terça-feira, 31 de maio de 2011

O Gigante de Lucerna

Gigante de Lucerna, gigante da lâmpada, ou génio da lâmpada...
Quando falámos aqui de Lucerna, ligámos à história de Aladino, pelas lâmpadas egípcias, uma vez que lucerna e lâmpada são sinónimos, e o "génio" ficou guardado na lâmpada... mas não tínhamos a informação que permitiria juntar um outro dado - o Génio da história era um gigante!
Depois de esfregar no assunto, o gigante apareceu, conforme texto sobre as Âncoras suiças (2), e esteve presente nas armas de Lucerna.
Gigante de Lucerna, na ponte Kappelbrucke (imagem)

É Antoine Galland que no início do Séc. XVIII vai popularizar no ocidente as "Mil e uma Noites", e aparentemente decide incorporar a história de Aladino e também as de Ali Babá e Sindbad. À falta de pesquisa e dados sobre as duas últimas, voltamos a Aladino e à lâmpada, ou seja Lucerna, que mereceu esta atenção suplementar.

Galland estaria certamente ciente da história do Gigante de Lucerna, ossos enviados ao médico de Basileia, Felix Plater em 1577, depois dos ossos terem sido descobertos numa tempestade, quando uma árvore tombou. Plater determinou que eram humanos e de dimensão considerável, ou seja 18 a 19 pés, o que colocaria o indivíduo perto dos 6 metros de altura.

Os ossos foram guardados, juntamente com o esboço do desenho feito por Plater, e como a polémica se reacendeu no início do Séc. XIX, foram enviados ossos ao antropólogo Blumenbach, que determinou tratarem-se de ossos de elefante. Ponto final... reticências, e exclamação!
Afinal, haveria elefantes na Suiça... bom, é claro que Blumenbach deveria querer referir-se a algum mamute ou mastodonte, mas a palavra não teria ainda sido inventada. 
Blumenbach irá ficar famoso por definir que existe apenas uma espécie humana, e que é semelhante em toda a Terra. Isso é obviamente marcante pelo bem maior que teve ao igualar as diferentes raças, numa altura em que havia escravatura. Porém, é também nessa altura que a afirmação de Blumenbach ganhará mais significado - os eventuais gigantes da Patagónia ou da Tasmânia, estariam em vias de desaparecer, sendo que os pigmeus já teriam desaparecido!

Felix Plater, e outros avaliadores suiços, até Blumenbach terão simplesmente confundido ossadas de elefante com ossadas humanas... Assim, com um erro grosseiro passado, o problema fica resolvido no presente - uma técnica de Estória repetida vezes sem conta na História.

Porém, o problema é um pouco mais complicado!
Não há apenas o relato desse caso invulgar do Gigante de Lucerna.
Voltamos a Buffon... ainda não estamos no Séc. XIX, e ele pode dizer isto:
Les races fes géans autrefois si communes en Asie, n'y subsistent lus. Porquoi se trouvent-elles en Amérique aujourd'hui?
(Buffon, Volume 3, Époques de la Nature, pag. 431)

De quem falava Buffon? Falava dos gigantes da Patagónia, dizendo "car on ne peut douter qu'on n'ait rencontré dans l'Amérique méridionale des hommes en grand nombre tous plus grands, plus carrés, plus épais et plus forts que ne le sont tous les autres hommes de la terre".

Dalguma forma antevia o desfecho seguinte - "leur race s'est conservée dans ce continent désert; tandis qu'elle a été entièrement détruite par le nombre des autres hommes dans les contrées peuplées"... ou seja, o isolamento tinha permitido à raça de patagões subsistir, mas isso estava prestes a mudar no Séc. XIX, quando a Província do Rio de La Plata vai passar a ser Argentina conquistando a Patagónia, conforme já mencionámos. Apesar do relato de Pigafetta na viagem de Magalhães, e de avistamentos posteriores, de Drake e outros viajantes, tudo isso passará a mito. Ora, não o era para Buffon, credibilizado como um dos pais da teoria da evolução.

Juntamos mais alguns registos, que fomos encontrar numa Enciclopedia Americana do Séc. XIX, começando por um que também consta da wikipedia, o de Teutobochus Rex, segundo W. A. Seaver em 1869:
In times more modern (1613), some masons digging near the ruins of a castle in Dauphine, in a field which by tradition had long been called 'The Giant's Field,' at a depth of 18 feet discovered a brick tomb 30 feet long, 12 feet wide, and 8 feet high, on which was a gray stone with the words 'Theutobochus Rex' cut thereon. When the tomb was opened they found a human skeleton entire, 25-1/2 feet long, 10 feet wide across the shoulders, and 5 feet deep from the breast to the back. His teeth were about the size of an ox's foot, and his shin-bone measured 4 feet in length.
O nome Teutobochus Rex refere-se ao líder Teutónico que combateu o romano Mário na batalha de Aquae Sextiae, e assim estaríamos na presença de um combate de um romano David contra um Golias teutónico. A justificação da wikipedia é simples... os restos mortais eram de um dinossauro, só faltava dizer que na tomba deveria estar Tyranosaurus Rex e não Teutobochus Rex (sendo que aí o tirano deveria ser Sula, inimigo de Mário). Talvez tenha havido alguma falsificação na identidade, mas não necessariamente confusão entre um humano e um dinossauro!

Outros registos de gigantes passam na Sicília, por Licetus, que dá conta de um gigante com 30 pés, e de serem gigantes os Guanches, primevos habitantes das Canárias, antes de serem extintos na conquista portuguesa e especialmente na espanhola. Há ainda as outras menções já feitas, que incluem os registos asiáticos, nomeadamente na Índia, onde aparecem agora as imagens assumidamente falsas de vários achados de gigantes:
Imagem falsa de gigante - com propaganda de "imagens falsas"
fica quase impossível passar alguma que fosse verdadeira... ainda que existisse!

Elefantes pelos Mamutes

Recorremos de novo a Buffon, que nos seus 44 livros parecerá ser uma fonte inesgotável, nos seus Elementos da Terra (vol. 3, pag. 183), diz o seguinte
Quoi! dira-t-on, les éléphans et les autres animaux du midi ont autrefois habité les terres du nord? Ce fait, quelque singulier, quelqu'extraordinaire qu'il puisse paroitre n'en est pas moins certain. On a trouvé et on trouve encore tous les jours en Sibérie, en Russie, et dans les autres contrées septentrionales de l'Europe et de l'Asie, de l'ivoire en grande quantité; ces défenses d'éléphant se tirent à quelques pieds sous terre (...) mais aussi dans les terres du Canada et des autres parties de l'Amerique septentrionale.
Até aqui, do ponto de vista do que restou para os dias de hoje, dir-se-ia que Buffon estava a chamar elefantes a mamutes, e a história acabava na confusão "depois esclarecida" de que aos ossos de elefante da Sibéria e Canada se deveria adicionar pêlo.
Mamute de Beresovka, um elefante com pêlo 

Pelos vistos, vistos os pêlos, os elefantes passam a mamutes... 
Porém temos que observar que não era bem isso que Buffon dizia. 
Reparemos na quantidade de ossos encontrados:
(...) on a peut-être déjà tiré du nord plus d'ivoire que tous les éléphans des Indes actuellement vivans n'en pourroient fournir;
Ou seja, aparentemente no Séc. XVIII encontravam-se ossos de "mamute" a pontapé, ao ponto de Buffon dizer que havia mais marfim retirado da Sibéria do que nos elefantes existentes na Índia (diz isto para afastar a hipótese que teriam sido levados por humanos, domesticadamente).
Depois, e a propósito das dimensões das defesas dos elefantes encontrados, Buffon diz:
Les os et les défenses de ces anciens éléphans sont au moins aussi grands et aussi gros que ceux des éléphans actuels, aux-quels nous les avons comparés;
Repare-se que Buffon não diz que as defesas desses elefantes seriam muito maiores do que as dos elefantes actuais - seria isso que estaríamos à espera, se ele se estivesse a referir aos "mamutes". Porém ele é claro a estabelecer uma certa semelhança de dimensões... como enquadrar aí a noção do mamute com as grandes presas? Restará o pêlo... mas sobre esse pêlo, Buffon não faz observações, e lembramos como é caso raro encontrar-se uma pele associada a ossos.

Buffon dá bastante ênfase aos achados de elefantes, mas não só, adiciona hipopótamos e rinocerontes:
On trouve en Sibérie et dans les autres contrées septentrionales de l'Europe et de l'Asie, des squelettes, des défenses, des ossemens d'éléphans, d'hippopotames et de rhinocéros, en assez quantité (...) et l'on a observé que ces dépouilles d'éléphans et d'autres animaux terrestres se présentent à une assez petite profondeur; au lieu de coquilles et les autres débris(...)
Estes ossos estavam a pouca profundidade, quando comparado com as conchas, o que levava à hipótese de mudança equatorial, que Buffon discute. No entanto, discute de forma simplificada, baseado nas observações astronómicas de então que davam uma mudança da eclíptica de 45'' por século, concluindo que precisaria de 360 mil anos para uma mudança de 45º, o que levaria a zona tropical para as partes siberianas. É engraçado ver que estas conclusões e a maneira simplificada de lá chegar já se encontravam ao Séc. XVIII.
É depois com Cuvier que surge a hipótese de mudanças mais drásticas, catastróficas... é também Cuvier que define antigos mamutes como diferentes dos elefantes. De Cuvier aproveitaram-se os mamutes, de Buffon uma hipótese de idade antiga da Terra... Aqui somos levados ao contrário, a aproveitar os elefantes de Buffon, e um catastrofismo de Cuvier para explicar as mudanças bruscas e rápidas.
Messerschmidt, é o nome a quem se atribui em 1728 a descoberta dos elefantes/mamutes na Sibéria, e este Daniel poderá ser confundido com Franz, escultor seu contemporâneo... e em nenhum caso se devem ambos confundir com os famosos aviões Messerschmitt.
notável escultura de Franz Messerschmidt

domingo, 29 de maio de 2011

Basiliscos de Basileia e Medos de Medusa

Ainda sobre as Âncoras Suiças (2), convém esclarecer algo sobre os símbolos de Basileia.
Como é óbvio, não há nenhuma relação oficial do símbolo a quaisquer proas de navios... é suposto vermos aí a parte superior de um ceptro bispal (báculo), e não só, costuma estar acompanhado de Basiliscos, que são seres míticos (com aspecto de Gallos) capazes de "matar com o simples olhar"...

Pretender-se-à que o símbolo seja o báculo do bispo, como protector de Basileia, porém já explicámos nesse texto que as descobertas nas minas suiças - de barcos incrustados nas montanhas - poderiam ter um efeito semelhante às do Basilisco, sendo capaz de petrificar o mais céptico, com um simples olhar!

Para além destes Basiliscos de Basileia, encontramos uma lenda semelhante com Medusa.
Medusa seria uma das três Górgonas, e a única delas mortal, que sucumbiu à espada de Perseu.
É interessante saber que para além de Medusa, as irmãs imortais Esteno e Euríale, habitariam o Ocidente. Isso é consistente com a lenda que coloca Perseu a repousar nas terras de Atlas, e a petrificar o titã por olhar para a cabeça da Medusa. Já não é tão consistente colocar o artifício de Hércules que substituiu temporariamente Atlas na sustentação do mundo, pois Atlas já estaria então petrificado como montanha.

Perseu, depois Hércules, e depois Jasão, são colocados a efectuar estas viagens a paragens ocidentais, onde se deparam com um mundo inóspito, polvilhado de perigos, onde contam com a protecção de Atena. Perseu, acabará por libertar uma Andrómeda de ascendência fenícia, ameaçada pelo monstro marinho Cetus (... um cetáceo). Perseu e Andrómeda são colocados como ancestrais dos persas.
Andrómeda acorrentada, será salva de Cetus por um Perseu, 
montado no Pégaso que resultou da morte de Medusa

Também Hércules se depara com um monstro, o dragão Ládon (descendente de Cetus), que guardava os pomos de ouro (... ou laranjas) no Jardim das Hespérides. Na viagem de regresso com os Argonautas, Jasão encontra ainda o rasto desse dragão (mas que não é a mesma serpente que guarda o Tosão de Ouro).
A colaboração de Atena, já munida com a aegis da cabeça de Medusa (oferecida por Perseu), na questa de Jasão é evidenciada nesta imagem, onde o salva da serpente:

A deusa do conhecimento guardará como seu escudo a cabeça aterradora da Medusa, mas colabora com os diversos heróis nas suas viagens marítimas intrépidas.
Se a viagem de Hércules está de sobremaneira associada à Hespanha, o mesmo não acontece com a de Jasão que é colocada no Mar Negro, por isso de forma alguma se poderia Jasão na rota das Hespérides e de Hércules... a menos que consideremos o nível do mar diferente, como já temos insistido!

Usando a topografia actual, apresentamos a situação que permitiria um contorno da Europa, levado por Jasão e Argonautas, seguindo pelo Mar Negro, que aqui invadiria as extensas planícies da Europa de Leste, conectando com o Mar Báltico, de forma a ser possível o regresso pelo lado da Península Ibérica, entrando pelo lado oposto das colunas de Hércules... conforme ilustrado aqui:
É claro que tal situação topográfica apresenta tabus inquebráveis...
Ninguém aceitará de bom grado ter uma Irlanda e Britania quase submersa e reduzida quase a Gales e Escócia, ter uma França polvilhada de ilhas, ter uma Polónia quase debaixo de água (apesar das extensas minas de sal que tem), ter uma Líbia reduzida à zona de Cyrene (sirenes, sereias), e ter uma Hungria abaixo do nível do mar. São demasiadas coisas para aceitar, ainda que possam dar consistência a relatos inconsistentes, em particular a António Galvão e à viagem de Alceus.
Como já referimos a situação poderia ainda ser mais exagerada, abrindo mais o caminho pela zona da Europa de Leste, que é particularmente baixa... mas para isso temos que aceitar que o nível do mar não foi sempre o mesmo, e houve alterações consideráveis, ao longo dos tempos - e não dos milhões de anos geológico-evolucionistas, mas apenas de milhares de anos de testemunho humano.

Dificilmente, mesmo assim, se conseguiriam explicar os registos de embarcações na Suiça... ainda que Basileia esteja apenas a 244m acima do nível do mar, e por isso as minas nas redondezas possam atingir zonas que não necessitariam mais do que pouco mais de uma centena de metros de aumento do nível do mar. Qualquer outra coisa implicaria transformações geológicas de magnitude planetária.

Das Maçãs às Laranjas

Este texto pode bem seguir-se às Caves de Maastricht, no que diz respeito à Holanda, via Casa de Nassau-Oranje, pelo laranja, cor que no fim do Séc. XVI ficaria ligada à independência e crescimento holandês do Séc. XVII. Pode ler-se na wikipedia:
A laranja doce foi trazida da China para a Europa no século XVI pelos portugueses. É por isso que as laranjas doces são denominadas "portuguesas" em vários países, especialmente nos Bálcãs (por exemplo, laranja em grego é portokali e portakal em turco), em romeno é portocala e portogallo com diferentes grafias nos vários dialectos italianos .
Quem já tiver falado com magrebinos, saberá ainda que a palavra árabe para Laranja também deriva de Portugal... Desconheço pois a origem da ideia de que não havia laranjas a ocidente, mas é relatado o problema da viagem de Vasco da Gama com o escorbuto, associado à falta de consumo de citrinos - apesar de ser assumido que existiam limões trazidos da Pérsia, e disseminados pelos árabes. 
O mesmo não teria acontecido com as laranjas, e a vila francesa de Orange por acidente ficou ligada a laranjas, alguns dizem que vindas das Cruzadas!

Pretende-se pois constar que no mundo greco-romano não existiriam citrinos, o que seria complicado distinguir no pretenso legado artístico e arquitectónico greco-romano que é essencialmente de um mundo sem cores, não fora alguns frescos de naturezas-mortas de Pompéia:
Natureza-morta de Pompéia, onde não se devem ver laranjas. (imagem)

Louro da laranja
O assunto chega a ser colocado ao ponto de não haver palavra para designar o cor-de-laranja, e por isso a uma dificuldade de rimas... a palavra é de facto difícil de encontrar em textos portugueses do Séc. XVI, e a primeira ocorrência que encontrámos, é curiosamente Camões:
Mil árvores estão ao céu subindo,
Com pomos odoríferos e belos:
A laranjeira tem no fruto lindo
A cor que tinha Dafne nos cabelos;
Encosta-se no chão, que está caindo,
A cidreira com os pesos amarelos;
Os formosos limões ali, cheirando,
Estão virgíneas tetas imitando.
Lusíadas, Canto IX, §56
Camões dá uma preciosa informação... Dafne seria ruiva, ou loura, de cabelos laranja.
Atendendo a que Dafne está associada ao Loureiro, e os Louros não são Louros (de cor), ficaram-nos os louros como folhas descoloridas, e a informação camoniana ganha esse especial interesse!
L'ouro de ouro, e não do loureiro... mas sim de laranjeira, tal como é dito que Orange vem do "ór" francês de ouro (há ainda a pretensa origem pelo sanscrito indiano de "naranga", deu o espanhol "naranja", mas em português manteve-se o L para laranja, detalhes...).
Dafne que fugindo ao deus Sol se transforma em loureiro, ou laranjeira?

Esquecendo os detalhes... a cor-de-laranja esteve sempre bem presente e num pôr-do-sol marítimo e não poderia ser ocultada como uma das cores do arco-íris, ou de outras manifestações que tem na natureza. Parece ridícula a justificação de falha de palavra para a cor-de-laranja.
A imposição contra o laranja parece ter assim motivação humana propositada.

Maçãs e Laranjas
Às laranjas ligam-se maçãs... de ouro!
Começamos pelo pecado original - a maçã de Eva, que ficou no garganta dos homens como maçã de Adão... mas listamos mais alguns exemplos para que se perceba melhor:
  • Maçã de Eva, o conhecimento proibido do Jardim do Paraíso;
  • Maçã de Hércules e a sua Maça, os pomos de ouro e as Hespérides;
  • Maçã de Guilherme Tell, de que já falámos;
  • Maçã de Isaac Newton, na teoria da gravidade
... e mais recentemente poderíamos invocar a marca Apple no campo informático, só para lembrar alguns dos exemplos mais conhecidos que usaram a maçã como símbolo (podem ainda incluir-se as lendas nórdicas e celtas). Uma maçã malfadada que em latim se entende como Malum

No entanto, no caso de Hércules, os "pomos de ouro" foram considerados como designação alternativa para a laranja (que em latim teve a designação Malum Medicum... maçã medicinal (?), cf. Dicionário de Jerónimo Cardoso, 1643). Isso é confirmado por Bernardino Silva (na Defensam da Monarchia Lusitana, p. 137):
donde disse Salamão: Mala aurea in lectis argenteis homo qui loquitur verbum in tempore suo. O falar tempestivamente com palavras arresoadas & brandas, são maçãs de ouro em leitos de prata. Não falta quem por maçãs d'ouro entenda laranjas, & nesse sentido diz o Poeta Latino: Aurea mala decem misicras, altera mictam. Medicina tão própria para os doentes de cólera, que não haverá Acessias que as não receite (...)
Ou seja, as supostas "maçãs de ouro" de Hércules, ou outros heróis, não eram mais do que simples "laranjas" do jardim das Hespérides.
Onde era esse jardim ocidental, da estrela da tarde, de Hesper? Será difícil não associar laranjas a Portugal... especialmente para árabes, que usam a palavra como tal. Aliás podemos citar Duarte Nunes do Leão (1610):
Finalmente desta fruta é tão provida toda a terra, que na primavera em qualquer lugar que se ache uma pessoa, lhe cheirará a flor de laranja.
Ao mesmo tempo Duarte Leão revela a imensa exportação que era feita para a Flandres e Inglaterra!
O jardim das laranjas estava já a ser exportado em grande quantidade...
A laranja que é hoje vista como um fruto banal, bem poderia ter sido vista como uma antiga preciosidade, ao nível que tomaram depois as especiarias.

Podemos ainda ter entendimento diferente daqueles provérbios bastante conhecidos
A laranja de manhã é de ouro, à tarde é de prata e à noite mata.
Na alvorada dos tempos terá sido de ouro, nos tempos de esperança, de Hesper, no poente da tarde, foi de prata, e durante a noite da idade das trevas terá sido proibida.
Só assim faz sentido a redescoberta da laranja, coincidente com as "redescobertas" nos "descobrimentos", e poderá perguntar-se até que ponto o nome Portugal, que se associa às laranjas em várias línguas, não terá sido mais uma consequência do que uma causa!

Clementinas, Tangerinas
Como etiquetamos este texto como "estória", vemos que as variantes reduzidas de laranja, clementinas e tangerinas, levam-nos por conjectura de etimologia a dois episódios:
  • Clemente V... que cede a Filipe, o Belo, e ordena a destruição dos templários, passando o papado para Avignon, em 1309. Os templários vêm a Portugal sob protecção de D. Dinis.
  • Tanger... e a autorização para o início da expansão africana, e dos descobrimentos, em 1415, com a participação dos templários.
Picasso: les demoiselles d'Avignon... a fruteira deveria conter uma clementina!

sábado, 28 de maio de 2011

As caves de Maastricht

Maastricht será mais conhecida pelo Tratado que definiu a União Europeia... a escolha da cidade nada indicaria de especial, a menos que se conheçam as Caves do Monte de St. Pietersberg, sobre as quais Buffon diz:
On connoit des carrières qui sont d'une étendue très-considérable; celle de Mastricht, par exemple, où l'on dit que 50 mille personnes peuvent se réfugier, et qui est soutenue par plus de mille pilliers, qui ont 20 ou 24 pieds de hauteur;
e depois de falar das minas de sal na Polónia, remata: "d'ailleurs, les ouvrages des hommes, quelque grands qu'ils puissent être, ne tiendront jamais qu'une bien petite place dans l'histoire de la Nature". Neste caso, as caves de Maastricht têm de facto um lugar pouco conhecido na História da Natureza, ainda que tenha sido lá que se encontrou o primeiro fóssil de grande réptil, o Mososauro:
Ilustração da descoberta do Mososauro em 1764, Maastricht.

Ora, convenientemente, houve artistas que decidiram aí representar nas paredes um mundo pré-histórico.
Ilustrações nas paredes das caves de Maastricht

Há normalmente um aviso colado às ilustrações, dizendo que as pinturas são recentes... não vá o povo pensar que algum homem pré-histórico tinha feito pinturas de carvão naquelas paredes.

A este propósito, aproveito para colocar uma imagem de uma das muitas locomotivas abandonadas no Salar de Uyuni, na Bolívia
Salar de Uyuni, Bolívia - "Asi es la vida"

Qualquer um dirá que esta locomotiva resulta de uma exploração de sal, que depois teve um fim, deixando abandonadas uma imensa quantidade de locomotivas (aparentemente nem o muito ferro abandonado foi considerado valioso). Há situações semelhantes na Austrália, no meio do deserto, ou na América... Nada a dizer, excepto que há uma outra hipótese mais interessante, ficcional é claro: - a confusão passado/presente!

O que fazer com múltiplos registos inconvenientes, espalhados pelo globo?
- Uma hipótese é ocultar, proibir as viagens, as visitas... isso terá sido seguido durante uns séculos.
- Uma outra hipótese é favorecer uma rápida evolução, copiando a evolução anterior, de forma que os registos de milénios se confundam com abandonos recentes. Se alguém no Século XX encontrasse uma locomotiva abandonada num deserto boliviano nunca iria pensar tratar-se doutra coisa que não fosse uma locomotiva com menos de 100 anos... nada de ter ideias para coisas de civilizações passadas. Em jeito de piada, basta reparar no design dos carros americanos dos anos 50, para pensar que foram inspirados em coisas de sáurios

Com as pinturas inconvenientes será a mesma coisa... tivessem os espanhóis do Século XIX convocado um concurso de pintura nas grutas de Altamira, e os registos de caça agora atribuídos ao homem pré-histórico, passavam por terem sido desenhados por crianças na altura. É difícil conter a informação, as populações saberiam, etc... Será? Será que não demos já exemplos suficientes que mostram que a informação não se propaga da forma que se pretende, a menos que haja patrocínio, ou que não haja restrição?

As caves do monte de Maastricht são explicadas como resultado de exploração, como mina de pedra para as construções circundantes. Apesar de completamente esburacada, só em 1764 vão dar com o esqueleto do dinossauro, e em jeito de brincadeira vão usar as mesmas paredes para fazer uma pintura bastante realista do que seria o ambiente pré-histórico. É bastante provável que tenha sido assim, mas não se pode deixar de pensar noutras hipóteses...
A Holanda, tal como a Suiça, depois de sofrer sob domínio Habsburgo, irá ter uma história de independência e sucesso, que só diminuirá justamente na altura da divulgação da descoberta do mososauro, que depois foi parar ao Museu de História Natural de Paris.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Os nomes e as serras

No seguimento do post Âncoras Suiças (2), fomos encontrar a citação de Buffon sobre a Serra da Estrela,  mencionada na "Geografia" de Patrick Gordon (aqui edição de 1737, p. 143) :
In a Lake on the Top of the Hill Stella in Portugal, are found Pieces of Ships, though it be distant from the Sea more than twelve Leagues. Near to Raja, is a Lake observable for its hideous rumbling Noise, which is ordinarily heard before a Storm, and that at the Distance of five or fix Leagues. About eight Leagues from Coimbra is a remarkable Fountain, which swallows up, or draws in, whatsoever Thing only touches the Surface of its Waters; an Experiment of which is frequently made with the Trunks of Trees.The Town of Bethlem (nigh to Lisbon) is noted for the sumptuous Tombs of the Kings of Portugal.
Esta "geografia" de Gordon é minimal e tem que ser inserida numa estranha mistura entre objectividade e subjectividade... Será interessante ainda conhecer a descrição que Gordon fazia dos portugueses: "tirem-se as (poucas) qualidades dos vizinhos (espanhóis) e têm aí um português", marcando especialmente um carácter traiçoeiro que atribuía a forte mistura ou influência judaica no reino, após as descobertas.

Pulo do Lobo
A descrição de Gordon está inserida num tópico sobre "raridades", onde sobre a Espanha fala por exemplo do avistamento de um "barco feito de pedra" no Porto de Mongia, na Galiza... e para além de referir a lenda dos Pilares de Hércules em Cádiz, menciona algo que já tínhamos lido sobre o Guadiana - as suas águas desapareciam, algo que podemos associar à zona do Pulo do Lobo.
Guadiana - imagem aérea da cascata do Pulo do Lobo

Ou seja, é provável que o estreitar do Rio Guadiana (antes chamado Ana), ali com uma queda de 20 metros, se fizesse sob a rocha, que entretanto abateu... e por isso o efeito do rio desaparecer sob terra já não é visível hoje, mas pode ter sido no passado.

Serra da Estrela (de Alva)
O mito da Serra da Estrela já o tinhamos encontrado num texto de 1804 do padre Francisco do Nascimento Silveira, no Mappa Breve da Lusitania Antiga e Galliza Bracarense. Silveira fala da Lusitania com a sua origem em Luso ou Elisa e descreve várias particularidades interessantes - umas mais credíveis do que outras. 
Se Tubal, neto de Noé, ficou associado à Iberia, o padre António Vieira associou Elisa, sobrinho de Tubal,  ao nome Lusitânia/Lysitânia. Elisa é irmão de Tarsis, e vizinhos aos lusitanos estavam os tartéssios, a que se associa Tarsis.
Silveira faz mesmo referência aos Campos Elísios, salientando que Homero coloca esse paraíso terrestre nas terras do Oceano Ocidental.
Por outro lado, lembramos que Elisa era o outro nome associado a Dido, a mítica rainha fundadora de Cartago. Para não dispersar, deixamos para outra altura falar de Lysias, o filho de Baco, que também consta da mitologia lusitana... Baco foi talvez o único que Camões decidiu usar. Comportou-se como exigido na mitologia, para poder encriptar nos Lusíadas a sua versão da história recente.

Sobre a Serra da Estrela, Silveira fala da toponímia ligada a uma rocha em forma de estrela, ou de um Templo a Lucífer - entendendo-se aí Vénus, como Estrela de Alva (que era diferenciada na sua aparição a Poente, com o nome Hesper). Seria assim Serra da Estrela de Alva... algo que ele parece querer confirmar falando logo de seguida da tripla origem dos rios Alva, Mondego e Zêzere, algo que já foi mencionado.

Porém, o mais relevante é quando menciona a "Lagoa Escura" e diz
(...) a qual, quando o mar anda bravo se enfurece também, dando bramidos como trovão, motivo porque os naturais crêem que comunica com o mar, e ainda mais o asseveram os que sabem, que João Vaseo, escreve que nela já foram achados troços de mastros de navios.
O relato a que alude Gordon, Buffon e depois Tylor tem o autor identificado, é João Vaseo... e por aí fomos chegar às curtas referências que restam de um "insígne gramático" contemporâneo de João de Barros, Gaspar Barreiros, mas cujo nome nos tem sido afastado.

Fonte de Cadima
Aparentemente numa sua Crónica de Hespanha, João Vaseo fala ainda da tal fonte que tudo absorvia, conforme afirmava Gordon. Fomos encontrar esse relato num site Novo Aquilégio que fala da Fonte de Cadima, associando-a aos Olhos de Fervença, próximos de Tentúgal. Não se conhecendo a obra de Vaseo, é usada uma citação de um Aquilégio Medicinal de 1726 (pág. 115), de Francisco Fonseca Henriques, que diz:
No lugar de Cadima, distante duas léguas da Vila de Tentúgal, comarca de Coimbra, há uma fonte ou charco, que tem de altura um palmo de água, a que os da terra chamam Fervenças, a qual sorve tudo quanto nela se lança, ainda que sejão cousas que nela não cabem , e segundo escreve João Vaseo na Crónica de Hespanha, e depois dele o Padre António Vasconcelos, e Duarte Nunez de Leão nas descrições que escreveram de Portugal, já sucedeu que sorveu arvores inteiras, que de propósito se lhe lançaram, para ver se as sorvia, e chegando-lhe uma besta, a ia sorvendo, de maneira, que com grande trabalho tiveram mão nela.
Olhos de Fervença, a fonte de Cadima (imagem)

À época a fama desta fonte seria bem maior, mas terá sido destronada pelos pastéis de Tentúgal... se existiram alguns olhos de outra dimensão, que ali colocaram na escrita quase a descrição de um mini-buraco-negro, tratou-se de fantasia ou pelo menos fenómeno ocasional (o Aquilégio de 1726 dá conta de fenómeno semelhante na Vila do Cano, em Évora). Vaseo teria ainda tentado relacionar Cadima com uma descrição de Plínio, do chamado Campo Carrinense, que os espanhóis localizam como sendo as Fontes Carrionas.
Ainda que com dificuldade, é interessante ter conseguido ir buscar a origem do relato - João Vaseo, primeiro eminente gramático e depois enterrado nas areias do tempo.

Monte do Cantaro
Não acaba aqui a referência à Serra da Estrela, e no Archivo Popular de 1839 aparece uma outra informação interessante. Para além de ser dito que a Serra estava continuamente coberta por neve (não é a primeira vez que lemos isto), fala-se numa pirâmide, de rochas naturais, no topo da Serra, e é então chamado o "Monte do Cantaro".
É claro que hoje temos a informação de que o ponto mais alto é a zona da Torre, mas é natural considerar que o Cântaro Magro, com a sua forma singular, seria tido como o pico.
 
O Cântaro Magro e os 3 Cântaros (Gordo, Raso, e Magro)

Desconhecia a designação dos Cântaros... ou a estória de que a povoação do Carvalho tinha obrigação de aí colocar um cântaro, mas a denominação particular é conhecida dos montanhistas.

Para finalizar o apontamento, que já vai longo, encontrámos ainda o Dicionário do Portugal Antigo e Moderno, de Augusto Pinho Leal, que no Volume 9, de 1880, já refere as neves restritas aos meses de inverno, e que sobre a antiga vila de Serdaça diz a certa altura:
A 200 metros de distancia, passa o rio Mondego, e fica também próximo o monte do Cântaro (o Olympo dos antigos). Deste monte brotam trez caudalosos mananciaes de cristalinas águas, que dão origem a trez rios — o Mondego, o Alva e o Zêzere.
Desconheço igualmente a razão pela qual Pinho Leal se vai lembrar de associar o Monte do Cântaro ao "Olimpo dos antigos"... parece descabido e de pretencioso nacionalismo exacerbado. É interessante notar que o início do Séc. XIX aparece bem mais frio do que o final do mesmo século... e não só! Apesar dessas neves constantes na Serra da Estrela, Silveira afirma que a Serra de Montejunto seria a mais alta de Portugal... hipótese que também é mencionada no Archivo Popular, mas descartada.

Serra do Caramulo
Não deixamos de assinalar uma outra formação estranha, que é relatada no Archivo Popular, e por Silveira... as rochas empilhadas no topo da Serra do Caramulo - que são ainda hoje bem visíveis, mas menos conhecidas do que os chapéus da Páscoa:


Talvez se pretenda que as formações sejam naturais, ou que sejam celtas, ou quiçá até romanas... não faço ideia e já nada espanta... a arqueologia às vezes parece-se resumir a inventar a melhor estória que cole nas duas ou três possibilidades oficiais.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Âncoras suiças (2)

Quando falámos aqui sobre as Âncoras Suiças, já tinhamos também lido relatos de terem sido encontradas embarcações na Lagoa da Serra da Estrela. Coisa um pouco estranha... mas nada impedia terem sido feitas embarcações para a Lagoa (Comprida). Ao mesmo tempo esses relatos invocavam uma profundidade insondável e a suspeita dessa Lagoa ter comunicação com o mar... pelo que demos mais relevo ao relato notável da descoberta de âncoras incrustadas nas montanhas suiças, conforme afirmava António Galvão.

Na sequência do post anterior, voltamos a abordar a questão das âncoras suiças, porque fomos encontrar um relato notável de 1878, de Edward B. Tylor. Ele localiza a história que Galvão contava, porque Buffon na sua Teoria da Terra invoca essa descoberta:
Sur la montagne de Stella au Portugal, il y a un lac dans lequel on a trouvé des débris de vaisseaux, quoique cette montagen soit éloignée de la mer de plus de douze lieues (Voyez la Geographie de Gordon, édit. de Londres 1733, page 149). Sabinus, dans ses commentaires sur les métamorphoses d'Ovide, dit qu'il paroît para les monumens de l'Histoire, qu'en l'année 1460 on trouva dans une mine des Alpes un vaisseau avec ses ancres.
 Temos aqui o relato da Serra da Estrela, e ao mesmo tempo o relato da Suiça, mais detalhado.
A origem é Angelo Sabino que num comentário a um texto de Ovídio relata a descoberta do navio com as âncoras numa mina dos Alpes.
Barcos incrustados numa mina dos Alpes... e que forma teriam as suas proas?
Olhando para os símbolos dos cantões suiços, percebe-se que houve uma Jura em Basileia:
  
brasões dos 2 cantóes de Basileia e brasão do cantão do Jura
... a semelhança com proas de navios antigos fica justificada!

Para que se perceba o silêncio sobre o assunto... que deveria constar nalgum livro de teorias de conspiração, de civilizações antigas, ou algo semelhante... basta fazer uma pesquisa no Google sobre o assunto. Em particular experimente-se "mine des Alpes un vaisseau avec ses ancres"... alguém deveria ter citado o Conde Buffon, autor largamente conhecido, considerado percursor da teoria da evolução.
Ora, aparecem 5 resultados antes do Séc. XX, e a partir daí o assunto morre por completo, ou quase...
Poderá dizer-se que é por ser em francês... mas então vamos experimentar encontrar uma citação ao texto de Edward Tylor:
"in the year 1460 a vessel was found with its anchors"
ocorrem 3 resultados ligados ao próprio texto que encontrámos!      [as aspas são necessárias]
Se o Google estiver a funcionar bem, acrescem os novos resultados deste blog, após publicar o post. Ou seja, será que há quase 150 anos que não se publica nada sobre o assunto?!
É natural, os "teóricos da conspiração" seguem aquele caminho habitual que é seguir o guru anterior, e não fazem pesquisa própria... repetem o que é suposto ser repetido, interessam-se sobre aquilo que lhes é dito ser interessante, e vão calcorreando o caminho das pedras gastas. Como o objectivo é quase sempre o reconhecimento comunitário, não faz aí nenhum sentido caminhar isolado. Apesar de estarem habitualmente fora da academia oficial, vão desenvolvendo uma academia alternativa imitando a hierarquia pelos seus sucessos livreiros... e ficam assim facilmente manipuláveis, mesmo que alguns não o saibam.

Desculpando-me por estas divagações, resultado da irritação de ver mais um "assunto escaldante" que foi escondido com sucesso, regresso ao assunto principal.

Estamos em 1460, e uns mineiros da Suiça comunicam a descoberta de navios incrustados nas minas... o efeito deve ter sido avassalador! A Suiça que pouco mais seria do que um projecto de intenções anti-domínio Habsburgo fica subitamente armada com uma besta letal.
Se Hércules segurava uma Maça numa mão e uma Maçã na outra... Guilherme Tell apontou directamente à maçã, sendo certo que no tiro da besta arriscava a aniquilação do filho. 
A lenda de Guilherme Tell aparece não em 1460, mas sim por volta de 1470, e algumas décadas depois os suiços vão ocupar lugar de destaque na protecção do Papa. A partir daí a história da independência Suiça é uma história de sucesso, e apesar de alinharem pelo lado protestante ou calvinista, nunca deixarão de ter aquele lugar especial no coração ultra-católico do Vaticano.

Quer Buffon, quer Tylor, alongam-se no discurso sobre as eventuais evidências de um nível marítimo superior ao contemporâneo, nomeadamente pelo registo fóssil. Em particular é referida a evidência da presença marítima no deserto da Mongólia, conforme já abordámos.
Tylor apanha já a transição para o Darwinismo, e essa mudança de mentalidades é bem denunciada nalgumas frases:
            "In the ninth edition of Home's 'Introduction to the Scriptures,' published in 1846, the evidence of fossils is confidently held to prove the universality of the Deluge; but the argument disappears from the next edition, published ten years later."
Aproximava-se uma "entente cordiale" que recolocaria a educação no devido lugar.

Tylor vai ainda muito mais longe... 
Both in Scotland and in South America, upheaval of land in more or less modern times is a recognized fact, and the finding of boats, as of various other productions of human art, in places where they could hardly have been placed by man, is readily accounted for between this upheaval and the effects of ordinary accumulation and degradation.
(estes barcos e artefactos em posições estranhas não são muito relatados... a menos de algum conto de reis de Garcia Marquez, que colocava barcos em desertos)
... e atreve-se a falar na questão dos gigantes.
Deixo uma larga citação que é instrutiva em muitos aspectos:
In the Old World, myths both old and new connected with huge bones, fossil or recent, are common enough. Marcus Scaurus brought to Rome, from Joppa, the bones of the monster who was to have devoured Andromeda, while the vestiges of the chains which bound her were to be seen there on the rock; and the sepulchre of Antaeus, containing his skeleton, 60 cubits long, was found in Mauritania. 
Don Quixote was beforehand with Dr. Falconer in reasoning on the huge fossil bones so common in Sicily as remains of ancient inhabitants, as appears from his answer to the barber's question, how big he thought the giant Morgante might have been? "... Moreover, in the island of Sicily there have been found long-bones and shoulder-bones so huge, that their size manifests their owners to have been giants, and as big as great towers, for this truth geometry sets beyond doubt." Again, the fossil bones so plentifully strewed over the Sewalik, or lowest ranges of the Himalayas, belonged to the slain Rakis, [p.324] the gigantic Eakshasas of the Indian mythology. 
The remains of the Dun Cow that Guy Earl of Warwick slew are or were to be seen in England, in the shape of a whale's rib in the church of St. Mary Redcliffe, and some great fossil bone kept, I believe, in Warwick Castle. "The giant sixteen feet high, whose bones were found in 1577 near Heyden under an uprooted oak, and examined and celebrated in song by Felix Plater, the renowned physician of Basle, has been long ago banished by later naturalists into a very distant department of zoology; but the giant has from that time forth got a firm standing ground beside the arms of Lucerne, and will keep it, all critics to the contrary notwithstanding."
Ao contrário do que julgava Tylor, o brazão de Lucerna já não inclui nenhum gigante de Felix Plater, reportado com 18 ou 19 pés de altura, e que era citado por Júlio Verne na sua "Viagem ao centro da Terra"... Agora ficou bastante simplificado:

... em compensação temos o monumento de Lucerna, que ilustra a protecção que o leão dos mercenários suiços tentou fazer aquando da Revolução Francesa. A protecção da flor-de-lis da casa real francesa custou a vida a esses suiços, que tal como Buffon obedeciam ao rei francês, e que talvez lhe tivessem feito confidência do assunto esquecido das âncoras suiças.

A última piada du Bocage

A piada é simples, foi escrita por Vilhena Barbosa em 1860, mas por isso mesmo ele não poderia perceber que a estava a escrever:
No reinado de D. Maria I fizeram-se ali grandes escavações, que afinal não progrediram pela causa referida. Descobriram-se, contudo, alguns edifícios, e extraíram-se muitos objectos d'arte preciosos, medalhas, utensílios, etc. Entre os primeiros figura uma magnifica coluna de mármore branco arraiado de negro e cinzento, com um capitel de ordem corinthia, se bem nos lembramos, primorosamente cinzelado; a qual a mesma soberana mandou inaugurar n'uma praça de Setubal, onde ao presente se admira como um dos melhores adornos da cidade.
Passados onze anos, em 1871 foi inaugurada na praça de Setúbal um monumento de homenagem a Bocage.
Que monumento, que ainda se ergue hoje?
- Uma outra coluna de mármore branco sobre a qual se colocou uma estátua de Bocage:
O monumento a Bocage sobre uma coluna coríntia
... mas não a mesma que ali estava, retirada de Tróia.
[foto antiga no blog pracadobocage.wordpress.com]

É preciso explicar mais o humor dos nossos governantes?
Como o assunto é Bocage e Vilhena, apetece usar o vernáculo para exprimir sentimentos... mas lá está - é melhor observar, perceber, e sorrir. 
O sorriso é a melhor arma da impotência contra o absurdo da prepotência.

Já tínhamos escrito que o epíteto "louca" para D. Maria I revelaria uma outra coisa, tal como aconteceu com Afonso VI... mas não sabíamos que no seu reinado tinham sido feitas grandes escavações em Tróia. Claramente uma antecessora em 100 anos da busca que Schliemann levou depois para a Turquia. Fechada uma Tróia, era preciso abrir as escavações para outra...
Quando é que Schliemann começa as suas escavações em Hissarlik?
Exactamente na década em que se inaugurava a última piada du Bocage, colocada em Setúbal.
Estaremos a ser injustos, não foi provavelmente a última piada sobre Bocage, mas talvez sim a primeira...  sem intervenção do próprio.

Por outro lado, há ainda o "Pelourinho" de Setúbal, curiosamente também com uma coluna de mármore branco, mas cuja inscrição remete para o Marquês de Pombal, 1774, três anos antes de D. Maria I iniciar o seu reinado...


Colocamos ainda a imagem da página, para que não se pense que isto é piada... certamente que não será pensado pela meia-dúzia de leitores habituais, que já perceberam que os assuntos de aqui falo são do mais sério que se pode imaginar... mas poderia ser entendido como tal por algum leitor incauto.
Página 50 do Volume III das Cidades e Villas... de Vilhena Barbosa

Quando, há um ano atrás, referia a citação de Damião Castro sobre as Torres Altas... estava obviamente a lembrar-me dos empreendimentos Torralta, que caracterizaram Tróia.
Se de um lado do Promontório Magno estava uma Estrema Dura (com uma ilha Arrotrebae, quiçá a Arrábida), pelo lado de Tróia estava uma Estrema Arenosa. As areias dos tempos parece que decidiram ter sempre ali uma parte arenosa... e aproveito aqui para esclarecer que suspeitando ser a outra Estrema mais acima do nível do mar, na zona de Grandola... ou Cuba, a descoberta de artefactos tão antigos na península de Tróia tem um indicador diferente sobre a permanência daqueles areais ao longo dos tempos. Uma coluna coríntia é algo que não ilude pelo menos dois milénios...

Quando se fala da cimenteira de Outão, podemos responder com a Torre do Outão, quando se fala da Torralta, podemos responder com as Torres Altas da Tróia de Homero. E é claro que os empreendimentos não são só estes, nem ficaram pela zona de Setúbal... Vilhena faz nomeadamente referência à ribeira de Querteira, onde teria existido uma cidade antiquíssima. Na altura nada existia, mas no decurso do final do Século XX, como sabemos, foi levado a cabo um desenfreado ímpeto construtor no Algarve, que criou uma nova Querteira, chamada Quarteira.
A receita pode ser simples... os proprietários são confrontados com uma possibilidade de inibição de construir por cima de ruínas antigas, logo tornam-se eles próprios cúmplices de quaisquer descobertas. O essencial é prosseguir o empreendimento de pato-bravo... os bravios são apanhados como patos, e feitos cúmplices no sistema de ocultação. De bom grado desfazem-se a custo zero dos achados, sempre tidos como "romanos", e alegremente podem ocultar a paisagem e a história.

Bocage terá sido poeta da Nova Arcádia, e numa altura em que D. Maria I levara a cabo tais escavações em Tróia, o movimento da Arcádia Lusitana renascia, mas a coluna du Bocage, passados quase cem anos, vinha encerrar um movimento entretanto terminado... é revelador saber-se que Eça de Queirós esteve presente na inauguração da nova coluna, conforme se pode ler aqui.

O rasto da coluna troiana original, sendo perdido (a menos que seja o pelourinho), terá guarida nalguma colecção privada, particular, institucional ou estatal... talvez alguns dos artefactos tenham migrado para Turquia, para serem encontrados de novo, num local mais conveniente, por um qualquer Schliemann.

A voz que saiu de Setúbal nessa altura não foi propriamente a dos poetas da Arcádia, mas muito mais a voz de uma Luísa que tomou pelo casamento o nome de uma célebre montanha suiça, o Monte Todi... e coloco assim uma singela âncora para sinalização futura.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Mapas de Dieppe (3) - Nuca Antara

Já aqui abordámos várias vezes o assunto da Austrália... em particular sobre as maneiras como se escondia o desenho da sua costa noutros mapas, ou como é possível juntar dois mapas de Dieppe e dessa colagem ver directamente a Austrália.
A maior demonstração não é essa, é o bom senso. Quem pensar que os portugueses e espanhóis se tinham dedicado a descobrir todas as pequenas ilhas da redondeza, e tinham se esquecido de dar com o continente australiano, tem um problema de cognição. Se ainda se tratasse de falhar o Havai, ou algum arquipélago pequeno no meio do Pacífico... tudo bem. Porém era mais fácil não descobrir Timor do que não descobrir a Austrália que estava ao lado.

Não vou voltar a repisar todos os argumentos já explicados, havia um problema que se colocava nessas paragens, após o Trópico de Capricórnio... muito provavelmente estava instalado um reino "ilegal", de origem europeia, que não era reconhecido, primeiro pelo papado, e depois pelas nações de Vestfália. Até que o assunto fosse resolvido, pela eliminação completa evada a cabo pelos ingleses, a Austrália ficou fora da atenção e destinada à sua confusão com a parte gelada Austral.

A memória não é algo muito duradouro, e ao contrário do que se julga a informação não se espalha tão facilmente. Numa sociedade hierarquizada, de estrutura piramidal, basta secar as fontes num nível superior, onde se exerce o controlo em troca de benesses, ou em troca de não ter problemas. Os casos que indiciam algo diferente mostram apenas que as revoluções não são acidentais, são autorizadas.

Nuca Antara e Erédia
Sobre a Austrália, fomos encontrar a designação Nuca Antara (ou ainda, Luca Antara) por via da Biblioteca Digital Mundial e aí tomámos conhecimento de Manuel Godinho de Herédia (ou Emanuel Godinho de Erédia), um cartógrafo português de origem malaia, que terá feito explorações em território australiano. 

A Biblioteca Digital Mundial coloca a datação circa 1630, esclarecendo ao mesmo tempo que o primeiro avistamento teria sido realizado por Janszoon em 1606... aqui já não basta a viagem de Tasman, e é preciso ir ao mais desconhecido Janszoon, que não viu o Estreito de Torres, ao passo que Torres viu o Estreito, mas não viu um dos lados da terra, alguns meses antes. 
Isto foi certamente revoltante em tempos, para muitos amantes da Verdade, mas hoje passa por ser divertido... É interessante ver a capacidade de absurdo e desplante possível aos nossos contadores de estórias, que a transformam em História.

Continuamos, com um sorriso no rosto, mas com um certo amargo no coração.
Um dos amantes da verdade terá sido o inglês Richard Henry Major. Numa pequena pérola que fomos encontrar nas Memórias da Academia Real, em 1863, ele explica detalhadamente o 
"Descobrimento da Austrália pelos Portugueses em 1601"
e depois tenta argumentar... algo que é engraçado como desporto para passar o tempo, mas que é esforço inútil quando dirigido à maioria dos mortais, além de ser inútil para convencer quem não tem intenção de ceder. Sobram apenas os espíritos irrequietos, que se vão apoquentando com a descoberta da verdade... sendo certo que a verdade nada mais é do que aquilo que resta após expurgar as contradições e identificar os falsários.

Richard Major apresenta uma prova documental que encontra no Museu Britânico:

Nesta cópia encontra-se uma legenda, na posição do continente australiano, que não deixa grandes dúvidas:
Nuca Antara foi descoberta no ano de 1601 por Mano El Godinho de Erédia por mandado do Vice-Rei Aires de Saldanha. Terra descoberta pelos Holandeses a que chamaram Endracht ou Concordia.
Tudo isto é explicado por Richard Major, que acrescenta as razões pelas quais não se pode pensar em falsificação posterior da legenda.
Não explica, é claro, que espécie de Concórdia existiu para que fosse assim designada pelos holandeses ("Concórdias" há muitas... desde praças fundadas em 1755 embelezadas com um obelisco egípcio, até aviões supersónicos malfadados).

Estávamos em 1863... e o assunto não apareceu apenas na Academia das Ciências portuguesa, encontram-se registos em diversas academias de outros países. A comunicação de Major teve impacto à época, mas foi desaparecendo dos registos. É esse o destino das publicações inconvenientes... podem dar incómodo e/ou lucro aos editores, mas não afectam o resultado final.
Richard Major teve que retractar-se e dar o dito por não dito, afirmando depois que a viagem de Herédia não teria sido realizada.

Passados quase 150 anos, o assunto vai voltando à baila, seja por Keneth Macyntire, seja por Peter Trickett, no Beyond Capricorn, seja por quem for... o resultado acaba por ser sempre o mesmo, e o magister dixit de uma academia condicionada impõe-se sobre o entendimento do senso comum.

Gonneville
Convém aqui esclarecer que Richard Major estava ciente dos mapas de Dieppe, e diz até mais do que isso... refere que um francês teria reclamado o descobrimento da Austrália logo em 1503.
O seu nome era Gonneville e depois de ter passado o Cabo da Boa Esperança, uma tormenta teria-o levado à Austrália... ainda que ele argumente poder ser uma natural confusão com a Ilha de Madagascar. Daí teria trazido à Europa o filho do rei, e relatado o desejo de evangelização desses povos que classificava terem atingido algum grau de civilização. Esse grau de civilização, argumentava, era incompatível com o carácter selvagem dos povos aborígenes do norte da Austrália, segundo os relatos a que tinha acesso. 
Ora, esta descrição assenta muito bem com a junção que fizémos dos mapas de Dieppe, e que aqui relembramos:
Nas ilustrações do mapa, aparecem alguns aborígenes (a norte da ilustração, a oeste na junção), mas também uma evidente civilização de aspecto europeu (a sul na ilustração, a leste na junção), mas não tão sofisticada quanto a europeia, conforme o relato de Gonneville.

Manilio (séc. I)
A exposição de Major vai ainda um pouco mais longe, e para isso cita um autor romano - Manilio:
Ele não dá a tradução do latim, e também não a encontrei... porém a nossa língua tem fortes semelhanças que permitem deduzir que Manilio afirmava que a Terra era redonda e habitada pelas mais variadas gentes, em particular na parte Austral, que jazia sob os pés... ou seja, nos antípodas.
Há outros autores do Séc. XVI que voltam a falar nessa habitabilidade nos antípodas, mas há sempre forma de invocar o erro e a interpretação, dizendo que afinal a cor do cavalo branco de Napoleão era o preto, esquecendo que à época o erro em latitude não poderia ser tão grosseiro. 

E aqui permito-me à divagação fonética... será que afinal Manila, surge como uma Manilia de Manilio?
Uma pequena homenagem ao escritor romano, obrigada a ficar nas Filipinas, mas que deveria ter a sua localização numa Sidney ou Wellington, bem mais próximas dos antípodas do Império Romano?
A nome da cidade chegou a ser escrito como Manilha, certamente por influência espanhola (... e não tanto do jogo da "sueca", onde o 7 ganha um valor diferente do habitual). A manilha permitia afinal completar o círculo do globo sendo a cidade que simbolizava o fecho pelo anti-meridiano de Tordesilhas...

terça-feira, 24 de maio de 2011

23 maneiras de ser diferente

A Maria da Fonte suscitou a questão cromossómica, nomeadamente pela diferença no número de combinações reprodutivas entre os primatas. Os macacos usam 24 cromossomas de cada progenitor, enquanto os humanos usam 23.

Esta diferença no número de cromossomas não está directamente associada à questão da complexidade do organismo. Os cromossomas são diferentes e podem ser mais ou menos complexos, em termos da dimensão das cadeias de DNA que os constituem. Conforme é bem ilustrado na wikipedia...

das sequências de DNA (1) surgem suas ligações com histonas (2) que dão filamentos de cromatinas (3) que se unem pelo centrómero (4)... e várias coisas destas formam um cromossoma X (5).
No caso do cromossoma Y, o masculino, que é diferente de todos os outros, e é o mais pequeno... há mesmo assim 58 milhões de bases distribuídas por 86 genes.
Ou seja, não podemos reduzir a complexidade inerente à partição desta informação em 23+23 partes.

Não deixa de ser notável que a "Natureza" tenha decidido fazer dos seres vivos uma questão digital.
Este aspecto é suficientemente obscurecido, mas como aqui nos decidimos a trazer alguma luz sobre assuntos esquecidos, propositadamente ou não, é altura de dizer algo sobre isto.

As bases de DNA num humano são aproximadamente 2 500 milhões, onde há a possibilidade de escolher 4 tipos de moléculas: ACGT - adenina, citosina, guanina, timina (uracilo no caso do RNA), e têm a programação do que é um ser vivo. Usando uma daquelas analogias habituais, a informação acerca de um ser humano poderia ser bem comprimida numa Pen de 2 Gb. Não parece muito, mas é preciso notar que pelo mesmo critério de compressão, poderia caber nessa Pen toda a literatura universal relevante (note-se que sem artifícios especiais cabem aí 10 mil Lusíadas).

O interessante é a perspectiva digital... a menos de gémeos, cada ser vivo estaria codificado numa Pen de 2 Gb, sem imprecisões. Isto resultaria do cruzamento de duas Pen's de 1 Gb, divididas em 23 partições, chamadas cromossomas.
A evidência científica pretenderá que ocasionalmente duas Pen de 1 Gb se conhecem, uma da parte da mãe, outra da parte do pai, e dão origem a uma Pen filho(a) de 2 Gb. Essa Pen sozinha evolui misteriosamente em pouco tempo, dando origem a um ser humano. 
A informação está lá... disso parece não haver grandes dúvidas. Também podem estar lá as obras fundamentais da literatura... o que é preciso é saber interpretar a informação e transformá-la em algo real. A Pen de pouco nos serve, se não houver um computador para transformar os bytes em algo legível.
No caso dos seres vivos, esse computador parece ausente... ou dito de outra forma, é-nos feito crer que acidentalmente a "Natureza" se transformou nesse processador que pega em 2 Pen's de 1Gb e faz sair daí um ser vivo.

Os paradigmas computacionais vieram mostrar que é possível formatar uma realidade virtual, onde os seres virtuais interagem, simulando em muitos casos o que se passa na Natureza... porém em todos esses casos o que foi absolutamente impossível foi programar o computador para ser ele próprio o criador dessa realidade virtual. As simulações não existiram sem um programador prévio.
É esse programador que cria todo o ambiente e as leis que regem o mundo virtual.
No contexto da computação actual é impensável que algum programador crie objectos virtuais que desenvolvam uma consciência de que há um programador que os criou. Na fase actual da programação conseguirá no máximo fazer interagir os diversos seres por regras simples, automáticas.

Fico-me por aqui, pois doutra forma teria que ir para concepções filosóficas, em que o programador se interroga a si mesmo sobre se é resultado de semelhante programação externa. Teria que entrar no papel da sequência Úrano, Cronos, Zeus... e para esse efeito basilar ainda é necessário ir até à mitologia dos Vedas, para explicar melhor o problema fundamental. Ou então iria para uma encenação de ficção científica, onde ficaria bem a triologia Matrix... mas sem alternativa à realidade virtual. Ou seja, nesta explicação simplificada os seres têm apenas existência no contexto virtual - nada há para além dessa realidade... e é claro, o programador deixa sempre uma cláusula de intervenção que lhe permite alterar o curso dos acontecimentos. Poderia ser necessário refazer a programação com vista ao objectivo final, pelo que o mundo como o conhecemos poderia não ter sido sempre programado da mesma forma.

Surge aqui uma teoria muitas vezes ocultada, que é a Teoria Catastrofista de Cuvier.
Antes do absoluto consenso que se foi estabelecendo em torno da teoria evolucionista, que já aqui abordámos, os registos fósseis indicavam um cenário diferente. Esse cenário indicava uma estratificação das diferentes espécies, não havendo aparente conexão entre elas. Isso levou Cuvier a pensar num cenário catastrofista, onde não apareciam os "missing-links". As espécies eram diferentes, e as camadas fósseis revelavam essa diferença, sem aparecer uma evolução, como Lamarck pretendia sugerir... e depois Darwin. É já na transição para o Século XX que começam a aparecer fósseis que dariam justificação à evolução... e assim se esqueceu a primeira evidência, que levava a pensar em diversas catástrofes ao longo da história, e não numa evolução.

É claro que a teoria da evolução, apesar de simples, precisa de muita justificação adicional, e em particular para ser plausível teria que transportar a ideia de que a Terra não teria apenas uns milhares de anos, mas sim muitos milhões... coisa que é contraditória com as simples leis termodinâmicas, conforme já aqui explicámos, dado que o interior da Terra se mantém inexplicavelmente quente.

Apesar de nada ter de extraordinário haver 23 pares cromossomas humanos e não 24, como nos outros primatas, parece injustificada a diminuição da partição, que apenas leva a menor diversidade na  herança genética... O caso extremo de diversidade na combinação reprodutiva é dos primitivos fetos com 600 pares de cromossomas, havendo exemplos animais com número mais elevado que os primatas, como são os casos dos cavalos (32), dos galos (39), ou das borboletas (190)... sendo claro que não aparece uma relação directa com a complexidade do organismo.

No caso da teoria evolucionista tudo é acidental, sendo claro que os referidos números nada têm de especial, nem tão pouco estão associados a nada de místico.
A contrario do que aqui tem sido sugerido, nunca parece ter havido nenhuma sugestão mística antiga de particular relevância para o número 23 ou 46, que definia o património genético humano, por observação do número de cromossomas. Isso só foi observado na segunda metade do Século XIX.
Se temos por vezes sugerido evidências de um conhecimento antigo profundo, não apareceu nenhum registo associado a esta característica humana tão relevante, do ponto de vista genético, que sugerisse que tal conhecimento tinha sido detido por alguma civilização passada.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Loxodrómia

Para que serve a Loxodrómia, curva associada à descoberta de Pedro Nunes?
A navegação pela bússola, orientada por uma rosa-dos-ventos, poderia fixar uma direcção... digamos Noroeste, e seguir esse rumo procurando aí uma localização conhecida. 
Rosa dos ventos numa carta de Jorge de Aguiar, 1492.

O que Pedro Nunes tornou claro é que isso serviria localmente, em latitudes longe dos pólos, mas tornar-se-ia bastante impreciso numa navegação no globo terrestre. É fácil perceber porquê... ao manter uma direcção que tivesse componente de Norte, por exemplo Noroeste, a cada passo iríamos aproximar mais do Pólo Norte, e no limite essa persistência levaria-nos numa espiral até ao pólo.
A concepção do mundo plano, no planisfério, chocava com os aspectos práticos de grandes navegações no globo esférico, ou quase esférico... 
Esse rumo em direcção ao pólo só seria evitado em direcções exactamente a oeste ou a leste, onde se seguiria o paralelo, pela latitude onde se estava.

Até aqui nada dizemos que não seja habitualmente dito desta ou doutra forma...
Porém convém esclarecer que a bússola nada traria de especial ao conhecimento de posição, exceptuando a possibilidade de orientação com condições atmosféricas adversas, em que a nebulosidade não permitisse avistar os astros de referência.
A identificação do Norte ou do Sul faz parte das designações que usamos:
- Meridional resulta do latim para meio-dia, sendo claro que a posição do Sol ao meio-dia, no hemisfério norte aponta sempre para sul (e de forma similar, no hemisfério sul aponta para norte).
- Setentrional estará associado às sete estrelas, ou sete-estrelo, que se justifica hoje pela posição norte da Ursa Menor, constelação em cuja cauda estaria a Estrela Polar. 

Escusado será dizer que também as Pleiades são denominadas sete-estrelo... mas isso colocaria o Norte em posições que apenas fariam sentido com uma posição completamente diferente, remetendo o assunto para posts anteriores, na orientação das pirâmides de Gizé.
Talvez seja de mencionar que as Pleiades poderiam ser escritas Peleiades, tornando quase foneticamente indistinguível as filhas de Atlas do não relacionado floco de pombas, cujo culto pertencia a outro oráculo famoso, o Oráculo de Dodona.
Seria ainda de mencionar uma provável origem fonética do termo Oriente de Órion, assim como é importante não deixar de considerar que Sírio tanto se refere à estrela mais brilhante, como à zona da antiga Fenícia, e que foneticamente não é distinguível de Círio, e até próximo de Ciro... lembrando ainda o que já foi dito sobre Sidónia.

Porém, concentrando-nos no tema da Loxodrómia, o importante é notar que a posição de latitude e a orientação dos pontos cardeais poderiam ser obtidas, de forma estática. O Sol a meio-dia dava a posição do Sul, e a sua altura no céu dava a latitude. Para esses efeitos a bússola seria desnecessária.

Onde entra o papel da bússola, sem ser na orientação sob nebulosidade?
A bússola permitia manter uma direcção, e mantendo uma direcção, pela diferença de latitude saber-se-ia a corresponde diferença de longitude.
Ou seja, a bússola permitia efectivamente uma navegação de longitude.
Damos um exemplo, para que fique mais claro. Ao nível das latitudes tropicais, e negligenciando o efeito das correntes marítimas, se fosse mantida uma direcção Noroeste (NW), medida a diferença de latitude, e regressando à latitude anterior por navegação Sudoeste (SW), percorreria-se o dobro da distância em longitude, conforme ilustramos:

Sem a bússola, manter essas direcções seria menos preciso, com o barco em movimento. O efeito das correntes seria negligenciável, se as correntes fossem as mesmas, apenas levaria a mapas menos correctos, mas não afectaria a navegação. A navegação à bolina, ou o ziguezaguear, tem a justificação clara de ser útil contra o vento, mas percebe-se ainda uma utilidade no posicionamento.
O erro desta abordagem é assumir uma abordagem planar, que faz sentido numa concepção que foi corrigida pelo trabalho de Pedro Nunes - a loxodrómia tornou claro que esta abordagem não poderia ser estendida a grandes distâncias fora da zona equatorial.

Conforme já abordámos anteriormente, o erro de longitude, que justificaria os atrasos até ao Século XVIII, para uma navegação mais exacta com o cronómetro, foi uma Estória colocada na História.
É muito natural que com uma bússola e um quadrante fosse mais do que possível fazer uma navegação global, com bastante orientação. Como a origem da bússola é assumidamente chinesa, e só introduzida na Europa pelos árabes, é perceptível que o método de navegação existia há muito!

Para além destas rosas-dos-ventos, e acerca dos outros ventos, algo foi explicado a D. Dinis: 
- São rosas, Senhor... são rosas!