quinta-feira, 30 de junho de 2011

Tarso

Tarso é um conjunto de ossos do pé, em que se inclui o calcanhar (calcâneo), e em particular estaria aí o Calcanhar de Aquiles, cujo nome ficou associado ao tendão.
Raio-X de fractura do calcâneo no Tarso

Paulo de Tarso
Tarso é ainda a cidade da Ásia Menor na Cílicia considerada como local de nascimento de São Paulo, também conhecido como Paulo de Tarso. É bem conhecida a conversão de Saulo em Paulo, e a influência em tornar o cristianismo numa religião de gentios e não apenas de judeus. Os périplos de S. Paulo começam numa viagem na região da Ásia Menor:
onde podemos ver a confusão de estarem aí nomeadas duas Antióquias no percurso.

Há um ano colocámos aqui a questão crucial, no sentido de Crux, sobre como o aparecimento do cristianismo terminou com as revoltas de escravos simbolizadas nas dezenas de milhar de cruzes da revolta de Spartacus na Via Ápia, e como isso foi um erro de Crasso. 
Com a conversão de Saulo a expansão cristã não fica restrita ao núcleo judaico de Pedro (com quem tem algumas dissensões), e Roma continuará como centro, agora religioso, distante dos símbolos cristãos de Jerusalém. Constantino, também dito Magno, torna o cristianismo religião imperial, e muda o centro do Império para  Bizâncio, mas não para a Terra Santa. A Igreja de Pedro e Paulo ficará em Roma, e o tempo será juliano durante uma boa parte da Idade Média... a marcação a.C/d.C só é iniciada com Carlos Magno e completada com D. João I, em Portugal (é ainda nessa altura que os infantes podem então passar a príncipes). 

Lídia, Targum e Tarsis
No mapa vemos nomeada a Galácia, vizinha da Frígia, da Lídia, e da Lícia.
Interessa-nos a Frígia, pois com uma crux ficaria Frísia, tal como a Lidia (ou Licia) ficaria Lisia, e se tal território não existe, existiu a Lysitania, ou Lusitania. Uma crux é dúbia, mas a informação de que os Lídios se denominam "sfards", transportar-nos à designação dos sefarditas, ibéricos. Sobre a Galácia, e a proximidade com Galícia, até dispensaria qualquer crux.

A Lídia ficou mais conhecida pelo seu último rei Creso, tal como a Frísia pelo rei Midas. Estas fortunas eram associadas ao ouro vindo do rio Pactolo, afluente do Hermo, e já aqui citámos Juvenal:
The man for whose desires yesterday not all the gold which Tagus and the ruddy Pactolus rolls along would have sufficed (...)
que associava os rios Pactolo e Tagus, não mencionando o rio Hermo. Vários autores romanos falaram do ouro existente nos rios da Lusitania, e mencionavam que o ouro do Pactolus e Hermo se deveria ter entretanto extinguido. Apesar da abundância de ouro estar inicialmente associado ao Jardim das Hespérides, e à procura que Hércules vai fazer para além das Colunas (na Lusitania), estes mitos posteriores parecem esquecer isso e colocam o mito aurífero na Ásia Menor!

Creso acabará derrotado pelo persa Ciro, o mesmo que irá reencaminhar os hebreus do cativeiro para Israel, e aí surge um pormenor interessante. Há uma diferença entre os judeus que falavam o aramaico e outros que falavam hebreu, ao ponto de surgirem os Targus (decidi colocar assim o plural de Targum, apesar de ser indicado targumim) - traduções para aramaico do original hebreu. Nota-se por isso que são dois povos separados, juntos na mesma região, o que corre no sentido aqui várias vezes mencionado sobre os Ebreus do Ebro.

A ligação a Tarso, surge agora por via de Tarsis... cujo nome bíblico é Tarshish, e que pode ser associada a Tartesso. Conforme diz William Smith (no Concise dictionary of the Bible. pág. 921):
"Tartessus being merely Tarshish in the Aramaic form"
... entre outras razões para associação entre a Tarsis bíblica e Tartessos na Ibéria, ao mesmo tempo que descarta a natural confusão de Tarso na Ásia Menor com Tarsis (todo o texto de William Smith merece ser lido). Uso ainda aqui uma citação breve, via wikipedia:
De fato, o Rei Salomão tinha naves de Tarsis no mar junto com as naves de Hirão. As naves de Tarsis vinham uma vez a cada três anos e traziam ouro, prata, marfim, bugios e pavões. (I Reis 10: 22)
Se há Tarso, em que de Paulo se sustentará o cristianismo, a Tarsis ibérica sustentava um comércio com paragens distantes (provavelmente africanas e americanas, dada a carga...) a cada três anos. E quando William Smith diz que, no Livro das Crónicas, Tarshish teria ligação ao Mar Vermelho, não precisamos de colocar a localização longe da Hispania, pelas razões que já explicámos nos sinais vermelhos.


Calcanhar de Aquiles
Uma boa parte da nomenclatura anatómica pode ser encontrada em Galeno, médico de Marco Aurélio, que vemos aqui representado com um barrete frígio:
Galeno (129-217 d.C)

Se a associação a Tarso foi casual, feita pela sustentação de Paulo, pela fragilidade na localização de Tarsis, ou por outra razão, pois é tão dúbio quanto uma crux, e podemos seguir várias direcções.
Ao mergulhar Aquiles no rio Estige do Hades, Tétis deixou vulnerável a sustentação do aqueu, o seu calcanhar, o Tarso... talvez uma fragilidade de sustentação dos aqueus acerca do poderio de uma antiga Tarsis, que prolongou a guerra de Tróia. Quem quebrará essas muralhas será um ardil de Ulisses, através do cavalo de Tróia... Ulisses que seguirá depois um caminho atlântico, qual Tarsis.

Para dar um exemplo da utilidade das designações anatómicas, lembramos o cúbito, afinal um osso do antebraço (também chamado ulna), que nos daria uma ideia da antiga unidade de comprimento egípcia, também representada por um antebraço - mas que implicaria antebraços de meio metro... bastante maiores que os actuais, digamos quase de gigantes!

Ficamos por aqui... já que não vamos falar do rádio, outro osso do antebraço, pois a conjunção "Rádio" com "Galeno" parece fortuita. Não encontramos já um motivo não linguístico para o associar ao Rádio de Galena, ainda que essa forma primitiva de Rádio AM seja baseada no Galeno (sulfeto de chumbo), material que foi usado como cosmético entre os egípcios.
Afinal, aprendemos que o desenvolvimento eléctrico, que vai de Alessandro Volta (nomeado conde por Napoleão), até aos rádios de Marconi (ou anteriores), dura menos de 100 anos, e por isso aceitamos ser absolutamente ridículo pensar que os egípcios pudessem ter ideias eléctricas, apesar dos vários milhares de anos de civilização. Digamos que devemos ter ficado mais espertos...

Radius, significa ainda raio, e pode ser explicado pela possibilidade de movimento circular no antebraço, pelo que seria tão gratuito como fazer outras associações linguísticas, seja ao elemento rádio, ou até ao facto de termos começado o texto sobre ossos com uma radiografia! Isso seriam estórias completamente diferentes destas...
Aliás, do tarso não seguimos para o metatarso, pelos cuneiformes, sob pena de invocar ainda as falanges!

[este post estava previsto aparecer em 29 de Junho... porém às vezes as dificuldades no blogger surgem, e compreendemos!]

terça-feira, 28 de junho de 2011

Kafkania - uma pedra


O site espanhol Proel.org tem uma excelente página linguística onde se estabelece uma árvore genealógica dos alfabetos antigos:
Origem do gráfico: Proel.org

É um exercício interessante estabelecer ligações desta forma, que não se prendam exactamente com o lugar atribuído e as convenções habituais... 
Por exemplo, sinalizamos que o indiano Brahmi é ligado ao Fenício como desvio do Aramaico, com uma particularidade que os autores desse blog dizem no início:
El brahmi es un sistema de escritura silábico con un lapso de uso que va desde el siglo V a. C. hasta el V d. C. El sentido de la escritura era al principio de derecha a izquierda, pero en el siglo III a. C. cambia en sentido contrario.
O que se passa para uma escrita subitamente mudar, deixando de se escrever segundo a sua influência fenícia original - de nascente para poente, passando a escrever-se de poente para nascente, copiando a influência grega? 
Estando reportado ao Séc. III a.C. ocorre já depois da incursão de Alexandre Magno, e por isso está localizada uma forte possibilidade de influência!
Já aqui apontámos essa diferença da direcção de escrita, num texto anterior.

Espanca - Ourique
A propósito dos Tartéssios (a que se costuma ligar Tarsis, e os Cónios) e da sua língua, nesse site são referenciadas diversas estelas em Espanca, Ourique, Bensafrim. A escrita tartéssia é considerada irmã da hebraica, da púnica, da aramaica, ou do grego antigo, no sentido em que derivam directamente do fenício original. Já aqui tínhamos mencionada a estela da Abóbada
com uma eventual ligação às siglas poveiras, mas fica agora claro que há todo um registo que liga a uma cultura tartéssia do sudoeste ibérico. Citamos os referidos autores, de novo, a este propósito:
Por ello y por su riqueza minera, Tartessos alcanzó inmenso poderío. El país de los tartesios es citado con mucha frecuencia en la Biblia y siempre en términos de un pueblo rico y rebosante de esplendor (1 Reyes 10:22; 2 Crónicas 20:36-37; Ezequiel 27:12; 38:13).
Esta língua, tal como a fenícia, usava a direcção nascente-poente... e como já aqui demos a entender, terá terminado os seus dias com aqueles que seguiram a direcção poente-nascente, e tal como os púnicos de Cartago, a civilização foi aniquilada pelos Romanos. O pormenor da escrita Brahmi inverter o seu sentido, após a presença de Alexandre, é revelador de que só havia uma direcção a seguir. Os próprios gregos tinham invertido esse sentido, já que o grego antigo até ao Séc. VIII a.C. usava a direcção fenícia, tal como o Etrusco... outra civilização que irá tombar. Os gregos mudam a sua direcção e influenciam a direcção romana, que tomará conta da Pax. Seguindo a linha do aramaico, apenas os judeus e os árabes vão manter a direcção oposta.

A influência da escrita fenícia, através do aramaico, é colocada pelos autores para além do Brahmi indiano, e chega à Sibério, ao Mongol e Manchú... mas com direcções já diferentes. Os autores ilustram as direcções de influência num esquema interessante.

Distinguiria dois períodos, que me parecem confundir-se quanto à Fenícia. Um primeiro período que não colocaria necessariamente no Líbano, já que a sua influência se confunde com a própria civilização oceânica europeia, em interacção com os Celtas. Um outro período, colocado na habitual zona do Líbano/Síria, onde se teria cimentado o aramaico como desvio do fenício original.

Disco de Phaitos
Uma outra linha interessante, e que tem sido associada ao mito da Atlântida, está relacionada com a escrita encontrada em Creta. É sobejamente conhecido o chamado Disco de Phaitos:
Estas escritas minóicas foram depois genericamente classificadas como Linear A ou B, seguindo o sentido greco-romano. Não é o caso do Disco de Phaitos, que apesar de não estar decifrado, assume-se correr no sentido fenício... se é que a distinção faz muito sentido num alinhamento espiral.

Quanto a tratar-se de algum legado da civilização Atlântida, parece-me ser inconsistente com os relatos de grande avanço civilizacional. A escrita longe de estar simplificada, está alinhada de forma rudimentar, de forma semelhante a muitos outros registos de civilizações da Idade do Bronze. A Atlântida poderá ter existido enquanto civilização avançada anterior ou na Idade do Bronze, mas conforme já referi há algumas extrapolações exarcebadas relativamente ao seu desenvolvimento. Parece bastante mais natural que uma Atlântida, situada na costa Atlântica, provavelmente africana (é aí que encontramos persistentemente referenciados os Atlantes), tenha sido vítima de uma mudança climática. De uma época fria, em que os gelos concentravam a água nos pólos, poderá ter havido uma mudança súbita, que originou uma inundação da sua capital. O clima temperado dará origem a uma mudança na relação de forças, admitindo que anteriormente os Atlantes subjugavam os povos mediterrânicos, de acordo com o relato de Platão. A civilização marítima fenícia ou a minóica poderão ter sido suas herdeiras, directamente ou pelo resultado do contacto com essa civilização perdida, mas não terão sido necessariamente casos únicos...

Pedra de Kafkania
Relativamente à língua minóica, não deixa de ser interessante os autores colocarem uma origem anterior, vários milénios antes de Cristo, na zona da Transilvânia... a que vão chamar língua Tartária. Ainda revelador é o mapa da civilizações "paleo-balcânicas" que apresentam:

É revelador, porque os autores datam estas civilizações entre 6000 a.C. e 3000 a.C., e como podemos observar os focos (a verde) estariam longe de qualquer zona costeira actual, mas já não seria bem assim se admitirmos o nível do mar mais elevado, conforme temos apresentado.

Nesta sequência, que leva aos minóicos, e para além do Disco de Phaitos, há uma pequena pedra que tem inscrições similares, e que foi descoberta recentemente, próximo de Kafkania-Olimpo:

Levantam-se algumas dúvidas sobre a autenticidade do achado de 1995, por razões bizarras que podem ser lidas na wikipedia. É interessante ter sido encontrada fora de Creta, em Kafkania.

Através deste pequeno artefacto, fomos chegados neste processo a Kafkania, vila próxima do Olimpo.
Mas tal como em O Processo, este nosso processo também parece ainda não ter fim à vista! 

domingo, 26 de junho de 2011

Pólvora, Lanternas e Penhascos Vermelhos

  
Os balões do São João no Porto e Zhuge Liang...  [imgimg]

A cultura ocidental tem muito poucas referências orientais, sendo normalmente mais conhecidas as ligadas à mitologia e religiosidade. Aqueles que são seduzidos pelo misticismo oriental fazem um processo curioso, que teria um recíproco engraçado... analogamente poderíamos ter gurus da religião greco-romana juntando grupos esotéricos de empresários ou artistas chineses ou indianos. As religiões, ou mesmo as filosofias, têm um enquadramento histórico, e a história chinesa ou indiana está longe de ser familiar à maioria dos ocidentais que são adoptados e depois adeptos dessas tendências ocidentais supostamente baseadas no misticismo oriental.

Lanternas de Kongming
A tradição do São João junta o salto à fogueira, o fogo de artifício e uns curiosos balões de ar quente, chamados balões de São João... estando atrasado uns dias, noto que o S. Pedro ainda não acabou!
Retirando a parte do salto à fogueira, o fogo de artifício e os balões de ar quente podemos encontrá-los como manifestação quase directa de tradições chinesas em território nacional. 
Afinal é admitido que a pólvora tem a sua origem na China, tal como o papel... 

Durante muito tempo (até há poucas décadas) foi contada a estória que os chineses não teriam desenvolvido os seus conhecimentos pirotécnicos para fins militares, e que estes se resumiriam a distracções cortesãs.
Não vamos aqui redescobrir a pólvora, mas convém notar que esta é reportada à Dinastia Han, uma dinastia florescente do Séc II a. C. ao Séc. II d. C., quatrocentos anos de desenvolvimento.
O fim da Dinastia Han tem um herói Han, denominado "Dragão Adormecido" ou Kongming, de nome Zhuge Liang.

A Zhuge Liang é creditado a invenção dos balões de papel e ar quente, também ditos Lanternas de  Kongming... e que são os balões de São João (alguns chamam balões venezianos)!

Segundo a "lenda", estando cercado, as Lanternas teriam sido usados por si para sinalização ao seu exército.  Há outras invenções surpreendentes que lhe são creditadas.

Batalha dos Penhascos Vermelhos
O seu nome vai ficar mais ligado à Batalha mítica da História chinesa: 
que antecede o fim da Dinastia Han. 

 
Sinal da Batalha dos Penhascos Vermelhos, o seu local é incerto, 
mas é marcado há muitos séculos em Chibi, no Rio Yangtzé. 
Embarcação usada em batalha.

Trata-se de uma batalha com larga componente naval, mas que é colocada no Rio Azul, o Yangtzé, com o Sinal dos "Penhascos Vermelhos"... e que reporta já a divisão dos Três Reinos, período de convulsão na China que marca o final da Dinastia Han (em 220 d.C) até à Dinastia Jin (em 280 d.C).

As invenções chinesas
Os ocidentais reconhecem quatro invenções importantes aos chineses:
- papel, bússola, pólvora... e imprensa (apesar de Guttenberg)
... havendo outras invenções em lista de espera, com a reconhecida oficial paciência chinesa.
Os argumentos para a Lanterna de Kongming são simples... oficialmente os chineses inventaram o papel, e saberiam produzir fogo. Porém, como já percebemos, as evidências contam pouco para a academia ocidental e os mais reputados sinologistas remetem para o magister dixit considerando relatos inconvenientes como apócrifos. Nada de surpreendente, ligado ao ambiente religioso que afinal definiu as universidades no contexto medieval...

Um excelente artigo de Annette Yoshiko (2009), da Univ. Pensilvânia, esclarece como foi difícil aos europeus admitir uma história chinesa registada antes das civilizações clássicas:
Hegel famously proclaimed that the Indians were a people without history, living apart from the evolving spirit of rationality that shaped "the West". To this Leopold Von Ranke soon protested. Nevertheless, von Ranke expressed a similar view of India, which he extended to China as well. These two "oriental" peoples had long chronologies, but their antiquity was, in his view, merely a "fable"; neither had any active role in shaping world history.
Estamos a falar do início do Séc. XX, e a afirmação de Hegel poderá também ser vista como uma irónica crítica à própria estória ocidental que passava por História...
Yoshiko relaciona ainda os antigos relatos gregos não apenas dos indianos (Indoí), mas também dos Sêres, a que se ligava já o registo da Seda. 
Os Sêres desconhecidos seriam por isso os chineses... vai ainda mais longe, considerando o registo cristão dos Actos de Tomás (S. Tomás que foi ver para crer), que falam no Reino de Mazdai (afinal um veículo que de Mazda nos levaria ainda a Zaratrusta...), todo o artigo é aconselhado e tem um registo que não nos deixa sozinhos no meio de uma academia de herança medieval.


Severo, do lado Romano
Ao mesmo tempo que se dava a Batalha dos Penhascos Vermelhos, Sétimo Severo estendia o Império Romano para Oriente, atingindo os Pártos da Pérsia, inserindo definitivamente a província de Osroena e indo mais longe, na recuperação das antigas fronteiras do reino Seleucida de Edessa.
Para continuar um pouco da nossa Estória, vamos recuperar o mapa que colocaria ainda o Cáspio como mar...
A expansão de Severo colidiria com algum reino chinês?
Até que ponto faz sentido uma batalha naval que ocorre no contexto do Rio Yangtzé? Ainda que seja um grande rio, as proporções habituais de forças em batalhas chinesas (aqui fala-se em quase 1 milhão do lado de Cao Cao) colocariam as embarcações a cobrir o rio...
Até que ponto não estariam os Romanos envolvidos numa disputa de influência sobre território chinês, apoiando um dos lados da contenda?
Como Yoshiko salienta no seu artigo, entre a China e os Romanos havia o Reino Parto-Persa, que funcionava como charneira, sendo reconhecidas influências/contactos chineses directos com os partos.

Contemporâneo da queda da Dinastia Han é o envio de uma delegação indiana em 220 d.C. ao imperador Heliógabalo, acto oficial singular, que demonstra talvez a preocupação ou o reconhecimento global com o poder Romano no Oriente... Pelo menos era claro que quer Sétimo Severo ou Caracala tinham tomado o assunto da guerra com o Partos, que também eram vizinhos da India.

Sob um ou diferente nomes, a antiquíssima civilização Persa dos magos manteve-se com uma independência quase constante, só interrompida brevemente por Alexandre Magno, já que a invasão otomana foi dada dentro de um contexto religioso e cultural comum. Noutra ocasião falaremos sobre as Colunas de Alexandre...
Não se passou exactamente o mesmo com a China... pois se a pólvora foi invenção chinesa, é certo que os ocidentais em breve copiaram os mecanismos de destruição ao longo da Idade Média, e quando Nobel "inventa" a dinamite, poucos anos depois uma enorme aliança ocidental esmaga a Revolta dos Boxer na passagem de 1900, arriscando a presença de grandes contigentes na Batalha de Pequim (que terá ainda servido para apagar as memórias de Fusang e da Tartária):

Os balões de São João
As lanternas de Kongming aparecem como tradição festiva em Veneza e no Porto. Não sabemos quando foram introduzidas no Carnaval ou em festas populares. A tradição junina semelhante no Brasil coloca-as longe no tempo... provavelmente bem anteriores às experiências dos irmãos Montgolfier.
Se os chineses já consideravam colocar uma embarcação balão enquanto passarola, capaz de transportar pessoas... pois é uma hipótese que surge logo a partir do momento em que se vê o modelo feito com papel. Talvez por isso a actuação de Sétimo Severo e Caracala se tornasse tão urgente nas paragens orientais em "polvorosa".

Será preciso saltar por cima do fogo que consumiu e apagou todos registos... mas é complicado!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Pontes, o Lethes do esquecimento

aqui mencionámos, através do relato de Plínio, que o Rio Lima teria ficado associado ao esquecimento, ao mítico Lethes... mas de que esquecimento se fala?

Na Pousada de Santa Luzia, em Viana do Castelo, está uma tapeçaria de Almada Negreiros sobre o episódio lendário da recusa da passagem do Rio Lima pelas tropas de Décimo Júnio Bruto, dito Calaico ou Galaico...
É preciso especificar o Galaico, pois terá havido cinco Décimo Júnio Bruto, sendo que a expressão
  "também tu Brutus"
ganha um significado diferente ao saber-se que se tratava pelo menos do quinto com o mesmo nome...
Aqui falamos do avô, que se atreveu a não esquecer a passagem do Rio Lima.

A "lenda" está descrita na legenda da tapeçaria, sendo dispensável repeti-la.
Não conhecia a tapeçaria, mas mostra que o episódio não seria desconhecido ao jovem Almada Negreiros. Se em 1916 ainda não havia o célebre Queijo Limiano, a lenda torna claro que ao tempo de Brutus não haveria a célebre Ponte de Lima... e Almada Negreiros vai dispor as pontas das lanças dos soldados sobre o rio, de forma curiosa.

O que o quadro evidencia é que a passagem do exército pressupunha um rio baixo, e a ausência de qualquer ponte. Ponte de Lima irá ter uma ponte romana...
- Mas, afinal não são todas as pontes antigas, romanas?
- Nomeie-se uma ponte antiga não romana e teremos uma verdadeira novidade!
Egípcios, assírios, babilónios, persas, celtas, fenícios, e até os gregos (veja-se a excepção admitida sobre um ribeiro) ou macedónios, não gostavam de fazer pontes. Por isso, ficou praticamente reservado aos romanos a ideia de atravessar rios com pontes. Pelo menos com pontes de pedra, sendo admitido que haveria pontes de madeira... por exemplo, chinesas.

Pontes Romanas
A região portuguesa sendo sulcada por muitos rios, especialmente na zona "mesopotâmica" de entre-os-rios, exibe inúmeras pontes antigas. Muitas destas pontes ficavam fora das nomeadas estradas romanas (outro problema... encontrar calçadas que não sejam romanas), mas não deixaram de merecer esse epíteto, ou alternativamente o nome de ponte medieval.
Na maioria dos casos os autores e datas são dados completamente desconhecidos, mas isso não parece apoquentar ninguém. Apesar de termos arquitecturas completamente diferentes entre as nomeadas pontes romanas, mesmo as atribuídas ao mesmo imperador (por exemplo, a ponte de Trajano em Chaves e a de Alcântara, em Espanha), todos parecem ficar satisfeitos com a classificação simplificada - ou é romana, ou é medieval. De facto, poderíamos dizer que os templos antigos seriam romanos, e as igrejas medievais... e apesar de não andar muito longe disso, há mesmo assim mais cuidado do que no caso das pontes.

Será que poderia haver uma ponte no Rio Lima, e que o esquecimento necessário seria ignorar que aquela ponte já lá estava antes de Brutus chegar?
Por uma questão pragmática, sendo as estruturas úteis que sentido faria mandar todas abaixo para reconstruir de novo?
Deixamos aqui a actual ponte medieval do Lima, com alguns exemplos de diferentes pontes romanas... a maior dificuldade é sempre perceber o critério com que se distinguem ou são identificadas como tal.
  
Ponte de Lima, dita romana mas com reconstrução medieval, e outras 
quatro pontes romanas (Alcantara, Chaves, Vila Formosa, das Taipas).

A Ponte de Trajano de Chaves é a mais curiosa, pois numa das colunas afirma-se que foram os locais que a construíram, às suas expensas, já na outra honra-se Trajano e Vespasiano...

Enfim, o problema de ter uma memória danada... excluída da lembrança, sempre existiu e não parece querer deixar de existir. Conheciam-se os casos de pessoas, o que não é admitido é a danação da memória de povos inteiros. O Rio do Esquecimento, o Lethes do Lima será simbolicamente recuperado numa identificação ao Queijo Limiano e ao "mito popular" de que o queijo provocaria falha de memória. Se a produção começa só em 1959, também é só em 1960 que encontramos (Google Books) um comentário sobre essa associação "popular", num excerto de livro sobre "Frases feitas", em que se procura desvalorizar essa associação nacional com outros exemplos europeus. Depois é claro que a União trouxe um problema no virar de Milénio, que deu origem a uma greve de fome e ao episódio do Orçamento Limiano, em que um deputado minhoto fazia a diferença!

Se antes a região era vista como um Jardim do Éden, proibido, os Romanos ao fazerem correr sobre estas terras o Rio Lethes, do esquecimento, trouxeram um pouco do Hades a estas paragens!

Paulus Orosius
Estrabo descreve os rios até ao Minho, falando da navegabilidade do Douro (até ao cachão de S. João da Pesqueira), e afirmando o Minho como maior rio da Hespanha, sendo navegável na mesma extensão.
É no Rio Minho que Estrabo diz que terminou a expedição de Brutus... ou seja, o apenso Galaico só lhe deve ter sido colocado por omissão!
No entanto, depois encontramos em Paulo Orósio (Séc. V), na Historiae Adversum Paganos, algo completamente diferente...
In the meantime Brutus in Further Spain crushed sixty thousand Gallaeci who had come to the assistance of the Lusitani. He was victorious only after a desperate and difficult battle, despite the fact that he had surrounded them unawares. According to report, fifty thousand of them were slain in that battle, six thousand were captured, and only a small number escaped by flight.
Orósio, tido como natural de Braga, vai comparar a actuação dos Romanos com a actuação dos invasores bárbaros, e não poupará os registos de crueldade romana. Aqui fala da actuação de Brutus, acusando a sua expedição da morte de 50 mil galegos que teriam ido socorrer os lusitanos em batalha.
Terá sido isso que justificou o cognome "Galaico", mas contradiz um pouco o término da sua expedição no Rio Minho, assinalado por Plínio. A província Galaica estava dividida em 3 conventos, e esta incursão terminava na parte Bracarense, faltariam os conventos Lucense (Lugo) e Asturicense (Astorga). É aqui que aqui o sufixo transmontano +Torga aparece ligado ao sudoeste cónio, na junção do noroeste em Astorga com o sudoeste em Conistorga.

O que nos despertou a atenção foi o registo do cerco, em que teriam sido apanhados desprevenidos, e a ausência de registo de baixas lusitanas... ou seja, este número elevado de mortes em batalha, pareceu-nos ajustado à descrição que levaria o nome à Serra de Ossa, conforme já aqui sugerimos. Orósio nomeia vários povos ibéricos, mas não fala de Cónios, por isso não é de excluir que passados vários séculos já estivesse sob influência de uma versão de esquecimento ou confusão (os Cónios poderiam passar por Galaicos, ou serem efectivamente o mesmo povo em localizações diferentes).
Há ainda um registo semelhante, passado um século, em 22 a.C. os povos Galaicos vão sofrer uma brutal derrota no Monte Medulio (serra de Arga), que levará a um suicídio colectivo, pois os habitantes preferiram morrer a ser tomados como escravos... a uma falha da Pax Julia, impunha-se a Pax Augusta.

Galicia
Talvez fosse altura de falar na confusão Galaica, ou Calaica... já que o nome (que parece alteração de Galo, ou Gaulês) se espalhou por várias partes. Por estranho que pareça, para além de outros locais, merece especial atenção o Reino da Galicia na actual zona da Ucrânia (ucranianos que tomaram a decisão acidental de recentemente rumarem até aos confins da Europa e falar português como se sempre tivesse sido a sua língua...)
Como ilustração colocamos o brasão desse Reino da Galicia na Ucrânia (e Polónia), e o brasão do Reino de Leão, de Astorga, das Astúrias:

  
É claro que o leão tornou-se um símbolo comum, mas para além das cores, que têm significado, as semelhanças são ao nível da identificação completa!

Quando Afonso VII decide proclamar-se imperador em 1135, juntando definitivamente o Reino de Leão com o de Castela, um problema complicado surge ao nível do "esquecimento"... provavelmente temeu-se que a conexão ancestral se fosse diluir no tempo com a junção! 
Por isso, a incursão de Afonso Henriques, indo direito ao coração alentejano de Ourique, em 1139, vai directamente aos registos antigos de Conistorga, e ao coração de Leão e Astorga. Não terá adoptado o símbolo, pois havia outras questões pessoais, e quando falámos em "táctica da cunha", não estávamos propriamente a pensar na "cunha" que dava nome aos Cónios... mas também não há propriamente outra razão para essa designação!

E que sentido faz novamente esta ligação ibérica a paragens junto ao Mar Negro? Ainda por cima, territórios interiores? Só faz sentido pela ligação entre o Mar Negro e o Oceano, através de um "rio", o Tanais, que depois foi sendo fechada por assoreamento, deixando povoações costeiras no interior da Europa! Nesta estória que vamos contando, os galaicos da ucranianos são também descendentes de uma civilização oceânica europeia, que foi sepultada no Lethes do esquecimento pelos romanos e pelo tempo.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Próxima estação, verão!

De acordo com Hesíodo, Perséfone filha de Démeter, teria sido raptada por Hades para o seu inferno e salva pela mãe. Porém, ao ter comido uma romã(*) oferecida por ele, houve um acordo de passar metade do tempo no submundo e outra metade fora das trevas.
Falamos hoje sobre as estações do ano... em dia de solstício e início de Verão!
Perséfone e a peneira (liknon) dos mistérios agícolas.

A alegoria de Perséfone, tal como a mãe Démeter ligada à agricultura, explicaria duas estações, uma mais fria (onde estaria com Hades), e outra mais quente. Esta diferença é marcada pelo rapto de Hades... ou seja, pode ter acontecido que antes não fosse assim. Quando? Como muitas outras coisas, a diferença é marcada pela transição entre a Idade do Bronze e do Ferro.

Porém, ainda assim, o clima na antiguidade tem que ser considerado moderado, e dificilmente podemos falar no clima que presenciamos hoje em dia. A razão mais simples para esta afirmação resulta das numerosas representações que nos chegaram. Usar uma simples toga parecia ser o mais comum, e os militares exibiam uniformes com as pernas descobertas... tudo indica um clima ameno, próprio de dias primaveris ou de verão! Exceptuando este registo de Perséfone, não conhecemos obras literárias, anteriores ao Séc. II, que falem do clima frio durante o inverno.


  
Augusto, Sétimo Severo, Justiniano
a mudança de trajo faz-se notar
repare-se especialmente nas pernas dos soldados de Justiniano.

Num dos poucos registos que encontrámos sobre o clima (o principal será Meteora de Aristóteles), citamos Plínio (Livro 2, Cap. 39):
For who can doubt that summer and winter, and the annual revolution of the seasons are caused by the motion of the stars? As therefore the nature of the sun is understood to influence the temperature of the year, so each of the other stars has its specific power, which produces its appropriate effects.
Plinio fala apenas de duas estações, e se associa a diferença de temperatura ao Sol, vai depois mais longe dizendo que os outros planetas também têm a sua quota parte! Explicita mesmo:
(...) this is particularly observable with respect to Saturn, which 
produces a great quantity of rain in its transits.

Para Plínio, um trânsito de Saturno provocaria chuva... esta afirmação só é compreensível se não fosse abundante no inverno.
O significado de "trânsito de Saturno" é desconhecido, já que astrologicamente é relativo aos signos (signos deve ler-se sinais) e astronomicamente só é aplicável a planetas interiores, na passagem pelo Sol... fenómeno difícil de observar.

O que pretendemos afirmar é que na transição para o final do Império Romano, e especialmente na Idade Média, o clima sofreu profundas alterações.
Mais concretamente, na antiguidade o Trópico de Cancer deveria estar situado não a 23º44', mas bem mais abaixo, provavelmente na zona dos 10º.
  
Inclinação de 23º44' da Terra face à sua órbita solar, e seu efeito nas estações do ano.

A diferença de inclinação poderia justificar não apenas a questão do clima, mas também a da orientação... ou seja, se não houvesse inclinação, o sol nasceria exactamente a Leste, e iria por-se a Oeste. Porém, o efeito da inclinação provoca uma mudança significativa, e dependendo da época do ano e da latitude, os erros podem justificar diferenças de 45º como aquelas que temos vindo a assinalar... isso seria tanto mais notório, quanto maior fosse a latitude. Não justifica erros para identificar o sul (seria sempre o meio-dia), mas poderia ser uma confusão para erros leste-oeste, dependendo até da nomenclatura.

Uma mudança deste género tornaria a vida complicada para os gauleses e outros povos do norte da Europa! Ou seja, a pressão climática pressionaria de forma desesperada a uma invasão de territórios situados mais a sul. Portanto, as invasões bárbaras do Império Romano podem ter resultado dessa mudança climática... progressivamente a situação afectaria as colheitas e tornar-se-ia insustentável para os Godos, que procuraram estabelecer-se a Sul. Quem permaneceu nessas latitudes ficou confrontado com uma vida de servidão medieval difícil... especialmente bem ilustrada no Livro de Horas do Duque de Berry:
Les Très Riches Heures du Duc de Berry (Fevereiro) 

De escravos em clima temperado sob égide do Império Romano, passavam a "homens livres" no novo estatuto de servidão medieval, sob condições climáticas agravadas. Assim, se antes os Romanos distinguiam essencialmente duas estações "Ver" e "Hiems", com Isidoro de Sevilha, no Séc. VII já vamos encontrar uma bizarra divisão dos meses, numa clara preocupação com as Estações... preocupação praticamente ausente na maioria dos geógrafos e escritores anteriores.
Uma curiosa rosa de meses, de Isidoro de Sevilla (Séc. VII)

É claro que a divisão em quatro estações era sempre conhecida - havendo periélio e afélio tem que haver dois equinócios. Os nomes Primavera e Verão são ambíguos face ao latino "Ver", procurando talvez invocar uma primeira "Ver" (Prima Ver), e uma "Ver" propriamente dita (Verão)... sendo que em latim Ver corresponde à Primavera e AEstas ao Verão (de onde vem o prefixo de estival).
Já mais interessante é a designação dada ao "Inverno"... se atendermos a que a usual confusão entre F e V leva directamente a "Inferno". Ao contrário de Outono que no latim é Autumnus, aqui não parece haver qualquer raiz latina, pois o termo Inverno é bastante diferente de Hiems.

O novo inverno medieval foi visto como um autêntico inferno...
Se isto parece estranho face à concepção que se foi enraizando de um inferno enquanto "profundezas escaldantes", devemos relembrar que essa concepção não é a do último círculo de Dante - no seu Nono Anel, onde está o próprio Lucifer, o mundo infernal é gelado. Essa seria a concepção medieval...

Há ainda uma outra questão complicada, esta inclinação de 23º da eclíptica (que define o plano orbital, e está na nossa esfera armilar) está injustificadamente bastante inclinada... e apesar de se pretender que há um outro efeito de rotação,  com período de 40 mil anos, estes valores dos astrofísicos actuais têm quase tanto significado como as previsões da evolução dos mercados... modelos de extrapolação básica e pretensiosa, que aliás vieram da mesma escola de física. É bastante mais natural supor que, dadas as forças de gravidade envolvidas, a inclinação do eixo não tem que ser fixa.

Haveria mais a dizer, notamos apenas que se a nomenclatura dos meses foi propagada quase literalmente na maioria das línguas europeias (tal como no caso dos dias da semana... a excepção católica é portuguesa), o mesmo não se passou no caso das estações onde há diferenças assinaláveis, exceptuando na designação do Outono.
No nosso caso, ficou-nos a oposição entre uma Primavera, primeira verdade, e um Inverno infernal... como lembrança etimológica.

Nota:
(*) Romã, em português é demasiado próximo de Roma para não ser notado. Especialmente se notarmos que em Espanha se denomina "granado", e esta raiz está presente em vários países. Lineu decidiu denominá-la punica granatum, juntando Cartago e Granada... dois reinos desaparecidos!
Pode ainda juntar-se a isto, o relato dos espiões de Moisés que lhe trouxeram este fruto como amostra da fertilidade da Terra Prometida... pois bem um fruto que junta Punica e Granada, e atendendo a Cartagena, é difícil ser mais concordante com a Estória que aqui coloquei sobre os Ebreus do Ebro...
O jardim e as suas frutas - laranjas portuguesas e romãs granadinas/andaluzes.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Sinais vermelhos

Quando há uns meses colocámos aqui um post com o título Traffic Signs, não estávamos exactamente a pensar no que Estrabo (passarei a usar esta variante do nome, mais apropriada) nos tinha para revelar (Livro 1):
All those who have sailed along the coasts of Libya, whether starting from the Arabian Gulf, or the Pillars, after proceeding a certain distance, have been obliged to turn back again on account of a variety of accidents;
Se tivesse sabido desta passagem de Estrabo, teria sido usada nesse cartoon de Março.
Mas podemos hoje acrescentar algo mais...
Estávamos concentrados na proibição em navegar para além dos Pilares (Estreito de Gibraltar), ao longo da costa de África, e faltou-nos o outro lado... que ele chama o Golfo Arábico, ou seja o Mar Vermelho.

Ao ler a transcrição somos imediatamente confrontados com alguns problemas que se colocaram aos tradutores... digamos que se viram gregos (língua do original, que desconheço largamente), e misturam termos recentes com termos antigos, nomeadamente sobre o Mar Eritreu (Erythraen Sea). A confusão será já própria de Estrabo, que invoca Eratóstenes sobre uma antiga passagem entre o Mar Vermelho e o Mediterrâneo, por inundação. Estrabo contesta a inundação argumentando que o nível do mar seria uniforme, pelo contacto entre todos os mares. Com o nível do mar elevado, podemos ver que essa ligação pode ter existido:
Médio-Oriente com o nível do mar elevado
(o Mar Morto seria mesmo um mar, ou baía, 
e a África ficava separada, como uma ilha)

Porém a verdadeira questão é outra... é que o Mar Eritreu também foi designação aplicada ao golfo que se situava no exterior das Colunas de Hércules, na altura em que a ilha Eriteia era situada a oeste dos Pilares, conforme já abordámos a propósito do Lago Tritonis.

Ou seja, havia um Mar Vermelho a Ocidente e outro a Oriente. Só para confusão?
Em parte sim, mas creio que havia outra questão que Estrabo torna clara:
- quem se arriscasse a navegar para além destes pontos, arriscava os mais diversos acidentes!
Acidentalmente, ou o acidental mente... porque os acidentes sistemáticos deixam de ser acidentes.
Se pensámos que o Acidental era Ocidental, Estrabo reporta que também se aplicava às navegações africanas pelo lado oriental.

Onde estavam os Sinais? 
- Um Sinai estava junto ao Mar Vermelho, próximo do Egipto...
- Creio que o outro Sinai estava do outro lado, na península que definia a zona de Tingis, a antiga Tanger, na Mauritania Tingitana.
Tratavam-se de Sinais Vermelhos... a proibição de navegar não poderia passar aqueles mares "vermelhos", em direcção a África.

Porquê?
Pela razão que Aristóteles invocava sobre Cartago... o medo de que os refractários se instalassem nos territórios paradisíacos. Se cidadãos instruídos formassem novas civilizações fora da alçada do controlo central, as colónias passariam a ser uma ameaça para os territórios originais. Dada a extensão africana... e americana, a proibição seria a primeira arma de controlo, caso contrário poderia formar-se um reino suficientemente poderoso que ameaçaria o poder instalado no Mediterrâneo, e os seus segredos sobre as terras virgens ficariam ameaçados. Esse problema teve que ser resolvido na Austrália, antes da sua descoberta oficial por Cook. Digamos que a América, os EUA, foram a primeira experiência autorizada para uma colónia independente dos velhos poderes europeus!

Aliás, se pensarmos bem, só uma política de ocultação justificaria a ausência de contactos reportados entre romanos, indianos ou chineses. Será ridículo pensar que a República Romana não sentiu curiosidade de enviar os seus navios pelo mundo fora, pelo menos na rota de Alexandre Magno... que já o teria feito! Há apenas o incidente relatado por Cornélio Nepote, de que já falámos, e processou-se no sentido inverso, com uma visita à Europa.


A partir daqui fica ainda mais claro que a passagem do Mar Vermelho ou Eritreu, tanto se poderia dar pelo lado oriental ou ocidental, indo no mesmo sentido daquilo que já dissemos sobre o Mar Eritreu e sobre os Ebreus do Ebro.


Aditamento (22/06/2011)
Esqueci-me de tornar explícita a relação com o texto sobre o Mar Vermelho apontado nos mapas do Séc. XVI de Ortelius, Ghisolfi e Agnese:
Os dois mares vermelhos, coloridos no mapa de Agnese, 1544.

O que estes autores pretenderiam colocar em evidência é que havia um novo Sinai Vermelho... a Califórnia! Esta península seria o novo Sinai, onde se colocava um novo Mar Vermelho - as navegações acima da Califórnia ficariam proibidas!
Não admira pois que essa seja o foco de concentração de muitos judeus, especialmente no Séc. XX, tratava-se de assinalar um novo Sinai... na Califórnia.

A estória será esta... Moisés abriu caminho pelo Mar Vermelho, passando o Mar Proibido, sujeitando-se aos Mandamentos divinos, e assim atingiu a Terra Prometida. Conseguiu uma libertação temporária para o seu povo, mas esqueceram o problema de libertação universal... Digamos que os magos de Nabucodonosor fizeram lembrar aos judeus essa universalidade com o preço do cativeiro. Quando Ciro acaba por restituir alguma liberdade aos judeus, volta a estar implementada a restrição universal dos Sinais vermelhos! O que é surpreendente, é que esta restrição é de tal forma poderosa que não podemos olhá-la em termos europeus... nenhuma nação asiática entrou em contacto directo com a Europa, durante milénios.

Primeiro o Infante D. Henrique, e depois Colombo acabam por ter assim papel fundamental na nova autorização de levantar o cobrimento, ou seja, a autorização de descobrimento, dos novos territórios... em certo sentido figurado poderia ser-lhes atribuído um papel messiânico, ao nível de Moisés.

Porém, fica claro que houve uma nova proibição no Séc. XVI, que é ilustrada neste mapa de Agnese, e que já identificámos várias vezes... a Austrália e o Noroeste Americano ficariam proibidos até Cook, que será na mesma linha o próximo a ter autorização para descobrir a parte restante.

Se colocamos demasiado o foco no papel da Hispânia, é porque ele se vai revelando, mas não ignoramos o detalhe da migração judaica para a zona da Etiópia, também aqui marcando a transposição do outro Mar Vermelho. O Obelisco de Psamético na praça de Montecitorio, de que falámos, usado como relógio de Sol por Augusto, é afinal o último marco de conquista egípcia nos territórios núbios a sul. Nesse sentido pode dizer-se que se a alguns judeus foi aberta a passagem para a Etiópia, aos Egípcios ela esteve sempre fechada.

Para quem seguiu ainda o outro blog alvorsilves, saberá que no último dia de 2009 decidimos marcar a passagem para 2010 no fuso californiano, e desde então usámos aqui a hora do Pacific Time.
A estória vai batendo certo, e se isso é algo surpreendente pela positiva, é mais surpreendente pela negativa revelando a dimensão do controlo. Talvez quando houver autorização para passar ao Planeta Vermelho, Marte, nos seja autorizado perceber toda a nossa História!
Até lá, o novo Sinai Vermelho parece ser o planeta nomeado pelo deus da guerra... quanto a Vénus, planeta da deusa do amor, que tanto passou por Lucifer, portador da luz a nascente, como por Hesper, sinal de esperança a poente, Vénus continua proibido a observações!

domingo, 19 de junho de 2011

Ibéria estrábica

O relato de Estrabão sobre a Ibéria dá quase para um mês de textos... tal como no caso de Roma e Pavia, não pretendemos fazer isto num dia!
Vamos por partes, e começamos com a questão da orientação, com a rotação de 45º que já tínhamos observado em Plínio (note-se que Estrabão é bastante anterior a Plínio, é contemporâneo de Augusto):

Iremos ver que a descrição de Estrabão (ou Estrabo, Strabo) também nos deixa estrábicos... o olho antigo aponta norte, enquanto o olho moderno aponta para noroeste. Os problemas de visão não começaram com os caolhos.

Sobre os Pirinéus é dito:
(...) particularly in the vicinity of the Pyrenees, which form the eastern side. 
This chain of mountains stretches without interruption from north to south
 and divides Keltica from Iberia.

O tradutor vê-se pois forçado a comentar: "The Pyrenees, on the contrary, range from east to west, with a slight inclination towards the north. This error gives occasion to several of the mistakes made by Strabo respecting the course of certain of the rivers in France."
Quando os relatos não coincidem com o que queremos ver, é fácil argumentar o erro alheio... o assunto fica arrumado, mesmo que estejam em causa logo dois da meia-dúzia de geógrafos, usados como referência na antiguidade. Será natural errar norte-sul com oeste-leste num geógrafo de referência? 

Com a rotação que fizemos no mapa em cima, percebemos do que fala Estrabão, e podemos ver as montanhas de norte a sul, dividindo a Céltica (Gália) da Ibéria...
Diz depois que a parte mais estreita está próxima dos Pirinéus, enquadrada pelos Golfos Céltico e Galático, que o tradutor associa (quanto a nós correctamente) ao Golfo da Gasconha/Biscaia e ao Golfo de Lyon. Só que Estrabão adianta...  
and they render the [Keltic] Isthmus narrower than that of Iberia.
... ou seja, haveria na Gália Céltica uma parte mais estreita do que os Pirinéus, o que também pode ser confirmado na figura que colocámos em cima! O tradutor vai buscar uma medição de precisão de Gosselin, mas a explicação é ainda mais simples neste caso... e tem um nome - Aquitânia.
Aquitânia significa literalmente "terra de água", o que ilustraria que os terrenos da Aquitânia contíguos aos Pirinéus estavam basicamente inundados, ou sujeitos a inundações... Por isso, a Aquitânia foi sendo formada progressivamente, e ainda hoje é possível ver que se trata de uma região quase ao nível do mar, não fora as diversas dunas. Estas dunas terão ajudado na consolidação da paisagem, e os campos inundados deram lugar à Aquitânia.
De forma semelhante, e seguindo a figura, podemos ver os montes alentejanos como o resultado de uma consolidação progressiva de dunas, em que a acção prolongada dos agentes biológicos transformou areia em terra. 

Estrabão define então o sul da Ibéria como a parte que vai dos Pirinéus às Colunas de Hércules, e portanto não se trata de um erro ocasional, já que isso é consistente com a figura em cima, rodada de 45º. Sobre a parte ocidental e norte é menos explícito que Plínio, mas diz que essa parte ocidental seria quase paralela aos Pirinéus, coisa só compreensível no mapa que colocamos em cima. Ao contrário de Plínio não coloca o fim da parte ocidental no Promontório Magno, mas sim no Nerium (que tal como Céltico, pretende ser outro nome para a Finisterra).

Sobre o Promontório Sacrum (Cabo S. Vicente) diz ser não apenas a parte mais ocidental da Europa, mas de toda a terra habitável... algo complicado de aceitar. Relativamente à Europa de hoje, esse ponto seria claramente o Promontório Magno (Cabo da Roca), mas se fizermos a rotação, a afirmação de Estrabão fica correcta, conforme se pode ver no mapa. O que é mesmo complicado de aceitar, e que o mapa está mais longe de explicar é a referência a "toda a terra habitável"... aliás o mapa piora essa concepção se retirarmos o "habitável", já que a África é muito mais ocidental. O tradutor faz referência a isso mesmo, dizendo que Estrabão não conheceria essa parte, porém é mais provável que o termo "habitável" esteja para ser levado a sério - as terras africanas após as Colunas de Hércules não eram habitáveis... não tanto por razões naturais, mas mais provavelmente por restrições "divinas"!
Ele refere que essas partes ocidentais são habitadas pelos iberos na Europa, e pelos "maurusianos" na Líbia (entendida como África, ou Norte de África)... ou seja, pelos "mauros" ou "mouros" da Mauritânia, entendida com a zona de Marrocos próximo de Tanger.

Sobre a região do Promontório Sacrum, diz chamar-se Cuneum por significar uma "cunha" (o tradutor aproveita por fazer referência aos Cónios já mencionados por Heródoto como Cunésios ou Cunetes), e diz que o promotório se projecta no mar como um barco, segundo relato de Artemidoro que dava conta de três pequenas ilhas que lhe davam essa forma, e que ao contrário do que afirmara Éforo não se encontrava aí nenhum templo de Hércules! 
Aquilo que parece poder-se concluir é que o Templo de Hércules existiu em Sagres, e terá sido destruído entre a visita de Éforo de Cime (séc. IV a.C.) e a de Artemidoro de Efeso (séc. II a.C.).

Ainda relativamente às orientações geográficas, ao falar sobre os rios, diz que o Tejo corre para oeste, e que o mesmo acontece inicialmente com o Guadiana, que depois vira a sul. Se estas designações são demasiado genéricas para percursos irregulares, que podem ter mudado, não permitem uma boa conclusão. O mesmo não se pode dizer do Ebro, que tem o seu vale bem definido e onde Estrabão é mais conclusivo - corre para Sul!
                                           The Ebro takes its source amongst the Cantabrians; it flows through an extended plain towards the south, running parallel with the Pyrenees.

Tal afirmação só se pode entender com a rotação que se evidencia no mapa que apresentamos.

Como dissemos, a descrição ibérica de Estrabão contém bastante matéria para explorar. 
Para já interessava consolidar mais um testemunho para uma diferente orientação da Terra no passado, de que começámos a falar a propósito do alinhamento piramidal.

Observação: Para quem conhece a medição de Eratóstenes da circunferência da Terra, poderá argumentar-se que ele teria seguido o Nilo de Alexandria até Assuão(!), estava a percorrer o meridiano, colocando o Nilo na orientação sul-norte e não sudoeste-nordeste... Porém, o nome que constava era Syene e não Assuão, logo a identificação de cidades é posterior, aliás sendo Eratóstenes originário de Cyrene, seria mais fácil a deturpação do nome de Cyrene em Syene. A medição não tinha que ocorrer em locais à mesma longitude, até porque esse cálculo de longitude poderia ser feito pela observação de eclipses... era bastante mais importante ter uma medida correcta da distância entre cidades.

sábado, 18 de junho de 2011

Caucasianos Ibéricos

Recuperamos um mapa do Cáucaso aqui colocado há uns meses:

Quando o fizemos, referimos o relato de António Galvão sobre a vinda de Túbal, neto de Noé, do Cáucaso para a península Ibérica, onde constaria ter fundado Setúbal. Essa descrição tem alguma consistência pela primeira habitação da zona do Monte Ararat após o dilúvio, e constituição de Saga Albina, a primeira cidade.
Muito provavelmente essa Saga Albina, seria na Albania... do Cáucaso, junto ao Mar Cáspio.
Falámos então da confusão entre a Iberia e Albania enquanto províncias caucasianas, que foram ao mesmo tempo localizadas como regiões europeias, muito maiores, pelos gregos. Em particular, a Iberia tanto pode referir-se à caucasiana como à hispânica.
Faltará Colchis, transcrita Cólquida... mas que na transcrição também se lê colchis, como colcha. Talvez colcha venha do francês antigo, por via de culche, mas os franceses não usam a palavra, nem têm a tradição de muitas gerações, como temos em Arraiolos. É apenas um detalhe...

Já mencionámos várias vezes que um nível do mar superior alteraria profundamente a geografia... mas vejamos como, citando Estrabão (Strabo, Geography):
As we pass from Europe to Asia in our geography, the northern division is the first of the two divisions to which we come; and therefore we must begin with this. Of this division the first portion is that in the region of the Tanaïs River, which I have taken as the boundary between Europe and Asia. This portion forms, in a way, a peninsula, for it is surrounded on the west by the Tanaïs River and Lake Maeotis as far as the Bosporus and that part of the coast of the Euxine Sea which terminates at Colchis; and then on the north by the Ocean as far as the mouth of the Caspian Sea; and then on the east by this same sea as far as the boundary between Albania and Armenia, where empty the rivers Cyrus and Araxes, the Araxes flowing through Armenia and the Cyrus through Iberia and Albania; and lastly, on the south by the tract of country which extends from the outlet of the Cyrus River to Colchis, which is about three thousand stadia from sea to sea, across the territory of the Albanians and the Iberians, and therefore is described as an isthmus. But those writers who have reduced the width of the isthmus as much as Cleitarchus has, who says that it is subject to inundation from either sea, should not be considered even worthy of mention. Poseidonius states that the isthmus is fifteen hundred stadia across, as wide as the isthmus from Pelusium to the Red Sea. "And in my opinion," he says, "the isthmus from Lake Maeotis to the Ocean does not differ much therefrom."
A citação é grande, porque tem várias informações.
A divisão entre a Ásia e a Europa era considerada compreendendo uma península... e isso só pode ser compreendido através daquilo que seria o Rio Tanais, hoje identificado ao Rio Don. Se entendermos que o mundo manteve sempre o mesmo aspecto nos últimos milhares de anos, e que as diferenças só ocorreram em termos de milhões de anos, o relato dos geógrafos antigos será sempre fantasioso.
Recuperamos um mapa anterior, a propósito da viagem de Jasão

Este mapa é apenas ilustrativo de um nível marítimo superior. Porém, desta forma haveria uma eventual ligação entre o Mar Negro e o Oceano Setentrional, feito através de uma estreita passagem... que seria então denominada Rio Tanais. O progressivo assoreamento fez desaparecer essa passagem, haverá talvez alguma associação entre registos arqueológicos interiores e o curso dessa passagem.
Por outro lado, a célebre Lagoa Meotis tanto se poderia referir inicialmente ao grande lago interno que deveria estar localizado nas planícies húngaras, como poderia depois ser identificado a um grande lago próximo do Mar de Azov (com que é hoje identificado), formado pelo assoreamento e descida das águas.

Estes detalhes são secundários, face à informação suplementar:
- o território dos Albaneses e Iberos era descrito como um istmo!
Este istmo tinha de um lado o Mar Negro e do outro o Mar Cáspio... como o Mar Negro fechou primeiro do que o Cáspio, isto terá parecido estranho.
Aliás Estrabão já duvidava das descrições do tempo de Cleitarco (séc. IV a.C) que falavam de inundações que colocavam os mares Negro e Cáspio em contacto, e porém já vimos que isso seria possível, em tempos anteriores aos romanos, pela subida de águas.

Por outro lado, encontra-se como origem do nome Mar Negro uma profunda mudança nas suas características... ou seja, de um mar vai passar quase a um lago, e esse "negro" foi associado a uma quebra de movimento das suas águas, que passaram a ser entendidas pelos moradores como quase mortas. Dito de outra forma, o fim do rio Tanais terá fechado o Mar Negro a norte, definitivamente...

A semelhança de situações começa a acentuar-se, para além dos nomes serem idênticos no que diz respeito à Iberia hispânica e à Iberia caucasiana, há um novo detalhe, o território era visto como uma península, em que o Cáucaso faria o papel de istmo, como os Pirinéus.

Até que ponto é possível levar mais longe esta confusão toponímica?
Estrabão também se interroga, conforme se transcreve: "unless they call them Iberians, by the same name as the western Iberians, from the gold mines in both countries".
Poderia ter resultado de um mimetismo de designações, conforme sugere a tradição, pela migração de Túbal da região do Cáucaso para a Ibéria, mas também pode ter sido um propositado baralhar de designações, de forma a ocultar o local de origem. Acrescente-se a menção a Cleitarco de Eretria, sendo que o nome Eritheia já foi aqui ligado à mítica ilha na costa ibérica, e confunde-se com a cidade na ilha grega, ao mesmo tempo que também foi decidido colocar na mesma ilha grega uma cidade Calchis ou Cálquida.
Seria como definir que todas as referências a Óbidos e Santarém portuguesas passassem para a bacia do Amazonas. As colonizações têm destes processos mímicos, e isso justifica que qualquer conjectura seja risível, já que haverá semelhanças toponímicas que se explicam inventando uma história noutras paragens, e consolidando essa história com uma academia hierarquicamente colaborante.

Já que Possidónio é citado por Estrabão na afirmação sobre o istmo caucasiano, podemos ser estoicamente possidónios, e avançar numa outra semelhança... entre montes Arménios e montes Hermínios. Curiosamente já falámos aqui de Armínio, também dito Ermínio (e depois Hermann), um líder teutónico romanizado, que depois venceu os Romanos. Não será problema ligar Armínio a Ermínio, já que no processo de alteração tem que ir parar a Hermann, mas já será problema ligar Arménia a Hermínia. No entanto, dadas as diversas semelhanças apontadas, nada impede uma eventual derivação dos montes Hermínios a partir dos Arménios (ou vice-versa).

As teorias étnicas e linguísticas do Séc. XIX foram parar a uma conclusão de uma raiz ancestral, caucasiana, situada nessa península entre os mares Negro e Cáspio. Porém, há outros enquadramentos recentes, com base no DNA, que mostram uma distribuição de um haplogrupo R1b que colocará um foco populacional justamente na zona ibérica, ocidental.
Distribuição do haplogrupo R1b           (Nova imagem em 2013)

Parece haver alguma unanimidade na raiz cultural e genética na zona da Ibéria, resta saber se é a Iberia do Cáucaso, ou a Iberia da Hispânia...

Há ainda uma outra informação de Estrabão que torna as coisas complicadas:
The Greeks would permit none of them to lay hold of the seaboard, but were not strong enough to keep them altogether away from the interior; indeed, to this day the Siceli, the Sicani, the Morgetes, and certain others have continued to live in the island, among whom there used to be Iberians, who, according to Ephorus, were said to be the first barbarian settlers of Sicily.
 ... ou seja, os primeiros povoadores da Sicília teriam sido ibéricos. Julgo que aqui não haverá dúvida sobre qual Iberia estamos a falar - basta aliás notar a semelhança cultural que ainda se manifesta no povoamento das diversas ilhas mediterrânicas... autênticos últimos redutos de tradições passadas.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Companhias nas Indias

Num mapa da América do Sul no Atlas Universal de João Teixeira Albernaz, de 1643, podemos ler na região da Patagónia "Terra de Gigantes". 
América do Sul no Atlas Universal, 1643,
de João Teixeira Albernaz (Torre do Tombo)

Fomos encontrar estes mapas com alta definição um ano depois de ter aqui colocado um mapa de menor definição, do mesmo autor, curiosamente ilustrado com um "Santo António e o menino".
Não há propriamente grande novidade neste mapa, à primeira vista, mas nota-se perfeitamente que havia uma barreira entre as cidades coloniais espanholas, seja do Chile ou de Tucuman, que não passavam o paralelo do Rio da Prata. Aliás o foco era colocado na exploração da prata, ilustrada no mapa pelo relevo dado à cidade de Potossi.

Nenhuma cidade estava estabelecida na chamada Terra de Gigantes ou Patagónia... e assim permaneceu até ao Séc XIX. Pode sempre invocar-se o clima mais frio, mas para europeus, estamos ainda em zonas temperadas, em latitudes europeias. Só mesmo a ponta sul na Terra do Fogo exibiria um clima próximo da Escandinávia, e ainda assim habitável.

Não insistimos no tema de gigantes, que já abordámos aqui e várias vezes.
O assunto mais relevante é um Privilégio dado à Companhia das Indias Holandesa em 1621. Colocámos aqui as duas primeiras páginas que encontrámos nos Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (1908, Vol.30). 

É especialmente instrutivo ler-se sobre a absoluta proibição de navegação, a menos de consentimento expresso da Companhia, e ainda que esta restrição praticamente cobrisse todo o globo terrestre, há alguns locais que são mencionados em particular: o Cabo da Boa Esperança, a Terra Nova, os Estreitos de Magalhães e Le Maire até ao Estreito de Anian, bem como "as Terras Austrais (...) que atingem a Leste o Cabo da Boa Esperança e a Oeste a extremidade oriental da Nova Guiné, inclusivé". 
Esta última descrição corresponde a uma efectiva proibição da navegação à Austrália.
A Companhia das Índias queria restringir o contacto com "más" companhias índias... (*)

Se dúvidas ainda houvesse, neste documento oficial de 1621 fica claro que as terras estavam identificadas e a navegação era proibida. Neste caso era proibida pela Companhia das Índias da Holanda, mas o texto revela um poder quase universal, talvez pretencioso, mas também talvez efectivo e que se manifestava num possível acordo com as outras Companhias das Índias, ou no decurso favorável da Guerra dos Trinta Anos. 
Na prática estava estabelecido um código de comércio europeu global. As histórias de descobertas que ouvimos depois disto são meras fantasias de estórias de encantar, com heróis seleccionados.

Em concreto, o Estreito de Anian (no texto escrito "Anjan"), que tantas vezes aparecia nos mapas, e que já aqui falámos várias vezes, é neste documento identificado oficialmente.
Não pode ninguém invocar agora fantasia ou incerteza dos cartógrafos. A descoberta do mesmo estreito por Bering foi apenas uma mera formalidade, talvez honrando uma colaboração entre dinamarqueses e russos na aniquilação do Império Tártaro Siberiano e Anian do Alasca.

Também João Teixeira Albernaz coloca o Estreito de Anian, entre a Tartária Oriental e o reino de Anian (a parte noroeste da América Setentrional), ao mesmo tempo que identifica algumas ilhas acima do Japão, descobertas por D. João da Gama.
Estreito de Anian, no Atlas de João Teixeira Albernaz de 1643

Podemos ainda ver neste mapa, a sequência Cabo de Fortuna, Costa de los Tucayos, Cabo Bravo, V. Honda, Costa de Arboredos, V. baixo, V. de montanhas, etc... uma sequência de nomes em que os dois últimos estão rasurados, e quanto a Honda é um nome que o Japão fez questão de recuperar pela sua indústria automóvel.

Tudo se passava num cenário que foi completamente ocultado, sendo revelados e admitidas algumas chacinas, algumas guerras, em que os heróis e vilões eram seleccionadamente escolhidos para a glória ou repúdio.
Podemos encontrar ainda na mesma Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro uma relação de consultas do Conselho da Fazenda relativa ao Ano de 1634, onde se lêem alguns aspectos caricatos das nossas explorações. Seleccionamos a vermelho um pedido pagamento de Pedro de Ieter, de um soldo de 648 escudos... relativo à descoberta do Estreito de Le Maire (dito Mayre) por ordem do Marquês de Alenquer:

O Estreito de Le Maire, aqui dito Mayre, é um nome inventado pelo próprio holandês Le Maire, em 1616, com a incumbência oficial de provar que a Terra do Fogo não era um continente... A situação é especialmente caricata porque seria já suposto que Drake tivesse ido pelo Cabo Horn, de onde viria o nome Passagem de Drake... porém depois considerou-se que Drake seguiu o caminho de Magalhães, e afinal uma tormenta é que o mandou para trás... nunca falta imaginação tormentosa!

Sobre Pedro de Ieter não encontrei nada... poderá ter seguido na expedição de Garcia de Nodal, que partiu de Lisboa em 1619, então sob regência do Marquês de Alenquer, Diego de Silva y Mendonza, vice-rei de Filipe III. É este vice-rei o filho dos notáveis Príncipes de Eboli, Ruy Gomes da Silva e Ana Mendonza de La Cerda, de que já falámos, sendo neste período que se sentiu uma maior autonomia portuguesa sob domínio filipino.
Esta expedição espanhola em resposta à holandesa de Le Maire, torna claro como as descobertas eram respostas políticas, muito mais do que empreendimentos de navegação. Pela parte espanhola, foram descobertos territórios sul até às ilhas de Diego Ramirez, mas não se ousou declarar mais do que isso... o "novo estreito de Mayre" incumbido a Pedro Ieter ficou por se saber. A Espanha iria perder a Guerra dos Trinta Anos, e a sua capacidade de reclamar territórios ficaria definitivamente comprometida em Vestfália, 1648 (**).

Quanto aos territórios antárticos, apesar de quase contíguos a toda essa região, ficaram guardados até ao final do Século XIX, princípio do XX. Talvez se aceite isto de forma leve sabendo que os espanhóis não gostam muito de frio... se existiu algum monumento na Antártida, colocado por espanhóis ou portugueses, ele foi certamente destruído para sempre - por algum acidente natural, é claro!

Notas:
(*) Até que ponto o nome Companhia da Índias se relacionaria pela necessária "companhia" nos navios... digamos um autêntico serviço de acompanhantes, destinado a não desencaminhar os navios do seu rumo. Fora desse "escorting service", só funcionariam mesmo os navios piratas...  


(**) O texto escrito em 1621 fala no prazo de 24 anos... revelando um plano de longo curso, que se materializaria em 1645. Isto tem características de "protocolo do Sião" no sentido em que antevê alguns desenvolvimentos que irão materializar o domínio holandês. Vestfália é assinada em 1648 e o erro seria apenas de 3 anos, caso fosse a previsão para a vitória na Guerra dos Trinta Anos. Ao mesmo tempo, 1645 é o ano em que as forças parlamentares de Cromwell ganham um controlo total de Inglaterra, levando o rei Carlos I a fugir para a Escócia, sendo depois executado em 1649. É ainda dentro desse prazo de 24 anos, em 1640, que Portugal se liberta do jugo espanhol... é aqui difícil perceber se a coordenação das rebeliões ibéricas foi um facto lateral ou se efectivamente vinha do objectivo de enfraquecer a unidade espanhola.
Para além do apoio surgido nas guerras da restauração, há um facto que relaciona a Restauração portuguesa e o lado vencedor da Guerra do Trinta Anos... essa guerra começou com um episódio da defenestração de Praga. Haverá sempre um certo desejo de alguma assinatura, que passará por moda da época!