quinta-feira, 22 de junho de 2017

O fogo - tradição junina e joanina

Lembro-me de em criança ver saltar as fogueiras de S. João.

Num texto que aqui escrevi há 4 anos sobre Fernão de Oliveira,  citei o manuscrito onde ele remetia para Vitrúvio e Diodoro Sículo, a especulação de que a linguagem teria tido como origem um grande fogo nos Pirinéus:
"(...) primeiro souberam falar os da nossa terra. Porque Vitrúvio diz no 2º livro dos seus Edifícios que, ajuntando-se os homens a um certo fogo, o qual por acerto com grande vento se acendeu em matos, e ali, conversando uns com os outros, souberam formar vozes e falar. E não dizendo ele onde foi esse fogo, conta Diodoro Siculo, no 6º livro da sua Biblioteca, que foi nos Montes Pirinéus (...)"
Gramática da Linguagem Portuguesa. Fernão de Oliveira (1536)

Sim, lembro-me de ver saltar as fogueiras de S. João. Creio que nunca saltei, porque enquanto criança era um bocado "flor-de-estufa", e o fogo assustava-me o suficiente para me afastar dele.
festa junina terá passado a festa joanina por razão do condicionamento católico que varreu toda a Europa durante a Idade Média. 
Ou seja, como é sabido, as festas do solstício, que assinalavam a entrada do Verão foram reprimidas, e a população encontrou nova forma de comemoração... usando o pretexto do nascimento de S. João Baptista. De acordo com o Evangelho de S. Lucas, o primo de Jesus teria nascido 6 meses antes, o que dava um jeito providencial. Assim, se o Natal entrava na comemoração do solstício de Inverno, o S. João entrava na comemoração do solstício de Verão. 
Por isso, as comemorações juninas, de Juno, de Junho, passaram a comemorações joaninas, de S. João... especialmente conhecido pelo baptismo - pela água! Apesar da pequena contradição, de usar o "fogo pagão" para celebrar S. João que proclamara o uso da "água purificadora", a Igreja tinha a sapiência suficiente para não forçar demasiado a quebra das velhas tradições.
Tinha pelo menos mais tolerância do que as multas até 5000 euros, passadas agora a quem decidir levantar uma lanterna de Kongming, afinal o mesmo balão de S. João que no ano passado o primeiro-ministro e o presidente da república ajudaram a lançar no Porto. Se repetirem a graça este ano, os dois máximos representantes do estado, ajudam à festa, oferecendo uma multa aos foliões. 
Um pouco na linha sarcástica das companhias de seguros, que todos os anos nos dizem que temos o "vencimento" do "prémio" do seguro. Alguém se poderá queixar da falta de sentido de humor desta sociedade?

Ora, o baptismo foi pensado como necessário porque o nascimento encerrava um "pecado original", coisa notável que Santo Agostinho, no "brilho" do seu intelecto pantanoso, argumentara ser transmitido hereditariamente desde Adão e Eva, e que para salvação da alma impura, desobediente às instruções de Deus sobre a Árvore do Conhecimento, fariam o ignoto ser encharcado com água benta pela cabeça. 
Praxe a que não escapou Deus, pois o próprio Jesus foi baptizado pelo primo, permitindo assim salvar-se do pecado original, ou seja da desobediência hereditária contra si mesmo. Isto se alguém quiser dar sentido às diversas narrativas religiosas que primam pela completa ausência de nexo.
Mas, a população ao invés de comemorar a data com um banho purificador, preferiu manter o fogo.

Fogo que, no desenrolar do politicamente correcto, tende a tornar-se num espécime em vias de extinção, e não admiraria que, no espaço de algumas décadas, as crianças só o venham a vislumbrar por acidente, por proibição de fósforos, isqueiros, etc...

No entanto, na história da humanidade, sempre foi dado ao fogo um papel marcante. Teriam as fogueiras servido para afastar animais perigosos, para manter quentes os abrigos em tempos frios, especialmente na Idade do Gelo, teria também o fogo sido usado para a cozinha, inclusive para fundir e cozinhar novos materiais metálicos, e tendo até o fogo sido associado à criação da linguagem, conforme citava Fernão de Oliveira, o seu papel foi marcante na História. 
Os Pirinéus estavam naturalmente associados ao fogo pelo nome, já que o prefixo "Pyro" significava fogo em grego, mas com a transliteração do upsilon em "u" e não em "y", isso remeteria a palavra grega para "Puro". A pureza do fogo constou de diversas religiões, como nos rituais de druidas, no zoroastrismo, ou até na inquisição cristã. 
Como o fogo apenas se propaga com matéria combustível, que é matéria orgânica, o fogo é posterior ao aparecimento da vida, e de certa maneira reduz as diversas combinações do carbono a carbonizações, de onde apenas restam resíduos carbónicos, as cinzas. Assim, se o carbono nas suas combinações orgânicas permitiu uma multiplicidade de formas, o fogo permitia destruir todas, e pela destruição renovar a criação.

O fogo florestal não apresenta nenhuma novidade para sociedades que se habituaram a conviver com ele durante milénios, tirando as vantagens e desvantagens. A única novidade da sua imprevisibilidade relativa é a sistemática e desavergonhada incompetência que procura usar isso como justificação da sua incúria.

sábado, 10 de junho de 2017

Caral-chupa-cigarro, berrões e Gobekli Tepe

Os nomes são de dois locais, com as mais antigas construções registadas: 
Caral-Chupa-cigarro e Bandurria são as mais antigas encontradas na América; (Perú ~ 3000 a.C.) 
Gobekli Tepe tem a datação como mais antiga do mundo (Turquia ~ 10 000 a.C.).

As construções de Caral (esq.) e Bandurria (dir.), no deserto costeiro peruano.

A descoberta destas construções é recente, basicamente tornaram-se conhecidas na transição para este milénio. Soube da existência de Caral por um comentário do José Manuel num texto que publiquei sobre Gobekli Tepe (há quase 7 anos):

Acerca da cultura de Caral, no Perú tem a particularidade de ser contemporânea ou até anteceder as primeiras grandes construções no Egipto, mostrando algumas semelhanças de estruturas pirâmidais, que podem ter influenciado as civilizações seguintes, chegando aos Incas, Maias e Aztecas. Há ainda figuras no solo, que podem anteceder as que se encontraram no deserto de Nazca. 
Mas, por outro lado, essa cultura de Caral apresenta figuras em alto relevo e esculturas razoavelmente diferentes (nalguns aspectos semelhantes a outras encontradas em Jericó e em Ain Ghazal, Jordânia):
Alto relevo (esq.) e esculturas (dir.) na Zona de Caral-Chupacigarro 

Conexões entre o observado no Perú e em Gobekli Tepe foram já interpretadas por Hugh Newman neste texto: 
mas não é sobre esse ponto que irei focar neste texto.


Berrões em Gobekli Tepe
Interessa-me reiterar a comparação que em 2010 coloquei entre algumas estátuas vistas em Gobekli Tepe e os berrões (as esculturas de porcos, javalis), tão comuns em Portugal, que praticamente coabitam com a paisagem nas vilas mais antigas, sendo o berrão mais conhecido a chamada Porca de Murça (ou os Touros de Guisando, em Ávila, Espanha).
Vejamos uma pequena comparação entre o que encontramos em Portugal, e o que também aparece em Gobekli Tepe:

 
Berrões em Trás-os-Montes, estando o da direita na Torre de Dona Chama (em Mirandela).

Em baixo, estátuas de 3 berrões no museu em Gobekli Tepe (esq.) e um outro (dir.):
 

Esta comparação ocorre em paragens e tempos bastante diferentes, que se unem pelo nome antigo comum de Ibéria - no Cáucaso e na península ibérica. Mas a semelhança das formas acaba por ser evidente, no uso de um único bloco de pedra, esculpidos de forma semelhante... e veja-se o detalhe da presa, que evidencia um proeminente canino inferior.
Como a datação dos berrões portugueses é apenas especulativa, e sem uso do carbono 14, as esculturas, que estão normalmente abandonadas, e mal tratadas, são associadas a um período pouco anterior à invasão romana - normalmente o séc. II ou III a.C.

Malas em Gobekli Tepe
Por outro, também conforme já fizemos um texto sobre a representação de bolsas num período pré-histórico, nomeadamente numa comparação entre as bolsas dos Anunaki e as bolsas representadas na pinturas rupestres da serra da Capivara:

veja-se o caso das representações mesopotâmicas e brasileiras:

Bolsas dos "Anunaki" na Mesopotâmia (em cima), e pinturas rupestres no Brasil (em baixo):

A esses dois aspectos, junta-se ainda a observação de que tais representações de bolsas também estão presentes em Gobekli Tepe (como referido num comentário):

As 3 bolsas ou malas, esculpidas em Gobekli Tepe.

... e portanto vemos que há uma certa influência, quase mundial, na escolha de temas, em tempos pré-históricos. Como já falámos do tema do uso dessas bolsas, que permanece uma estranha incógnita no seu propósito, não vamos especular mais.

Gobekli Tepe - uma cápsula temporal
O caso de Gobekli Tepe tem ainda uma outra particularidade, que não é muito referida, mas que junta mais mistério ao achado. É que se concluiu que o santuário teria sido enterrado propositadamente, e assim ficou guardado de outras interferências, até que foi desenterrado em 1995... funcionando assim como uma cápsula do tempo, que se prolongou por 12 mil anos.
Portanto, tal como aconteceu em muitos montes que esconderam dólmens no seu interior, e que se encontram espalhados pela Europa... veja-se o caso da Andaluzia, com os dólmens de Antequera - por exemplo, o dólmen de Menga, o dólmen de Viera, e o tholos de El Romeral, também no caso de Gobekli Tepe, um monte tapou o local, não fazendo suspeitar durante muitos séculos que em baixo de um monte turco, estariam as ruínas de um complexo arquitectónico vindo do final da Idade do Gelo.

Tholos de El Romeral - vista exterior do monte (esq.) e vista interna (dir.)

Já referimos também como estes montes artificiais, como as mamoas, podem ter sido usados como forma de garantir a estrutura do dólmen, mas há uma grande diferença entre Gobleki Tepe e os dólmens de Antequera e outros, encontrados nas ilhas britânicas ou mediterrânicas... é que Gobleki Tepe tem uma datação atribuída de ser 6 mil anos mais antiga.

Vemos ainda que o tipo de escultura dos chamados "guerreiros lusitanos" não parece ser muito diferente de estátuas encontradas em Gobekli Tepe:

 
Guerreiros lusitanos (citânia de Sanfins, e Museu de Arte Antiga) - esquerda e centro;
Escultura de homem em Gobekli Tepe - direita.

Na comparação entre estas estátuas, vemos uma pose semelhante - ambos têm os braços juntos ao corpo, fazendo depois segurar algo nas mãos - no caso dos guerreiros lusitanos, foi pensado ser um escudo, no caso de Gobekli Tepe não se identifica nenhuma arma... mas as semelhanças de postura e estilo, não se deixam de colocar.

Não é nada claro, conforme se tem pretendido, que Gobleki Tepe seja um caso único, mesmo que haja quem diga poder ter sido ali o "Jardim do Éden", dado que fica entre as nascentes dos rios Tigre e Eufrates. Poderão haver outros montes que encerrem ainda vários segredos, talvez tão ou mais antigos do que Gobekli Tepe.  
Fica a questão de saber se, ao fecharem o santuário, se tratou de encerramento ou ocultação?

sábado, 3 de junho de 2017

Orla americana

Um pequeno relato que determinou a Alberico Vespúcio a fama de primeiro explorador do continente americano, foi primeiramente intitulado "De ora antarctica per regem Portugallie pridem inventa", que é como quem diz "Da orla antárctica, pelo rei de Portugal (regem Portugallie) há muito (pridem) descoberta (inventa)". 
Depois o relato foi republicado na Alemanha com o título que lhe deu fama "Mundus novus"... interessando perder a ideia de que o continente americano tinha sido "há muito descoberto" pelo rei de Portugal - na altura, D. Manuel, conforme o próprio reconhecia.
O relato de Vespúcio, que traduzo em baixo (usando o original em latim e uma tradução inglesa), é um misto de fanfarronice infundada, misturada com o reconhecimento implícito de que estaria como passageiro, aterrado de medo, e conduzido pelo mestre do navio português (ao mesmo tempo que se gabava não haver piloto algum que soubesse tanto de cosmografia quanto ele...).
Sendo apenas nesta viagem de 1501 que Vespúcio se dá conta da grandeza do continente americano, será tanto mais ridículo associá-lo a qualquer descoberta, quanto ele afirma que os navegadores portugueses que o acompanhavam conheciam há muito aqueles mares... mas, é claro, só ele saberia de cartografia(!)

O ridículo desta historieta internacional tão mal engendrada, visando apenas publicidade enganosa, nem é o uso de guias portugueses, ao estilo de Hillary ter subido o Everest com o auxílio do sherpa Norgay, ou de Stanley e Livingstone se terem servido do trabalho de guias portugueses, nas suas explorações africanas... É pior, porque neste caso Vespúcio ia como passageiro numa expedição do rei português, que por sinal tinha declarado a descoberta do Brasil um ano antes, com Pedro Álvares Cabral (ou Duarte Pacheco Pereira, que se queixava ter estado no Brasil, a mando de D. Manuel, dois anos antes de Cabral).
Nada disso parece importar, e se os espanhóis exasperaram depois com o relegar do nome de Colombo para o nome de Américo, na ideia de que "América" homenagearia Vespúcio (esquecendo que não se chamou "Vespucia"... mas enfim!), tratava-se em ambos os casos de italianos (pelo menos na versão oficial), metidos ao mar sem qualquer experiência de navegação, e sem perceberem muito bem para onde eram levados.
Colombo insistiu até ao fim na ideia de que chegara às Índias, Vespúcio via na costa brasileira um continente novo, desligado das ilhas das Caraíbas que Colombo visitara, e parecia desconhecer por completo as viagens africanas que os portugueses tinham feito abaixo do Equador, cinquenta anos antes.
Talvez mais notável, é que Vespúcio afirma ter chegado a 50º de latitude sul, ou seja, praticamente esteve apenas a 2º do Estreito de Magalhães em 1501, revelando bem como a sua viagem foi cuidadosamente planeada pelos portugueses, para evitar que soubesse mais do que interessava.
Ou isso, ou estamos no nível do espectador que acha tão normal que os ET's falem inglês, como Vespúcio parecia achar normal conseguir comunicar com os indígenas logo na primeira viagem!

Be ora antarctica per regem Portugallie pridem inventa 
(Da orla Antárctica, pelo Rei de Portugal há muito descoberta)

O relato de Vespúcio é enviado aos seus patronos conterrâneos, os Medicis, e a menção "Antárctica" é usada apenas para nomear o continente abaixo do Equador - a América do Sul, não havendo qualquer relação com o continente gelado que depois viria a ser descoberto. O uso definitivo do nome América, em substituição de "Índias Ocidentais", acaba apenas por resultar da opção dos Estados Unidos em tomar "América" como seu nome.

Fica aqui o relato ------------------------------------------------------------------------

Da orla Antárctica, pelo Rei de Portugal há muito descoberta

Albericus Vesputius saúda primeiro Laurentio Petri de Medicis.
Numa ocasião anterior, escrevi-lhe sobre o meu regresso das novas regiões que encontrámos e explorámos com a frota, a custo e pelo comando deste sereníssimo rei de Portugal; e a estas regiões podemos chamar com razão um novo mundo. Porque nossos antepassados ​​não tinham conhecimento delas, e isso será inteiramente novo aos que ouvirem.
Pois transcende a opinião dos nossos antigos, na medida em que a maioria deles sustentou que não havia um continente a sul da linha equinocial, mas apenas o mar, a que chamaram Atlântico. 
E se alguns deles disseram que um continente havia, negaram com abundantes argumentos de que seria uma terra habitável. Mas essa opinião é falsa e totalmente contrária à verdade - a última viagem o declarou. Pois nessas partes do sul encontrei um continente mais densamente povoado, e abundante em animais, do que a nossa Europa ou Ásia ou África e, além disso, um clima mais ameno e delicioso do que em qualquer outra região conhecida por nós, como saberá de nossa conta, que estabelecemos sucintamente pois apenas o principal importa, e as coisas mais dignas de comentários e memórias vistas ou ouvidas por mim, neste novo mundo, aparecem em baixo.

No quatorze do mês de Maio, de mil e quinhentos e um, partimos de Lisboa, em boas condições de vela, em conformidade com os comandos do referido rei, nestes navios, na finalidade de buscar novas regiões para o sul, e durante vinte meses seguimos continuamente esse curso austral.
A rota desta viagem foi a seguinte: 
- Nosso curso foi estabelecido para as Ilhas Fortunadas, assim chamadas, mas que agora são as Ilhas Canárias. Estas estão no terceiro clima e na fronteira do ocidente habitado. Daqui, por mar, contornámos toda a costa africana e parte da Etiópia até ao Promontório Etíope, assim chamado por Ptolomeu, que é agora Cabo Verde, e Beseghice dos Etíopes. Essa região, Mandinga, fica 14 graus dentro da zona tórrida, ao norte do equador; é habitada por gentes e povos negros.
Tendo recuperado nossa força e assumido o que nossa viagem exigia, içámos âncora e partimos. 
Direccionando o nosso curso sobre o vasto oceano em direção à Antártida, por um tempo virámos a oeste, devido ao vento Vulturnus; e, a partir do dia em que partimos do referido promontório, navegámos por dois meses e três dias antes que qualquer terra nos aparecesse. Mas o que sofremos naquela vasta extensão do mar, quais perigos do naufrágio, o desconforto do corpo que sofremos, e a ansiedade da mente, pois isso deixo para o julgamento daqueles que, por rica experiência aprenderam bem o que é buscar o incerto e descobertas então ignoradas. E se numa palavra eu posso resumir, saberá que dos sessenta e sete dias da nossa viagem, tivemos quarenta e quatro de chuva constante, trovões e relâmpagos - tudo tão escuro que nunca vimos sol de dia, ou céu limpo à noite.
Por isso, o medo nos invadiu e logo abandonamos quase todas as esperanças da vida. Mas durante estas tempestades de mar e céu, tão numerosas e tão violentas, o Altíssimo ficou satisfeito em nos apresentar um continente, novas terras e um mundo desconhecido. À vista disto, ficámos cheios de alegria como qualquer um pode imaginar, caindo no lote daqueles que tiveram refúgio de calamidades e azares hostis. 
Foi no dia sete de Agosto, de mil e quinhentos e um, que ancorámos nas margens dessas partes, agradecendo ao nosso Deus numa cerimónia formal, com a celebração de uma missa coral. Sabíamos que a terra era um continente e não uma ilha, tanto porque se estendia por uma costa muito longa e inflexível, e porque estava repleta de habitantes infinitos. Pois nela encontrámos inúmeras gentes e povos, e espécies de todo tipo de animais selvagens que são encontrados em nossas terras e muitos outros nunca vistos por nós, o que demoraria muito para falar em detalhe. A misericórdia de Deus brilhava sobre nós quando desembarcamos naquele ponto, pois havia uma escassez de lenha e água e, em poucos dias, teríamos acabado nossas vidas no mar. A ele seja honra, glória e acção de graças.

Adoptámos navegar a costa do continente para oriente, a nunca perder de vista. Navegámos até ao final, e chegámos a uma curva onde a costa girou para o sul. A partir desse ponto em que tocámos a terra naquele canto, foram cerca de trezentas léguas, em que a navegação frequentemente desembarcava e havia relações amigáveis ​​com as pessoas, como direi mais abaixo. 
Esqueci-me de escrever que, do promontório de Cabo Verde para a parte mais próxima desse continente, são cerca de setecentas léguas, embora eu deva estimar que navegámos mais de mil e oitocentas, em parte pela ignorância da rota e da vontade do mestre do navio. De conhecimento, em parte devido a tempestades e ventos que nos impediram do curso correto e nos obrigaram a colocar frequentemente.
Porque, se meus companheiros não me tivessem atendido, que conheciam a cosmografia, não haveria nenhum mestre dos navios, nem o próprio líder da própria expedição, que saberia onde estávamos dentro de quinhentas léguas. Pois nós estávamos errantes e incertos no nosso curso, e apenas os instrumentos para tomar as altitudes dos corpos celestes nos mostraram precisamente o nosso verdadeiro caminho - e estes eram o quadrante e o astrolábio, que todos os homens conheciam. Por esta razão, eles me fizeram objecto de grande honra. 
Pois mostrei-lhes que, embora fosse um homem sem experiência prática, através do ensino da carta marítima para navegadores, eu era mais habilidoso do que todos os mestres dos navios do mundo inteiro. Pois estes não têm conhecimento, excepto daquelas águas às quais frequentemente navegavam. 
Agora, quando o referido canto de terra nos mostrou uma tendência do sul da costa, concordámos em navegar além e perguntar o que poderia haver nessas partes. Então navegámos ao longo da costa cerca de seiscentas léguas, e muitas vezes desembarcámos e nos associámos com os nativos dessas regiões, e por eles fomos recebidos de maneira fraternal. Moraríamos também com eles, durante quinze ou vinte dias continuamente, mantendo relações amigáveis ​​e hospitaleiras. Parte desse novo continente encontra-se na zona tórrida, além do equador em direcção ao pólo antárctico, pois começa oito graus além do equador. Nós navegamos ao longo desta costa até passarmos pelo trópico de Capricórnio e encontrámos o pólo antárctico cinquenta graus mais alto do que esse horizonte. Avançámos até dezassete graus e meio do Círculo Antárctico, e o que eu tenho visto e aprendido sobre a natureza dessas raças, suas maneiras, seu trato, a fertilidade do solo, a salubridade do clima, a posição dos corpos celestes no céu, e especialmente sobre as estrelas fixas da oitava esfera, nunca vistas nem estudadas pelos nossos antepassados, estas coisas eu devo relacionar em ordem.

Em primeiro lugar, quanto às pessoas. Encontrámos nessas partes uma multidão de pessoas como ninguém poderia enumerar (como lemos no Apocalipse), uma raça que direi gentil e acessível. 
Todos os dois sexos ficam nus, não cobrindo nenhuma parte de seus corpos. Assim como saem dos ventres de suas mães, ficam até a morte. Têm realmente grandes corpos de constituição quadrada, bem formados e proporcionados, sendo na cor avermelhados. Isso aconteceu, porque estando nus são tingidos pelo sol. Também têm cabelo abundante e preto. Ao andar, e a jogar os seus jogos, são ágeis e dignos. Também têm um semblante bonito, que no entanto destroem, furando suas bochechas, lábios, narizes e orelhas. Não se pense nesses buracos como pequenos, ou que tenham apenas um. Nalguns, vi em uma única face sete perfurações, onde em qualquer uma, seria capaz de prender uma ameixa. Eles preenchem esses buracos com pedras azuis, mármore, cristais muito bonitos de alabastro, ossos muito brancos e outras coisas preparadas artificialmente de acordo com seus costumes. Mas se pudesse ver uma coisa tão inusitada e monstruosa, como um homem ter em suas bochechas e lábios sete pedras, algumas das quais com uma medida e meio de comprimento, não deixaria de se espantar. Pois eu o vi frequentemente, e descobri que sete dessas pedras pesavam dezasseis onças, além do facto de que em suas orelhas, cada uma perfurada com três furos, eles têm outras pedras penduradas em anéis, e esse uso aplica-se apenas aos homens. As mulheres não furam o rosto, mas apenas as orelhas. 

Têm um outro costume, muito vergonhoso e além de toda crença humana. Pois as suas mulheres, sendo muito dadas à luxúria, fazem com que as partes privadas de seus maridos cresçam até um tamanho tão grande que parecem deformados e repugnantes, e isso é conseguido por uma técnica deles, que consiste na mordidela de certos animais venenosos. Em consequência, muitos deles perdem os órgãos por falta de atenção, e continuam sendo eunucos. 
Não têm nenhum pano de lã, linho ou algodão, uma vez que não precisam disso. Nem têm bens próprios, mas todas as coisas são mantidas em comum. Vivem juntos sem rei, sem governo, e cada um é seu próprio mestre. Casam com todas as esposas que quiserem, e o filho convive com a mãe, um irmão com uma irmã, um primo masculino com uma mulher e qualquer homem com a primeira mulher que conhece. Eles dissolvem os casamentos quantas vezes quiserem e não observam nenhum tipo de lei a esse respeito. 

Além do facto de que não têm igreja, nem religião, mas não são idólatras, o que mais posso dizer? 
Eles vivem de acordo com a natureza, e podem ser chamados Epicurianos, em vez de Estóicos. 
Não há comerciantes entre os seus, nem há trocas. As nações se guerreiam sem arte ou ordem. 
Os anciãos, por meio de certos esquemas, inclinam os jovens à vontade deles e inflamam-nos às guerras em que se matam cruelmente, e àqueles a quem trazem. Os cativos domésticos da guerra preservam-nos, não para poupar as suas vidas, mas para que sejam usados como comida. Porque eles se comem uns aos outros, os vencedores comem os vencidos, e entre outros tipos de carne, a humana é comum na dieta deles. 
É tão certo este facto porque um pai já foi visto comer filhos e esposa, e eu conheci um homem, com quem também falei, que tinha a reputação de ter comido mais de trezentos corpos humanos. Também permaneci vinte e sete dias numa determinada aldeia onde vi carne humana salgada suspensa nas vigas entre as casas, assim como connosco é costume pendurar bacon e porco. Digo mais... eles próprios se perguntam por que não comemos nossos inimigos, ou não usamos sua carne como alimento, que dizem ser a mais saborosa. 
Suas armas são arcos e flechas, e quando avançam para a guerra, não cobrem nenhuma parte de seus corpos para protecção, e então procedem como animais nesta matéria. Nós nos esforçámos para dissuadi-los e persuadi-los a desistir desses costumes depravados, e eles prometeram que deixariam. 

As mulheres, como eu disse, andam desnudas e são muito libidinosas, mas têm corpos que são bastante bonitos e limpos. Nem são tão horríveis como se pode imaginar, pois, na medida em que são rechonchudas, a feiúra é menos aparente e é na maior parte oculto pela excelência de sua estrutura corporal. Foi para nós uma questão de espanto que ninguém tinha um peito flácido, e as que tinham filhos não eram distinguidas das virgens pela forma e encolhimento do ventre. E nas outras partes do corpo foram vistas coisas semelhantes, de que não faço menção. Quando tiveram a oportunidade de copular com os cristãos, exortadas pela luxúria excessiva, elas se prostituíram. 
Vivem cento e cinquenta anos, e raramente caem doentes, e se são vítimas de qualquer doença, curam-se com certas raízes e ervas. Estas são as coisas mais notáveis ​​que sei acerca deles.

O clima era muito temperado e bom, e como consegui aprender dos seus relatos, nunca houvera nenhuma praga ou epidemia causada pela corrupção do ar. A menos que morram de morte violenta, vivem por muito tempo. Isto considero ser porque os ventos do sul estão sempre soprando lá, e especialmente o que chamamos de Eurus, o que é o mesmo para eles como o Aquilo é para nós. 
São zelosos na arte da pesca, e o mar está repleto e é abundante em todos os tipos de peixes. Não são caçadores. Isso eu julgo ocorrer porque existem muitos tipos de animais selvagens, especialmente leões e ursos, inúmeras serpentes e outras bestas horríveis e feias, e também porque as florestas e árvores têm um tamanho enorme e se estendem por toda parte. Não se atrevem, nus, sem protecção e sem armas, a se expor a tais perigos.

A terra nessas partes é muito fértil e agradável, abundante em numerosas colinas e montanhas, vales ilimitados e rios poderosos, regados por fontes refrescantes e cheios de florestas largas, densas e impenetráveis, cheias de todo tipo de animais selvagens. 
As árvores crescem até um tamanho imenso sem cultivo. Muitas delas produzem frutos deliciosos para o gosto e benéficos para o corpo humano. Algumas na verdade não o são, e não há frutas como as nossas. Inúmeras espécies de ervas e raízes crescem lá, das quais fazem pão e excelente comida. Também têm muitas sementes completamente diferentes das nossas. 
Não têm metais de nenhuma espécie, excepto o ouro, que nessas regiões existe em grande abundância, embora não trouxéssemos nada na nossa primeira viagem. Os nativos chamaram a nossa atenção que, nos distritos distantes da costa, há uma grande abundância de ouro, e por eles é respeitado e estimado. São ricos em pérolas como lhe escrevi antes. Se eu tentasse contar o que há e escrever sobre as numerosas espécies de animais e o grande número deles, seria também uma questão muito vasta. 
Realmente acredito que o nosso Plínio não tocou numa milésima parte das espécies de papagaios e outros pássaros, outros animais, que também existem nas mesmas regiões, tão diversos na forma e na cor, pois Policleto, o mestre da pintura em toda a sua perfeição, teria ficado aquém de descrevê-los.

Todas as árvores são perfumadas e emitem cada todas e cada uma goma, óleo ou algum tipo de seiva. Se as propriedades destas fossem conhecidas por nós, não duvido que seria salutar ao corpo humano. Se o paraíso terrestre estiver em qualquer parte desta Terra, considero certamente que não estará muito distante destas partes. Sua situação, como relatei, está para sul, num clima tão temperado que invernos gelados e verões ardentes não são experimentados.
O céu e a atmosfera são serenos durante a maior parte do ano, e desprovidos de vapores espessos, as chuvas caem levemente, em três ou quatro horas, e desaparecem como uma névoa. 
O céu está adornado com as mais belas constelações e formas entre as quais eu notei cerca de vinte estrelas tão brilhantes quanto vemos Vénus ou Júpiter. Considerei os movimentos e as órbitas destes, medi suas circunferências e diâmetros pelo método geométrico, e verifiquei que elas são de maior magnitude. 
Vi nesse céu três estrelas como Canopus, duas de facto brilhantes, a terceira fraca. 
O pólo antárctico não é representado com uma grande e uma pequena Ursa, como o nosso pólo árctico, nem qualquer estrela brilhante é vista perto dele, e daquelas que se movem ao redor dele com o circuito mais curto, existem três que têm a forma de um triângulo ortogonal, a meia circunferência, o diâmetro, tem nove graus e meio. Subindo com estes para a esquerda é vista uma Canopus branca de tamanho extraordinário que, quando atinge o meio do céu, tem essa forma:

Depois disso, vêm duas outras, cuja meia circunferência, o diâmetro, tem doze graus e meio; e com elas é vista outra Canopus branca. Seguem-se sobre estas seis outras estrelas mais bonitas e mais brilhantes entre todos os outros da oitava esfera, que no firmamento superior têm uma meia circunferência, um diâmetro de trinta e dois graus. Com elas gira uma Canopus negra de tamanho enorme. São vistas na Via Láctea e têm uma forma como esta, quando observada na linha do meridiano:

Eu observei muitas outras estrelas muito bonitas, cujos movimentos anotei com diligência e descrevi lindamente com diagramas num livro pequeno que tratava desta minha viagem. Mas, neste momento, é este sereno Rei que o tem, e espero que mo restabeleça. 
Nesse hemisfério, vi coisas incompatíveis com as opiniões dos filósofos. Um arco-íris branco foi visto duas vezes pela meia-noite, não só por mim, mas por todos os marinheiros. Da mesma forma, frequentemente vimos a Lua nova nesse dia, quando estava em conjunção com o Sol. Todas as noites naquela parte do céu, inúmeros vapores e meteoritos brilhantes voam. Disse há algum tempo, respeitando esse hemisfério, que realmente não pode correctamente ser falado como um hemisfério completo comparando-o com o nosso, ainda que se aproxima tanto dessa qualquer forma, que podemos ser autorizados a chamá-lo assim.

Portanto, como disse a partir de Lisboa, quando começámos, trinta e nove graus e meio distante do Equador, navegámos para além do Equador cinquenta graus, o que junta em cerca de noventa graus, o que na medida em que faz um quarto de um grande círculo, de acordo com o verdadeiro sistema de medida que nos transmitiram os nossos antigos, é evidente que navegámos uma quarta parte do mundo. E por esse cálculo, nós que vivemos em Lisboa, trinta e nove e meio graus de latitude norte, deste lado do Equador, dá em relação aos cinquenta graus além da mesma linha, na latitude sul, um ângulo de cinco graus numa linha transversal.
Para que compreenda mais claramente: uma linha perpendicular desenhada, quando nos levantamos, de um ponto no céu em cima, o nosso zénite está sobre a nossa cabeça; desce sobre o seu lado nas costelas. Assim, surge que estando numa linha vertical, mas eles estão numa linha desenhada lateralmente. É assim formado um tipo de triângulo ortogonal, a posição de cuja linha vertical ocupamos, enquanto eles a base; e a hipotenusa é extraída do nosso zénite para o deles, como é visto no diagrama. Estas coisas que mencionei são suficientes quanto à cosmografia.


Estas foram as coisas mais notáveis ​​que eu vi nesta minha última viagem, a que eu chamo meu terceiro capítulo. Os outros dois capítulos constavam de duas outras viagens que fiz ao Ocidente sob o comando do sereno Rei das Espinhas, durante as quais anotei as maravilhosas obras realizadas por esse sublime criador de todas as coisas, o nosso Deus. Mantive um diário de coisas notáveis ​​que, se algum dia eu me concederem lazer, eu poderei reunir essas coisas singulares e maravilhosas, escrevendo um livro de geografia ou cosmografia, para que a minha memória possa, viver na posteridade e que o imenso trabalho do Deus Todo-Poderoso, em parte desconhecido para os antigos, mas conhecido por nós, possa ser entendido. Consequentemente, rezo ao Deus mais amado para prolongar os dias da minha vida, que com o Seu favor e a salvação da minha alma eu possa realizar da melhor maneira possível a minha vontade. Os relatos das outras duas jornadas guardo no meu gabinete, e quando este sereno Rei me devolver o terceiro, eu me esforçarei para recuperar meu país e descansar. Lá poderei consultar especialistas e receber de amigos o auxílio e o conforto necessários para a conclusão deste trabalho.

A vós, peço perdão por não ter transmitido esta minha última viagem, ou melhor, o meu último capítulo, como lhe prometi na minha última carta. Saberá o motivo quando lhe digo que ainda não obtive a versão principal deste Rei mais sereno.
Ainda considero privadamente a realização de uma quarta jornada, e disso estou tratando. Já me prometeram dois navios com seus equipamentos, para que eu me possa aplicar à descoberta de novas regiões ao sul, ao longo do lado oriental, seguindo a rota do vento chamado Africus. Nessa viagem eu penso em realizar muitas coisas para a glória de Deus, para a vantagem deste reino e a honra da minha velhice. E não espero mais que o consentimento deste Rei mais sereno. Deus conceda o que é o melhor. Saberá o que virá disto.

Jocundus, o tradutor, está transformando esta epístola do Italiano para a língua Latina, para que os latinistas possam saber quantas coisas maravilhosas são descobertas diariamente, e que a audácia daqueles que procuram escrutinar o céu e a soberania, e conhecer mais do que é lícito saber, possa ser mantido sob controle. Na medida em que, desde tempo remoto, quando o mundo começou, a vastidão da Terra e o que estava aí contido era desconhecido.


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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Superstição Colombina

Um filme muito interessante de 2009, intitulado "Mr. Nobody", começa por abordar uma questão comportamental de pombos, que foi associada à nossa ideia de superstição. As experiências foram começadas por volta de 1948 por Burrhus Skinner, e envolviam a cognição de pombos.
Mr. Nobody (filme de 2009) - Pigeon Superstition

A primeira sequência de imagens são de uma experiência diferente - Robert Epstein em 1984 apresentou um pombo que resolveu o chamado "problema da caixa e banana", cuja resolução era suposta ser exclusiva da macacada. No caso, empurrar uma caixa para lhe permitir alcançar a banana (conforme já vimos os corvos suplantam estas proezas).
No entanto, as imagens seguintes, já com locução, explicam a associação dos pombos a acções que levavam à abertura da portinhola com comida, como o simples premir de um botão com o bico.
Só que Skinner reparou em algo diferente... ao não associar nada à abertura da portinhola, era o próprio pombo que associava algum dos seus movimentos a essa abertura. Conforme é dito, o comportamento do pombo passava a ser aquele que fizera antes da porta abrir. Se batera as asas, vai bater as asas, acreditando que isso irá abrir a portinhola.
Quando o pombo bicava o botão da porta, havia uma causalidade efectiva, engendrada pelos promotores da experiência. Porém, depois, o que o pombo fazia (como bater asas) não se relacionava em nada com a abertura da portinhola... mas o pombo repetia o movimento, acreditando numa causalidade, e que assim não seria mais do que simples superstição.

No título coloquei o epíteto "colombina" não apenas por se relacionar com pombos, mas porque vou associar este episódio ao navegador Colombo... mas poderia associar-se a muito mais gente.

Interessa que as interacções que temos com o mundo são interpretadas no sentido de influenciar o resultado... procuram-se relações de causa-efeito, para que, com mais ciência ou mais fé, ao repetir as mesmas causas, se preveja o mesmo efeito.

Uma inteligência primária é associada a quem conhece causas que influenciam resultados. Essa inteligência primária é científica quando a comunidade constata (ou aceita) essa causalidade, e vai ao ponto de falar em "leis". À ciência aplicada pouco interessa entender a causalidade... constatando que existe relação, aceita-a como "lei da natureza".
Nesse sentido, o que o pombo fez quando bicou no interruptor, ou quando bateu as asas, foi o mesmo tipo de associação primária entre esse acto e o abrir da portinhola. A interpretação de que bicar o interruptor é ciência, e o bater de asas é superstição, não pertence ao entendimento do pombo, pertence ao entendimento de quem faz a experiência.

Não existe apenas esta inteligência primária... há ainda uma inteligência secundária, que manipula a inteligência primária. A inteligência secundária pode dispensar o entendimento primário, fazendo uso indirecto dele, vendo os primários como "patos" a serem usados ou caçados.
A sociedade apenas estimula o desenvolvimento da inteligência primária, já que a outra forma é simples arte do jogo, do trafulha, do especulador, do manipulador, que normalmente detém o poder.
Por exemplo, a um jogador de póquer interessa fazer crer ao opositor a previsão do seu jogo, para depois o surpreender em contrário, quando a quantia em jogo for apreciável.
Ou seja, uma inteligência secundária parasita as inteligências primárias, fomentando a sua credulidade num entendimento previsível, para tirar partido disso. Em muitos aspectos, essa inteligência secundária é uma inteligência feminina, porque as mulheres, afastadas de um protagonismo directo, aprenderam a influenciar os parceiros para agir de acordo com os seus interesses, sem o mostrar. Digamos que se o pombo tinha que perceber que movimento fazia abrir a portinhola, a pomba teria apenas que usar o seu charme para o convencer a partilhar a comida.
O mesmo padrão matriarcal acabou por ser seguido depois no controlo das civilizações. A elite, tal como a bela pomba, apenas precisava de se mostrar como apetecível, ou desejável, para receber presentes de agrado dos pombos. Claro que em casos extremos, também convinha à elite poder ser ameaçadora... não por si, mas compensando elementos agressivos nesse sentido, ou seja, uma tropa.
Porém, a forma mais subtil de prender um sábio ao seu orgulho, é desafiá-lo a construir a melhor prisão, e colocá-lo dentro como último teste... enfim, evadindo-se, seria por falha do projecto - a prisão inviolável.

Para a elite, ao tempo de Colombo, a América era um segredo de Polichinelo. Mas, por oclusão, o prato forte do jogo era apenas a Índia, a China ou o Japão, relatados por Marco Polo... e foi nesse sentido que o pombo colombino seguiu o caminho de oriente pelo ocidente. Enquanto o pombo colombino batia as asas, visitando a cada vez a sua Índia, chamando "índios" aos nativos americanos, a real pomba espanhola recebia os novos territórios sem esforço. E se o pombo colombino caiu em ridículo com a evidência da ilusão, os benefícios desse erro não tardaram a render em ouro à nobreza espanhola.

Ocorre, por demasiadas vezes, a manipulação duma inteligência primária que, em troca de pequenos prémios, aceita dar tudo o que tem, a promotores secundários, que visam os mesmos objectivos, mas sem para isso fazerem esforço algum. No entanto, quer na situação primária, quer na situação secundária, a inteligência visa usufruir do mesmo resultado, apenas usando meios diferentes. Quer o rei, que manda construir, quer o sábio que constrói, ambos visam a construção da mesma prisão inviolável, independentemente de um visar colocar lá o outro.
A inteligência secundária funciona como predadora da primária, tal como em trocas energéticas de sobrevivência, os carnívoros se alimentam de herbívoros... e é mais ou menos neste nível que se coloca a acção das agências de "inteligência", ditas de espionagem.
A competição a nível superior não é no nível dos super-canívoros, é simplesmente uma reflexão sobre o próprio uso da inteligência. Ou seja, um terceiro nível é apenas final se reflectir sobre o próprio uso da inteligência, sobre o seu propósito. Este terceiro nível não visa os mesmos objectivos, não se interessa sobre a matéria produzida, mas sim pela razão global que une as duas concepções anteriores, tipicamente locais e limitadas.

Por exemplo, nas mitologias clássicas os deuses não se tornaram deuses por nenhuma razão lógica... simplesmente nasceram deuses. O que os cientistas tentaram fazer durante estes tempos foi construir razões mais lógicas, mais sustentáveis, para terem poderes sobrenaturais, e acima disso, quem fomenta o desenvolvimento científico, usa esses poderes a seu belo prazer, com o intuito de a eles ter direito, sem quase nada fazer por isso. A um terceiro nível interessa saber se esta relação, se esta circunstância de desenvolvimento e relacionamento, tem algum sentido global acima desse propósito básico de supremacia local e limitada. Interessa entender qual a consistência global e final de um universo que se envolve no desenvolvimento destas diversas conexões.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Camara obscura

Quem já esteve num quarto completamente escuro, com a luz a entrar apenas por uma pequena frincha, poderá ter observado o fenómeno da "câmara escura" - ou seja, vemos reflectido numa parte do tecto ou da parede do quarto, o que se passa na rua... mais do que isso, passa-se como um filme a cores!

O princípio base de qualquer aparelho fotográfico, inclusive das actuais câmaras digitais, é esse princípio da câmara escura... que estranhamente não é muito divulgado, mas que muito provavelmente seria do conhecimento pré-histórico.

Para ilustrar o assunto, usamos as experiências que Abelardo Morell fez recentemente nalguns quartos, com paisagens que são por si esclarecedoras do local onde foram feitas.
Abelardo Morell - Camera Obscura (longa exposição em quartos escuros) 
- quarto no Hotel Frantour em Paris (1999), e quarto no Hotel Loews em Filadélfia (2014).

A questão que se pode colocar, para quem desconhece fotografia, é a de como as paisagens exteriores acabam por ficar tão nitidamente reflectidas no interior das paredes do quarto escuro?
- Bom, esse é o princípio da câmara escura...
... a luz entra dentro da câmara (do quarto) por um pequeno orifício, as imagens aparecem invertidas, e apresentam melhor definição quando o buraco é mais pequeno... tendo por outro lado a desvantagem de que se entrar menos luz, ver-se-à muito pior a imagem exterior. Quando o buraco aumenta de dimensão, ainda que entre mais luz, as imagens acabam por ficar muito mais desfocadas.
No caso das experiências feitas por Abelardo Morell, como ele visou uma grande definição, o orifício deveria ser pouco maior que o buraco de uma agulha, o que implicava tão pouca luz, que as fotos que vemos em cima tiveram entre 5 e 10 horas de exposição.

Interessa aqui notar que este tipo de fenómeno é perfeitamente natural e visível em múltiplas situações, não sendo necessária exposição exagerada. A wikipedia tem uma página muito boa sobre a câmara escura, onde é ilustrado um exemplo visível no sótão do castelo de Praga:
Sótão de Castelo em Praga faz câmara escura com imagem do Palácio no exterior. (wikipedia)

Interessa que independentemente de se conseguir registar a imagem numa película, ela seria visível desde tempos imemoriais, especialmente em cavernas.
Por exemplo, na Idade do Gelo, devido ao frio, se os homens tentassem tapar a entrada, um simples buraco nessa cobertura iria provocar o efeito de câmara escura nas paredes da caverna...
Isso permitiria, por outro lado, que as paredes da caverna (próximas do exterior) servissem como telas prontas a uma cópia do desenho projectado naturalmente - ainda que de forma invertida.
Tanto mais, quanto aos pedreiros foi possível com tijolos tornar quartos escuros, e notar que uma pequena abertura de luz permitiria ver o exterior reflectido nas paredes, como uma imagem fotográfica. Assim, tais técnicas estariam ao dispor desde o tempo das primeiras construções.

Portanto, a ideia subjacente à fotografia existia há milénios. Se Platão na Alegoria da Caverna falava em sombras projectadas, o seu discípulo Proclo no Séc. V, comentava o assunto em termos do efeito de reflexão que pode ser visto na câmara escura.

O processo foi usado muito certamente para fazer desenhos, ou para treinar o traço, sobre a imagem desenhada. Não é assim de excluir que alguns desenhos, até pré-históricos, tenham sido feitos acompanhando o traço visível na parede rochosa.
Os quadros romanos mais realistas, como os retratos de Fayum, podem ter sido elaborados usando esta técnica, colocando a pessoa retratada no exterior, e o pintor no interior de uma câmara escura.
É pelo menos reportado que alguns quadros holandeses do Séc. XV, e seguintes, podem ter sido produzidos desta forma, e é assumido que se tratou de uma técnica de pintura até ao aparecimento das primeiras fotografias no Séc. XIX.
Ou seja, a grande novidade no Séc. XIX foi apenas o conseguir-se fixar a imagem, usando uma emulsão de prata muito sensível à luz... mas nem será de excluir que existissem outras substâncias que reagindo à luz, como a fotossíntese, permitissem um registo da imagem vista.

Um exemplo assumido da técnica da Camara Obscura é visto nas pinturas de Canaletto, nomeadamente nas suas paisagens de Veneza. Além disso, pelo simples uso de uma lente prismal, temos o princípio da Camara Lucida (ou câmara clara) que permite a projecção do que se vê numa mesa de pintura.
A tese de que este tipo de técnicas permitiu a grande diferença entre as pinturas pré-renascentistas e as pinturas realistas seguintes foi defendida por Hockney e Falco.
Convém notar que com o aparecimento e divulgação da fotografia, ficando mais clara a facilidade de fazer quadros realistas, isso levou ao aparecimento das técnicas alternativas de pintura - que se seguiram, desde o impressionismo até aos estilos completamente abstractos e desligados da realidade.

Como mágicos que não gostam de revelar os seus segredos, com medo do público achar menos fascinante o seu trabalho de ilusão, também os pintores não gostaram de ser associados a estas técnicas de simplificação, que usavam o auxílio da câmara escura, da câmara clara, ou outros artifícios com espelhos ou lentes... 
Sempre que existiu uma diferença significativa entre o conhecimento do mago e a ignorância do espectador foi possível iludir plateias. Se algumas destas ilusões eram assumidas como tal, para conforto do espectador, muitas outras foram usadas como simples truques de magia visando captar uma credulidade religiosa... e isso seria tanto mais facilitado quando se visava impressionar crianças, ou camponeses menos instruídos, sendo ainda claro que não foi preciso muito para iludir um desaparecimento da Estátua da Liberdade perante uma plateia incrédula.

Finalmente, só uma pequena nota acerca da palavra "câmara"... que, como se poderá ler no Vocabulário de Bluteau, trata-se "da casa em que se dorme", ou melhor, a "câmara" é onde está a "cama", portanto um local privado, com pouca luz. Desse significado antigo, aos outros significados que se lhe seguiram, que foram desde "camareiro" (moço que assistia o senhor na câmara), a "camarata" ou "camarada", na partilha de camas, até às "câmaras" municipais, foi apenas um pequeno passo de privacidade.

sábado, 29 de abril de 2017

dos Comentários (29) - quinas otomanas

Adiciono um comentário de David Jorge que nos chegou por email.
Respeita a uma bandeira que se pode ver num atlas otomano de 1551, e onde figura bem destacada sobre Istambul. Curiosamente essa bandeira é muito parecida com o padrão português das quinas - talvez apenas com a diferença do uso das cores estar invertido.
Quinas habituais no Séc. XV 
- vermelho circunda o fundo azul com as quinas (brancas ou pretas)

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Mais uma vez lhe escrevo para lhe divulgar um mistério que me deixou algo perplexo.
Recentemente adicionei mais um atlas "arabe" à biblioteca:
1551 - Mohammmad, Ali ibn Ahmad ibn  - Atlas Portulano do Mediterrâneo - الصفاقسى

A Galica coloca-o por meados de 1551.

A maioria das cartas estão orientadas por meio de setas que "tudo indicaria" apontam para Norte.
Como exemplo coloco as seguintes imagens:



... etc. Até aqui não há nada de invulgar. 
A única carta que não tem a seta a apontar para Norte, apontando ela para ESTE, tem uma bandeira muitíssimo estranha sobre Istambul.


É uma bandeira com 5 besantes "azuis" sobre fundo vermelho.

Há semanas que procuro, sem sucesso, qualquer indicio histórico do império otomano que possa justificar esta bandeira.

Terá havido algum erro clínico na pintura desta bandeira especifica que levasse a uma má interpretação?
As restantes têm o mesmo padrão "entrelaçado" (desenhado muito fino talvez a lápis) no centro, no entanto apenas têm 4 pintas não 5 como esta.
As únicas bandeiras otomanas que encontrei até agora com a forma idêntica a esta são completamente vermelhas com texto a dourado, (o conteúdo é semelhante ao da bandeira antiga da dinastia Nasrid de Granada).


No entanto nenhuma destas bandeiras tem o que quer que seja a ver com a bandeira nessa carta.

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Email de David Jorge  (21 de Abril de 2017)
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Ver também a misteriosa bandeira com 5 quinas apresentada em Jerusalém no Livro de Marinharia:

sábado, 22 de abril de 2017

Vale da Sombra da Morte

A Guerra da Crimeia (1853-56) foi o primeiro grande conflito a ter documentação fotográfica, uma boa parte pelo fotógrafo inglês Roger Fenton, e sendo particularmente célebre a fotografia que ficou conhecida como "Valley of the Shadow of Death" (invocando o Salmo 23 do Velho Testamento):
Guerra da Crimeia - Valley of the Shadow of Death, por Roger Fenton

O único factor que identifica tratar-se de uma foto de guerra são as balas de canhão dispersas, acumuladas numa estrada, num vale da Crimeia, onde se deu a desastrosa "carga de cavalaria ligeira".

Num conflito que consta com centenas de milhares de mortos, nas fotografias de Fenton não se vê um único... e esse é um ponto interessante, não se conhecerem fotografias das vítimas. Fenton regista poses em campo de comandantes, de soldados, a disposição de navios, e até ilustra mesmo a sua caravana fotográfica, mas o mais que se lhe conhece é a foto de um ferido a ser assistido:
Roger Fenton: Um zuavo (francês argelino) ferido é assistido, pose das tropas, 
caravana fotográfica de Fenton, e inúmeros navios no porto de Balaclava 

Coloca-se então a questão - havia alguma proibição efectiva à divulgação de fotos de mortos?
Certamente que não seria muito conveniente ver a parte desgraçada, onde do heroísmo restavam apenas um empilhar de mortos em poses tenebrosas. A questão seria mais de saber se se tinha tratado de uma opção circunstancial, ou generalizada... 

Na década de 1850 as fotografias davam os seus primeiros passos, após os primeiros daguerreotipos, inventados duas décadas antes, e eram já vários os fotógrafos que se aventuravam pelo mundo, como o caso de Felice Beato, que divulgou as primeiras fotos da China e Japão. 

Em 1860, aquando da 2ª Guerra do Ópio, Felice Beato mostra a incursão anglo-francesa nos Fortes Taku, com toda a crueza do resultado em morte dos defensores chineses:
Felice Beato (1860) - tomada dos Fortes Taku na 2ª Guerra do Ópio.

Portanto, ainda que houvesse alguma tentativa de contenção, Felice Beato terá arranjado forma de fazer chegar e divulgar as suas fotografias na Europa.
Já antes, em 1859, no decurso da 2ª Guerra de Independência Italiana, na batalha de Melegnano, aparecera uma fotografia dos corpos mortos em combate.
Cemitério de Melegnano após a batalha (1859) - imagem da foto estereoscópica

É significativa a abundância de fotos estereoscópicas, visíveis em perspectiva a 3 dimensões, logo no início das próprias imagens fotográficas. A técnica não sendo complicada, acabou por ser progressivamente abandonada, nas décadas seguintes - mas ainda hoje poderia ser facilmente retomada (como uma novidade com mais de 150 anos...)
Outro aspecto curioso, que se pode ver nas fotografias de Felice Beato, era a sua pintura posterior, como neste exemplo, das suas muitas fotografias do Japão:
Felice Beato - Samurais japoneses - fotografia pintada (imagem).

Finalmente, o aspecto menos glorioso da guerra acabou por ser espelhado nos fotógrafos da Guerra Civil Americana, nomeadamente Mathew Brady, Alexander Gardner ou Timothy O'Sullivan, que focam particularmente a carnificina ocorrida, nos momentos históricos mais significativos - como no caso da Batalha de Gettysburg (1863):
Timothy O'Sullivan (1863) Batalha de Gettysburg - corpos de soldados unionistas (imagem)

Há uma diferença significativa entre o que se passa nos últimos 150 anos, e antes disso...
A partir de 1850 as técnicas fotográficas generalizam-se muito rapidamente, e desde aí todos os acontecimentos relevantes, que não foram apenas episódios muito pontuais, em sítios remotos, foram fotografados. Se as fotografias foram tornadas acessíveis ou não... pois isso já é um assunto diferente, dado que continua a haver um profundo secretismo histórico que compromete heranças de estados e nações. Mas é claro que há uma diferença muito significativa entre os quadros encomendados, com um certo cariz heróico na guerra, e a crueza da realidade que é captada por uma máquina fotográfica, como se vê bem neste último exemplo de Gettysburg, que fotografa os vencedores... mortos no campo de batalha.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Ao mau mar ia (3)

Para terminar os textos sobre a cartografia portuguesa, sobre as cartas de marear do Séc. XV, que serão mais tarde abandonadas, é talvez mais significativo o caso da carta "Pedro Reinel a fez" já que mistura a representação dos portulanos, essencialmente feitos pelo rumo com a bússola (ou agulha de marear), com uma referência aos paralelos. Aliás, é considerado que esse é o primeiro mapa que se conhece com uma escala de latitudes.
"Pedro Reinel a fez" - o primeiro mapa com escala de latitudes.

As linhas de rumo numa carta de marear são fixadas num certo pólo arbitrário, distinto do pólo norte, mas fixando uma direcção a partir daí, funcionam como meridianos, definindo um círculo maior.
Ao contrário, ao fixar a posição de latitude, os paralelos são círculos menores (à excepção do Equador), e deixam de pretender ter uma distância constante em graus, caindo-se no problema típico dos planisférios, como na projecção de Mercator, em que há uma excessiva distorção junto aos pólos - por exemplo, o Círculo Polar Árctico tem menos de metade do comprimento do Equador.

No entanto, a grande vantagem de usar as latitudes, em conjunto com a orientação do rumo da bússola, era a de permitir definir não apenas uma direcção, mas também uma forma de medir o afastamento já feito, seguindo nessa direcção. Ou seja, poderia dar-se uma direcção SO para seguir na bússola, até se atingir uma certa latitude, por exemplo, a latitude de um trópico de Cancer, e aí mudar para uma outra direcção até outra latitude. Essa seria a principal novidade que as cartas portuguesas traziam face às representações anteriores. 

Pedro Nunes descreve no tratado em defesa da carta de marear uma diferença principal para vantagem dos nossos marinheiros:
Levavam cartas mui particularmente rumadas, e não já as de que os antigos usavam, que não tinham mais figurados que doze ventos, e navegavam sem agulha. E pode ser que seja esta a razão, porque não se atreviam a navegar senão com vento próspero, que é a popa, e iam sempre ao longo da costa, enquanto podiam, como verá quem diligentemente ler em Ptolomeu as navegações que os antigos faziam pelo mar da Índia.As nossas cartas são muito diferentes delas, porque repartimos as agulhas que em todo o lugar nos representam o horizonte, em 32 partes iguais, e podemos governar a uma parte destas quanto espaço queremos, sem embargo que no processo do caminho se mudem os horizontes e alturas.
reforçando mais à frente - "… senão que a carta não é planisfério, que nos faça quanto avista aquela imagem e semelhança do mundo, que fazem os de Ptolomeu, e outros que aí há, nos quais há somente paralelos e meridianos."

Portanto, a grande diferença das cartas de marear é que, para além de outros truques escondidos, estavam particularmente adaptadas à arte de navegação com bússola, e nisso faziam grande diferença das cartas antigas. Terá sido essa maior diferença que terá permitido a Roma autorizar uma exploração para além dos limites restritos pela antiga concepção do mundo. 
A linha que partia para Oeste, numa rosa-dos-ventos em Lisboa, não seria o paralelo de Lisboa, seria um meridiano com pólo em Lisboa. Ainda que para distâncias próximas a diferença não fosse muito grande, para maiores distâncias a distorção levaria a conceitos completamente diferentes, como podemos ver na imagem seguinte:
Diferença entre a linha paralela (rosa) e uma linha meridiana na carta de marear (vermelho).

Também por isso, o limite de distorção que esse rumo por linhas meridianas seguiria, acabava por ficar delimitado pela junção de novas rosas-dos-ventos, definindo um certo limite de aplicabilidade para o uso de um rumo constante. Parece ainda claro que havia ainda um misto de novidade e incompreensão de associar o pólo norte magnético ao pólo norte, ou mesmo para além disso, acreditando numa certa infalibilidade da navegação por bússola, algo que só veio a ser melhor esclarecido por João de Lisboa.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Ao mau mar ia (2)

O mapa que considero de referência, para compreender a cartografia portuguesa é, sem dúvida, o globo de João de Lisboa. As semelhanças com o actual símbolo da ONU, não são mera coincidência, resultam de adoptar uma representação polar, e focar ou não no meridiano de Greenwich.
 
Globo de João de Lisboa. Símbolo da ONU (com 33 sectores)

Ora, no caso do Globo de João de Lisboa, apenas 3/4 do mapa correspondem a uma representação, o quadrante superior deve ser negligenciado, conforme indicam as meias flores de lis. Isto tanto pode ser visto, como uma indicação de ocultação, como uma indefinição da demarcação na zona do anti-meridiano das Tordesilhas, ou ainda como resultado da projecção cónica que João de Lisboa fez:
Globo de João de Lisboa (c. 1514), e uma projecção cónica actual pelo meridiano de Greenwich.
A principal diferença é a ausência da Austrália, e a distorção no hemisfério sul é um pouco diferente 

Em João de Lisboa, o  foco central é o Pólo Norte, e o círculo (amarelo), que une os 16 focos (a que fizemos referência no texto anterior) é o Equador:
O globo de João de Lisboa com os 16 focos no Equador, e ocultando um quarto do mapa. 

Outra observação interessante, consiste em focar no losango vermelho, a meio do mapa.
Focando nesse quadrado, compreendemos melhor o mapa de Reinel de 1504,
porque a parte americana aparece desta forma no topo dos mapas, confundindo a parte setentrional com zonas árcticas, quando correspondem apenas à costa atlântica norte-americana.
Também o mapa polar de Vesconte de Maggiolo (indicado num comentário de David Jorge), irá colocar as terras com esta orientação, mas com uma incerteza e qualidade muito inferiores:
Vesconte de Maggiolo - representação polar em 1511.
A confusão entre as representações dos portulanos com as latitudes aparece no mapa de Cantino, que usa não 1 mas sim dois círculos com 16 focos (o que nos dá um total de 33 focos):

Desenhando os dois círculos evidentes no mapa de Cantino, agora no Globo de João de Lisboa, verificamos quais eram as duas regiões que procuravam ser representadas, com as "novas" informações que o espião do Duque de Ferrara conseguira obter pelos mapas portugueses em 1502.

Penso que estes casos tornam bastante evidente como o globo de João de Lisboa era uma peça de cartografia que suplantava tudo o que se conhecia fora de Portugal e de 1514 até cerca de 1764, nesses 250 anos, ficou como uma das melhores representações... que nos chegaram até hoje.