segunda-feira, 13 de março de 2017

Ao mau mar ia (2)

O mapa que considero de referência, para compreender a cartografia portuguesa é, sem dúvida, o globo de João de Lisboa. As semelhanças com o actual símbolo da ONU, não são mera coincidência, resultam de adoptar uma representação polar, e focar ou não no meridiano de Greenwich.
 
Globo de João de Lisboa. Símbolo da ONU (com 33 sectores)

Ora, no caso do Globo de João de Lisboa, apenas 3/4 do mapa correspondem a uma representação, o quadrante superior deve ser negligenciado, conforme indicam as meias flores de lis. Isto tanto pode ser visto, como uma indicação de ocultação, como uma indefinição da demarcação na zona do anti-meridiano das Tordesilhas, ou ainda como resultado da projecção cónica que João de Lisboa fez:
Globo de João de Lisboa (c. 1514), e uma projecção cónica actual pelo meridiano de Greenwich.
A principal diferença é a ausência da Austrália, e a distorção no hemisfério sul é um pouco diferente 

Em João de Lisboa, o  foco central é o Pólo Norte, e o círculo (amarelo), que une os 16 focos (a que fizemos referência no texto anterior) é o Equador:
O globo de João de Lisboa com os 16 focos no Equador, e ocultando um quarto do mapa. 

Outra observação interessante, consiste em focar no losango vermelho, a meio do mapa.
Focando nesse quadrado, compreendemos melhor o mapa de Reinel de 1504,
porque a parte americana aparece desta forma no topo dos mapas, confundindo a parte setentrional com zonas árcticas, quando correspondem apenas à costa atlântica norte-americana.
Também o mapa polar de Vesconte de Maggiolo (indicado num comentário de David Jorge), irá colocar as terras com esta orientação, mas com uma incerteza e qualidade muito inferiores:
Vesconte de Maggiolo - representação polar em 1511.
A confusão entre as representações dos portulanos com as latitudes aparece no mapa de Cantino, que usa não 1 mas sim dois círculos com 16 focos (o que nos dá um total de 33 focos):

Desenhando os dois círculos evidentes no mapa de Cantino, agora no Globo de João de Lisboa, verificamos quais eram as duas regiões que procuravam ser representadas, com as "novas" informações que o espião do Duque de Ferrara conseguira obter pelos mapas portugueses em 1502.

Penso que estes casos tornam bastante evidente como o globo de João de Lisboa era uma peça de cartografia que suplantava tudo o que se conhecia fora de Portugal e de 1514 até cerca de 1764, nesses 250 anos, ficou como uma das melhores representações... que nos chegaram até hoje.

sábado, 11 de março de 2017

Ao mau mar ia (1)

Como hoje em dia, a orientação terrestre se baseia essencialmente no conhecimento da latitude e longitude, acaba por ser fortemente negligenciada a possibilidade de se fazerem mapas, sem usar nem uma coisa, nem outra.
As cartas de marear não apresentavam linhas de longitude, ou sequer de latitude, porque não precisavam... a ideia era simplesmente usar a bússola.
Por exemplo, como se poderiam marcar os Açores num mapa?
Chegados aos Açores, se tomassem um rumo constante na bússola, digamos ENE (Lés-Nordeste), chegariam à Bretanha. Inversamente, se partissem da Bretanha com um rumo constante oposto OSO (Oés-Sudoeste), rumariam em direcção ao Açores. 
Isto não seria suficiente para marcar os Açores numa carta. Mas poderiam fazer o mesmo com qualquer outra direcção da bússola. Saindo dos Açores com rumo ESE (Lés-Sudeste), chegariam a um ponto na costa marroquina. Inversamente, partido desse ponto na direcção oposta ONO (Oés-Noroeste), chegariam aos Açores. 

Exemplificamos essa marcação num mapa de Reinel, vendo como a intersecção de uma rota OSO vinda da Bretanha, com uma rota ONO vinda de um cabo de Marrocos, definiria apenas uma possibilidade de marcação dos Açores no mapa. Alternativamente, como é óbvio, poderia usar-se a navegação oeste, partindo da costa portuguesa.
A intersecção de um rumo OSO saindo da Bretanha, com um rumo ONO vindo
de um cabo marroquino, levaria a uma marcação da posição dos Açores.

É claro que este método não era muito exacto, porque não teria em conta o desvio da rota (a então chamada "derrota"), que acontecia pelas correntes marítimas. De qualquer forma seria preferível a um cálculo de latitude, que implicava céu limpo, à noite, para medir a altura da Estrela Polar, ou de dia, para calcular a altura do sol ao meio-dia... especialmente dados os erros, também pelas oscilações no navio. A longitude seria ainda muito mais difícil de registar, e basicamente só haveria uma ideia aproximada, pelo tempo da viagem.

A bússola não dependia do estado do tempo, permitindo manter a direcção fixa. 
Mais importante, como as correntes eram sempre as mesmas, não interessava muito se a marcação estava certa... o que importava é que mantendo um rumo fixo iam lá chegar - os mapas estavam feitos para serem usados com bússola, em pontos específicos, e seguindo outras rotas é que seria natural perderem-se.

Explicaremos depois como a bússola em conjunto com o cálculo da latitude, dispensava praticamente o cálculo da longitude. Foi praticamente isso que os portugueses passaram a utilizar, especialmente a partir do reinado de D. João II, usando para marcar a latitude, o astrolábio, o quadrante, ou a balestilha. 
Repare-se que os poucos portulanos antigos, do Séc. XV e anteriores, nem tão pouco indicam o Trópico de Cancer, mas essa marcação de latitude passou a ser obrigatória em todos os mapas do Séc. XVI (como já se vê no mapa de Cantino, 1502).

Convém agora dizer que há uma característica comum à maioria dos portulanos, e que não é notada à primeira vista... uma marcação de um círculo com 16 focos de referência secundários.
Isso ocorre desde os mapas de Abraham Cresques (também com Pizzigano), mas vamos evidenciar isso com os mapas de Pedro Reinel:
Carta "Pedro Reinel me fez" (1485), evidenciando o círculo onde ficam as rosas dos ventos
e os 16 focos (a vermelho com rosa-dos-ventos, a azul, sem rosa-dos-ventos)
No caso do mapa de 1485, há uma rosa-dos-ventos central, de onde saíram 16 direcções cardinais, e a uma distância fixa do compasso, desenha-se um círculo onde vão ficar os 16 focos. 
Em 5 desses focos há novas rosas-dos-ventos, nos outros 11 não... a razão para esta escolha, desconheço qual seja.

Noutro mapa de Reinel (1504), passa-se o mesmo:
Carta "Pedro Reinel a fez" evidenciando a rosa-dos-ventos central, de onde saem 16 direcções para o mesmo número de focos (pontos a vermelho, com rosa-dos-ventos, e pontos a azul, sem rosa-dos-ventos).
Agora passamos a ter 9 pontos com rosas-dos-ventos, e 7 pontos sem rosas-dos-ventos. Neste mapa já aparece a exigência papal, de apontar o Leste (direcção de Jerusalém) com uma cruz. Tem ainda uma outra novidade - uma escala para latitudes, aliás duas - uma ligeiramente inclinada, o que mostra que pretende mostrar que a latitude vai exigir dois tipos de representação, com uma pequena correcção a Ocidente, em paragens americanas, para a mediação do Tratado de Tordesilhas.

A mesma ocorrência do círculo é notada no seguinte mapa de Reinel de 1535:
Mapa atribuído a Pedro Reinel (1535) - neste caso há uma rosa-dos-ventos extra (verde, à direita)
Dos 16 focos, agora há 10 com rosas-dos-ventos, e 6 focos simples (a azul). Este mapa já evidencia como latitudes, o Trópico de Cancer e o Equador.

Podemos colocar uma questão... qual a necessidade que havia de colocar as rosas-dos-ventos, e os outros focos, no mapa?
Por um lado, poderiam ser usados para definir melhor os contornos locais... no sentido em que mudariam os pontos de referência, noutras partes do globo. Mas como estas rosas-dos-ventos são indistintamente colocadas em terra ou no mar, o seu significado carece de melhor explicação.
Para esse efeito, no próximo texto, iremos ver como fica o Globo de João de Lisboa, e o Mapa Cantino (no caso do Mapa Cantino há mesmo dois círculos evidenciados).

Quanto ao título do texto, é uma simples modalidade de entender "mau maria" - uma expressão corrente sem aparente sentido, mas se for ao "mau mar ia"... muitos foram os que se perderam no mau mar, não apenas por tempestades, mas sobretudo por enganos.

terça-feira, 7 de março de 2017

Piri, Piri, Reis e Reinel

Acerca dos recentes comentários de Maria da Fonte e David Jorge, sobre Piri Reis, notei que apesar de já ter falado desde 2010 várias vezes do assunto e até num comentário de 2013 ter deixado uma imagem comparativa entre o mapa de Piri Reis e o globo no Atlas Miller, os textos nos comentários acabam menos visíveis ao fim de algum tempo, e como então dizia... não há nada melhor do que colocar explicitamente a comparação para que se veja bem a coincidência entre os mapas de: 
- Reis & Rei-nel 


As 5 zonas identificadas em ambos os mapas são praticamente coincidentes.

O único mistério que permanece é o mapa de Piri Reis ter toda a publicidade e protagonismo, enquanto os mapas de Pedro Reinel são normalmente esquecidos... mesmo sendo idênticos.
Neste caso é tanto mais ridículo, quanto o mapa de Piri Reis mostra apenas uma parte do mapa mundi que está no Atlas Miller, que é mais completo (e tem co-autoria atribuída a Lopo Homem e Jorge Reinel).
Tanto mais caricato, quanto é até dito que o mapa de Piri Reis é baseado em mapas portugueses, e depois é esquecido convenientemente este mapa igual do Atlas Miller...  

Poderíamos dizer... ah, mas o mapa de Reis será 6 anos anterior ao mapa de Reinel. 
Até poderia ser, mas o mais natural é serem ambos cópias de um mapa anterior.

Conforme está extensamente descrito em 
as inscrições do mapa de Piri Reis, sugerem que se referia a uma cópia do mapa que vinha do tempo de Alexandre Magno... ou até talvez anterior, dada a linha costeira!

Como voltei a falar da questão do alinhamento piramidal (num postal anterior), no mapa de Piri Reis está colocada uma rosa dos ventos sobre a ilha de Santa Helena, que evidencia a ligação, conforme ilustrei... Ainda mais ficou evidenciado que a linha de costa se adequaria a um baixo nível do mar, conforme podia ocorrer na Idade do Gelo:
 

Quanto à direcção que vem das pirâmides de Gizé, passa pelas ilhas de Fernando Pó, Príncipe, São Tomé, e Santa Helena... convém lembrar que passa depois pelo Estreito de Magalhães.

Ora, se o Estreito de Magalhães não é evidenciado no mapa de Piri Reis, está bastante evidente que no Atlas Miller há uma abertura (ou mesmo duas), que indiciam uma passagem exactamente no Sul da América, na posição do Estreito. As duas aberturas fazem sentido porque uma seria pelo Estreito de Magalhães e a outra pelo Estreito de La Maire (passada a Terra do Fogo).

O único inconveniente "destas coisas" é que o Atlas Miller é de 1519 e a passagem do Estreito foi feita por Magalhães em 1 de Novembro de 1520... mas também não é novidade que o próprio Magalhães dizia que seguia cartografia existente em Lisboa.

A última observação, a respeito do nome, é que não é de negligenciar que uma adaptação para turco do nome Pedro Reinel, fosse entendida como Piri Reis... e ainda que possa ter existido o almirante turco, e lhe tenha sido feita uma biografia, nada disso inviabiliza que tratassem o cartógrafo português como uma variante do mesmo nome. Afinal também no Ocidente os nomes árabes eram suficientemente alterados - Ibn Sina passou a Avicena, ou Al Quarismi passou a Algarismo...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Órion... cinto no equador

(continuação)
Deixei por terminar o texto anterior, com um assunto aparentemente semelhante - as estrelas do cinto de Órion, mas bastante distinto no conteúdo. 

(6) Uma coisa são as interpretações humanas dos conjuntos estelares, outra coisa diferente é a relação directa que se pode estabelecer entre uma posição na Terra e uma posição no Céu.
Ou seja, se um local na Terra é identificado pelo par (Latitude, Longitude), também qualquer estrela no céu pode ser identificada pelo par (Latitude, Longitude). 
Por exemplo, ainda que não seja muito comum ver planisférios celestes, encontramos um razoavelmente bom, associado à Expedição Apollo 11: 
Planisfério Celeste (missão Apollo 11):
a vermelho - minha indicação das estrelas de Órion -  o cinto está praticamente sobre o equador celeste
O equador celeste é uma marcação que não é arbitrária, está completamente ligado à rotação terrestre e ao equador terrestre, conforme é explicado nesta imagem (wikipedia)

Portanto, no que diz respeito à Latitude, tal como no caso terrestre, há uma única forma de a definir. 

Ao contrário, no que diz respeito à Longitude, no caso terrestre houve sempre várias convenções. Actualmente, e desde o Séc. XIX, ficou convencionado ser marcado pelo Meridiano de Greenwich, pelo domínio da marinha britânica, mas antes disso houve outros marcos. 
Como Ptolomeu que definiu o zero, no extremo ocidental do "mundo conhecido", usou-se muitas vezes a Ilha do Ferro nas Canárias como marcação do "Meridiano Zero" (aliás com a indicação de que estaria 20º a oeste de Paris, o que facilitava as contas aos franceses).
Ainda que as Flores sejam as ilhas açorianas mais ocidentais, é natural que o nome "Ilha do Marco", associado à Ilha do Corvo, pudesse ter a ver com alguma associação temporária desta ilha ao extremo mais ocidental... podendo ter sido usada como referência de longitude.

O caso mais interessante, e que é reflectido no Globo de João de Lisboa, toma a embocadura do Amazonas como marco para o Meridiano Zero. É adequado pela curiosidade do Amazonas desaguar em latitude zero... e de ser a marcação feita por D. João II para o Meridiano das Tordesilhas. Como se não bastasse essa coincidência, a ilha na foz do Amazonas era designada "grande Ilha de Joannes" (sendo agora designada Ilha de Marajó).

(7) A marcação do Meridiano Zero numa Carta Celestial também é de, certa forma, arbitrária... ainda que possa ser ligada aos meridianos correspondentes a equinócios... ou solstícios.
Ralativamente ao solstício de Verão, a estrela mais brilhante que se aproxima deste ponto será Betelgeuse, também ela na constelação de Órion, mas não sobre o Equador Celeste.
Assim, a definir-se alguma correspondência entre pontos do Equador Celeste e Equador Terrestre, o que pareceria melhor como marcação poderia ser justamente o Ilhéu das Rolas, em São Tomé (ou ainda a Ilha do Príncipe, escolhendo a do meio como referência... também esta supostamente referindo-se ao Príncipe - futuro D. João II).

(8) O interesse desta marcação de referência, seria que todas as estrelas do céu teriam um lugar único correspondente em Terra. Da mesma forma, as constelações ocupariam um lugar determinado no espaço terrestre. Com essa posição de Órion como referência, colocada sobre as Ilhas de São Tomé, obteríamos uma sobreposição com as constelações da seguinte forma:

... onde praticamente grande parte da Europa Ocidental corresponderia ao espaço da Constelação de Auriga, enquanto que a parte da Europa Oriental corresponderia à Constelação de Perseu. Neste caso, com a deslocação de Órion para latitudes equatoriais, é a constelação de Touro que ocupará o lugar do Egipto/Sudão (a de Carneiro, o lugar da Arábia; a de Peixes, o sul da Índia, etc.)

No que diz respeito à constelação de Auriga, a sua estrela mais brilhante é Capella, que tem coordenadas (declinação ou latitude) 45º59'... sendo o Monte Branco o ponto geográfico mais importante próximo daquela latitude, com 45º55'... sendo a questão de longitude igualmente próxima, mas mais variável, dependendo da definição da origem. 

Interessa notar apenas, que se tentássemos estabelecer alguma relação entre a posição das estrelas e posição de cidades antigas conhecidas, não se vislumbra nenhuma correlação neste sentido. Se essa associação pode ser vista de modo genérico, com a posição das constelações, como observámos no texto anterior, tendo por base a associação do Egipto a Órion, nada de semelhante se parece passar usando a identificação entre os dois equadores (celestial e terrestre).
Ou seja, caso tenha havido alguma associação directa - ligando lugares no céu a lugares na Terra, tal aconteceu apenas de forma genérica e pouco precisa, não se vislumbrando nenhuma ligação de grande precisão, feita por intencionalidade humana.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

dos Comentários (28) - a espera, a espora, e o esporo

A notícia aparece no Expresso, num breve artigo de Virgílio Azevedo, e foi aqui indicada por um comentador anónimo:

Um estudo que procurava determinar a vegetação antiga dos Açores, baseado em sedimentos de poléns, esporos, depositados na Lagoa Azul, concluiu que a ilha de S. Miguel teria habitação humana, por volta do ano 1287, ou seja, 150 anos antes da data oficial reconhecida para a descoberta dos Açores.
O artigo científico está publicado aqui (o acesso é condicionado à subscrição da revista), mas o resumo é acessível:

"Vegetation and landscape dynamics under natural and anthropogenic forcing on the Azores Islands: A 700-year pollen record from the São Miguel Island
- Quaternary Science Reviews. Volume 159, 2017, Pages 155–168.
- Autores: Valentí Rull, Arantza Lara, María Jesús Rubio-Inglés, Santiago Giralt, Vítor Gonçalves, Pedro Raposeiro, Armand Hernández, Guiomar Sánchez-López, David Vázquez-Loureiro, Roberto Bao, Pere Masqué, Alberto Sáez
- Instituições dos autores: Institute of Earth Sciences Jaume Almera, Botanic Institute of Barcelona; CBIO - Univ. Açores; Instituto Dom Luiz - Univ. Lisboa; CICA - Univ. da Coruña; Edith Cowan University, Joondalup, Australia; ICTA - Universitat Autònoma de Barcelona; University of Western Australia, Crawley.
Resumo: The Azores archipelago has provided significant clues to the ecological, biogeographic and evolutionary knowledge of oceanic islands. Palaeoecological records are comparatively scarce, but they can provide relevant information on these subjects. We report the palynological reconstruction of the vegetation and landscape dynamics of the São Miguel Island before and after human settlement using the sediments of Lake Azul. The landscape was dominated by dense laurisilvas of Juniperus brevifolia and Morella faya from ca. 1280 CE to the official European establishment (1449 CE). After this date, the original forests were replaced by a complex of Erica azorica/Myrsine africana forests/shrublands and grassy meadows, which remained until ca. 1800 CE. Extractive forestry, cereal cultivation (rye, maize, wheat) and animal husbandry progressed until another extensive deforestation (ca. 1774 CE), followed by the large-scale introduction (1845 CE) of the exotic forest species Cryptomeria japonica and Pinus pinaster, which shaped the present-day landscape. Fire was a significant driver in these vegetation changes. The lake levels experienced a progressive rise during the time interval studied, reaching a maximum by ca. 1778–1852 CE, followed by a hydrological decline likely due to a combination of climatic and anthropogenic drivers. Our pollen record suggests that São Miguel were already settled by humans by ca. 1287 CE, approximately one century and a half prior to the official historically documented occupation of the archipelago. The results of this study are compared with the few palynological records available from other Azores islands (Pico and Flores).
Traduzindo rapidamente, a paisagem era dominada por laurissilvas, cuja presença hoje é apenas significativa na Ilha da Madeira (a Laurissilva da Madeira é paisagem UNESCO). Essa vegetação foi substituída com a colonização oficial no Séc. XV, e depois mudada de novo nos séculos XVIII e XIX. 
A análise dos pólens sugere adicionalmente a ocupação humana por volta de 1287 (ou seja, em reinado de D. Dinis).

No artigo do Expresso refere-se que "... há historiadores que defendem que os Açores já eram conhecidos antes, baseados em mapas de 1339 onde as ilhas do Corvo e de São Miguel já estão assinaladas, embora com nomes diferentes (Corvinaris e Caprara, respetivamente)"... e o mapa/portulano de 1339 é atribuído a Angelino Dulcert, onde aparecem as ilhas, mas a uma latitude mais condicente com Madeira e Porto Santo.

Parte do mapa de Angelino Dulcert -1339 (wikipedia), com ilhas nomeadas.

Os pequenos esporos, tal como estes mapas antigos revelam apenas uma parte da evidência, que espera que uma espora decisiva nos cavalgue das trevas, para a luz. 

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Ó rio... sinto que o cinto

(1) Órion - sinto que o cinto ser colado à cintura da gravura pré-histórica humana, esculpida num osso de mamute (ver figura seguinte), seria uma conjectura digna de desprezo e escárnio... noutras circunstâncias. 
Mas não foi... e a um investigador da Univ. Munique bastou ver que umas mãos levantadas, os pés, e a cintura fina do homem, poderiam corresponder a uma configuração das estrelas em Órion (ver figura seguinte, à direita), para essa afirmação estar já reportada no Guiness Book of Records como o mapa estelar mais antigo, acrescendo para isso uns pontinhos sem sentido, espalhados no verso do osso!
 
À esquerda: «The carvings have been interpreted as a star map»  in BBC News (21/'01/2003) "Oldest star chart found" 
À direita: A constelação de Órion... que supostamente é representada pelo homem de braços levantados! 

A nossa sociedade tem assim o magnífico condão de dar estatuto de "verdades" a grandes patacoadas, ao mesmo tempo que tenta descartar verdades como patacoadas. 
Foi assim, com o simples manipular de opiniões, que foi difundida a ideia de que as constelações teriam algum correspondente entre estrelas e desenhos de animais, que levassem à designação que traziam desde a Antiguidade. Como as estrelas eram meros pontos, a união desses pontos levar a um qualquer desenho imaginado, simplesmente ganhou popularidade.

(2) Órion - sinto que o cinto ter uma correlação quase exacta com a posição das pirâmides de Gizé, conforme é descrito no artigo da Wikipedia... 
levanta muito mais polémica, conforme se pode ver na figura:
Posição das estrelas do cinto de Órion, com sobreposição da localização das pirâmides de Gizé.
A posição das estrelas é  perfeita face à posição relativa das pirâmides. (imagem : Wikipedia)

Esta observação poderia ter sido notada em qualquer momento na História, desde a construção das pirâmides, e em especial a partir do Séc. XVIII. Porém, só teve adeptos dispostos a defendê-la desde há uns 30 anos. Um deles, Graham Hancock, foi severamente criticado pelos egiptólogos por sugerir tal "disparate". 

Portanto, para quem tenha dúvidas, fica bastante claro que em assuntos "secretos" - quanto mais as afirmações se aproximarem da verdade, mais facilmente são alvo de ferozes críticas, enquanto que os mais grosseiros disparates seguem o percurso inverso. 

(3)  O rio - será o Nilo, tratando-se do Egipto. Órion, um mitológico caçador filho de Poseidon, tendo o seu cinto atado às pirâmides egípcias, na margem do Nilo, definiria um marco geográfico, tal como se definem outros - ainda reconhecíveis nos nomes das constelações vizinhas:

  • A constelação de Touro (Taurus) ligada aos Montes Taurus, na Turquia;
  • A constelação de Perseu (Perseus) ligada à Persia, e ao Golfo Pérsico;
  • A constelação de Carneiro (Aries) ligada ao região Ariana ou Aria.
Isto fica mais claro quanto colocamos os nomes das constelações num mapa face às suas posições relativas. No caso das constelações de Touro, Perseu e Aries, a coincidência geográfica é completa, conforme podemos ver:

Mapa baseado na Geografia de Erastóstenes (em cima), e as constelações próximas a Órion (em baixo).

No caso da constelação Eridanus, foi associada ao Nilo, e tem um nome próximo ao Mar Eritreu, o Mar Vermelho, que corre paralelamente ao Nilo, portanto a relação também será próxima. Já mais interpretativa será a constelação de Gémeos, que teria aqui um correspondente entre a Grécia e Itália, lembrando que Castor e Polux para além de serem estrelas da constelação, eram gémeos, filhos de Leda, e irmãos das gémeas Helena e Clitemnestra. Todos estes quatro gémeos tomam parte fulcral no enredo da Guerra de Tróia. Tal como podemos lembrar que a fundação de Roma é atribuída a outros dois gémeos - Remo e Rómulo.
Quanto às restantes constelações, sendo umas invenções mais recentes que outras, as associações são ainda mais dúbias.

(4) Órion enquanto caçador é associado ao Cão Grande, a constelação Canis Major, que tem Sirius, a estrela mais brilhante no céu. E se as estrelas de Órion pouco terão mudado de posição nos últimos milhares de anos, dada a sua grande distância ao Sol, o mesmo não se terá passado com Sirius, que é uma estrela próxima.
Sirius era uma estrela importante no Egipto, mas localizando o cinto de Órion em Gizé, a correspondente posição geográfica desta estrela fica bem longe do Egipto.
Onde? Bom, tal como no céu estrelado, a constelação de Órion pode servir para identificar outras estrelas, acontece o mesmo no correspondente geográfico:
O cinto de Órion aponta numa direcção para Sirius (Cão Maior), 
e na outra direcção para Aldebaran (Touro).

Contudo, lembramos que já há uns anos seguimos aqui essas direcções, porque são as mesmas do "alinhamento piramidal" de Gizé:


Ou seja, no globo terrestre, vamos parar pelo lado de Aldebaran a Heliopolis (Baalbec), e pelo lado de Sirius vamos parar à Ilha de São Tomé.
Acontece que, como as coincidências não ficam por aqui, ocorrem na Ilha de São Tomé umas gigantescas formações geológicas, autênticos colossais monolitos, do qual se destaca o "Pico do Cão Grande" (com 663 metros de altura):
O pico do Cão Grande (com 663 m) na Ilha de S. Tomé

Admitindo que as entidades oficiais possam atribuir ao nome "Cão Grande" uma referência popular a um cachorro que se perdeu... não deixamos de lembrar que o alinhamento piramidal apontava para Sirius, a brilhante estrela da constelação do Cão Grande (Canis Major).
Bom, e também é coincidência pelo lado oposto a Sirius ir parar a Baalbec, que está na Síria.

(5) Órion - sinto que o cinto está colado ao Equador Celestial. Bom, e que ilha segue o alinhamento piramidal e está situada no Equador Terrestre?
- São Tomé, mais propriamente, o Ilhéu das Rolas.
Só que as coincidências ainda não acabam aqui... e temos 3 ilhas:
- São Tomé, o Príncipe, e Fernando Pó, alinhadas tal como as pirâmides, no Golfo da Guiné (excluímos o Ilhéu de Ano Bom, que é de dimensão reduzida, pouco maior que o Ilhéu das Rolas).
As ilhas de S. Tomé, Príncipe e Fernando Pó, no eixo dos Camarões

Ora, estando alinhadas com as pirâmides, como estas estão alinhadas com Órion, também estas três ilhas alinham com as três estrelas do Cinto de Órion, apenas com uma pequena diferença - estas estão um pouco acima do equador e as estrelas do cinto de Órion estão um pouco abaixo dele.
É claro que, sendo formações naturais, a posição das ilhas ou o seu tamanho não segue a coincidência quase perfeita que Graham Hancock observou para as pirâmides... está longe disso. Mas o simples facto de seguirem a direcção, e estarem perto do equador, já é uma coincidência notável.

Coincidência notável que os construtores das pirâmides não deixaram de fazer notar, porque se tivessem colocado as pirâmides noutro lado, só encontrariam o Equador em São Tomé, na linha que une a Baalbec... e em mais nenhum sítio ficariam ao lado do Nilo (que apontava o norte).

Neste caso fica bem o nome "São Tomé", talvez porque fosse "ver para crer", o que lá encontraram deixado pelos egípcios ou fenícios. Se o Príncipe foi assim nomeada em tributo a D. João II, já o destino do seu filho, outro príncipe, acabou por ganhar significado mais à frente... no Monte Camarões, porque o nome desse monte vulcânico, antigamente invocado como "Carro dos Deuses", acabou por aparecer ligado à morte do príncipe - afinal o seu corpo foi recolhido num Camaroeiro, que a Rainha D. Leonor passou a ostentar como símbolo.

(continua)



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

dos Comentários (27) - Ligações

Seguem-se alguns links, ou ligações, sugeridas nos últimos tempos:

Esta lista de 2017 não está fechada e ficará aberta a novas sugestões.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Fort (1883) Cracatoa, chuvas, e eventos interplanetários

Um assunto que toma a atenção de Charles Fort é a erupção do vulcão Krakatoa em 26 de Agosto de 1883. Não tanto pelo fenómeno em si, mas por tudo o que foi atribuído à erupção do vulcão... depois desta ocorrer, e especialmente antes - ou como diz Fort:
  • Annual Register, 1883-105: That the atmospheric effects that have been attributed to Krakatoa were seen in Trinidad before the eruption occurred
  • Knowledge, 5-418: That they were seen in Natal, South Africa, six months before the eruption.
Portanto, a comissão científica (inglesa) que cuidadosamente elaborou um relatório, tanto atribuiu efeitos posteriores, passados 7 anos à erupção do Krakatoa, como ainda lhe atribuiu efeitos anteriores, que teriam sido relatados 6 meses antes da erupção (na província do Natal, na África do Sul).

Esporos da chuva vermelha em Kerala
Porém Charles Fort, reúne mais relatos estranhos.
Nomeadamente da existência de chuvas de sangue, ou chuvas vermelhas (red rain), como a que acontece na Índia, em Kerala desde 1892, sendo a última em 2012 (com uma ocorrência intensa entre Julho e Setembro de 2001):

A este propósito houve quem sugerisse que estes esporos não seriam terrestres (até porque cresciam a 300º C), indo no sentido de uma teoria da Panspérmia (ver ainda o caso do Tardigrade).

Essa hipótese foi avançada recentemente, mas fazia já parte das ideias pioneiras de Charles Fort que, ao contrário do que era hábito no seu tempo, admitia naves interplanetárias, que poderiam deixar resíduos de matéria no espaço (inclusivé), para depois caírem na Terra!

Mas, Charles Fort não usa explicações extraterrestres para tudo e para nada... como passou a ser hábito fazê-lo desde a segunda metade do Séc. XX. 
Reporta, tal como nós já o fizemos, o caso das luzes na Lua, mas junta mais testemunhos:
In Philosophical Transactions, 82-27, is Herschel's report upon many luminous points, which he saw upon—or near?—the moon, during an eclipse. Why they should be luminous, whereas the moon itself was dark, would get us into a lot of trouble—except that later we shall, or we sha'n't, accept that many times have luminous objects been seen close to this earth—at night.
But numerousness is a new factor, or new disturbance, to our explorations—
A new aspect of inter-planetary inhabitancy or occupancy—
Worlds in hordes—or beings—winged beings perhaps—wouldn't astonish me if we should end up by discovering angels—or beings in machines—argosies of celestial voyagers—
In 1783 and 1787, Herschel reported more lights on or near the moon, which he supposed were volcanic.
The word of a Herschel has had no more weight, in divergences from the orthodox, than has had the word of a Lescarbault. These observations are of the disregarded.
Bright spots seen on the moon, November, 1821 (Proc. London Roy. Soc., 2-167).
For four other instances, see Loomis (Treatise on Astronomy, p. 174).
A Lua não seria caso único... a observação chegou ao ponto de ser avistado um "mundo" (ou uma grande estação espacial) em Vénus, a que foi dado o nome de Neith:
Visitors to Venus:
Evans, Ways of the Planets, p. 140:
That, in 1645, a body large enough to look like a satellite was seen near Venus. Four times in the first half of the 18th century, a similar observation was reported. The last report occurred in 1767.
A large body has been seen—seven times, according to Science Gossip, 1886-178—near Venus. At least one astronomer, Houzeau, accepted these observations and named the—world, planet, super-construction—"Neith." His views are mentioned "in passing, but without endorsement," in the Trans. N.Y. Acad., 5-249.
O que preocupava Charles Fort era o desprezo destas ocorrências pela Ciência, mesmo que se tratassem de observações de cientistas reconhecidos. Sarcasticamente disse: 
"a satellite to Venus might be a little disturbing, but would be explained—but a large body approaching a planet—staying awhile—going away—coming back some other time (...)"

... ou seja, um grande corpo aproximando-se de Vénus, e ficando em órbita durante algum tempo, até que depois decidia "ir-se embora", para depois voltar - tudo isso levantaria a suspeita de que se poderiam tratar de grandes naves espaciais - visíveis da Terra.
Menciona ainda um outro caso semelhante em Marte :
A light-reflecting body, or a bright spot near Mars: seen Nov. 25, 1894, by Prof. Pickering and others, at the Lowell Observatory, above an unilluminated part of Mars—self-luminous, it would seem—thought to have been a cloud—but estimated to have been about twenty miles away from the planet.
Especialmente porque nos diz respeito, é interessante a observação de Charles Fort sobre um terramoto em Lisboa (tudo indica ser o de 1755):
The quay of Lisbon.
We are told that it went down.
A vast throng of persons ran to the quay for refuge. The city of Lisbon was in profound darkness. The quay and all the people on it disappeared. If it and they went down—not a single corpse, not a shred of clothing, not a plank of the quay, nor so much as a splinter of it ever floated to the surface.
Há quem pretende ver nesta (e noutras descrições) como os primeiros relatos de desaparecimentos por abdução extraterrestre... no entanto no Terramoto de 1755, estando perante uma das maiores aldrabices históricas, os responsáveis não seriam marcianos, seriam mais diabretes infernais, como o Marquês de Pombal e associados, com o propósito de inventar um maremoto consumidor de vítimas.

Ainda que os casos que Charles Fort mencione sejam dignos de atenção, não podemos descartar a hipótese de simples invenção do relato ocasional, porque diversos interesses se podem juntar para elaborar uma mentira útil, e duradoura. Se essa suspeita é verosímil em incidentes pontuais, quando se acumulam e persistem à observação de pessoas distintas e não relacionadas, então já deveriam merecer uma outra atenção.

A questão final a considerar, mesmo dando crédito às observações "interplanetárias", é muito simples.... 
- qual é a diferença entre admitir que fomos visitados por extraterrestres, munidos de tecnologia superior, ou simplesmente admitir que sempre houve um grupo terrestre com capacidade tecnológica muito superior ao que era conhecido pelo resto da população?






sábado, 21 de janeiro de 2017

Fort (1859) Sobrevivência dos sobreviventes

No mesmo livro "The Book of the Damned", Charles Fort faz uma áspera crítica ao Darwinismo, notando que já funcionava como um movimento religioso, com base numa "verdade de La Palice":
In 1859, the thing to do was to accept Darwinism; now many biologists are revolting and trying to conceive of something else. The thing to do was to accept it in its day, but Darwinism of course was never proved:

  • The fittest survive.
    • What is meant by the fittest?
    • Not the strongest; not the cleverest — Weakness and stupidity everywhere survive.
    • There is no way of determining fitness except in that a thing does survive.
    • "Fitness," then, is only another name for "survival."
  • Darwinism:
    • That survivors survive.
Portanto, o Darwinismo é assim reduzido por Fort à constatação: "os sobreviventes sobrevivem"... o que diga-se, de passagem, tinha escrito num comentário antigo:
Confundir evolucionismo com darwinismo tem dado jeito, mas o darwinismo é um evolucionismo nihilista - ou seja, procura que não haja nenhum nexo tirando a premissa de La Palice que "sobreviviam os mais aptos".
Sendo adepto de um evolucionismo, que é simulado pelo desenvolvimento do embrião, na gestação, considero que a constatação de Darwin, apesar de evidente, merece atenção (como já o disse), mas não no sentido de ver a evolução como "um acaso", sem nexo.
Nessa perspectiva, a diferença entre a ciência e a religião é pequena, ou inexistente.
A ciência vai precisando de caldeirões mágicos:
  • o caldeirão do Big-Bang, que originou o universo (nunca consigo escrever isto sem me rir)!
  • o caldeirão da Sopa Inicial, que originou a vida; 
... mas ao contrário da religião, que reclama um chef  (como alquimista da receita dos "caldos"), a ciência prefere chamar "acaso" ao chefe
Nesse sentido, a ciência só pretendeu retirar nexo ou propósito ao cozinhado, porque da mesma receita só mudou o empratamento.

A maneira como se encara a evolução é como um processo inacabado, em que o produto mais recente vira costas ao que foi antes, olhando sempre um futuro...
Assim, é natural ver figuras ilustrativas como a primeira que apresentamos (E):

... mas aqui decidimos juntar uma pequena reflexão, na figura (F).
Tipicamente, o que a ciência faz é colocar-se na posição (E), em que o observador fica fora do que vê, ou na melhor das hipóteses, vê-se como o elo mais recente da cadeia. Nessa visão limitada, alinham os eugenistas, que procuram "melhorar" a selecção natural, para condicionar um "novo homem".
Em (F) a única modificação que fazemos a essa representação clássica, é reflectir o homem, que enquanto observador, consegue ver (e entender) a sua evolução, incluindo-se a si mesmo no processo.
Ao reflectir filosoficamente sobre si, vendo-se ainda como igual aos outros homens, termina o processo evolutivo. Como é natural, os eugenistas vão ver-se sempre como mais um macaco no processo, e por muito que evoluam, não deixarão de ser novos macacos, até que consigam virar-se para si mesmos.

Há uns anos, ao ilustrar um postal, coloquei um vídeo de Aimee Mann... retirado do filme Magnólia.
Esse filme Magnólia, vim a saber agora (ao fazer esta compilação dos volumes Alvo de Maia), é inspirado na obra de Charles Fort, e na sua incessante pesquisa sobre coincidências e fenómenos anómalos, desprezados pela ciência.
E não faltam aí coincidências anómalas... entre as quais, referências às chuvas de sapos (e à passagem bíblica do Exodus 8:2). Mas destacamos a parte final desse vídeo - em que a criança está ao centro, e à sua direita está o quadro do Alfaborboleto (sobre o qual falámos).
Foram essas pequenas coincidências que nos trouxeram à obra de Charles Fort.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Fort (1910) - não se cometa com o Cometa

Um dos problemas de quem estuda cetáceos, é saber se uma baleia avistada é a mesma avistada noutra altura. As baleias não têm propriamente um cartão de identidade, e ainda que os métodos sejam cada vez mais fiáveis, terá havido confusões.

O mesmo problema se pode colocar com cometas, e foi abordado por Charles Fort a propósito da passagem do Cometa Halley em 1910.
O que aconteceu em 1910?
Em 17 de Janeiro de 1910, apareceu um enorme cometa, visto mesmo durante o dia:

... só que este "grande cometa" não seria declarado como o Cometa de Halley!

O problema é que estava previsto que esse só apareceria em 20-24 de Maio, e portanto havia antecipação, ou então uma falha na previsão.
Como as previsões anteriores tinham sido razoavelmente bem sucedidas (em 1759 tinha sido previsto para Abril, e aparecera a 12 de Março, e em 1835 tinha sido previsto entre 4 e 15 de Novembro, e aparecera no dia 16), todos esperavam que os astrónomos em 1910 fizessem ainda melhor.
De certa forma, falhar por 4 meses estava fora das expectativas aceitáveis na astronomia do Séc. XX.

Assim, no dia 20 de Maio as pessoas foram convidadas a ver o "verdadeiro" cometa de Halley.
Só que, segundo Charles Fort, e outros, ninguém viu nada. 
Houve depois fotografias propositadamente modificadas - ver o caso de Duluth (Minnesota), onde se diz:
On this day in 1910, Halley’s Comet passed over Duluth—but no one saw it. The headlines for the next day read “Aged Wanderer is Fickle Thing” and “Halley’s Comet Again Disappoints Duluth people—Was Invisible Here Last Night.” 
Foto falsificada do cometa Halley.
Mesmo com telescópios não teria sido fácil de ver ("... even Duluth astronomer John Darling failed to see the comet"), e houve então quem decidisse falsificar o resultado ("None of that stopped renowned Duluth photographer Hugh McKenzie from publishing the photograph seen here as a picture postcard. He likely made the stars and comet by scratching the negative."):


Noutra fotografia que a Wikipedia coloca, notam-se rastos nas estrelas, o que indica que se tratou de uma fotografia de longa exposição (supostamente tirada já no dia 29 de Maio):
(Fotografia forçada a longa exposição como se vê pelo rasto das estrelas)

A wikipedia diz que o cometa foi visível a olho nú desde Abril de 1910, e que a Terra terá mesmo passado pela cauda do cometa. Não é bem isso que contam alguns relatos da época...

Charles Fort, que escreve 9 anos depois, no seu livro "Book of the Damned" (1919) diz o seguinte:
As to Halley's comet, of 1910 — everybody now swears he saw it. He has to perjure himself: otherwise he'd be accused of having no interest in great, inspiring things that he's never given any attention to.
Regard this:
That there never is a moment when there is not some comet in the sky. Virtually there is no year in which several new comets are not discovered, so plentiful are they.
É mais ou menos o que podemos dizer do Cometa Halley em 1986... eu não vi nada, mesmo com uns bons binóculos, mas não era difícil encontrar quem dissesse que o viu. A incapacidade passa para quem não vê, e os outros são uns abençoados!

Depois, tal como nota Charles Fort, com o aumento de capacidade dos telescópios, todos os anos eram descobertos vários novos cometas, e por isso não faltariam candidatos a serem identificados com o Cometa de Halley, mesmo que não o fossem... até porque a sua observação só seria possível a um reduzido número de pessoas, com acesso a bons telescópios. 
Charles Fort é mais sarcástico, comparando com o grande cometa de Janeiro:
Early in 1910, a far more important comet than the anaemic luminosity said to be Halley's, appeared. It was so brilliant that it was visible in daylight. The astronomers would have been saved anyway. If this other comet did not have the predicted orbit—perturbation. (...)
I predict that next Wednesday, a large Chinaman, in evening clothes, will cross Broadway, at 42nd Street, at 9 P.M. He doesn't, but a tubercular Jap in a sailor's uniform does cross Broadway, at 35th Street, Friday, at noon. Well, a Jap is a perturbed Chinaman, and clothes are clothes.
Passados uns anos, as pessoas poderiam dizer que tinham visto o cometa em 1910 (referindo-se ao de Janeiro), mas como a maior parte não apostaria se o tinha visto em Janeiro ou Abril/Maio, e como pelas fotografias também não saberiam distinguir se era o verdadeiro ou não, tudo ficou no diz-que-disse, de quem o podia dizer... e na sua conivência com a conveniência.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Ponta, ponte, ou ponto de situação

Há uns anos atrás (01/2014), escrevi um "ponto de situação" que dizia respeito à abertura de diversos caminhos para um possível entendimento do nosso percurso histórico.
Tendo compilado agora os 7(+1) volumes do que ficou no blog, é tempo de fazer um certo balanço, na sequência daquele que fiz em 2015, quando tive o blog parado durante uns meses. Por um lado, tendo fechado as actas dos anos transactos, há uma certa tentação de fazer uma longa pausa, por outro lado, ainda há uma boa quantidade de assuntos que gostaria de abordar.

Curiosamente neste último mês foi quando o blog teve mais visitas (ainda que sejam falsas visitas), conforme é facilmente verificado no registo do Blogger:

O registo começa em Julho de 2010 com cerca de 700 visitas mensais, para rapidamente atingir cerca de 3000 visitas mensais em Novembro de 2010, e a partir dessa altura estagnou... variando entre 3 e 5 mil visitas, segundo as contas do Blogger. (Aqui se inclui curiosamente o período entre Outubro de 2011 e Março de 2012, com pelo menos 4 meses em que basicamente larguei o blog.)
A novidade neste último mês de Dezembro (e ainda agora em Janeiro), é uma máquina nos EUA (um Mac correndo Chrome), que de 3 em 3 horas, marca cerca de 30 visitas, o que dá aproximadamente 200 visitas diárias... somando à média de 100 visitas/dia, que ao longo destes 7 anos, tem-se mantido praticamente constante (mesmo quando ninguém cá aparecia). 
Portanto neste último mês, devido a essa ligação de maquinaria, o número de visitas quintuplicou face ao habitual, atingindo o recorde de 15609 visitas em Dezembro. Conforme é possível ver pelo boneco das "Contas" o aspecto do último mês foi este:
 

... com um máximo de 1302 visitas diárias, no dia 19/12/2016 (vá-se lá saber porquê), basicamente para as quais somaram perto de mil visitas russas nesse dia.
Que pela parte americana se trata de uma máquina, é fácil de verificar porque funciona como um relógio, conforme se pode ver pelo registo horário semanal: 
 
Comparação entre visitas nos blogs Alvor-Silves (esq) e Odemaia (dir) na última semana.
Para além de uma diferença de 10 vezes... no Alvor-Silves tem havido uma periodicidade notória, 
de 3 em 3 horas, e no outro apenas um certo caos... perfeitamente natural.

Bom, isto apenas para referir que não será por falta de visitas declaradas que um blog passa a ter mais ou menos frequência, sendo certo que o número de comentadores é reduzido.

Três fases
Posso dizer que o blog teve três fases. Se no final de 2009 me dei conta do problema da "grande mentira histórica", nos dois primeiros anos (2010 e 2011) o assunto não me descansou enquanto não encontrasse para ele uma resposta satisfatória, e pode ser visto nos Volumes, que a minha opinião não é bem a mesma antes e depois de 2012. As conclusões (praticamente finais) chegaram só em meados de 2012, e o ano de 2013 foi especialmente complicado porque foram postas a teste, a nível pessoal, de forma algo complicada. Mas desde 2014, que o resto não tem passado de uma continuação algo artificial... na prática não considero que tenha muito mais de significativo a dizer, e para efeitos de não poluir o fundamental com o acessório, teria até sido aconselhável ter parado por ali... 
Não é que não haja interesse no que fui escrevendo desde 2014, simplesmente já não segue propriamente nenhum objectivo tão bem delineado, e servirá mais um entretenimento para manutenção dos blogues.

Por exemplo, neste momento estou a ler um livro de Charles Fort, que também lançava fortes críticas à mentalidade (pseudo-) científica, positivista, que grassava na sua época, e que continua hoje.
Mas esse, ou outros tópicos, mesmo estando ligados aos tópicos do blog e reforçando as conclusões que aqui foram sendo apresentadas, constituem apenas mais páginas laterais, estando o principal assunto arrumado, há praticamente 4 anos.
Portanto, estando numa ponta, e tendo já feito uma extensão do assunto nos últimos anos, o ponto de situação é mais o de saber se faço nova ponte para extensão, sendo certo que estas matérias não têm fim à vista, nem há vontade que mais seja conhecido....

Assim, se em Dezembro de 2009 a pergunta era - "estamos a ser enganados que nem uns patinhos, o que é que vou fazer?", e a resposta foi - "em vez de perguntar pela hierarquia contaminada, vou divulgar isto, e logo se verá". Porém, logo percebi no mês seguinte, que a contaminação era completa, e fiquei sem saber muito bem o que fazer... 
Assim, entre 2010 e 2011, fui tentar investigar desde quando a mentira histórica generalizada estaria implantada, para perceber de que forma poderia ser ultrapassada. A pergunta era - "de que forma é que poderá ser confrontado o poder no topo da pirâmide?". E a questão já nem envolvia apenas entidades terrenas, desta ou doutras dimensões. Por isso, nalguns dos textos dessa altura ainda não negligenciava a possibilidade de condicionamento por ET's ou outras entidades... A única consolação para esse tipo de questão, é que havendo um poder, haveria certamente um contrapoder, porque as coisas só estabilizam depois de encontrarem um certo equilíbrio. Tendo ficado cada vez mais claro que tudo poderia ser explicado exclusivamente nesta terrinha, pela simples vantagem que a herança leva dos mais velhos para os mais novos, a influência de outras entidades era indiferente. Não precisamos de saber se quem manda é um reptiliano (como diz David Icke), ou se é o vizinho do lado. Interessa apenas que é alguém indeterminado, e que tem um tipo de inteligência semelhante à nossa.

Tiro à cabeça
A arma mais poderosa contra todas as armas, é mostrar a inutilidade de as usar.
Portanto essa arma deve ser usada contra a cabeça mandante. Se a cabeça mandante entender que é inútil disparar, todo o seu arsenal não será usado. É verdade que não muda o poder, mas muda a cabeça do poder, mudando as suas ideias... o que vai dar no mesmo. Se as nossas ideias forem entendidas como correctas, a luta é apenas com a obstinação em manter as incorrectas...
De certa forma, Ghandi usou o mal estar causado pela agressão contra a não-violência, para mudar a cabeça do império britânico, relativamente à Índia, e que se repercutiu noutras colónias. Mas Ghandi procurava apenas uma solução para o seu problema - o problema da Índia, não pretendia com isso resolver os problemas do mandante. 
Um tiro eficaz à cabeça, é quando se mostra que as novas ideias não são apenas melhores para uns, são melhores para todos.
Poderá colocar-se a questão - "mas como se fazer ouvir, se não há nenhuma divulgação...". Porém, se a divulgação é parada é porque há quem ouça e não goste do que ouve, mas não deixa de ouvir. Bom, e se as nossas ideias não estiverem certas? - Mas se as nossas ideias tiverem objecções válidas, então é porque estávamos enganados, e cabe-nos perceber porquê. Aí não há nada a mudar, porque não estamos do lado da razão. Só interessa uma mudança, se seguirmos o lado da razão... e não o nosso lado, só porque é o nosso lado. Nesse caso, estaríamos a fazer o mesmo que os outros - em vez de procurar uma solução global, estaríamos simplesmente a substituir um poder a outro.
De forma que até 2012, procurei atingir a cabeça, sendo que o mais difícil era perceber quais as objecções ou ideias persistentes que a cabeça tinha, para as poder contrariar. 
A meio de 2012, consegui solidificar as minhas ideias por completo, e era-me indiferente se a cabeça mudasse ou não... simplesmente ficaria para trás no processo. Porque um processo natural de evolução é que quem não acompanhe uma melhor modelação universal, torna-se num processo previsível e obsoleto.
Só no início de 2013 tive uma resposta complicada, a um nível que não dá bem para descrever aqui, porque a cabeça manifestou-se facilmente na minha cabeça, ou seja, algo que facilmente um psiquiatra de alguidar classificaria de bipolaridade ou esquizofrenia - e não deixou de haver tentativas externas de ver sintomas nesse sentido. As perguntas foram-se complexificando, e as respostas também. Os textos Hélgia (e outros) no blog Odemaia, dão um pouco conta do assunto. Esse pseudo-interrogatório durou até Dezembro de 2013, e em que nem sempre foi fácil fazer de conta que nada se passava. Na prática, nada se passou, e tudo foi uma mera ilusão da minha parte. Ambas as respostas são equivalentes, para quem está de fora.
Simplesmente haverá vários universos, se assim o quisermos entender, mas mantendo a lógica, só um se vai mostrar consistente do princípio ao fim, e é aquele em que estamos, enquanto prezarmos a nossa racionalidade. Senão, podemos vaguear num mundo de bipolaridade, ou até multipolaridade, que levando a tudo ser possível, afasta-nos do referencial de racionalidade, que este universo impõe. 
Isso pode ser um problema de seres a outro nível... mas não é certamente o nosso, pelo menos enquanto prezarmos a condição limitada com que nascemos - a que chamamos racionalidade.

A oeste nada de novo
Portanto, resolvido esse assunto "complicado" em 2013, desde aí que as coisas voltaram à mais normal das normalidades... Ou seja, com todos os problemas de uma terrinha que ainda preza muito a irracionalidade, mas que não é só defeito, é também feitio. Feitio, porque como outros universos descambam em irracionalidades, o último refúgio é a terrinha que preza a racionalidade. E se no delírio entre génio mau e génio bom, nos fazem entrar presentes inspirados, que nos dão grandes saltos tecnológicos, tanto melhor... a única coisa que aqui não se aceita é magia, sem fundamentação racional. O tempo dos magos magoou, mas já passou... ficou preso em universos que nunca existiram no nosso passado, excepto na sua imaginação, na ilusão de ervinhas, cogumelos e outros alucinogénios, bem como na imaginação e crendice de muitos que ainda acreditam em soluções logicamente inconsistentes.

Contando não abusar da verborreia, e passar o número de postais a um número mais reduzido, penso ainda abordar alguns assuntos pendentes, que são interessantes per se, ou como complemento, durante este ano.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Alvo de Maia - todos os volumes (0 a 7)

Num total de 2666 páginas, seguem os volumes de 0 a 7, agora num formato (quase) definitivo.
Quase, porque ainda haverá uns detalhes a cuidar (mais de consistência de aspecto, do que de gralhas)... mas que penso fazer depois, com mais tempo.
Agradeço aos diversos comentadores(*) que ao longo dos anos aqui foram contribuindo para chegarmos a uma pequena obra... que já não é assim tão pequena quanto isso!

  
Volume 6 (ano de 2015) PDF (276 páginas)

  

    


    


Volume 1 (ano de 2010) PDF (231 páginas)





(*) José Manuel de Oliveira, Maria da Fonte, Calisto, K-Templar, Fausto Guimarães, Olinda Gil, CAFC, Sid, Clemente Baeta, Apostolo, Amélia Saavedra, Evany Fanzeres, Herculano, Paulo Cruz, Bartolomeu Lança, OMC, MBP, João Ribeiro, Bate-n-avó, Moura Sherazade, Fernanda Durão, José Lopes, David Jorge...
... mais ou menos por ordem cronológica, de contributos que chegaram por comentário ou email,  e esperando não me estar a esquecer de ninguém (excluindo anónimos, ou não identificados).