eles" que os condicionam a "eles". Reduzir "eles" a um único senhor, a um único "el", não adianta rigorosamente nada. Mas, mesmo chegados ao topo da pirâmide de poder, restará toda a impotência... faceta clara de uma realidade que não é sonho individual.

E há uma coisa completamente clara...
Quem se tiver em pouca conta, pode considerar que o seu destino está condicionado pelo exterior, estará sempre sujeito a uma potência externa, mais humana e previsível, ou menos humana e imprevisível, pode considerar que está a ser avaliado superiormente, pelas suas acções.
No entanto, quem não reduzir o seu papel a coisa nenhuma, deve ter em atenção que o nosso papel não é somente de ser condicionados e avaliados.
O papel principal de cada um é o de ser, ele mesmo, avaliador de tudo o presencia. A avaliação do próprio pouco conta para o conjunto se for pessoal e subjectiva, mas será incomensuravelmente devastadora se, elevando-se acima das suas aspirações mundanas, for objectivo e compreensivo.
Porquê? Porque podemos aceitar uma provação sendo prova de ser são, mas devemos rejeitar todas as que não são. Aceitar insanidades é um caminho que leva apenas a um universo insano, que não tem sustentação na realidade. E a realidade será o único sonho onde até as insanidades terão a sua justificação, com a devida compreensão... será o único sonho para o qual não é possível deixar de acordar, porque não resta outra realidade que o sustente enquanto tal.