quinta-feira, 26 de maio de 2011

Âncoras suiças (2)

Quando falámos aqui sobre as Âncoras Suiças, já tinhamos também lido relatos de terem sido encontradas embarcações na Lagoa da Serra da Estrela. Coisa um pouco estranha... mas nada impedia terem sido feitas embarcações para a Lagoa (Comprida). Ao mesmo tempo esses relatos invocavam uma profundidade insondável e a suspeita dessa Lagoa ter comunicação com o mar... pelo que demos mais relevo ao relato notável da descoberta de âncoras incrustadas nas montanhas suiças, conforme afirmava António Galvão.

Na sequência do post anterior, voltamos a abordar a questão das âncoras suiças, porque fomos encontrar um relato notável de 1878, de Edward B. Tylor. Ele localiza a história que Galvão contava, porque Buffon na sua Teoria da Terra invoca essa descoberta:
Sur la montagne de Stella au Portugal, il y a un lac dans lequel on a trouvé des débris de vaisseaux, quoique cette montagen soit éloignée de la mer de plus de douze lieues (Voyez la Geographie de Gordon, édit. de Londres 1733, page 149). Sabinus, dans ses commentaires sur les métamorphoses d'Ovide, dit qu'il paroît para les monumens de l'Histoire, qu'en l'année 1460 on trouva dans une mine des Alpes un vaisseau avec ses ancres.
 Temos aqui o relato da Serra da Estrela, e ao mesmo tempo o relato da Suiça, mais detalhado.
A origem é Angelo Sabino que num comentário a um texto de Ovídio relata a descoberta do navio com as âncoras numa mina dos Alpes.
Barcos incrustados numa mina dos Alpes... e que forma teriam as suas proas?
Olhando para os símbolos dos cantões suiços, percebe-se que houve uma Jura em Basileia:
  
brasões dos 2 cantóes de Basileia e brasão do cantão do Jura
... a semelhança com proas de navios antigos fica justificada!

Para que se perceba o silêncio sobre o assunto... que deveria constar nalgum livro de teorias de conspiração, de civilizações antigas, ou algo semelhante... basta fazer uma pesquisa no Google sobre o assunto. Em particular experimente-se "mine des Alpes un vaisseau avec ses ancres"... alguém deveria ter citado o Conde Buffon, autor largamente conhecido, considerado percursor da teoria da evolução.
Ora, aparecem 5 resultados antes do Séc. XX, e a partir daí o assunto morre por completo, ou quase...
Poderá dizer-se que é por ser em francês... mas então vamos experimentar encontrar uma citação ao texto de Edward Tylor:
"in the year 1460 a vessel was found with its anchors"
ocorrem 3 resultados ligados ao próprio texto que encontrámos!      [as aspas são necessárias]
Se o Google estiver a funcionar bem, acrescem os novos resultados deste blog, após publicar o post. Ou seja, será que há quase 150 anos que não se publica nada sobre o assunto?!
É natural, os "teóricos da conspiração" seguem aquele caminho habitual que é seguir o guru anterior, e não fazem pesquisa própria... repetem o que é suposto ser repetido, interessam-se sobre aquilo que lhes é dito ser interessante, e vão calcorreando o caminho das pedras gastas. Como o objectivo é quase sempre o reconhecimento comunitário, não faz aí nenhum sentido caminhar isolado. Apesar de estarem habitualmente fora da academia oficial, vão desenvolvendo uma academia alternativa imitando a hierarquia pelos seus sucessos livreiros... e ficam assim facilmente manipuláveis, mesmo que alguns não o saibam.

Desculpando-me por estas divagações, resultado da irritação de ver mais um "assunto escaldante" que foi escondido com sucesso, regresso ao assunto principal.

Estamos em 1460, e uns mineiros da Suiça comunicam a descoberta de navios incrustados nas minas... o efeito deve ter sido avassalador! A Suiça que pouco mais seria do que um projecto de intenções anti-domínio Habsburgo fica subitamente armada com uma besta letal.
Se Hércules segurava uma Maça numa mão e uma Maçã na outra... Guilherme Tell apontou directamente à maçã, sendo certo que no tiro da besta arriscava a aniquilação do filho. 
A lenda de Guilherme Tell aparece não em 1460, mas sim por volta de 1470, e algumas décadas depois os suiços vão ocupar lugar de destaque na protecção do Papa. A partir daí a história da independência Suiça é uma história de sucesso, e apesar de alinharem pelo lado protestante ou calvinista, nunca deixarão de ter aquele lugar especial no coração ultra-católico do Vaticano.

Quer Buffon, quer Tylor, alongam-se no discurso sobre as eventuais evidências de um nível marítimo superior ao contemporâneo, nomeadamente pelo registo fóssil. Em particular é referida a evidência da presença marítima no deserto da Mongólia, conforme já abordámos.
Tylor apanha já a transição para o Darwinismo, e essa mudança de mentalidades é bem denunciada nalgumas frases:
            "In the ninth edition of Home's 'Introduction to the Scriptures,' published in 1846, the evidence of fossils is confidently held to prove the universality of the Deluge; but the argument disappears from the next edition, published ten years later."
Aproximava-se uma "entente cordiale" que recolocaria a educação no devido lugar.

Tylor vai ainda muito mais longe... 
Both in Scotland and in South America, upheaval of land in more or less modern times is a recognized fact, and the finding of boats, as of various other productions of human art, in places where they could hardly have been placed by man, is readily accounted for between this upheaval and the effects of ordinary accumulation and degradation.
(estes barcos e artefactos em posições estranhas não são muito relatados... a menos de algum conto de reis de Garcia Marquez, que colocava barcos em desertos)
... e atreve-se a falar na questão dos gigantes.
Deixo uma larga citação que é instrutiva em muitos aspectos:
In the Old World, myths both old and new connected with huge bones, fossil or recent, are common enough. Marcus Scaurus brought to Rome, from Joppa, the bones of the monster who was to have devoured Andromeda, while the vestiges of the chains which bound her were to be seen there on the rock; and the sepulchre of Antaeus, containing his skeleton, 60 cubits long, was found in Mauritania. 
Don Quixote was beforehand with Dr. Falconer in reasoning on the huge fossil bones so common in Sicily as remains of ancient inhabitants, as appears from his answer to the barber's question, how big he thought the giant Morgante might have been? "... Moreover, in the island of Sicily there have been found long-bones and shoulder-bones so huge, that their size manifests their owners to have been giants, and as big as great towers, for this truth geometry sets beyond doubt." Again, the fossil bones so plentifully strewed over the Sewalik, or lowest ranges of the Himalayas, belonged to the slain Rakis, [p.324] the gigantic Eakshasas of the Indian mythology. 
The remains of the Dun Cow that Guy Earl of Warwick slew are or were to be seen in England, in the shape of a whale's rib in the church of St. Mary Redcliffe, and some great fossil bone kept, I believe, in Warwick Castle. "The giant sixteen feet high, whose bones were found in 1577 near Heyden under an uprooted oak, and examined and celebrated in song by Felix Plater, the renowned physician of Basle, has been long ago banished by later naturalists into a very distant department of zoology; but the giant has from that time forth got a firm standing ground beside the arms of Lucerne, and will keep it, all critics to the contrary notwithstanding."
Ao contrário do que julgava Tylor, o brazão de Lucerna já não inclui nenhum gigante de Felix Plater, reportado com 18 ou 19 pés de altura, e que era citado por Júlio Verne na sua "Viagem ao centro da Terra"... Agora ficou bastante simplificado:

... em compensação temos o monumento de Lucerna, que ilustra a protecção que o leão dos mercenários suiços tentou fazer aquando da Revolução Francesa. A protecção da flor-de-lis da casa real francesa custou a vida a esses suiços, que tal como Buffon obedeciam ao rei francês, e que talvez lhe tivessem feito confidência do assunto esquecido das âncoras suiças.

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