segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

E o rei Óscar vai para... um ponto na Antártida!

Oscar Point... coordenadas 74°35′S 164°53′E - trata-se um ponto/cabo na Antártida, no Mar de Ross, estando parcialmente sob o gelo. Apesar da expedição que o identificou ser inglesa, era comandada por um norueguês Borchgrevink, que assim honrava Oscar II, rei da Suécia e Noruega.

Já voltaremos ao assunto complicado... para já referimos que não longe está o cabo Washington e o Monte Melbourne. Aproveitamos a ocasião para colocar umas imagens da Antártida, talvez não exactamente dessa zona, mas que merecem ser conhecidas:



As formações de gelo com esta dimensão deixam-me sem outros comentários, e a estória das ondas instantaneamente geladas fazem pouco sentido, e as explicações "mais científicas" deixam muito a desejar igualmente.

A estória prossegue por outro lado, citando Ramusio (1560):
... [o Rei de Portugal] nè vogliono che si sappian nè queste nè molte altre cose. & sopra tutto è vietato il poter navigar oltra il capo di Buona Speranza à dritta linea verso il polo Antartico, dove é opinione appresso tutti il pilotti Portoghesi chi vi sia un grandissimo continente di terra ferma, la qual corra levante & ponente sotto il polo Antartico. & dicono che altre volte uno eccellente huomo Fiorentino detto Amerigo Vespuccio con certe navi de i detti Re la trovò & scorse per grande spatio, ma che dapoi é stato prohibito che alcun vi possa andare.
Pareceria estranho dar a Américo Vespúcio a honra de um tão grande continente como a América, por opinião cartográfica de Waldseemüller, ou por outra pequena razão.
Aqui vemos algo completamente diferente... como diria Bartolomeu Marchioni, banqueiro florentino ao serviço da Rainha D. Leonor... Américo teria "tido duro trabalho e recolhido escasso benefício"!
Ramusio entende que Américo Vespúcio terá prosseguido a viagem para além do Chile, na direcção do continente Antártico, na frota de Gonçalo Coelho (1451-1512) expedida por Fernão de Noronha.
Consta que terá então dito que tinha estado num novo mundo, ao qual chamaria "Novus Orbis" porque os antigos o desconheciam... e que desejava retornar e chegar ao Oriente pelo Sul, aproveitando-se dos ventos austrais (segundo o historiador Hugh Thomas - cf.wikipedia)
Releio a citação de Camões, a propósito da nau de Coelho:
Agora sobre as nuvens os subiam
As ondas de Netuno furibundo;
Agora a ver parece que desciam
As íntimas entranhas do Profundo.
Noto, Austro, Bóreas, Aquilo queriam
Arruinar a máquina do mundo:
A noite negra e feia se alumia
Com os raios, em que o Pólo todo ardia.
Suficiente para sustentar uma viagem de Coelho e Vespúcio até às "íntimas entranhas do Profundo", a um Pólo que "alumiava a noite negra" mostrando a "máquina do mundo"...

Voltamos agora a Oscar II, que recebe o nome que Napoleão escolheu para seu pai, um nome que lembra Oscar Wilde e a citação: "America had often been discovered before Columbus, but it had always been hushed up". Agora a América de Américo era outra...
As explorações polares suecas e norueguesas, com Oscar II, tiveram como epílogo Amundsen, mas convém não esquecer outro nome explosivo...  Nobel cujo nome se liga à revelação que Ascanio Sobrero (o inventor da nitroglicerina) lhe fez, e que levou ao dinamite - coisa que enriqueceu um, e não o outro.

O prémio Nobel, que dá uma variação Noble ao seu detentor, foi definido pelo mesmo rei Oscar da Suécia e da Noruega.
Faltaria um prémio apropriado para uma indústria que se iria afirmar... a cinematográfica - e é claro que foi o nome do tio/primo da secretária, nem poderia ser outra coisa!
Coisa de gods ou goths, lá da Gothia.
E é claro que numa transmissão em directo, nada melhor que um delay temporal para evitar asneiras!
O mundo fica assim poupado às asneiras em directo... não as vernaculares, mas sim as de alguém que pense que pode revelar novidades nos media!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O engenho a vapor que se vaporiza

A Héron de Alexandria é atribuído o primeiro engenho a vapor
A eólipila de Héron (Séc. I)

(... entre outras invenções), ainda que o mesmo engenho possa ser atribuído um século antes a Vitrúvio, afinal o mesmo homem que muito inspirou Leonardo

O engenho a vapor foi então enterrado ou vaporizado durante 1500 anos, como tantas outras coisas, até que se registou o seu reaparecimento em 1543, em Barcelona, com Blasco de Garay e o primeiro barco a vapor de que há registo.

Conforme consta da publicação "Archivo popular", volume 2, página 411:
No ano de 1543, um oficial da marinha, chamado Blasco de Garay, ofereceu-se a mostrar ao imperador Carlos V uma máquina, por meio da qual se faria andar um navio sem a ajuda de velas ou remos. Não obstante que a proposta se julgasse ridícula, o homem mostrava-se tão certo do que afirmava, que o imperador nomeou uma comissão para examinar, e dar conta do resultado da experiência. Com efeito teve ela lugar em 17 de Junho de 1543, em um navio chamado a Trinidad, do lote de duzentas toneladas, o qual pouco antes havia chegado de Colibre com uma carga de trigo.  
O navio, diz o escriptor, foi visto, no dia aprazado, andar rapidamente, e virar em todos os bordos, segundo se quería, sem ser impelido por velas ou remos, e mesmo sem que se lhe percebesse mecanismo algum, à excepção de uma enorme caldeira com água a ferver, e um certo jogo de rodas e pás. 
A multidão que se achava presente rompeu em gritos de admiração , e o porto de Barcelona ressoou com os seus aplausos. Os comissários do governo participaram do entusiasmo geral, e deram conta favorável ao imperador, excepto um deles, o tesoureiro Ravago. Este homem, por algum motivo que se ignora, declarou-se contra o inventor e a sua máquina: fez toda a diligência por a desacreditar, dizendo entre outras cousas que a invenção não oferecia vantagem alguma, pois que apenas podia fazer andar uma embarcação duas léguas no espaço de quatro horas; que a máquina era dispendiosa, e complicada, e finalmente que apresentava o grande e frequente perigo de arrebentar a caldeira. Acabada a experiência, Garay retírou o seu maquinismo, entregando no arsenal o que aí se fizera, levou o resto para sua casa. 
Apesar das invejosas observações de Ravago, Garay foi aplaudido pelo seu invento. O imperador o protegeu, promoveu-o ao posto imediato, e lhe mandou dar dozentos mil maravis; ordenando mais que o tesoureiro invejoso pagasse todas as despesas da experiência. Mas Carlos V achava-se então muí ocupado com suas expedições militares, e tratando só de devastar a humanidade deixou desaproveitado o novo invento que a podia beneficiar; inventor e invenção ficaram no esquecimento; e a honra que Barcelona poderia ter recebido do aperfeiçoamento desta tão útil descoberta, ficou reservada para uma cidade, que ainda então não havia entrado na carreira da existência.
A invenção do barco a vapor ficaria reservada em nome para Robert Fulton, inventor americano, prezado de Napoleão. O mesmo Archivo Popular faz menção a outros inventores:
-  um italiano Bracas(?), 80 anos depois de Garay, 
- e ao Marquês de Worcester, Edward Somerset, 100 anos depois, com uma utilização engenhosa do vapor... normalmente atribuída a James Watt.

É claro que espanhóis, catalães, mostraram com os registos do Arquivo Geral de Simancas, toda a documentação necessária, e tal foi publicado de forma semelhante no "El Instructor" (1835), mas foi recusado pelos franceses (e Balzac terá feito a sátira Les ressources de Quinola a este propósito).

O que vemos?
Héron de Alexandria propunha logo aplicações para o seu engenho a vapor... mas é claro que ninguém quis "entender", e tudo foi perdidamente ocultado. 
O mesmo se passou com Blasco de Garay, e com todos os sucessores até ao final do Séc. XVIII.
A era industrial só aparece autorizada para o Séc. XIX, e à Hispânia já estava vedada essa competição.

Note-se que Carlos V protegeu a invenção e inventor... mas o verdadeiro poder estaria mais representado por Ravago. Como se percebe da leitura, Carlos V ficou imediatamente ocupado com novas guerras... e a invenção foi "esquecida".

Não basta inventar ou descobrir... é preciso ter autorização para tal, no tempo próprio.
Foi assim com a "reinvenção da roda"...
Que instituição, superior em potência ao imperador Carlos V, decide isto?
É este problema milenar que abordamos... há já algum tempo!

.

Saudades da Terra (2)

Gaspar Frutuoso é outra daquelas referências que basta ser invocada pelo título dos seus capítulos:

- Capítulo VIII - 
Em que a Fama pede à Verdade que lhe conte as cousas das ilhas, 
e a Verdade lhe declara umas letras do triângulo que traz...

NÃO creias quanto ouves 
NÃO digas quanto sabes 
NÃO desejes quanto vês 

Gaspar Frutuoso (1522-91) já está a viver nos tempos modernos!
E como a Fama orientará sempre as perguntas sobre Cólon, ou Colombo, há um capítulo indicado: 

Capítulo XXII 
- Em que a Verdade... conta o descobrimento das Antilhas, que agora se chamam Índias Ocidentais...
Quanto ao que das Antilhas ou Índias de Castela duvidais, por esta regra, que já disse, de conceder o lugar a quem primeiro o ocupa, e pode ser também por alguma confirmação do Padre Santo, que eu não alcancei ver nem saber, toda esta conquista do Mar Oceano descobriu e possuiu o Infante D. Henrique, que mandou descobrir estas ilhas dos Açores e por seu falecimento se diz que a deixou à Coroa Real de Portugal, como ao tronco donde ele descendia, a qual tiveram estes reis alguns anos, até que em tempo de El-rei D. João, segundo do nome, se antremeteu um Cristóvam Colon e quis fazer outra navegação diferente daquela, não ao longo da costa da terra firme, mas desviando-se pelo espaçoso mar do ponente, ao qual El-rei não quis dar crédito nem ouvidos, que foi causa de se dividir e partir esta conquista, como agora contarei.
Depois Gaspar Frutuoso apresenta a versão castelhana, que fala no segredo de marinheiros naufragados em Porto Santo, que  morreram às mãos de Colombo
Um homem de nação italiano, genoês, chamado Cristóvam Colon, natural de Cugurco, ou Narvi, aldeia de Génoa, de poucas casas, avisado e prático na arte da navegação, vindo de sua terra à ilha da Madeira, se casou nela, vivendo ali de fazer cartas de marear. Aonde, antes do ano de mil e quatrocentos e oitenta e seis, veio aportar uma nau biscainha, ou (segundo outros) andalusa, ou portuguesa, havendo com tormentas e tempos contrários descoberto parte das terras que agora chamamos Índias Ocidentais ou Novo Mundo.
Aqui a questão da nacionalidade colocava-se mais em termos dos náufragos incógnitos. Depois cita a versão de João de Barros e a de Cardan, e sem nunca colocar em causa a nacionalidade de Colón, e dá conta da sua versão, que é algo pormenorizada:
Era Cristóvam Colon animoso e de altos pensamentos, mas pobre e sem cabedal bastante pera cometer uma cousa de tanta dúvida e custo, pelo qual cuidou que seria bom pedir favor de algum príncipe cristão. E como naquele tempo El-rei de Portugal, D. João, o segundo do nome, estava ocupado em a conquista tão dificultosa e custosa da Índia e El-rei D. Fernando de Castela na guerra de Granada, determinou de se ir a Ingraterra a El-rei Henrique sétimo.
Por não perder tempo mandou lá a Bartolomeu Colon, seu irmão, e como não achou a entrada que quisera, tornou-se sem negociar nada, pelo qual acordou tentar, todavia, a El-rei de Portugal. E foi-lhe tão contrário o licenciado Calçadilha, bispo de Viseu, que não pôde alcançar cousa alguma; antes o tiveram por enganador e mentiroso. Foi-se com isto Colon, meio desesperado, a Castela e em Palos de Moguer comunicou suas imaginações com Martim Fernandes Pinção, grande piloto, e, de conselho deste e de Frei João Perez de Marchena, frade de S. Francisco, grande humanista, morador na casa da Arrábida, do qual levou cartas pera D. Frei Fernando de Talavera, Bispo de Ávila, confessor da rainha, pôs em prática seu negócio com D. Henrique Gusmão, Duque de Medina Sidónia, e depois com D. Luiz de Lacerda, Duque de Medina Celi, que tinham bons portos, que o ajudassem ao descobrimento destas terras novas, os quais fizeram escárneo dele, que certo parecia cousa de zombaria, mormente que Colon andava tão mal tratado e só, que perdiam muito crédito suas razões com ver sua pouca autoridade, porque é isto assi, que a verdade sem mangas compridas é mui mal recebida em qualquer boda e, quase sempre, cada feira vale menos.
Finalmente acordou de se ir à corte de El-rei D. Fernando de Castela, pera quem estava guardada tão boa ventura, em a qual entrou no ano de mil e quatrocentos e oitenta e seis. Aos princípios também zombavam dele ali, como nas outras partes, pelo qual e pelas muitas ocupações de El-rei com a guerra de Granada, não se lhe deu audiência tão asinha. Todavia achou favor em Afonso de Quintanilha, contador-mor, o que fez as leis da Irmandade. Este deu a Colon entrada em casa do Cardeal D. Pero Gonçalves de Mendonça. O Cardeal (que tudo mandava) o pôs com El-rei e da primeira vista tirou boas palavras e esperança de que, acabada a guerra de Granada, se falaria em seu negócio mais de propósito, porque até então não haveria bom aparelho de dinheiro. Antreteve-se com isto Cristóvam Colon na corte perto de seis anos. E quando viu acabada a guerra com tão bom sucesso, tornou a tratar de seu negócio e, por fim, se lhe deu licença pera ir descobrir as terras que dizia e pera que armasse os navios que lhe fossem necessários.
Primeiro, repare-se que é referido que D. João II estava ocupado na "dificultosa e custosa" conquista da Índia, o que é diferente do termo "descoberta da Índia". Depois o irmão chega a falar com Henrique VII, e isto torna-se um relato demasiado detalhado para ser inventado acerca das deambulações de Colombo, e da sua "vida difícil". Um aspecto nas versões alternativas de nacionalidade, é que há um irmão Bartolomeu, que tem um papel importante.
O relato do regresso também é interessante:
E no ano seguinte de mil e quatrocentos e noventa e três, (estando El-rei de Portugal, D. João, o segundo do nome, no lugar de Vale de Paraízo, que é acima do mosteiro das Virtudes, por caso das grandes pestes que nos lugares principais daquela comarca havia) a seis dias de Março, veio ter a Restelo, em Lisboa, este Cristóvam Colon, que vinha deste descobrimento das ilhas de Cipango e Antilhas (como dito é), que, per mandado de El-rei e da Rainha de Castela, tinha descoberto; das quais trazia as ditas mostras das gentes e ouro e outras cousas que nelas havia. E, sendo El-rei disso avisado, o mandou chamar e mostrou, por isso, receber nojo e sentimento, assi por crer que o dito descobrimento era feito dentro dos mares e termos de seus senhorios de Guiné, como porque, o dito Colon, por ser de sua condição alevantado, e no modo do contar das cousas fazia isto em ouro e prata e riquezas muito maior do que era, e acusava El-rei por se escusar deste descobrimento e não no querer mandar a isso, pois primeiro se lhe viera oferecer que aos Reis de Castela, e que fora por lhe não dar crédito. E El-rei foi cometido que houvesse por bem de lho matarem aí, porque, com sua morte, o descobrimento de Castela não iria mais avante por todos terem pera si que estavam aquelas ilhas dentro dos limites da conquista de Portugal, por a pouca distância que havia destas ilhas dos Açores a estas que Colon descobrira, e que, dando Sua Alteza a isso consentimento, se poderia fazer sem suspeita porque, por ele ser descortês e alvoraçado, podiam com ele travar de maneira que cada um destes seus defeitos parecesse a causa de sua morte. Mas El-rei, como era mui temente a Deus, não somente o defendeu, mas ainda lhe fez honra e mercê e com ela o despediu, mandando vestir de grã os índios que trazia.
Nada disto exclui, como é óbvio, outras hipóteses, mas "Saudades da Terra" não deixa de ser um relato pormenorizado da época, que sempre permaneceu "secreto", e sem publicação nacional.

Aquilo que parece ter sido reconhecido a Colón como novidade, terá sido um caminho marítimo novo pelas Canárias, que levou à descoberta das Antilhas. Ou seja, é de considerar que se mantivesse a tradição da navegação costeira, partindo dos Açores e pela Terra do Bacalhau...  até ao Brasil.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O estreito na passagem de Bering

Quando às vezes pensamos que exageramos nas conjecturas, há sempre quem nos faça ver como é possível ser mais ousado... O ilustre investigador Manuel Rosa, conhecido inicialmente por demonstrar a origem portuguesa de Colombo, ficou agora ainda mais conhecido por demonstrar a sua origem polaca:
Capa da Newsweek (Polaca) de Fevereiro 2011

Fica aqui a breve notícia, que não queríamos deixar de dar, já que só pode resultar certamente de uma aturada e notável investigação. O site Colombo Português não reflectirá agora o nome mais adequado para um Warnenczyka, mas é apenas uma opinião. 
Nos antípodas de tais profundidades, na melhor das nossas conjecturas poderíamos pensar num Colombo chinês, na rota da investigação de Menzies... ou ainda, confessamos a nossa hipótese preferida, um Colombo norte-americano, pensando que D. João II  teria afinal legado aos espanhóis um índio nativo.
--------

Em mais ligeiras deambulações, fomos encontrar um nome diferente: o princípe Wiasemsky... cujo registo na internet é quase nulo.
Porém, conseguimos encontrar dois recorte de jornal - um do Bay of Plenty Times (1894) e outro do Grey River Argus (1896), jornais da Nova Zelândia.

O conteúdo das notícias, que aqui colocamos serve apenas para mostrar o ponto seguinte.
(clicar para visualizar)

Trata-se de uma citação de Cândido Costa, de 1896:
Ultimamente o príncipe Wiasemsky, que já viajou a cavalo ao redor da Ásia, dirigindo-se ao Figaro, que se publica em Paris, fez ciente do seu novo empreendimento, que consiste em passar da Europa para a América pelo mesmo meio de locomoção. 
O ponto de partida será Paris, atravessará a Europa e a Sibéria em direcção ao estreito de Bering, que transporá por cima do gelo, dirigindo-se daí às duas Américas, de Alasca até à Patagónia. 
No estreito de Bering não será difícil a passagem, por isso que durante dois meses forma-se nele o gelo.
Ou seja, há pouco mais de 100 anos, o estreito de Bering era transitável pelo gelo, durante dois meses. Este facto é completamente omitido hoje em dia. 
Aliás, considera-se apenas como hipótese a possibilidade de deslocação entre a Ásia e a América, em tempos remotos, durante a glaciação. O objectivo de Wiasemsky era demonstrar a viabilidade dessa travessia, como disse Cândido Costa: "Essa tentativa é um arrojo do ousado itinerista, que vem comprovar a passagem que faziam em tempos imemoriais do estreito de Bering para a América".

Como já referimos, antes de Bering, era denominado Estreito de Anian. Provavelmente devido ao arrefecimento considerável da Terra nos séculos seguintes, ficou inviável a Passagem Noroeste. Talvez a percepção de Bering tenha sido esse congelamento e a ponte de gelo. 
Ou seja, é natural que Bering tenha descoberto a Passagem de Bering, e não o Estreito de Anian. 
Isso permitiu depois à Rússia atingir o Alasca, pela continuidade, que se revelou instável e levou à venda do território aos USA. Um jogo sobre a ponte, numa altura em que o bridge, ou Russian Whist, era inventado.


O registo que encontrei de Wiasemsky foram dois recortes de jornal, que comprovam a existência e versatilidade do explorador russo. 
O registo dessa ligação do Estreito de Bering há cem anos, desapareceu!... 
Não se trata de uma informação perdida há muitas centenas de anos, trata-se de um registo que certamente entusiasmaria os leitores de jornais de grande circulação, como o Figaro... e no entanto, as proezas de Wiasemsky ficaram enterradas na glaciação informativa do Séc. XX, com uma pequena ponta solta na Nova Zelândia e no livro de Cândido Costa.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O raio da Terra

A teoria que basicamente está vigor no que diz respeito ao desaparecimento de muitas espécies, e muito principalmente os dinossauros, tem como base um impacto de um asteróide na zona da península do Iucatão, México. 

Qual o efeito de um embate de um meteoro/cometa na Terra?
Se o corpo for razoavelmente grande, podem ser mais significativas do que é habitualmente considerado! Um pormenor que não é normalmente discutido, diz respeito à velocidade de rotação terrestre.
É bem conhecido (especialmente por quem já tenha jogado bilhar) que se um impacto não for exactamente central, o corpo fica sujeito a uma rotação originada pela lateralidade do impacto. Essa será uma das principais causas dos movimentos de rotação dos corpos celestes. Ou seja, faz sentido procurar uma razão para a actual rotação terrestre num impacto na zona equatorial, e orientado no sentido directo.

Encontramos uma depressão marítima extremamente profunda que pode corresponder a essas características, naquilo que é hoje o Mar das Caraíbas - orientada no sentido directo, na linha equatorial.
Caso se tratasse de um cometa de grandes dimensões, como o núcleo pode ter 80% de gelo, isso corresponderia a um acréscimo de água de proporções diluvianas. Para além disso, antes de estabilizar, a rotação terrestre poderia ter sido alterada de forma abrupta... a ponto dos dias serem muitíssimo mais curtos do que aquilo que hoje presenciamos. Isto já para não considerar uma possível alteração orbital, com consequência numa alteração da duração dos anos. Como curiosidade, lembramos que os personagens bíblicos têm vidas 10 vezes superiores às normais, antes do dilúvio!

Actualmente a Terra tem uma velocidade orbital de 30Km/s, que é alta (0.01% da velocidade da luz), e 60 vezes mais alta que a velocidade de rotação equatorial (463 m/s, que é superior ao som). 

No entanto, assumir que sempre foi assim, é apenas uma hipótese conservadora.
É sempre engraçado ver misturar teorias conservadoras com hipóteses radicais, para justificar alterações radicais... e no entanto a base fica sempre conservadora. Por exemplo, em termos de datação, usa-se um decaimento para distribuição uniforme do carbono 14, e depois vai sendo ajustado para diversas inconsistências, para coincidir minimamente com outros métodos, que usam a exposição solar, ou a estratificação. Faz-se isso com a leveza habitual, que o conservadorismo académico tende a preservar. Pode depois falar-se em milhões ou biliões de anos, com base no conhecimento seguro de apenas algumas centenas ou dezenas.

O arrefecimento do interior da Terra
Os milhões de anos seriam necessários para toda a teoria de evolução, etc...
Há, no entanto, um problema complicado assumindo milhões de anos, que é ignorado!
- A termodinâmica preconiza um decaimento do calor muitíssimo rápido, exponencial...
(... é aliás por isso que mesmos os melhores térmos não mantêm as bebidas quentes mais que algumas horas)

Ou seja, mesmo com o melhor isolamento térmico provocado pela crosta terrestre, o manto não precisa de milhões de anos para arrefecer. A menos de existência de uma fonte de calor interna (coisa que só é admitida em estrelas), o arrefecimento seria muito rápido, de acordo com as leis da termodinâmica.
Aliás, basta pensar no que seria ter algum material fundido a temperaturas de vários milhares de graus, dentro de uma esfera isoladora... não é preciso esperar muito tempo para um arrefecimento e solidificação. Certamente, não é preciso esperar anos, e muito menos milhares de anos.
Por outro lado, astros de menor dimensão, como Mercúrio, a Lua, ou os asteróides, não têm qualquer actividade vulcânica, o que mostra como rapidamente consolidaram. Mesmo em Marte, há apenas vulcões extintos, e a actividade vulcânica na Terra tem-se reduzido a um número cada vez mais escasso de vulcões activos.

Qual o problema de admitir que a idade da Terra é muitíssimo mais recente?
- Faltaria espaço temporal para a teoria da evolução... em vez de uma progressão lenta das espécies, teríamos quase uma espécie de jardim zoológico, que alguém aqui colocou!

Uma hipótese alternativa será admitir uma fonte de calor interna. Ou seja, não me parece impossível terem existido reacções nucleares no interior da Terra, devido à grande pressão, como acontece nas estrelas... essa fonte nuclear interna aceleraria ainda mutações e evolução. Entretanto, nos últimos milhares de anos, ficaríamos na fase de arrefecimento interno.

A falha central no Atlântico
Como referimos noutro texto, em 1682 Carvalho da Costa indicava 10º30' para a diferença de longitude entre Londres e Lisboa, o que será um erro de 1º face à posição actual. Podemos sempre admitir o erro do autor, mas também podemos evitar estar sempre a usar essa desculpa.
Por que não admitir um movimento de 1º em 500 anos, digamos?
O que significaria isso? Em 10 000 anos significariam 20º de diferença, assumindo uma variação constante, para simplificar... (o que é típico fazer-se academicamente!)

Acontece que 20º de amplitude na longitude é o que temos em média de diferença na "espinha-dorsal" Atlântica, a cadeia montanhosa que se forma pela separação das placas tectónicas.
Conforme podemos ver num mapa topográfico:
A cadeia montanhosa a meio do Atlântico rompeu as zonas de maior profundidade (a roxo) em duas partes. É essa diferença (setas brancas) que se cifra em média em 20º de latitude.
As zonas de maior profundidade já existiam, e há uma diferença abissal entre as zonas menos profundas (onde se supõe que pode ter estado um litoral primitivo) e as zonas mais profundas, alguns planaltos submarinos, onde encontramos a formação submarina que foi ligada à Atlântida.

É aliás fácil verificar que há uma zona central agreste, com grandes irregularidades, que corresponde a essa cadeia montanhosa central, e por isso será mais recente. As partes submersas junto à zona costeira são estranhamente muito planas, e serão mais antigas.

O raio da Terra
A teoria tectónica assume que o tamanho da Terra foi constante.
Ou seja, aquilo que se acrescentou de superfície (consolidado o magma a meio do Atlântico), foi depois submergido na zona do Pacífico adicionado com a elevação da cadeia montanhosa americana (das Rochosas aos Andes). Porém, essa expansão processa-se de forma muito mais rápida que a submersão, e portanto a única consequência é um aumento da dimensão da Terra. 
Aliás não há nenhuma razão para assumir que a crosta terrestre tivesse tido sempre a mesma dimensão.
Curiosamente, as medições de Eratóstenes para o raio da Terra, que apresentam um erro de 1% estariam correctas se assumirmos que houve estes movimentos.

Sintetizando...
A consolidação da Terra será muitíssimo mais recente, e a actividade vulcânica tenderá a desaparecer, como aconteceu em Marte (... não falamos aqui de Eyjafjallajokull, que estará mais ligado a erupções financeiras). A crosta terrestre quebrou primeiro, muito provavelmente numa primeira gigantesca colisão que definiu o Pacífico. Ainda há pouco tempo, em 1994, um cometa colidiu com Júpiter.
A última colisão significativa deverá ter ocorrido na formação do Mar das Caraíbas, e definiu a actual rotação e órbita terrestre. Essa colisão poderá ter sido a origem do mito diluviano, primeiro pelo impacto, e depois pelo efectivo aumento do nível da água, talvez seguido de período glacial...

Obviamente não estou a dizer que isto aconteceu, são apenas algumas hipóteses a considerar... o resto fica para a certeza da "tradição académica", com as suas simplificações - em que a Terra teve sempre o mesmo tamanho, os dias e os anos foram sempre iguais, em que o calor interno não arrefece, etc... coisas que assim permitem fazer datações a milhões ou biliões de anos...

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Afonso Henriques e Ourique

A batalha lendária que está no centro da formação de Portugal, é a batalha que D. Afonso Henriques trava em Ourique, em 1139. Foi carregada de misticismo pela anunciada visão de Cristo, tendo tal visão ficado consagrada de forma marcante no escudo de armas português - as cinco quinas e os 30 dinheiros.
A visão de D. Afonso Henriques - Batalha de Ourique 
(quadro de Domingos Sequeira, 1793)

Que sentido faz colocar a Batalha de Ourique no Alentejo quando nem Santarém, nem Lisboa estavam conquistadas? Como passariam por todas as linhas inimigas, indo fazer uma batalha isolada no Alentejo?
Não faz quase nenhum sentido... e por isso o evento foi declarado mítico, ou então foram consideradas outras localizações para Ourique, em lugares próximos, de Leiria ou Santarém.
Porém essas novas localizações nada trazem de mais extraordinário do que a conquista de Leiria, lembrando que Óbidos terá caído em 1148, após Lisboa. A que ponto a proeza convenceria D. Afonso Henriques da magnitude mística e declarar-se Rei de Portugal.  
Que territórios teriam então ficado consagrados nessa batalha, se Lisboa e Santarém ainda estavam em poder inimigo?

Colocamos uma hipótese, no sentido de viabilizar a versão alentejana.
A principal conquista seria Lisboa, que será marítima, mas para esse efeito seria estrategicamente ousado cortar as comunicações e abastecimentos a Lisboa, pelo sul. 
Uma incursão por desembarque marítimo até Ourique, seria uma táctica da cunha, colocando uma restrição, quer pela via marítima, quer pela via fluvial da bacia do Sado.
Ou seja, a novidade na conquista de Afonso Henriques seria o ataque naval, consolidando os principais pontos costeiros, e depois partindo para o interior. Assim foi com Lisboa, reconhecidamente um desembarque naval, e não há razão para não ter sido isso em Ourique, talvez visando Sines. Diremos que Ourique está bem longe no interior, mas como já vimos não há razão para supor que orografia tenha sido sempre a mesma... aliás sabemos bem que a Holanda ganhou imensa terra ao mar, e também Porto de Mós ou Marinha Grande já terão feito jus aos seus nomes, colocando Leiria no litoral... conforme já aqui abordámos
Se o avanço tivesse sido por terra em direcção a Lisboa, teriam que conquistar pelo menos Porto de Mós ou Óbidos... o que não fizeram! Ambas os castelos caíram só no ano seguinte a Lisboa, em 1148.
Há assim uma clara indicação de que a prioridade era a consolidação de pontos na costa atlântica.
O limite dessa costa atlântica, antes do Algarve, seria justamente a linha do rio Mira. 
Associado à conquista de Odemira, corre a lenda de que a surpresa do ataque de Afonso Henriques teria levado à expressão "Ode, Mira!", da parte da mulher do alcaide Ode...
Qual a razão da surpresa do ataque, se tivesse ocorrido na progressão de Afonso Henriques para o sul?
Nesta hipótese, teria sido pela bacia do Mira que teriam seguido na direcção de Ourique e consolidado aquela posição estratégica.
Há uma outra data que corrobora esta hipótese - Beja é conquistada antes de Évora!

Doutra forma, sem considerar esta conquista feita da costa atlântica para o interior, as datas aparecem desconexas, e sem razão aparente.
Há outro aspecto interessante... a formação de Portugal teria sido naval, a partir do Atlântico!

A última viagem de Gulliver a Lilliput

Diz Diogo de Couto, na sua Quarta Década da Ásia:
O quinto Arquipélago é o de Amboino, que está ao sul de Maluco, tem muitas ilhas, que se governam por suas cabeças (...) Há muitos povos por estas ilhas, em que os filhos comem os pais como são velhos - têm muitos ritos e costumes bárbaros, que nós não relatamos por fugir proxilidade. (...) A sul de Amboino estão as Ilhas de Banda, e a Leste delas perto de 300 léguas, segundo alguns afirmam, está uma ilha de muito ouro, cujos naturais não passam de 4 palmos de alto, e se assim é, são os verdadeiros Pigmeus.
Pouca gente terá lido as Décadas da Ásia de João de Barros, continuadas por Diogo de Couto, e se chegaram a ler este relato, não terá despertado nenhuma especial atenção... passando por mítico.

Acontece que em 2004 foram descobertos na Ilha das Flores, na Indonésia, restos humanos, agora denominados Homo Floresiensis que comprovam a existência de humanos cuja dimensão rondava 1 metro de altura... os tais 4 palmos de altura, que referia Diogo de Couto. 
comparação entre um crânio floresensis e um crânio humano microcefálico

Para termo de comparação, lembramos que a maioria das crianças com 3/4 anos tem mais de 1 metro de altura! Esta ilha seria uma autêntica Lilliput povoada por pequenos humanos.

Esta informação recentemente colocada no blog Portugalliae despertou-me a atenção nesta leitura do texto de Diogo de Couto. Conforme José Manuel dizia, os portugueses mantiveram lugares chave na sua exploração do Mundo, enquanto puderam. Após invasão parcial, a ilha das Flores acabou por passar a controlo holandês em 1851. Pela influência dos missionários dominicanos portugueses, a população remanescente tornou-se católica até hoje, e a miscenização levou a que fossem chamados "Portugueses Pretos" pelos Holandeses.
These have no Forts, but depend on their Alliance with the Natives: And indeed they are already so mixt, that it is hard to distinguish whether they are Portuguese or Indians. Their Language is Portuguese; and the religion they have, is Romish. They seem in Words to acknowledge the King of Portugal for their Sovereign; yet they will not accept any Officers sent by him. They speak indifferently the Malayan and their own native Languages, as well as Portuguese. 
Texto de W. Dampier, oficial inglês, em 1699
Tudo o que não conhecemos, tem sido epitetado como descrições míticas e fabulosas... e por isso os marinheiros têm tido a fama, ao longo de séculos, de grandes mentirosos. 
Face à mentira instituída, a verdade será sempre mentira.
A única maneira de passar a informação tem sido por vezes sob forma ficcional... é aqui que entra Johnatan Swift e as suas populares Viagens de Gulliver (retomadas no cinema em 2010).
Johnatan Swift e as Viagens de Gulliver

O aspecto tenebroso é a extinção... não há nenhuma razão para duvidar do relato de Diogo de Couto, que é corroborado pelo achado de ossadas na Ilha das Flores. Não é nada claro que Diogo de Couto se referisse às Flores, mas sim a outra ilha nas proximidades, adicionando-lhe a riqueza em ouro.

Fala-se do Dodó, e da sua extinção nas Ilhas Maurícias, sob controlo holandês, em 1681, e um pouco menos do Tigre-da-Tasmânia, em 1937... mas o aspecto do genocídio ter chegado ao ponto da extinção de uma raça humana, em tempos recentes, tem contornos tenebrosos.
Extintos: o Dodó das Maurícias e o Tigre da Tasmânia

É na sequência da extinção do Dodó, que aparece o conto de Lilliput e Gulliver em 1726.

Usa-se o aspecto alegórico, e a comparação entre as guerras anglo-francesas, mas não convém esquecer o aspecto sinistro de uma raça humana ameaçadora Yahoo, nem tampouco o registo da ilha flutuante de Laputa (mais uma vez sinalizamos o blog Portugalliae e a referência à cidade flutuante de Laputa).
Finalmente, sobre o contraponto gigante... os Brobdingnag, poderíamos encontrar a referência mítica aos gigantes da Patagónia... também estes extintos.

Convém notar que nos populares mapas de John Tallis, de 1851, a Patagónia permanecia ainda como território inexplorado... habitado por "índios".  Pouco tempo depois o estado de La Plata daria origem à moderna Argentina com a brutal anexação desses territórios a sul.
A Patagónia, antes da anexação Argentina, em 1851

No final das viagens de muitos Gullivers, menos bem intencionados, os liliputianos ou gigantes desapareceram do nosso registo. Ora é assim que, ao jeito surpresa, se anuncia que somos afinal a única espécie humana sobrevivente. Poderia ter sido diferente?

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Taybencos, a que agora chamamos Chins

Já houve tempos de censura... e hoje estamos a ser conduzidos para tempos de auto-censura.
O exemplo do wikileaks não é tanto um caso de censura, é uma indicação para auto-censura. O que é difundido pelos meios de comunicação tem um propósito. Neste caso, os jornalistas são avisados que devem ser contidos na liberdade de expressão... ou arriscam-se às consequências.
Se os agentes secretos devem estar reservados ao sigilo, pelo seu compromisso profissional, os jornalistas que sabem dessa informação não fizeram nenhum voto de sigilo, para estarem comprometidos a uma efectiva limitação da sua liberdade de expressão.

António Galvão, que é uma nossa fonte preferida, dizia algo bastante instrutivo:
 (,,,)  não podia ser a Terra toda sabida, e a gente comunicada, uma com a outra, porque quando assim fosse se perderia pela malícia e sem justiça, dos habitantes dela.

É um efectivo aviso ao mundo onde começava a viver... um mundo global, sem qualquer alternativa, nunca se livraria da malícia e da injustiça dos homens, seus governantes. 
Mais do que um mundo global, avizinhava-se uma prisão global.
Como é claro, a prisão só é percepcionada por aqueles que viram a altura das paredes que os cercam... todos os outros, que não vislumbram restrições, esses consideram-se livres. Afinal, nunca nenhuma ditadura suprimiu a liberdade de expressão para receitas de culinária e casos de futebol. 
Os limites da liberdade de expressão só são perceptíveis por quem tem algo inconveniente para revelar.

Feita esta pequena introdução conjuntural, continuamos com António Galvão, acerca dos descobrimentos chineses:
E porque os maiores descobrimentos e mais compridos foram por mar feitos, principalmente em nossos tempos, desejei saber quais foram os primeiros inventores disto, depois do Dilúvio. 
Uns escrevem que foram os Gregos, outros dizem que os Fenícios, outros querem que os Egípcios... Os Índios não consentem nisso, dizendo que eles foram os primeiros que navegaram, principalmente os Taybencos, a que agora chamamos Chins... e alegam para isso serem já senhores da Índia até ao Cabo de Boa Esperança, e a Ilha de São Lourenço por ser povoada deles ao longo da praia (...)
O nome Taybencos (Taibencos, ou Tabencos) associado aos Chineses encontro-o exclusivamente na obra de Galvão e nas citações que lhe foram feitas. Seria mais associável à Tailândia, mas Galvão é claro, e as traduções seguem-no.
Há ainda que notar que Galvão usa uma expressão geral de Índios... talvez a única adequada à época. Os índios não seriam mais do que todos os povos de feição oriental. Por isso, haveria as Índias Ocidentais e as Orientais... as feições do povo eram consideradas semelhantes, em partes geográficas distintas.
Também não havia notícia de chineses em Madagáscar (Ilha de São Lourenço)... e porém aqui está o registo do seu povoamento ao longo das praias da ilha.

É sempre preciso colocar António Galvão no seu devido lugar, e para isso é preciso recorrer a autores estrangeiros. Quando o Almirante Charles Bethune reedita a obra de Galvão em 1862, traduzida por Hayklut em 1601, diz claramente que: 
But his deeds were not limited to earthly conquest. Galvano, so intrepid at the head of this troops, might also be seen, with a crucifix in this hand, preaching the Gospel publicly, whereby he became known as the "Apostle" of the Mollucas. (...)
Faria e Sousa sums up his high qualities in these words: "His fame will never perish so long as the world endures; for  neither weak kings, nor wicked ministers, nor blind fortune, nor ages of ignorance, can damage a reputation so justly merited
He spent the latter part of his life in compiling an account of all known voyages, and thus he may be styled the father of historical geography.
Para o Almirante Bethune, Galvão é o Pai da Geografia Histórica, para os portugueses será um completo desconhecido, ausente de qualquer referência condicente na História de Portugal. 
O último registo é a reedição de Miguel Lopes Ferreira, em 1731, dedicada ao Conde da Ericeira, D. Luiz Meneses. O tempo de D. João V irá terminar, e com o Marquês de Pombal, todos os registos vão cair na destruição do Terramoto. 
O livro ficará com o epíteto de "raríssimo" até aos dias de hoje... tão somente porque as mesmas forças que condenaram a figura ímpar de Galvão à mendicidade, nunca deixaram de estar presentes e a comandar os nossos destinos.

Galvão prossegue na descrição:
... e os Jaos [Java], Timores, Selebres [Celebes], Macasares [?], Malucos [Molucas], Borneos, Mindanaos, Luções, Léquios, Japões e outras ilhas, que há muitas, e as terras firmes de Cauchenchinas [Conchinchina, Vietname], Laos, Siamis [Sião, Tailândia], Bremas [Birmânia], Pegus [Birmânia], Arracões [?], até Bengala & além disto, a Nova Espanha, Perú, Brasil, Antilhas e outras conjuntas a elas, como se parece nas feições dos homens, mulheres & seus costumes, olhos pequenos, narizes rombos, & outras proporções que lhe vemos. E chamarem ainda agora a muitas destas ilhas & terras Batochinas, Bocochinas, que quer dizer Terras da China.
Ou seja, Galvão aparenta deduzir pela semelhança fisionómica que todos estes povos [basicamente   a maioria das ilhas do Pacífico, Indico, e toda a América] estavam ligados aos chineses, e eram seus descendentes, por colonização... invocando a designação Batochinas com possessões chinesas.

Mas Galvão acrescenta ainda mais razões para serem os Chineses os primeiros navegadores:
Além disto os nossos escritores deixaram escrito que a Arca de Noé, se assentara da parte norte dos montes da Arménia, que está de 40º para cima [o monte Ararat está a 39º42'], e que logo dali fora a Schytia povoada por ser terra alta e a primeira das águas a ser descoberta. E como a província dos Thaibencos seja uma das principais da Tartaria (se assim é como dizem) bem se mostra serem eles dos mais antigos povoadores e navegadores. Pois neles se acaba aquela terra do levante & os mares são tão bons de navegar como os rios destas partes, por jazerem entre os trópicos onde dias e noites não fazem muita diferença, assim nas horas como na quentura, por onde não há ventos tão destemperados que alevantem as águas, nem as façam soberbas. 
E por experiência o vemos nos pequenos barcos em que navegavam, com um ramo por mastro, & vela, & um remo na mão com que governam, correm muito mar e costa. E assim, nuns paus a que chamam Catamarões, em que se escancham ou assentam & vão com o outro remando. E querem ainda que estes Chins fossem senhores da maior parte da Scithia & que navegassem toda a sua costa, que parece estar até 70º da parte norte. 
Cornélio Nepote referido, assim o aprova, onde diz, que Metelo, colega de Afranio, estando por consul em França, el rey da Suévia lhe mandara certos índios, que vieram pela parte do norte, às praias da Alemanha, & segundo isto devia ser da China, por estar de 20º, 30º, 40º para cima, e tem naus fortes e de pregadura que podeiam sofrer mares e terras tão frias e destemperadas como aquela. 
Se o primeiro argumento está envolto naquilo a que nos habituámos a ver como mito do Dilúvio, os outros argumentos já são de mais difícil contra-argumentação. Por um lado encontramos o primeiro registo aos Catamarãs... designados por Catamarões, e de facto a navegação naquelas partes nada tem a ver com as dificuldades atlânticas. 
Por outro lado, o registo romano de Cornélio Nepote (100-30 a.C), mostra um argumento de navegação organizada, exploratória, que contactou a Alemanha - os Suevos, Suevos que depois se iriam instalar em Portugal e Galiza. Ou seja, esse registo pode não ter sido esquecido dos reis Suevos, ao focarem a sua migração ibérica. Esse registo é tanto mais notável quanto mostraria uma eventual travessia da Passagem Nordeste.

Galvão tem o relato vivido da época. Se os portugueses conquistam o Indico e atingem a China em menos de 20 anos, com D. Manuel, isso mostra um enfraquecimento de qualquer poderio naval, seja dos muçulmanos, seja dos chineses. No entanto, Galvão procura ter o distanciamento suficiente para aceitar que os relatos chineses corresponderiam a efectivas navegações... e essa verdade contrariaria toda a História que se estava a preparar para ser contada durante séculos até hoje!

[Este post surge na sequência do contacto com http://www.redescobrindoobrasil.com.br/   que agradecemos]
.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Mar Eritreu, vulgo Vermelho

Quando publico um deste tópicos normalmente reúno diversas informações que me convencem da verosimilidade do conteúdo, mas nem sempre coloco todos, muitas vezes por puro esquecimento.
Foi o caso do texto sobre o Mar Vermelho (ou Ebreus do Ebro), onde já teria tido oportunidade de colocar este assunto relativo ao Mar Eritreu.

Literalmente, Mar Eritreu vem do grego ερυθρό - vermelho, ou seja seria o Mar Vermelho.
Em latim a variação seria Mare Rubrum.
Não há grandes dúvidas, por isso apresentamos os mapas de Estrabão, Pompónio Mela, e Dionísio Periegetes, segundo a reconstrução de Edward Bunbury (1879)... 

- o Mar Vermelho seria o Oceano Índico:

Reconstrução de Bunbury do Mapa de Estrabão 
Reconstrução de Bunbury do Mapa de Pompónio Mela 
Reconstrução de Bunbury do Mapa de Dionísio Periegetes 
(click no mapa para zoom)

Reconstruções são o que são... por exemplo, para Pompónio Mela, deixamos aqui indicação de mais duas... uma do séc.XVII  e outra de 1898. Não têm significado especial no aspecto gráfico, mas no conteúdo são reveladoras.
Não há propriamente espaço para dúvidas... pelo simples facto de que o actual Mar Vermelho era designado por Mar Arábico (ou Golfo/Sinus Arabicus).

Quando se deu a mudança? Definitivamente foi consolidada no final do Séc. XIX, com a colonização italiana da província da Eritreia... assim convenientemente nomeada, pela sua localização na costa do Mar Vermelho. No entanto, a confusão que levava o nome Mar Vermelho em vez de Sinus Arábico encontra-se já em quase todos os mapas do Séc. XVI e posteriores.

A questão não fica por aqui... porque os próprios romanos tratavam das suas próprias confusões.
- Colocar uma Eritreia no Oriente, por contraposição aos gregos e à sua Ilha Eriteia (Ἐρύθεια)... uma ilha Ocidental!

Ilha Eritheia
Essa ilha Eritheia era associada às ilhas míticas Hespérides, onde estaria Gades, agora associada a Cadiz.
Porém, reparamos que aumentando o mapa de Pompónio Mela, vemos representadas Gades e Erytheia (para além das Fortunatas, e Hespérides) enquanto ilhas diferentes...
Eritheia - zoom do "mapa de Pompónio Mela"

Com um suposto aumento do nível do mar, a península ibérica ganha um aspecto ligeiramente diferente
... ou seja, as zonas montanhosas da serra algarvia poderiam ser ilhas. Assim, a mítica Eritheia, com a sua cidade Gades, não teria que ficar confinada à minúscula ilhota de Cádis.

O mapa aqui apresentado tem um cenário que mostra ainda que bastaria um aumento do nível do mar na ordem das duas centenas de metros para tornar a península ibérica numa grande ilha ocidental.

Assim, quando no texto "Ebreus do Ebro", falámos de uma possível ligação à Ibéria, e na existência de um Monte Moisés no Estreito de Gibraltar, acrescenta-se agora esta designação Eritheia, Ilha Vermelha, ligada a Gades-Cádiz, e que assim se confunde com o Mar Vermelho... noutras paragens.

Termino, com algumas passagens dos Lusíadas:

Tu, que a todo Israel refúgio deste
Por metade das águas Eritreias;

(...)
Passam também as ondas Eritreias,
Que o povo de Israel sem nau passou;

(...)
Lá no seio Eritreu, onde fundada
Arsínoe foi do Egípcio Ptolomeu,

(...)
E assim a água, com ímpeto alterada,
Parecia que doutra parte vinha,
Bem como Alfeu de Arcádia em Siracusa
Vai buscar os abraços de Aretusa.

(...)
Passadas tendo já as Canárias ilhas,
Que tiveram por nome Fortunadas,
Entramos, navegando, pelas filhas
Do velho Hespério, Hespérides chamadas;

(...)
Que quem da Hespéria última alongada,
Rei ou senhor de insânia desmedida,
Há de vir cometer com naus e frotas
Tão incertas viagens e remotas?


O jardim das três deusas Hespérides: Eritheia, Aretusa e Héspera.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Porto de Mós e Dom Fuas

Há várias localidades cujo nome tem um associação marítima difícil de ignorar.
O caso mais singular é Porto de Mós, que teve como alcaide, Dom Fuas Roupinho, o primeiro almirante da Marinha Portuguesa.
Actualmente, Porto de Mós está bastante longe da linha de costa, aproximadamente a 20Km... que sentido colocar um almirante e um nome de Porto a uma localidade inserida na Serra dos Candeeiros?

Mais uma vez recorremos a simples mapa orográfico e a um aumento do nível do mar, abaixo de 50 m:
A costa da Estremadura, com um aumento de algumas dezenas de metros no nível do mar.

Torna-se evidente que há uma depressão que segue pela Marinha Grande, Leiria, até Porto de Mós. Ou seja, faz sentido considerar uma possível ligação marítima que tornasse estas cidades costeiras. Por outro lado, tornam-se ainda evidentes outras ligações marítimas... Uma delas avançaria até Coimbra, pela actual bacia do Mondego, começando em Buarcos/Figueira da Foz.

É claro que algumas destas depressões estão associadas a vales de rios, e pode admitir-se que foram os rios que provocaram por erosão essas depressões... porém, nada impede o cenário equivalente - os rios seguiram os percursos definidos pelas depressões. Aconteceria algo semelhante se o nível do mar descesse na costa da Galiza - algumas dessas entradas costeiras assemelham-se a erosão fluvial, e poderiam ser confundidas como tal.

Outro ponto interior que se revela no contacto marítimo é Alcobaça, pela entrada no antigo porto da Pederneira. Aqui é bastante revelador que a antiga vila da Pederneira, está algumas dezenas metros acima da actual Nazaré, que só se afirmou como lugar no séc. XIX. O mesmo se passa com Alfeizerão, uma pequena vila interior, e que até ao Séc. XVIII era considerada como porto de navios. 
Também é conhecido que Óbidos tinha uma ligação marítima através da sua lagoa, que Peniche chegou a ser uma ilha, e que o porto costeiro era Atouguia da Baleia, agora bem no interior.
Mapa do Séc. XVII com a costa da Estremadura, 
evidenciando ligações marítimas perdidas. O estuário do Mondego 
tinha ilhas interiores e seria semelhante à ria de Aveiro.

Citamos Lorenzo Anania, que no Séc. XVI faz um relato sobre os portos nacionais:
Vedesi por Viana, Possende, Villa del Conde, & poco discosto sbocca il Doro, maggior fiume di Spagna, il quale nascendo appresso Moncaio, prende tanti fiumi, che fattosi alla sembianza d'un stretto di mare, rende il debito all Oceano à canto à Porto, laquale é una città, dove hora si lavorano finissime arme: quindi si passa à San Giovanni della Fos, Hovar, & Avero; onde si parte ogni anno la flotta di molte navi, che và à pescare i Baccallai à Terra Nuova. Segue appresso Boarco su la bocca del Mondego, Pedernera, Alfizzaraona, Ataguia, & Pignieri: al cui rincontro si scuopre l'isola Barlinga, detta anticamente Landobria:
Para além de revelar que o Douro, seria o rio maior da Espanha, aparentava ter um estreito de mar na Foz (dita S. João da Foz), diz em 1576 que todos os anos partia de Aveiro uma frota de numerosos navios para a pesca do Bacalhau na Terra Nova. Os portos relevantes que se seguem são: Buarcos, Pederneira, Alfeizerão, Atougia. O nome Pignieri deve indicar Peniche, pela sua ligação às Berlengas. Continua directamente para o "Cabo de Cascais" e Sintra.
Conclui-se assim que há não muitos séculos houve portos relevantes que se tornaram interiores, resultado de um assoreamento e de duma fixação de dunas. 

Por outro lado, a imagem que gerámos computacionalmente revela-nos um Mar da Palha ainda mais largo, ao ponto de deixar a península de Setúbal como uma verdadeira ilha...
O que é significativo é que este aumento do nível do mar não submerge nenhuma das vilas antigas.
Para além disso, justifica melhor a sua localização, e vários nomes interiores claramente ligados a portos, a marinhas, ou a actividades marítimas.

Nota: É claro que não estamos aqui a falar de movimentos tectónicos, mais antigos... no entanto não deixa de ser interessante reparar num pormenor - é suposto cadeias montanhosas como os Pirinéus, os Alpes, ou os Himalaias estarem associados a esses movimentos, no entanto a cada um deles associa-se uma extensa parte de baixa altitude.  No caso dos Pirinéus, à "ilha ibérica" sucede uma planície da Aquitânia, no sul de França. No caso dos Alpes, o vale do Pó antecede a "ilha italiana". No caso dos Himalaias, o vale do Indo e Ganges antecede a "ilha indiana".

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Cáspio

Não nos chegaram mapas dos geógrafos antigos, ainda que certamente os haverá guardados... e um dos candidatos naturais será a biblioteca do Vaticano.
Porém, pelas descrições encontram-se incertezas nas descrições de alguns pontos importantes, e que dada a proximidade de contacto, com gregos e romanos, não deveriam oferecer grandes dúvidas.

Um deles é o Mar Cáspio... nuns casos era considerado lago, noutros casos mar:
- Heródoto, Ptolomeu: consideravam-no como lago;
- Hecateu, Dionísio Periegetes, Pompónio Mela, Estrabão: consideravam-no como mar ligado ao oceano (a norte ou a nordeste).
Mapa-reconstrução de Estrabão - ligação do Mar Cáspio ao Oceano

A ligação do Cáspio ao Oceano parece difícil ser proposta sem razão.
Por isso, consideramos um simples mapa orográfico, que põe em evidência as altitudes dos diversos pontos no globo:
A verde estão representados os locais de mais baixa altitude até 500m, altura que já é representada por um beije acastanhado até valores superiores a 1500m, já a branco.

Isto torna evidente que grande parte da Europa de Leste, em particular a grande extensão russa está colocada a uma altura razoavelmente baixa. Para tornarmos a situação mais clara identificámos todo o registo de baixa altitude (essencialmente a verde) com o registo do oceano, obtendo-se o seguinte cenário (computação automática):
Situação orográfica com um incremento do nível do mar nalgumas centenas de metros

Ou seja, basicamente toda a Europa de Leste, e grande parte da Rússia desapareceria com um incremento do nível do mar nalgumas centenas de metros. A Europa ficaria basicamente reduzida a uma ilha ligando as cadeias montanhosas da meseta ibérica pelos Alpes ao Peleponeso. A Índia passaria a ser uma ilha... e nesse caso talvez se devesse chamar Taprobana!

Não é necessário porém exagerar a situação ao ponto anterior, para que se compreenda como uma menor subida do nível do mar poderia deixar o Cáspio ligado ao Oceano:

Neste mapa fica evidente uma separação Europa/Ásia que é definida pelos Urais, mas também pela depressão que ligaria o Cáspio ao Oceano, pelo norte. Ou seja, a inexistente separação entre os dois continentes ficaria assim evidenciada, com algumas consequências explicativas, que até aqui têm ficado por explicar.

(i) Havendo uma continuidade entre a Europa e a Ásia, como se justificaria a significativa diferença entre as características dos povos asiáticos e europeus, sem uma clara continuidade pelas estepes russas? Com um nível do mar mais elevado, haveria um efectivo isolamento entre os dois continentes, a menos de passagem pelos Himalaias/Tibete... Uma Índia reduzida a uma grande ilha Taprobana, deixaria ainda o Nepal e o Tibete como zonas quase costeiras.

(ii) A invasão dos Hunos, que ensombrou a Europa com o pesadelo asiático, pode ter sido consumada pela consolidação da paisagem, em que a taiga russa ganhou terreno a esse espelho de água do Cáspio. Com o recuo das águas esse mar teria-se desvanecido, numa evolução pantanosa que ainda caracteriza a taiga siberiana.
(De forma semelhante, em Portugal uma parte significativa da paisagem foi ganha ao mar pela consolidação de grandes extensões de areia, com pinhais. As coníferas são também as árvores que definiram a taiga.)

(iii) A localização de algumas cidades, no interior da Ásia, no Afeganistão, no Cazaquistão, como Astana, teriam uma razão de relevância diferente nessa conexão marítima para um Cáspio mar. Uma significativa parte da rota da seda poderia ser resultado de uma remniscência dessa ligação marítima.

(iv) Curiosamente, neste segundo mapa, a América do Sul aparece desenhada com um lago interior, conforme indicado em mapas do séc. XVII, o chamado Lago Parime supostamente lendário... Curiosamente aponta ainda para uma grande entrada no rio da Prata, conforme aparecia exagerado em mapas portugueses iniciais.

Uma boa parte dos vestígios arqueológicos situam-se em pontos interiores, que nada teriam para uma escolha particular. Porém, na perspectiva diluviana, com o nível do mar algumas centenas de metros acima do actual, uma boa parte desses locais, agora interiores, seriam locais costeiros. Progressivamente a descida do nível do mar, consolidada com vegetação, pode ter permitido uma fixação posterior, em pontos mais baixos.

Desertos e areia...
Há ainda uma outra questão razoavelmente complexa, e que diz respeito à excessiva quantidade de areia em desertos interiores. A areia é tipicamente resultante da acção prolongada da erosão marítima, e é difícil encontrar outra força erosiva que permita reduzir uniformemente pedras em grãos minúsculos.
Areias no deserto Gobi - Mongólia... onde chega a nevar!

Esta hipótese diluviana, em que o nível das águas esteve prolongadamente alto, permitiria justificar a presença costeira de zonas internas, como o Deserto de Góbi, ou mesmo o Deserto do Saara. Seria essa presença marítima que teria produzida grande quantidade de areia. Com o progressivo recuo das águas, e por acção de ventos, estas paisagens foram consolidadas em grandes dunas, nalguns casos - quando o clima não permitiu a consolidação da paisagem com vegetação.
Porém, na maioria dos casos terá havido uma consolidação que progressivamente foi levando à paisagem actual.

Como exemplo entre nós, basta reparar que há uns duzentos anos Alfeizerão era considerado um bom porto marítimo, e agora está a uns 5 Km da costa... ou então ver como a Figueira da Foz foi ficando com uma praia de grandes dimensões. A fixação desse terreno arenoso com pinheiros seria uma ideia semelhante à que D. Dinis teve relativamente à parte de Leiria.
Alcobaça teria sido muito provavelmente uma cidade costeira, antes do progressivo assoreamento... mas isso são outros mapas, que guardamos para outra altura!  

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Erro na Longitude?

O folclore habitual, repetido a leigos, ensina que a determinação da longitude era um problema quase inultrapassável, até à invenção do cronómetro por Harrison, em 1714, aquando do Longitude Prize...

Três décadas antes, em 1682, no prólogo do seu tratado de Astronomia Metódica, começava assim o padre António Carvalho da Costa:
Se para matéria tão larga te parecer pequeno este livrinho, sabe que não foi nossa tenção escrever volume corpulento, senão doutrina substancial; porque mais queremos aproveitar com a lição breve & clara do que ostentar erudições dilatadas & sempre confusas, nas quais de ordinário com pouco fruto se consome o tempo. (...)  E quando as erudições te façam saudade, aí estão os Ptolomeus, os Copérnicos, os Tichos Brahes, os Longomontanos, os Ricciolios, os de Chales & outros infinitos, onde não só poderás gastar o teu tempo, mas também a paciência. Se este nosso método te agradar, prossegue: que aqui começa a obra; & se não for do teu gosto, fecha o Livro, porque aqui se acaba.
Por isso, logo na página 9, tem um capítulo intitulado:
"Como se achará a diferença de longitude entre quaisquer dois lugares"
Observe-se em cada um dos lugares o tempo, em que se acaba o eclipse da Lua: a diferença entre os dois tempos observados convertida em arco do Equador dará a diferença de longitude buscada.

Não é preciso dizer mais nada... é esta a suposta complexidade inultrapassável, quando na realidade basta uma boa observação lunar. Na realidade, Carvalho da Costa diz mais, ilustrando a relação entre 15º e a diferença de 1 hora, dá um exemplo da diferença de latitude entre Londres e Lisboa para 42 minutos, ou seja 10º30', que era o valor visível em quase todos os mapas da época, mas que terá um erro de 1º face ao actual. Como sabemos, é preferível admitir um excesso de 4 minutos no relógio do que sequer imaginar que a crosta terrestre se pode movimentar 1º em 300 anos.

É claro que cépticos de serviço argumentarão que para efeitos de navegação, ninguém estaria à espera de eclipses lunares para se movimentar... e certamente Carvalho da Costa saberia isso muito bem.
O que interessa é o princípio! 
Ou seja, a partir da afirmação de possibilidade de usar a Lua para determinar a longitude, é quase imediato pensar-se noutros processos eficazes de o fazer em tempo real. Assim que li isto, tornou-se óbvio que se poderia usar a predição da Lua Nova, ou outro conhecimento absoluto sobre o movimento lunar. De facto, se Harrison ganhou o 1º prémio, o 2º prémio foi dado a um método de distância lunar, de Tobias Mayer e de Euler, coisa que também estaria nos planos de Newton.

Como os cronómetros eram raros e caros, durante um século acabou por ser este método de distância lunar a ser usado pela generalidade dos marinheiros, com o auxílio de tabelas lunares. Os detalhes podem ter sido descritos no concurso na proposta de Mayer e Euler, mas a ideia fulcral encontramo-la antes em Carvalho da Costa. Haveria um problema de medição associado à refracção atmosférica... e por isso mesmo, as 8 páginas anteriores são parcialmente dedicadas a esse tema.

A ideia de Carvalho da Costa não se aplicava à navegação, mas era extremamente eficaz para a cartografia. Aquando de um eclipse lunar, bastaria que todos os enviados do reino registassem eficazmente a hora local, para que se soubesse exactamente a longitude desse ponto, com a maior precisão devida à brevidade do eclipse. Isso permitiria desvios inferiores a 1º, se o relógio estivesse operacional. 

Seria esta uma ideia original de Carvalho da Costa? 
Quase de certeza que não. Ele não a propõe, nem a detalha... apenas a indica, já que se trataria de um livro para estudantes ou divulgação. 
Sendo algo simples, um método da distância lunar seria conhecido pelos marinheiros portugueses... e bastará seguir correspondência do reino, para ver se foram reportadas horas exactas de eclipses. Há um livro de Jerónimo Chaves, de 1534, que evidencia o interesse sistemático nos eclipses lunares.

Pela sua simplicidade, o método lunar permitiria a qualquer estado organizado saber as longitudes, de forma tão fácil quanto as latitudes. Seria muito provavelmente conhecido na antiguidade. É claro que é suposto dizer-se que na antiguidade não haveria relógios, mas também sabemos que isso não seria verdade, já que o mecanismo de Antícítera veio mostrar o contrário.

Qual então o Erro na Longitude?
A longitude não seria de tão fácil verificação quanto a latitude (coisa ao alcance de crianças), mas como vimos o método lunar substituiu-se ao cronómetro durante um século, com o uso de tabelas, conforme proposto por Meyer e Euler. Ou seja, não era necessário nenhum mecanismo sofisticado, bastava uma observação astronómica cuidadosa e organizada.
O erro na longitude é um erro induzido nos historiadores, de forma a convencerem-se da extrema dificuldade da navegação e reportá-la apenas a tempos recentes. São iludidos com nomes diferentes para coisas semelhantes, como quadrantes, sextantes, octantes, astrolábios, nónios... aparelhos simples que apenas se destinavam a medir ângulos, fazendo crer numa longa evolução.

O erro na longitude é exagerar-se nas consequências que esse erro traria. É uma forma análoga de trazer monstros, a ideia da terra plana, e outros medos, como justificação para o injustificável.