sábado, 11 de fevereiro de 2017

Ó rio... sinto que o cinto

(1) Órion - sinto que o cinto ser colado à cintura da gravura pré-histórica humana, esculpida num osso de mamute (ver figura seguinte), seria uma conjectura digna de desprezo e escárnio... noutras circunstâncias. 
Mas não foi... e a um investigador da Univ. Munique bastou ver que umas mãos levantadas, os pés, e a cintura fina do homem, poderiam corresponder a uma configuração das estrelas em Órion (ver figura seguinte, à direita), para essa afirmação estar já reportada no Guiness Book of Records como o mapa estelar mais antigo, acrescendo para isso uns pontinhos sem sentido, espalhados no verso do osso!
 
À esquerda: «The carvings have been interpreted as a star map»  in BBC News (21/'01/2003) "Oldest star chart found" 
À direita: A constelação de Órion... que supostamente é representada pelo homem de braços levantados! 

A nossa sociedade tem assim o magnífico condão de dar estatuto de "verdades" a grandes patacoadas, ao mesmo tempo que tenta descartar verdades como patacoadas. 
Foi assim, com o simples manipular de opiniões, que foi difundida a ideia de que as constelações teriam algum correspondente entre estrelas e desenhos de animais, que levassem à designação que traziam desde a Antiguidade. Como as estrelas eram meros pontos, a união desses pontos levar a um qualquer desenho imaginado, simplesmente ganhou popularidade.

(2) Órion - sinto que o cinto ter uma correlação quase exacta com a posição das pirâmides de Gizé, conforme é descrito no artigo da Wikipedia... 
levanta muito mais polémica, conforme se pode ver na figura:
Posição das estrelas do cinto de Órion, com sobreposição da localização das pirâmides de Gizé.
A posição das estrelas é  perfeita face à posição relativa das pirâmides. (imagem : Wikipedia)

Esta observação poderia ter sido notada em qualquer momento na História, desde a construção das pirâmides, e em especial a partir do Séc. XVIII. Porém, só teve adeptos dispostos a defendê-la desde há uns 30 anos. Um deles, Graham Hancock, foi severamente criticado pelos egiptólogos por sugerir tal "disparate". 

Portanto, para quem tenha dúvidas, fica bastante claro que em assuntos "secretos" - quanto mais as afirmações se aproximarem da verdade, mais facilmente são alvo de ferozes críticas, enquanto que os mais grosseiros disparates seguem o percurso inverso. 

(3)  O rio - será o Nilo, tratando-se do Egipto. Órion, um mitológico caçador filho de Poseidon, tendo o seu cinto atado às pirâmides egípcias, na margem do Nilo, definiria um marco geográfico, tal como se definem outros - ainda reconhecíveis nos nomes das constelações vizinhas:

  • A constelação de Touro (Taurus) ligada aos Montes Taurus, na Turquia;
  • A constelação de Perseu (Perseus) ligada à Persia, e ao Golfo Pérsico;
  • A constelação de Carneiro (Aries) ligada ao região Ariana ou Aria.
Isto fica mais claro quanto colocamos os nomes das constelações num mapa face às suas posições relativas. No caso das constelações de Touro, Perseu e Aries, a coincidência geográfica é completa, conforme podemos ver:

Mapa baseado na Geografia de Erastóstenes (em cima), e as constelações próximas a Órion (em baixo).

No caso da constelação Eridanus, foi associada ao Nilo, e tem um nome próximo ao Mar Eritreu, o Mar Vermelho, que corre paralelamente ao Nilo, portanto a relação também será próxima. Já mais interpretativa será a constelação de Gémeos, que teria aqui um correspondente entre a Grécia e Itália, lembrando que Castor e Polux para além de serem estrelas da constelação, eram gémeos, filhos de Leda, e irmãos das gémeas Helena e Clitemnestra. Todos estes quatro gémeos tomam parte fulcral no enredo da Guerra de Tróia. Tal como podemos lembrar que a fundação de Roma é atribuída a outros dois gémeos - Remo e Rómulo.
Quanto às restantes constelações, sendo umas invenções mais recentes que outras, as associações são ainda mais dúbias.

(4) Órion enquanto caçador é associado ao Cão Grande, a constelação Canis Major, que tem Sirius, a estrela mais brilhante no céu. E se as estrelas de Órion pouco terão mudado de posição nos últimos milhares de anos, dada a sua grande distância ao Sol, o mesmo não se terá passado com Sirius, que é uma estrela próxima.
Sirius era uma estrela importante no Egipto, mas localizando o cinto de Órion em Gizé, a correspondente posição geográfica desta estrela fica bem longe do Egipto.
Onde? Bom, tal como no céu estrelado, a constelação de Órion pode servir para identificar outras estrelas, acontece o mesmo no correspondente geográfico:
O cinto de Órion aponta numa direcção para Sirius (Cão Maior), 
e na outra direcção para Aldebaran (Touro).

Contudo, lembramos que já há uns anos seguimos aqui essas direcções, porque são as mesmas do "alinhamento piramidal" de Gizé:


Ou seja, no globo terrestre, vamos parar pelo lado de Aldebaran a Heliopolis (Baalbec), e pelo lado de Sirius vamos parar à Ilha de São Tomé.
Acontece que, como as coincidências não ficam por aqui, ocorrem na Ilha de São Tomé umas gigantescas formações geológicas, autênticos colossais monolitos, do qual se destaca o "Pico do Cão Grande" (com 663 metros de altura):
O pico do Cão Grande (com 663 m) na Ilha de S. Tomé

Admitindo que as entidades oficiais possam atribuir ao nome "Cão Grande" uma referência popular a um cachorro que se perdeu... não deixamos de lembrar que o alinhamento piramidal apontava para Sirius, a brilhante estrela da constelação do Cão Grande (Canis Major).
Bom, e também é coincidência pelo lado oposto a Sirius ir parar a Baalbec, que está na Síria.

(5) Órion - sinto que o cinto está colado ao Equador Celestial. Bom, e que ilha segue o alinhamento piramidal e está situada no Equador Terrestre?
- São Tomé, mais propriamente, o Ilhéu das Rolas.
Só que as coincidências ainda não acabam aqui... e temos 3 ilhas:
- São Tomé, o Príncipe, e Fernando Pó, alinhadas tal como as pirâmides, no Golfo da Guiné (excluímos o Ilhéu de Ano Bom, que é de dimensão reduzida, pouco maior que o Ilhéu das Rolas).
As ilhas de S. Tomé, Príncipe e Fernando Pó, no eixo dos Camarões

Ora, estando alinhadas com as pirâmides, como estas estão alinhadas com Órion, também estas três ilhas alinham com as três estrelas do Cinto de Órion, apenas com uma pequena diferença - estas estão um pouco acima do equador e as estrelas do cinto de Órion estão um pouco abaixo dele.
É claro que, sendo formações naturais, a posição das ilhas ou o seu tamanho não segue a coincidência quase perfeita que Graham Hancock observou para as pirâmides... está longe disso. Mas o simples facto de seguirem a direcção, e estarem perto do equador, já é uma coincidência notável.

Coincidência notável que os construtores das pirâmides não deixaram de fazer notar, porque se tivessem colocado as pirâmides noutro lado, só encontrariam o Equador em São Tomé, na linha que une a Baalbec... e em mais nenhum sítio ficariam ao lado do Nilo (que apontava o norte).

Neste caso fica bem o nome "São Tomé", talvez porque fosse "ver para crer", o que lá encontraram deixado pelos egípcios ou fenícios. Se o Príncipe foi assim nomeada em tributo a D. João II, já o destino do seu filho, outro príncipe, acabou por ganhar significado mais à frente... no Monte Camarões, porque o nome desse monte vulcânico, antigamente invocado como "Carro dos Deuses", acabou por aparecer ligado à morte do príncipe - afinal o seu corpo foi recolhido num Camaroeiro, que a Rainha D. Leonor passou a ostentar como símbolo.

(continua)



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

dos Comentários (27) - Ligações

Seguem-se alguns links, ou ligações, sugeridas nos últimos tempos:

Esta lista de 2017 não está fechada e ficará aberta a novas sugestões.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Fort (1883) Cracatoa, chuvas, e eventos interplanetários

Um assunto que toma a atenção de Charles Fort é a erupção do vulcão Krakatoa em 26 de Agosto de 1883. Não tanto pelo fenómeno em si, mas por tudo o que foi atribuído à erupção do vulcão... depois desta ocorrer, e especialmente antes - ou como diz Fort:
  • Annual Register, 1883-105: That the atmospheric effects that have been attributed to Krakatoa were seen in Trinidad before the eruption occurred
  • Knowledge, 5-418: That they were seen in Natal, South Africa, six months before the eruption.
Portanto, a comissão científica (inglesa) que cuidadosamente elaborou um relatório, tanto atribuiu efeitos posteriores, passados 7 anos à erupção do Krakatoa, como ainda lhe atribuiu efeitos anteriores, que teriam sido relatados 6 meses antes da erupção (na província do Natal, na África do Sul).

Esporos da chuva vermelha em Kerala
Porém Charles Fort, reúne mais relatos estranhos.
Nomeadamente da existência de chuvas de sangue, ou chuvas vermelhas (red rain), como a que acontece na Índia, em Kerala desde 1892, sendo a última em 2012 (com uma ocorrência intensa entre Julho e Setembro de 2001):

A este propósito houve quem sugerisse que estes esporos não seriam terrestres (até porque cresciam a 300º C), indo no sentido de uma teoria da Panspérmia (ver ainda o caso do Tardigrade).

Essa hipótese foi avançada recentemente, mas fazia já parte das ideias pioneiras de Charles Fort que, ao contrário do que era hábito no seu tempo, admitia naves interplanetárias, que poderiam deixar resíduos de matéria no espaço (inclusivé), para depois caírem na Terra!

Mas, Charles Fort não usa explicações extraterrestres para tudo e para nada... como passou a ser hábito fazê-lo desde a segunda metade do Séc. XX. 
Reporta, tal como nós já o fizemos, o caso das luzes na Lua, mas junta mais testemunhos:
In Philosophical Transactions, 82-27, is Herschel's report upon many luminous points, which he saw upon—or near?—the moon, during an eclipse. Why they should be luminous, whereas the moon itself was dark, would get us into a lot of trouble—except that later we shall, or we sha'n't, accept that many times have luminous objects been seen close to this earth—at night.
But numerousness is a new factor, or new disturbance, to our explorations—
A new aspect of inter-planetary inhabitancy or occupancy—
Worlds in hordes—or beings—winged beings perhaps—wouldn't astonish me if we should end up by discovering angels—or beings in machines—argosies of celestial voyagers—
In 1783 and 1787, Herschel reported more lights on or near the moon, which he supposed were volcanic.
The word of a Herschel has had no more weight, in divergences from the orthodox, than has had the word of a Lescarbault. These observations are of the disregarded.
Bright spots seen on the moon, November, 1821 (Proc. London Roy. Soc., 2-167).
For four other instances, see Loomis (Treatise on Astronomy, p. 174).
A Lua não seria caso único... a observação chegou ao ponto de ser avistado um "mundo" (ou uma grande estação espacial) em Vénus, a que foi dado o nome de Neith:
Visitors to Venus:
Evans, Ways of the Planets, p. 140:
That, in 1645, a body large enough to look like a satellite was seen near Venus. Four times in the first half of the 18th century, a similar observation was reported. The last report occurred in 1767.
A large body has been seen—seven times, according to Science Gossip, 1886-178—near Venus. At least one astronomer, Houzeau, accepted these observations and named the—world, planet, super-construction—"Neith." His views are mentioned "in passing, but without endorsement," in the Trans. N.Y. Acad., 5-249.
O que preocupava Charles Fort era o desprezo destas ocorrências pela Ciência, mesmo que se tratassem de observações de cientistas reconhecidos. Sarcasticamente disse: 
"a satellite to Venus might be a little disturbing, but would be explained—but a large body approaching a planet—staying awhile—going away—coming back some other time (...)"

... ou seja, um grande corpo aproximando-se de Vénus, e ficando em órbita durante algum tempo, até que depois decidia "ir-se embora", para depois voltar - tudo isso levantaria a suspeita de que se poderiam tratar de grandes naves espaciais - visíveis da Terra.
Menciona ainda um outro caso semelhante em Marte :
A light-reflecting body, or a bright spot near Mars: seen Nov. 25, 1894, by Prof. Pickering and others, at the Lowell Observatory, above an unilluminated part of Mars—self-luminous, it would seem—thought to have been a cloud—but estimated to have been about twenty miles away from the planet.
Especialmente porque nos diz respeito, é interessante a observação de Charles Fort sobre um terramoto em Lisboa (tudo indica ser o de 1755):
The quay of Lisbon.
We are told that it went down.
A vast throng of persons ran to the quay for refuge. The city of Lisbon was in profound darkness. The quay and all the people on it disappeared. If it and they went down—not a single corpse, not a shred of clothing, not a plank of the quay, nor so much as a splinter of it ever floated to the surface.
Há quem pretende ver nesta (e noutras descrições) como os primeiros relatos de desaparecimentos por abdução extraterrestre... no entanto no Terramoto de 1755, estando perante uma das maiores aldrabices históricas, os responsáveis não seriam marcianos, seriam mais diabretes infernais, como o Marquês de Pombal e associados, com o propósito de inventar um maremoto consumidor de vítimas.

Ainda que os casos que Charles Fort mencione sejam dignos de atenção, não podemos descartar a hipótese de simples invenção do relato ocasional, porque diversos interesses se podem juntar para elaborar uma mentira útil, e duradoura. Se essa suspeita é verosímil em incidentes pontuais, quando se acumulam e persistem à observação de pessoas distintas e não relacionadas, então já deveriam merecer uma outra atenção.

A questão final a considerar, mesmo dando crédito às observações "interplanetárias", é muito simples.... 
- qual é a diferença entre admitir que fomos visitados por extraterrestres, munidos de tecnologia superior, ou simplesmente admitir que sempre houve um grupo terrestre com capacidade tecnológica muito superior ao que era conhecido pelo resto da população?






sábado, 21 de janeiro de 2017

Fort (1859) Sobrevivência dos sobreviventes

No mesmo livro "The Book of the Damned", Charles Fort faz uma áspera crítica ao Darwinismo, notando que já funcionava como um movimento religioso, com base numa "verdade de La Palice":
In 1859, the thing to do was to accept Darwinism; now many biologists are revolting and trying to conceive of something else. The thing to do was to accept it in its day, but Darwinism of course was never proved:

  • The fittest survive.
    • What is meant by the fittest?
    • Not the strongest; not the cleverest — Weakness and stupidity everywhere survive.
    • There is no way of determining fitness except in that a thing does survive.
    • "Fitness," then, is only another name for "survival."
  • Darwinism:
    • That survivors survive.
Portanto, o Darwinismo é assim reduzido por Fort à constatação: "os sobreviventes sobrevivem"... o que diga-se, de passagem, tinha escrito num comentário antigo:
Confundir evolucionismo com darwinismo tem dado jeito, mas o darwinismo é um evolucionismo nihilista - ou seja, procura que não haja nenhum nexo tirando a premissa de La Palice que "sobreviviam os mais aptos".
Sendo adepto de um evolucionismo, que é simulado pelo desenvolvimento do embrião, na gestação, considero que a constatação de Darwin, apesar de evidente, merece atenção (como já o disse), mas não no sentido de ver a evolução como "um acaso", sem nexo.
Nessa perspectiva, a diferença entre a ciência e a religião é pequena, ou inexistente.
A ciência vai precisando de caldeirões mágicos:
  • o caldeirão do Big-Bang, que originou o universo (nunca consigo escrever isto sem me rir)!
  • o caldeirão da Sopa Inicial, que originou a vida; 
... mas ao contrário da religião, que reclama um chef  (como alquimista da receita dos "caldos"), a ciência prefere chamar "acaso" ao chefe
Nesse sentido, a ciência só pretendeu retirar nexo ou propósito ao cozinhado, porque da mesma receita só mudou o empratamento.

A maneira como se encara a evolução é como um processo inacabado, em que o produto mais recente vira costas ao que foi antes, olhando sempre um futuro...
Assim, é natural ver figuras ilustrativas como a primeira que apresentamos (E):

... mas aqui decidimos juntar uma pequena reflexão, na figura (F).
Tipicamente, o que a ciência faz é colocar-se na posição (E), em que o observador fica fora do que vê, ou na melhor das hipóteses, vê-se como o elo mais recente da cadeia. Nessa visão limitada, alinham os eugenistas, que procuram "melhorar" a selecção natural, para condicionar um "novo homem".
Em (F) a única modificação que fazemos a essa representação clássica, é reflectir o homem, que enquanto observador, consegue ver (e entender) a sua evolução, incluindo-se a si mesmo no processo.
Ao reflectir filosoficamente sobre si, vendo-se ainda como igual aos outros homens, termina o processo evolutivo. Como é natural, os eugenistas vão ver-se sempre como mais um macaco no processo, e por muito que evoluam, não deixarão de ser novos macacos, até que consigam virar-se para si mesmos.

Há uns anos, ao ilustrar um postal, coloquei um vídeo de Aimee Mann... retirado do filme Magnólia.
Esse filme Magnólia, vim a saber agora (ao fazer esta compilação dos volumes Alvo de Maia), é inspirado na obra de Charles Fort, e na sua incessante pesquisa sobre coincidências e fenómenos anómalos, desprezados pela ciência.
E não faltam aí coincidências anómalas... entre as quais, referências às chuvas de sapos (e à passagem bíblica do Exodus 8:2). Mas destacamos a parte final desse vídeo - em que a criança está ao centro, e à sua direita está o quadro do Alfaborboleto (sobre o qual falámos).
Foram essas pequenas coincidências que nos trouxeram à obra de Charles Fort.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Fort (1910) - não se cometa com o Cometa

Um dos problemas de quem estuda cetáceos, é saber se uma baleia avistada é a mesma avistada noutra altura. As baleias não têm propriamente um cartão de identidade, e ainda que os métodos sejam cada vez mais fiáveis, terá havido confusões.

O mesmo problema se pode colocar com cometas, e foi abordado por Charles Fort a propósito da passagem do Cometa Halley em 1910.
O que aconteceu em 1910?
Em 17 de Janeiro de 1910, apareceu um enorme cometa, visto mesmo durante o dia:

... só que este "grande cometa" não seria declarado como o Cometa de Halley!

O problema é que estava previsto que esse só apareceria em 20-24 de Maio, e portanto havia antecipação, ou então uma falha na previsão.
Como as previsões anteriores tinham sido razoavelmente bem sucedidas (em 1759 tinha sido previsto para Abril, e aparecera a 12 de Março, e em 1835 tinha sido previsto entre 4 e 15 de Novembro, e aparecera no dia 16), todos esperavam que os astrónomos em 1910 fizessem ainda melhor.
De certa forma, falhar por 4 meses estava fora das expectativas aceitáveis na astronomia do Séc. XX.

Assim, no dia 20 de Maio as pessoas foram convidadas a ver o "verdadeiro" cometa de Halley.
Só que, segundo Charles Fort, e outros, ninguém viu nada. 
Houve depois fotografias propositadamente modificadas - ver o caso de Duluth (Minnesota), onde se diz:
On this day in 1910, Halley’s Comet passed over Duluth—but no one saw it. The headlines for the next day read “Aged Wanderer is Fickle Thing” and “Halley’s Comet Again Disappoints Duluth people—Was Invisible Here Last Night.” 
Foto falsificada do cometa Halley.
Mesmo com telescópios não teria sido fácil de ver ("... even Duluth astronomer John Darling failed to see the comet"), e houve então quem decidisse falsificar o resultado ("None of that stopped renowned Duluth photographer Hugh McKenzie from publishing the photograph seen here as a picture postcard. He likely made the stars and comet by scratching the negative."):


Noutra fotografia que a Wikipedia coloca, notam-se rastos nas estrelas, o que indica que se tratou de uma fotografia de longa exposição (supostamente tirada já no dia 29 de Maio):
(Fotografia forçada a longa exposição como se vê pelo rasto das estrelas)

A wikipedia diz que o cometa foi visível a olho nú desde Abril de 1910, e que a Terra terá mesmo passado pela cauda do cometa. Não é bem isso que contam alguns relatos da época...

Charles Fort, que escreve 9 anos depois, no seu livro "Book of the Damned" (1919) diz o seguinte:
As to Halley's comet, of 1910 — everybody now swears he saw it. He has to perjure himself: otherwise he'd be accused of having no interest in great, inspiring things that he's never given any attention to.
Regard this:
That there never is a moment when there is not some comet in the sky. Virtually there is no year in which several new comets are not discovered, so plentiful are they.
É mais ou menos o que podemos dizer do Cometa Halley em 1986... eu não vi nada, mesmo com uns bons binóculos, mas não era difícil encontrar quem dissesse que o viu. A incapacidade passa para quem não vê, e os outros são uns abençoados!

Depois, tal como nota Charles Fort, com o aumento de capacidade dos telescópios, todos os anos eram descobertos vários novos cometas, e por isso não faltariam candidatos a serem identificados com o Cometa de Halley, mesmo que não o fossem... até porque a sua observação só seria possível a um reduzido número de pessoas, com acesso a bons telescópios. 
Charles Fort é mais sarcástico, comparando com o grande cometa de Janeiro:
Early in 1910, a far more important comet than the anaemic luminosity said to be Halley's, appeared. It was so brilliant that it was visible in daylight. The astronomers would have been saved anyway. If this other comet did not have the predicted orbit—perturbation. (...)
I predict that next Wednesday, a large Chinaman, in evening clothes, will cross Broadway, at 42nd Street, at 9 P.M. He doesn't, but a tubercular Jap in a sailor's uniform does cross Broadway, at 35th Street, Friday, at noon. Well, a Jap is a perturbed Chinaman, and clothes are clothes.
Passados uns anos, as pessoas poderiam dizer que tinham visto o cometa em 1910 (referindo-se ao de Janeiro), mas como a maior parte não apostaria se o tinha visto em Janeiro ou Abril/Maio, e como pelas fotografias também não saberiam distinguir se era o verdadeiro ou não, tudo ficou no diz-que-disse, de quem o podia dizer... e na sua conivência com a conveniência.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Ponta, ponte, ou ponto de situação

Há uns anos atrás (01/2014), escrevi um "ponto de situação" que dizia respeito à abertura de diversos caminhos para um possível entendimento do nosso percurso histórico.
Tendo compilado agora os 7(+1) volumes do que ficou no blog, é tempo de fazer um certo balanço, na sequência daquele que fiz em 2015, quando tive o blog parado durante uns meses. Por um lado, tendo fechado as actas dos anos transactos, há uma certa tentação de fazer uma longa pausa, por outro lado, ainda há uma boa quantidade de assuntos que gostaria de abordar.

Curiosamente neste último mês foi quando o blog teve mais visitas (ainda que sejam falsas visitas), conforme é facilmente verificado no registo do Blogger:

O registo começa em Julho de 2010 com cerca de 700 visitas mensais, para rapidamente atingir cerca de 3000 visitas mensais em Novembro de 2010, e a partir dessa altura estagnou... variando entre 3 e 5 mil visitas, segundo as contas do Blogger. (Aqui se inclui curiosamente o período entre Outubro de 2011 e Março de 2012, com pelo menos 4 meses em que basicamente larguei o blog.)
A novidade neste último mês de Dezembro (e ainda agora em Janeiro), é uma máquina nos EUA (um Mac correndo Chrome), que de 3 em 3 horas, marca cerca de 30 visitas, o que dá aproximadamente 200 visitas diárias... somando à média de 100 visitas/dia, que ao longo destes 7 anos, tem-se mantido praticamente constante (mesmo quando ninguém cá aparecia). 
Portanto neste último mês, devido a essa ligação de maquinaria, o número de visitas quintuplicou face ao habitual, atingindo o recorde de 15609 visitas em Dezembro. Conforme é possível ver pelo boneco das "Contas" o aspecto do último mês foi este:
 

... com um máximo de 1302 visitas diárias, no dia 19/12/2016 (vá-se lá saber porquê), basicamente para as quais somaram perto de mil visitas russas nesse dia.
Que pela parte americana se trata de uma máquina, é fácil de verificar porque funciona como um relógio, conforme se pode ver pelo registo horário semanal: 
 
Comparação entre visitas nos blogs Alvor-Silves (esq) e Odemaia (dir) na última semana.
Para além de uma diferença de 10 vezes... no Alvor-Silves tem havido uma periodicidade notória, 
de 3 em 3 horas, e no outro apenas um certo caos... perfeitamente natural.

Bom, isto apenas para referir que não será por falta de visitas declaradas que um blog passa a ter mais ou menos frequência, sendo certo que o número de comentadores é reduzido.

Três fases
Posso dizer que o blog teve três fases. Se no final de 2009 me dei conta do problema da "grande mentira histórica", nos dois primeiros anos (2010 e 2011) o assunto não me descansou enquanto não encontrasse para ele uma resposta satisfatória, e pode ser visto nos Volumes, que a minha opinião não é bem a mesma antes e depois de 2012. As conclusões (praticamente finais) chegaram só em meados de 2012, e o ano de 2013 foi especialmente complicado porque foram postas a teste, a nível pessoal, de forma algo complicada. Mas desde 2014, que o resto não tem passado de uma continuação algo artificial... na prática não considero que tenha muito mais de significativo a dizer, e para efeitos de não poluir o fundamental com o acessório, teria até sido aconselhável ter parado por ali... 
Não é que não haja interesse no que fui escrevendo desde 2014, simplesmente já não segue propriamente nenhum objectivo tão bem delineado, e servirá mais um entretenimento para manutenção dos blogues.

Por exemplo, neste momento estou a ler um livro de Charles Fort, que também lançava fortes críticas à mentalidade (pseudo-) científica, positivista, que grassava na sua época, e que continua hoje.
Mas esse, ou outros tópicos, mesmo estando ligados aos tópicos do blog e reforçando as conclusões que aqui foram sendo apresentadas, constituem apenas mais páginas laterais, estando o principal assunto arrumado, há praticamente 4 anos.
Portanto, estando numa ponta, e tendo já feito uma extensão do assunto nos últimos anos, o ponto de situação é mais o de saber se faço nova ponte para extensão, sendo certo que estas matérias não têm fim à vista, nem há vontade que mais seja conhecido....

Assim, se em Dezembro de 2009 a pergunta era - "estamos a ser enganados que nem uns patinhos, o que é que vou fazer?", e a resposta foi - "em vez de perguntar pela hierarquia contaminada, vou divulgar isto, e logo se verá". Porém, logo percebi no mês seguinte, que a contaminação era completa, e fiquei sem saber muito bem o que fazer... 
Assim, entre 2010 e 2011, fui tentar investigar desde quando a mentira histórica generalizada estaria implantada, para perceber de que forma poderia ser ultrapassada. A pergunta era - "de que forma é que poderá ser confrontado o poder no topo da pirâmide?". E a questão já nem envolvia apenas entidades terrenas, desta ou doutras dimensões. Por isso, nalguns dos textos dessa altura ainda não negligenciava a possibilidade de condicionamento por ET's ou outras entidades... A única consolação para esse tipo de questão, é que havendo um poder, haveria certamente um contrapoder, porque as coisas só estabilizam depois de encontrarem um certo equilíbrio. Tendo ficado cada vez mais claro que tudo poderia ser explicado exclusivamente nesta terrinha, pela simples vantagem que a herança leva dos mais velhos para os mais novos, a influência de outras entidades era indiferente. Não precisamos de saber se quem manda é um reptiliano (como diz David Icke), ou se é o vizinho do lado. Interessa apenas que é alguém indeterminado, e que tem um tipo de inteligência semelhante à nossa.

Tiro à cabeça
A arma mais poderosa contra todas as armas, é mostrar a inutilidade de as usar.
Portanto essa arma deve ser usada contra a cabeça mandante. Se a cabeça mandante entender que é inútil disparar, todo o seu arsenal não será usado. É verdade que não muda o poder, mas muda a cabeça do poder, mudando as suas ideias... o que vai dar no mesmo. Se as nossas ideias forem entendidas como correctas, a luta é apenas com a obstinação em manter as incorrectas...
De certa forma, Ghandi usou o mal estar causado pela agressão contra a não-violência, para mudar a cabeça do império britânico, relativamente à Índia, e que se repercutiu noutras colónias. Mas Ghandi procurava apenas uma solução para o seu problema - o problema da Índia, não pretendia com isso resolver os problemas do mandante. 
Um tiro eficaz à cabeça, é quando se mostra que as novas ideias não são apenas melhores para uns, são melhores para todos.
Poderá colocar-se a questão - "mas como se fazer ouvir, se não há nenhuma divulgação...". Porém, se a divulgação é parada é porque há quem ouça e não goste do que ouve, mas não deixa de ouvir. Bom, e se as nossas ideias não estiverem certas? - Mas se as nossas ideias tiverem objecções válidas, então é porque estávamos enganados, e cabe-nos perceber porquê. Aí não há nada a mudar, porque não estamos do lado da razão. Só interessa uma mudança, se seguirmos o lado da razão... e não o nosso lado, só porque é o nosso lado. Nesse caso, estaríamos a fazer o mesmo que os outros - em vez de procurar uma solução global, estaríamos simplesmente a substituir um poder a outro.
De forma que até 2012, procurei atingir a cabeça, sendo que o mais difícil era perceber quais as objecções ou ideias persistentes que a cabeça tinha, para as poder contrariar. 
A meio de 2012, consegui solidificar as minhas ideias por completo, e era-me indiferente se a cabeça mudasse ou não... simplesmente ficaria para trás no processo. Porque um processo natural de evolução é que quem não acompanhe uma melhor modelação universal, torna-se num processo previsível e obsoleto.
Só no início de 2013 tive uma resposta complicada, a um nível que não dá bem para descrever aqui, porque a cabeça manifestou-se facilmente na minha cabeça, ou seja, algo que facilmente um psiquiatra de alguidar classificaria de bipolaridade ou esquizofrenia - e não deixou de haver tentativas externas de ver sintomas nesse sentido. As perguntas foram-se complexificando, e as respostas também. Os textos Hélgia (e outros) no blog Odemaia, dão um pouco conta do assunto. Esse pseudo-interrogatório durou até Dezembro de 2013, e em que nem sempre foi fácil fazer de conta que nada se passava. Na prática, nada se passou, e tudo foi uma mera ilusão da minha parte. Ambas as respostas são equivalentes, para quem está de fora.
Simplesmente haverá vários universos, se assim o quisermos entender, mas mantendo a lógica, só um se vai mostrar consistente do princípio ao fim, e é aquele em que estamos, enquanto prezarmos a nossa racionalidade. Senão, podemos vaguear num mundo de bipolaridade, ou até multipolaridade, que levando a tudo ser possível, afasta-nos do referencial de racionalidade, que este universo impõe. 
Isso pode ser um problema de seres a outro nível... mas não é certamente o nosso, pelo menos enquanto prezarmos a condição limitada com que nascemos - a que chamamos racionalidade.

A oeste nada de novo
Portanto, resolvido esse assunto "complicado" em 2013, desde aí que as coisas voltaram à mais normal das normalidades... Ou seja, com todos os problemas de uma terrinha que ainda preza muito a irracionalidade, mas que não é só defeito, é também feitio. Feitio, porque como outros universos descambam em irracionalidades, o último refúgio é a terrinha que preza a racionalidade. E se no delírio entre génio mau e génio bom, nos fazem entrar presentes inspirados, que nos dão grandes saltos tecnológicos, tanto melhor... a única coisa que aqui não se aceita é magia, sem fundamentação racional. O tempo dos magos magoou, mas já passou... ficou preso em universos que nunca existiram no nosso passado, excepto na sua imaginação, na ilusão de ervinhas, cogumelos e outros alucinogénios, bem como na imaginação e crendice de muitos que ainda acreditam em soluções logicamente inconsistentes.

Contando não abusar da verborreia, e passar o número de postais a um número mais reduzido, penso ainda abordar alguns assuntos pendentes, que são interessantes per se, ou como complemento, durante este ano.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Alvo de Maia - todos os volumes (0 a 7)

Num total de 2666 páginas, seguem os volumes de 0 a 7, agora num formato (quase) definitivo.
Quase, porque ainda haverá uns detalhes a cuidar (mais de consistência de aspecto, do que de gralhas)... mas que penso fazer depois, com mais tempo.
Agradeço aos diversos comentadores(*) que ao longo dos anos aqui foram contribuindo para chegarmos a uma pequena obra... que já não é assim tão pequena quanto isso!

  
Volume 6 (ano de 2015) PDF (276 páginas)

  

    


    


Volume 1 (ano de 2010) PDF (231 páginas)





(*) José Manuel de Oliveira, Maria da Fonte, Calisto, K-Templar, Fausto Guimarães, Olinda Gil, CAFC, Sid, Clemente Baeta, Apostolo, Amélia Saavedra, Evany Fanzeres, Herculano, Paulo Cruz, Bartolomeu Lança, OMC, MBP, João Ribeiro, Bate-n-avó, Moura Sherazade, Fernanda Durão, José Lopes, David Jorge...
... mais ou menos por ordem cronológica, de contributos que chegaram por comentário ou email,  e esperando não me estar a esquecer de ninguém (excluindo anónimos, ou não identificados).

domingo, 8 de janeiro de 2017

dos Comentários (26) - pirâmides matrioskas

Na sequência do comentário feito por José Manuel, acerca da possível descoberta de pirâmides internas à pirâmide maia em Chichen Itzá, conforme notícia do Observador, ou ainda The Telegraph, fazemos uma pequena observação sobre uma possível forma de construção.

Imagem em The Telegraph

Neste caso, há já uma, e agora talvez duas, estruturas internas, que indiciam o método de construção mais simples - ou seja, ir aumentando o tamanho da pirâmide, a partir de pirâmides mais pequenas (foi sinalizado que a mais pequena poderia nem ter a mesma orientação das maiores, reportando-se assim a uma orientação solar diferente - o que se poderá justificar num espaço de meio milénio... ou mais). 

Não sou da opinião que as pirâmides sejam estruturas complicadas de realizar, e já dei aqui o exemplo da Pirâmide de Austerlitz, feita em menos de um mês, para entreter as tropas do general francês Marmont em 1804 (sem pedir nenhum auxílio a extra-terrestres, que se saiba...). Não tivesse sido chamado por Napoleão para novas frentes de batalha (nomeadamente em Austerlitz), e passado um ano teria esta pirâmide talvez chegado a rivalizar com a grande pirâmide de Quéops...
Pirâmide de Austerlitz (1804, Holanda) foi feita num mês e tem dimensões semelhantes à de Miquerinos em Gizé

No entanto, ao contrário da pirâmide de Miquerinos ou Quéfren,
 
As pirâmides de Miquerinos ou Quéfren não têm câmaras no seu interior.

... a pirâmide de Queóps (ou Khufu) tem uma particularidade mais complexa que são câmaras e túneis no interior da pirâmide:
 
Imagem em desenho antigo (Ch. Piazzi Smyth, 1877) e esquema à escala

Ora, aparentemente podem revelar-se algumas dificuldades em realizar os túneis e as câmaras, com enormes pedras a suportar a estrutura, adicionando pequenos túneis de ventilação... mas se repararmos no percurso dos túneis podemos ter uma ideia de qual poderá ter sido uma técnica usada para a construção da pirâmide, de forma a considerar estes túneis e as câmaras interiores.

Para esse efeito, basta considerar um desenvolvimento em 4 fases, que passo a explicar.
Possível esquema de construção da pirâmide de Quéops em fases: (1) a (4).

A ideia não é muito diferente da que vemos no caso da construção por fases de Chichen Itza, mas teria uns detalhes menos simples.
(1) Numa primeira fase (vermelho), é feita uma base piramidal (com menos de 40 metros de altura), onde será colocada a chamada "câmara da rainha".
Seguindo a parede vemos que servirá de base ao túnel que leva à "câmara do rei".
(2) Mas para consolidar a "câmara da rainha" são elevadas "pirâmides" laterais, na direcção dos primeiros túneis de ventilação. Assim é possível colocar as pedras no topo dessa câmara, e enche-se de pedras até ao patamar da "câmara do rei".
(3) As pirâmides laterais sobem um pouco, até atingir esse patamar, onde vai ficar a câmara do rei/faraó. De novo enche-se de pedras, permitindo sustentar as grandes pedras que são aí colocadas, com o apoio lateral.
(4) Finalmente com esses aspectos consolidados, pode erguer-se ao centro a parte restante da estrutura.

Ou seja, a construção por fases, permitiria usar a escada da parede da pirâmide anterior, fazendo a base do túnel, e a sustentação lateral permitiria erguer o restante, sem perigo de colapso. O peso final seria assente entretanto na construção anterior das partes laterais (note-se que na imagem vemos apenas um corte, mas seria assim feito também na outra direcção).

Já agora, deixo também aqui um processo simplificado para erguer dolméns sem exigir que as pedras fossem elevadas no ar com técnicas de levitação ou auxílio de ET's.

(1) Numa primeira fase usam-se pequenos buracos no solo, acrescentando lateralmente terra ou areia (a amarelo), para que as pedras ficassem quase logo em posição vertical ao cair.
(2) Numa segunda fase, colocava-se ainda mais terra ou areia, a um nível superior do megalito mais alto, já erguido. Depois de empurrar e ficar assente nos outros dois já erguidos, bastava remover a terra ou areia, usada no processo. Por exemplo, usando água...

Este esquema simples evitaria técnicas complicadíssimas de erguer em esforço os megalitos, até com risco de colapso. Uma vez removida a terra é como se nunca lá estivesse estado...

sábado, 24 de dezembro de 2016

Merry "Kiritimati"

Uma das ilhas baptizadas com um nome natalício foi um atol no meio do Pacífico, conhecido como ilha "Christmas", e cujo nome passou a ser Kiritimati, a partir da semi-independência das ilhas Kiribati em 1979, fazendo antes parte dos territórios britânicos no Pacífico, e fazendo agora parte da chamada Commonwealth.
Planta do atol Kiritimati, a ilha Christmas.
O apontamento curioso, para não dizer grotesco, bizarro, ou absurdo, é que o conjunto de letras "Kiritimati" deve ser lido como "Christmas"... ou pelo menos como "K'rismas".
Simplesmente, missionários do Séc. XIX decidiram inventar uma conversão da fonética local para letras latinas, e acharam que o som "s" se deveria escrever "ti". Assim, o nome "Christmas" dado à ilha pelos ingleses, passou a escrever-se nessa conversão bizarra como "Kiritimati".
Portanto, os locais indígenas devem ler "Kiritimati" como "Christmas", mas qualquer pessoa externa lerá o nome de forma obviamente diferente, segundo os sons habituais. Se agora os habitantes de Kiritimati quiserem de novo usar o nome que os estrangeiros lêem, devem ter que escrever ainda de outra forma...

Isto parece piada, de mau gosto, mas faz parte de uma receita de confusão persistente, na maioria dos casos propositada, e que foi quase sempre levada a cabo por religiosos, com a pseudo-motivação de converter os infiéis, mas que favoreceu sempre a confusão das línguas, e da compreensão entre povos. Afinal, os detentores do código descodificador ficariam sempre em vantagem, e os alvos ficariam sujeitos à confusão generalizada, visando mudar uma compreensão da sua língua original.  
Os exemplos conhecidos são múltiplos e os nativos noutros tempos fomos nós. 
Desde os Ch que tanto se liam "k" como "sh", os W que tanto se liam "u" como "v", os V que tanto se liam "u" como "v", ou os "b" que passam a "v", os I que tanto se liam "i" como "j", os C que tanto se liam "c" como "g", ou se lêem como "s" em "ce" ou "ci"... são tantos os casos de tentativa de confusão, que é um prodígio, ou mera especulação, tentar-se fazer alguma etimologia dos termos.

Em 1957-58 o atol de Kiritimati foi alvo de experiências nucleares por parte dos britânicos que, tal como os americanos e franceses, também usaram a sua parte da Polinésia para o efeito. No caso de Kiritimati, os indígenas nem tão pouco foram evacuados, e fizeram assim parte dos efeitos secundários da experiência nuclear.
Operações Grapple X, Y, Z com bombas H inglesas em Kiritimati
Nessa altura, não parecia haver grandes preocupações ambientais, agora teme-se pelo efeito que o «aquecimento global» possa ter na submersão dos atóis no Oceano Pacífico. 
Fica especialmente caricato juntar os dois acontecimentos com uma distância de 50 anos.
Se não estivéssemos habituados à completa desinformação, e a uma propaganda que chega a rondar o ridículo, até poderíamos levar o assunto a sério... porque como é óbvio, territórios de baixa altitude estarão sempre sujeitos a iminentes inundações - seja por causas naturais ou humanas.
No entanto, a campanha do «aquecimento global», tal como a campanha «anti-terrorista», têm simples propósitos de controlo de expectativas e gestão de medos na população mundial, e tornam-se mais ou menos ridículas, consoante as circunstâncias (normalmente fabricadas pelos próprios promotores).

Finalmente, um outro ponto interessante com Kiritimati, é que estando numa longitude próxima do Havai, tem um fuso horário diferente - com um dia de diferença!  Uma característica partilhada com outras ilhas de Kiribati (que se deve ler "Kiribas"... num som similar a "Caraíbas" - nome a que talvez não seja estranha uma reclamação espanhola da descoberta). 
Assim, estas pequenas ilhas beneficiam da notícia sazonal, muito adequada ao turismo de massas, de serem as primeiras a entrarem no «Ano Novo»... espera-se que com comemorações menos explosivas que as fornecidas antigamente pelos britânicos.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Sensabor do saber

A. Griboyedov
O embaixador russo Aleksander Griboyedov foi assassinado em 11 de Fevereiro de 1829, quando uma multidão enraivecida, atiçada por mulahs em fervor religioso, irrompeu pela embaixada russa em Teerão, aniquilando a guarnição de cossacos que protegia a embaixada, e chacinando praticamente todo o pessoal da embaixada.

O contexto foi o final duma guerra entre o Império Russo e o Persa, e que terminou em 1828 com uma derrota persa, e consequente perda de territórios caucasianos, que fariam parte da Rússia até à desagregação da URSS.

Como o assassínio de um embaixador poderia ser um pretexto para nova guerra, o xá persa viu-se forçado a enviar o seu neto à corte do Imperador Nicolau I, oferecendo o Diamante do Xá, uma gema com 88 quilates (17.74 gramas), que pertencia aos xás desde 1591 (e que entre as suas inscrições, uma era do Xá Jahan, construtor do Taj Mahal). O diamante pertence agora ao espólio do Kremlin.
O diamante do Xá (ver entrega no filme "Russian Ark", 2002)
Griboyedov não ficou apenas associado a esse trágico episódio, já que um seu livro "A infelicidade do espírito" (uma tradução literal, talvez melhor ilustrada como "sensabor do saber") apesar de censurado, foi um sucesso, precursor da literatura russa, com uma sátira à nova aristocracia, surgida após as guerras napoleónicas. A infelicidade dos espíritos da sua embaixada foi compensada por um diamante, oferecido com pompa e circunstância. Até porque em 1829 a Rússia estava já envolvida noutra guerra, com a Turquia, para acesso da sua frota naval do Mar Negro aos estreitos... interrupção resultante das guerras de independência grega, ou sérvia, onde a Rússia também se envolvera.

Esta informação pode ser recolhida de diversas fontes, e surge no contexto do assassinato do embaixador russo na Turquia, ocorrido na passada segunda-feira, dia 19. Temos que recuar quase dois séculos para um incidente diplomático deste calibre.

No caso de Griboyedov, a reacção russa foi cautelosa, não assacando culpas excessivas ao xá persa.
Suspeitou-se então de eventual motivação britânica para manter uma guerra russa com a Pérsia, o que tem o seu sentido, atendendo ao conflito que sucedeu, na Guerra da Crimeia (1853-56), que visou manter a marinha russa limitada ao Mar Negro. 
Perante o colapso do poder otomano, a Inglaterra e França pretenderam então limitar uma expansão russa que pudesse ameaçar a própria conquista de Istambul, e o controle dos Estreitos - do Bósforo e Dardanelos.

A ascensão e solidificação de uma Rússia ocidentalizada foi o grande tranquilizante para uma Europa Ocidental, que de outra forma se poderia ver ameaçada constantemente pela pressão de uma expansão oriental. 
Desde o tempo da invasão dos Hunos de Átila, que foi considerado que a falta de um travão a Oriente, poderia implicar uma invasão oriental às portas de Roma. Essa ameaça esteve bem presente por parte de Genghis Khan, que planeou uma invasão da Europa. Os príncipes russos foram incapazes de resistir ao avanço mongol, e a guerra chegou a paragens polacas, húngaras e até alemãs. A mesma ameaça foi em seguida tomada por Tamerlão, que se via como sucessor do império mongol.
Desde o momento em que o conflito Ocidente/Oriente foi traduzido também pelo conflito religioso entre cristianismo e islamismo, que se tornou claro que haveria uma vulnerabilidade europeia por dois ou três caminhos. O caminho ibérico - pelo norte de África, que terminou numa invasão árabe da península ibérica, de que só se libertou por completo no Séc. XV. O caminho turco - pela conquista de Constantinopla, e ataque pelos balcãs até à Áustria. E finalmente, o caminho russo, mais exposto pela grande fronteira, fronteira europeia que terminaria onde terminasse a fronteira russa.

Portanto, a edificação de uma Rússia ocidentalizada, partilhando uma monarquia com as monarquias ocidentais, foi um passo fulcral para o estabelecimento global do Ocidente. Com a grande expansão de Pedro, o Grande, para oriente, levando as fronteiras ocidentais até paragens orientais, a Europa cuidou de proteger a sua fronteira mais vulnerável, às expensas dessa aliança russa. No entanto, ao mesmo tempo que criou uma nação de dimensões monstruosas, ocupando uma boa parte de dois continentes, cuidou para que essa nação estivesse limitada no seu papel de posto avançado europeu, evitando que tomasse para si ambições globais próprias - algo que só aconteceu quando a Rússia se transformou em URSS.
Note-se como foi bem diferente o processo que se passou no Norte de África, que era uma zona tão romanizada, como outra qualquer. No entanto, após a expansão islâmica, nunca mais o Norte de África veio a fazer parte englobante de um desenvolvimento ocidental. As monarquias marroquinas, argelinas ou tunisinas, eram árabes, sem qualquer contacto efectivo com o ocidente. 
Não tivessem tido sucesso os monges de S. Cirilo em cristianizar os povos eslavos, e poderíamos ter também estados islâmicos na Europa oriental. Mas ainda assim, durante a Idade Média, o último posto avançado ocidental era ainda definido pelos limites alemães e polacos, e os cavaleiros teutónicos combatiam pela defesa dessa fronteira oriental. 
Ao englobar e partilhar casamentos com as monarquias eslavas, a Europa expandiu-se para oriente, apesar de diferenças entre o cristianismo romano e ortodoxo. O mesmo nunca ocorreria pelo lado norte-africano que, perante o colapso islâmico, acabou por ver os reinos do magrebe reduzidos a colónias ou protectorados das potências europeias. Tivessem as monarquias europeias a mesma política de abertura, e não de segregação, a nível de casamentos, e os reinos norte-africanos não seriam encarados como territórios a colonizar... seriam tidos como partes iguais, como antes tinham sido, fazendo todos parte do antigo Império Romano. No entanto, no planeamento de partilha de despojos, na divisão colonial do Séc. XIX, a parte norte-africana seria reduzida à sua situação geográfica africana, pronta para o espartilho colonial, e não como um território igualmente herdeiro da colonização romana.

Depois, é fácil entrar nos clichés e informação condicionada pelos órgãos de comunicação ocidentais, e à contra-informação que surge de partes opostas. Basta escolher o lado da informação para se encontrar a informação que se adequa ao propósito.
As queixas sobre as vítimas inocentes de uma guerra, tanto se podem referir às mortes causadas em Aleppo por mísseis sírios com apoio russo, como antes podiam ser alocadas a americanos ou franceses (como no caso do massacre de Tokhar) que apoiavam os rebeldes... ainda que certas notícias tivessem praticamente negligenciadas pelos meios de comunicação ocidentais.
Numa guerra de desinformação, acaba por ser fácil escolher lados errados, é só escolher ler um lado da informação, e ignorar o contraditório. As consequências são quase sempre as mesmas... é um saber que se constrói pelo não querer saber.