sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Carta do Atlântico Norte

Pedro Reinel assinou uma carta denominada "Carta do Atlântico Norte", que se encontra na Bayerische Staatsbibliothek (Munique), e que foi datada de 1504. A identificação do autor é feita usando a expressão 
"Pedro Reinel a fez",
mas não encontramos nenhuma data. Traduz assim uma mensagem que poderá ser entendida como uma reprodução de uma carta já feita anteriormente. É nossa convicção que poderia ser uma reprodução da Carta presente na negociação do Tratado de Tordesilhas (1494) - todo o enfoque é dado ao Meridiano de Tordesilhas, que aparece representado duas vezes (a segunda representação é mais pequena e está inclinada). Já abordámos a representação do Brasil, rodando o mapa 180º, entendido na parte de território verde... comparado com o mapa de Cantino de 1502, seria incompreensível a não representação em 1504.
Carta do Atlântico Norte, Pedro Reinel (1494-1504?).
O facto mais surpreendente desta Carta não é tanto a presença de terras americanas a oeste, marcadas a verde (à esquerda). O mais surpreendente é a identificação de uma ilha na posição da Dinamarca.
Pedro Reinel, considerado o maior cartógrafo do seu tempo, nunca desenharia a península dinamarquesa como ilha, a menos que houvesse um propósito diferente.
É esse propósito diferente que aqui é debatido... começando por comparar com a carta feita pelo mesmo autor, em 1485, que assinou de forma diferente: "Pedro Reinel me fez", não invocando um tempo passado. Essa carta de 1485 parece ser qualitativamente superior a esta (de 1504?), não havendo aparente razão para a perda de qualidade... nem razão para ser apenas uma carta restrita ao Atlântico Norte, a menos que tal como no outro mapa, uma rotação deste mapa revele algo diferente.

Com efeito, se rodarmos este mapa, e olhando com cuidado, podemos rever os contornos escondidos que estavam no mapa de 1485... embutidos no próprio desenho da Europa, levando a distorções artificiais que colocavam a Dinamarca como ilha. Isso seria justificado num intuito de esconder um mapa da América Central no próprio desenho da Europa, ou como diria Camões nos Lusíadas: "Pado o sabe, Lampetusa o sente". Mostramos uma interpretação alternativa do mapa, projectando a comparação americana, após a rotação. A costa mexicana é comparada com os pontos assinalados a azul claro:

ANÁLISE ESQUEMÁTICA COMPARATIVA:
Costa Mediterrânica de Espanha/França/Itália/Sicília >> Costa do México/Texas/Florida
Costa Atlântica de Espanha/França/Holanda/Dinamarca >> Costa oeste do México e península da Califórnia
Córsega/Sardenha/Baleares <|reflexão|simetria|> Cuba/Hispaniola/Antilhas(Jamaica) 

Esta é apenas uma hipótese interpretativa (discutida há 6 meses com KT - ver aqui), com o devido grau especulativo próprio de qualquer leitura não literal. Aliás de forma surpreendente, podemos mesmo ver semelhanças mais latas, enquadrando o mapa numa dimensão maior, que incluiria por reflexão ainda uma parte ocidental da América do Sul:
ANÁLISE ESQUEMÁTICA COMPARATIVA - extensão por reflexão
- a parte africana é reflectida como uma parte ocidental da América do Sul - zona do Perú.

Esta não se pode considerar uma prova objectiva literal, pois está sujeita a interpretação. No entanto, é claro que se no mapa de 1485 estava implícita informação, ficaria a pergunta se haveria também informação escondida neste mapa posterior. Para além da evidente informação sobre os novos territórios apresentados - normalmente ligados à zona do Canadá/Labrador, esta interpretação permite justificar onde pode estar essa informação neste novo mapa. Adiciona-se a esta observação, a persistência desta representação num mapa posterior de Lopo Homem, de 1550.

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