segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Pacífico (31/12/2009)

Sexto e último texto da série "Tese de Alvor-Silves", sim, porque o sétimo seria propositadamente uma "folha branca". Na realidade creio que escolhi o número sete pelo seu simbolismo, e pensava escrever sete textos, mas... as coisas acabaram por correr noutro sentido, até porque pretendia fechar o assunto em 2009. Após três meses intensos, resumidos em duas semanas de escrita, não pensava despender mais tempo no assunto... mais um erro, o problema tornara-se mais complicado do que suspeitara, e fez questão de me atormentar bastante mais tempo. E o principal problema não tinha a ver propriamente com as questões históricas, mas sim em reencontrar alguma racionalidade na estrutura filosófica global. Ora, isso não era tarefa para três meses, e para esclarecer tudo o que me interessava, de fio a pavio, acabei por demorar bastante mais tempo, até porque se adicionaram incómodos e surpresas, de uma ordem que classificaria como imaginária. 
No entanto, a receita é sempre a mesma... quando a fachada abana, têm que se inspeccionar as fundações, mesmo as mais profundas, as raízes que fundam o nosso pensamento. No meio de tanto caos, parecia complicado encontrar alguma ordem, mas estas coisas são ao mesmo tempo necessariamente complicadas, e necessariamente simples. A simplicidade resume-se a aceitar que aquilo que vemos como caos tem uma ordem, não é um acaso... mas isso não basta, porque as coisas são complicadas e não é "por acaso". 
O que acho mais curioso, é que para refazer a minha interpretação de uma racionalidade global, fui impelido a escrever parte disso aqui, ou seja a escrevê-lo para terceiros. Por isso não "é por acaso" que o leitor aqui encontrará assuntos filosóficos que à partida pouco ou nada se enquadram em assuntos ou polémicas históricas... mesmo assim, procurei remeter uma boa parte para o blog odemaia.

Quanto ao texto em questão, também acabei por suprimi-lo pouco depois... sobretudo opinativo, tinha pouca matéria objectiva. Não iria obviamente falhar a passagem de ano, e por isso foi acabado em horas tardias, às 8h00 da manhã do dia 1 de Janeiro, o que se tornou adequado ao título. Foi acabado em Pacific Time, com 8 horas de diferença da Califórnia, do outro Mar Vermelho... horário que ainda mantenho no blog.

Ficaria a faltar colocar aqui os dois primeiros textos. Foi relendo agora o segundo, sobre os Painéis de S. Vicente, que reparei que me tinha esquecido de colocar aqui os restantes, conforme afirmara, a propósito da supressão do Knol. Faltaria assim, o primeiro de todos, que esteve também suprimido, e apesar de ter aproveitado parte da matéria mais substantiva no post Peça-a-Peça (evitando a conjectura sobre as Molucas, sendo que nesta altura não sabia que eram literalmente Malucas, só depois passaram a Molucas), fica aqui também incluído. 

Seguem-se assim os dois textos, o último e o primeiro...

Adamastor (26/12/2009)

Quinto texto da série "Tese de Alvor-Silves", publicado em 26/12/2009. Aqui, nalguns pontos, a interpretação "artística" vogou na corrente, e sobrepôs-se à necessária objectividade. Passados alguns dias, vendo isso, decidi concatenar a parte factual dos mapas (deste, e do texto anterior), suprimindo o restante. Por isso, o texto que aqui recoloco deve ser visto mais como uma obra de ficção com base nalguma documentação objectiva, por mais sentido que possa fazer.

Entretanto já percebera que o sistema estava completamente minado, não apenas pelas instituições formais, mas até nas informais. Por isso, a abordagem mais informal, mais polémica, acabou por ser menos eficaz do que tinha previsto. Antes, fruto de educação e informação distorcida, pensara erradamente que o sistema poderia reagir bottom-up, mas as mudanças conhecidas, mesmo aparentando a forma revolucionária, tiveram quase sempre uma génese top-down

A partir daí, tudo ficou mais fácil... não me tinha dado conta de que não precisava fazer quase nada, de que tudo se desenrolaria naturalmente, como uma evidência submersa que pela sua leveza terá forçosamente que emergir.

Segue-se o texto:



domingo, 30 de dezembro de 2012

Encoberto (22/12/2009)

Depois do "Colombo", coloco aqui o quarto texto da série "Tese de Alvor-Silves", sob o título "Encoberto", conforme foi escrito há três anos. Creio que esta foi a primeira versão lançada em 22/12/2009, mas depois fiz algumas alterações e acabei por concatená-lo com o texto seguinte (denominado "Adamastor"), para suprimir as muitas opinações fruto do estilo que ia assumindo. Com a supressão do Knol, muitas das imagens já nem tinham ligação, e tive que recuperá-las em ficheiros gravados. Ao procurar nos ficheiros antigos, fui recuperando muitas coisas que escrevi e que deixei para trás. A mais interessante é a do mapa de Jorge Aguiar, que vou aqui colocar em breve.

Neste texto há dois detalhes sem grande importância, mas que quero referir, pois envolvem o programa de José Hermano Saraiva, que ainda passava na RTP-2. Foi nesta altura que o vi colocar a interrogação sobre a ideia do Infante D. Henrique no desembarque em Ceuta para um ataque terrestre a Tanger. Essa lenta progressão terrestre tinha sido a principal causa do desastre militar, que veio a sacrificar o Infante D. Fernando, que era quem comandava o ataque naval e não estava em perigo...
- Nessa altura estava bastante convencido (como é visível) de uma oposição política sobre a direcção das descobertas... de um lado o Ocidente oferecia-se a uma colonização, aparentemente mais pacífica, e pelo lado Oriental esperavam-se sangrentas batalhas, para a reconquista de Jerusalém (projecto antigo dos Templários, herdado na Ordem de Cristo). Este ideal da reconquista de Jerusalém prosseguia da Idade Média, passados vários séculos sobre a recuperação liderada por Saladino. Feito o Índico um mar cristão, abriria uma frente de ataque - pela rectaguarda, para entrada pelo Mar Vermelho e reconquista da Terra Santa. Tal plano seria seguido por D. Manuel, e executado admiravelmente por Afonso de Albuquerque, até à sua deposição. Nesta hipótese, a linha de acção da Casa de Viseu, iniciada pelo Infante D. Henrique, concretizada por D. Manuel, seria essa - a da cruzada templária a oriente. Por outro lado, a linha da Casa de Coimbra, iniciada pelo Infante D. Pedro, seria (por hipótese aqui colocada) a oposta... seria a de uma expansão colonial e comercial a Ocidente. A Casa de Coimbra tem o seu principal protagonista em D. João II, e a prova objectiva do seu interesse a Ocidente será o Brasil marcado em Tordesilhas. Preterido D. Jorge a D. Manuel na sucessão de D. João II, a sua Casa de Coimbra vê-se forçada a mudar de nome para Aveiro, e os partidários desse projecto de D. João II, ao governarem a Índia, vão esquecendo o objectivo de cruzada. Finalmente, a Casa de Bragança aparecia na sombra, tal como em Alfarrobeira, claramente opositora de Coimbra, representaria essencialmente a oposição a qualquer iniciativa, manobrando nos bastidores da corte. Acabará tanto por convidar a entrada de Filipe II como ser catapultada para o derrube de Filipe IV.
A ideia de que o Infante D. Henrique estaria mais motivado pela cruzada, do que pelas descobertas, ficou mais consolidada naquele programa, pela questão levantada por José Hermano Saraiva.
- O outro detalhe, ocorreu poucas semanas depois. Tendo mencionado o antigo relógio nas Caldas da Rainha, vi outro programa de José Hermano Saraiva que invocava um ainda mais antigo relógio de Serpa, e apesar deste estar datado de 1440, creio que ele o dava como mais antigo. Apresentava ainda, como curiosidade do Museu de Serpa, um relógio de navegação que, ao seu estilo, avisava ser francês... como se avisasse que tal prodígio não era suposto constar das nossas navegações.

Por outro lado, relendo o texto, devo avisar que a minha suspeita da utilização de um sistema de coordenadas local, zenital, baseado nas direcções que partiam das rosas-dos-ventos, e outros centros, se revelou à época menos promissora do que aparentava... verdade seja dita que também não tive vontade de inspeccionar mais. Ou seja, na altura, pareceu-me estranho que se desenhassem cartas mais imprecisas nos anos seguintes às descobertas, para além de muitas marcações, que estavam claramente erradas. Poderia ser só para despiste, mas tal como virando o Reinel se descobre em África um contorno Mexicano, pareceu-me ser natural que os mapas tivessem outros segredos. A pista de Pedro Nunes seria fundada no modo mais prático de navegação, ou seja seguindo as direcções locais que convinham aos "mareantes" pela sua posição. Poderia ser que escondessem num contorno impreciso do continente europeu, um contorno preciso de outras paragens... Mas a inspecção disso não é fácil, porque não é possível saber o que pretendiam representar, nem há mapas suficientes para o confirmar.
Já coloquei aqui a análise da Carta do Atlântico Norte para dar uma ideia do tipo de coisas que se podem procurar, mas terá pouco valor objectivo... a menos que seja para rebater interpretações mais mirabolantes feitas com outros mapas, nomeadamente o de Piri Reis.

O globo de João de Lisboa (que nos serve aqui de logotipo) é um claro exemplo de uso de coordenadas polares - com um só pólo, o pólo norte:
e já aqui fiz a conversão para aparecer como um planisfério típico:
Para que se perceba o trabalho envolvido nestas coisas, tive que assinalar manualmente cada pontinho na carta, para depois programar automaticamente a conversão que se vê.

Se aceitarmos que se trata de um mapa de 1514 e não uma adição feita até 1560 ao seu Tratado (cf. Cortesão), e já apresentámos várias provas, dará uma ideia parcial do que se sabia 5 anos antes da circum-navegação de Magalhães.

Depois, é claro, estas coisas são esquecidas, e como sabemos que não temos capacidade para coisas complicadas, aparece, passados 134 anos, em 1648, um francês de nome Louis de Mayerene Turquet, com a mesma representação centrada no pólo norte, reclamando a sua autoria:
La Nouvelle maniere de representer le Globe terrestre
... inventée par Louis de Mayerene Turquet 
(1648)

Repare-se que muito provavelmente Turquet não sabia da existência do mapa de João de Lisboa, tal como hoje a maioria dos estudos em cartografia que vemos parecem ignorar olimpicamente a maioria dos mapas constantes na Portugallia Monumenta Cartographica, lançada há mais de 50 anos... enfim, também parece que está esgotada.

Segue o texto, que me recorda o também o dia em que o contador do Knol "decidiu parar", e a que se devem dar os devidos descontos de entusiasmo, de quem tinha acabado de cair "na real":



sábado, 29 de dezembro de 2012

Colombo (17/12/2009)

Não me interessa especialmente a pessoa de Colombo, interessa-me mais a personagem. Por isso, é para mim razoavelmente secundário saber onde nasceu, ou a sua filiação biológica. 
"Personagem" hoje tem significado diferente de "pessoa", mas ambas derivam de "persona", que deve decompor-se em "per-sona", no sentido "per"-através, e "sona"-soa... ou seja, que o som vem através de si. É hoje algo estranho associar uma pessoa apenas como veículo de emissão de som, é mais apropriado à figura auxiliar de uma personagem, de um actor.
Uma personagem pode ser interpretada por vários actores, várias pessoas.
Na minha opinião Colombo foi personagem, pouco escreveu no guião que o viria a tornar famoso. A personagem poderia ter tido outro actor, e a as particularidades da pessoa de Colombo têm só interesse para compreender por que razão se tornou "o escolhido".

Recupero aqui o texto com o título "Colombo", que publiquei no Knol em 17 de Dezembro de 2009, e que entretanto desapareceu, devido ao cancelamento do projecto Knol da Google. Aliás, já antes o tinha cancelado, e por isso, a reclusão deste texto foi mais resultado de auto-censura induzida à época.
Ora, apesar de poder justificar as razões que levaram à reclusão de alguns textos, acabo por notar que fazem falta... Fazem falta porque permitem comparar uma opinião "mais entusiasmada" à época, com a distância que o tempo deixou correr. Para além disso, fazem parte da história deste blog, e seria algo contraditório criticar a supressão histórica e fazer o mesmo aqui...
Nem é que tenha mudado de opinião, pelo contrário, relendo os textos até me surpreende nem ter mudado quase nada, simplesmente hoje não exporia assim, para não me expor...
A falta de sentido na vida de muitos, leva-os a procurar retirar sentido à dos outros. Isso é uma característica tipificada na vida de algumas alimárias, que se resume a uma competição territorial, alimentada pela sua biologia. Quando o indivíduo se julga o campeão da carica, ou similar, é a sua biologia competitiva a falar mais alto. Qual o sentido dessa biologia competitiva? - Não é a preservação do indivíduo, porque esse é condenado à morte pela própria biologia celular (nem as bactérias são imortais). Será o apuramento da espécie? - Até que ponto, até que só restasse uma? - Para quê? - Será que se pensa que o universo é uma entidade masoquista que vai criar uma espécie que o dominaria (como se tal fosse possível...), ou será que se pensa que é uma entidade sádica que visa aniquilar as espécies menos aptas? Já sei que nem se pensa uma coisa, nem outra, agora é moda pensar que é tudo fruto do "acaso". O "acaso", tal como Deus, é tido como uma entidade supra-universal, condicionaria o universo, mas não faz parte dele, contrariando a própria definição de universo - que engloba tudo. Não sei se a epistemologia moderna se esqueceu deste "detalhe" de contradição lógica, ou quer fazê-lo passar por esquecido, mas tem feito Escola, e que Escola!
O que me parece evidente é que a humanidade se entretém em criar objectivos num universo artificial, construído por si própria, a que chama "sociedade", e que sob o ponto de vista da competição genética, terá tanto sentido quanto as cortes sexuais feitas pelos pavões - sem dúvida que há muito pavonear digno de admiração.

Bom, como isto já parecerá pavonear filosófico, segue o texto:



terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Sirenes

Na 2ª Parte da Monarquia Lusitana, Frei Bernardo de Brito vai arriscar um tema controverso:
- "Homens Marinhos", que é como quem diz no feminino "sereias" ou "sirenes"...
Brito sabe que o tema é controverso, e diz (pág 7, livro 5):
Nem pareça isto coisa impossível aos leitores escrupulosos de coisas pouco vulgares, porque no mesmo tempo, mandaram os Franceses outra embaixada ao Imperador Tibério, sobre um número grande destes monstros, que o mesmo mar lançara mortos na praia, e afirma Plínio (...)
Brito já antes tinha citado Plínio para falar numa "mulher marinha" que o mar lançara na costa de Lisboa, "cujos gritos ou uivos, ao tempo que morria, ouviram os moradores da terra a grande distância". Talvez faltasse a Brito o termo "sirene" que para além de designar "sereia", foi depois (no Séc. XIX) usado para designar um som característico de alarme. Mas, de entre os inúmeros exemplos que Brito cita, é também frequente serem mudos - "Meyer Baliollano, nos Anais da Flandres, conta que em 1403 foi tomada e trazida à cidade de Harlem uma mulher marítima muda, mas perfeita e proporcionada nas demais partes, a qual viveu muitos anos(...)".

A sereia, da Copenhaga de Hans Christian Andersen.

A questão habitual com que nos defrontamos ao ler textos antigos é misturar-se uma sequência de relatos perfeitamente concordantes com a história oficial - Brito está a relatar a época de Tibério - com relatos inverosímeis - Brito relata uma embaixada Lusitana a Roma por causa de um "homem-marinho" [cf. Nota 1].
Como Brito sabe que o assunto seria risível, avança com uma dezena de exemplos documentados (Plínio, Damião de Goes, Nicephoro Calisto, Mariano, Meyer Baliollano, Guiciardino, Luis Veues, Alberto Magno, Pineda, Cornelio de Amsterdam, Pyerio Valeriano e o Conde D. Pedro).

Não se pode acusar Bernardo de Brito de falta de citações e documentação. A História actual usa os mesmos métodos. A sua diferença face a qualquer autor moderno é que hoje há uma auto-censura educacional, que leva a omitir assuntos, sob pena de ser alvo de chacota, por não ser "sério".  
É isso que fará a Escola que faz Escola a partir de Alexandre Herculano. Corta todas as fontes antigas que contrariem o "politicamente incorrecto", que invoquem o "fabuloso". É uma forma diferente de censura, é mais poderosa, benigna e eficaz - aparece sob a forma de auto-censura para evitar a exposição ao ridículo. Um pensador que estiver certo de uma teoria contra-corrente sofre hoje uma censura tão poderosa quanto a que sofreu Galileu. Galileu não conseguiu convencer os outros, hoje ao fim de algum tempo o pensador é levado a desconfiar da sua sanidade. Galileu viu os seus livros banidos, o tal pensador nem conseguiria publicar um livro sério.

Em condições normais, rir-me-ia desta crença em "homens-marinhos", explicitada por Bernardo Brito. Porém, as condições estão longe de ser normais... houve uma ocultação demasiado grande de demasiados assuntos. Há razões objectivas de desconfiar - não apenas das afirmações de Brito, mas também da sua negação, pelos opositores naturais.
Resta-nos o bom senso, que vamos acumulando pela experiência... e sob esse aspecto, não tenho nenhuma informação que me permita eliminar definitivamente a hipótese de "homens-marinhos", e ainda que considere implausível, não a vou rejeitar a priori essa possibilidade.

Acabando de falar de sereias, no correr do texto sobre o tempo de Tibério, Brito vai abordar logo de seguida a morte de Jesus Cristo. Mais uma vez parece-nos estranho, politicamente incorrecto, mas Brito parece cingir-se à cronologia - ambos os factos teriam ocorrido na mesma governação.
Sob esse assunto, Bernardo Brito não será menos polémico, mas a fácil censura encontrará aí a oposição da  fé católica, a quem não interessam sereias, mas para quem os acontecimentos da vida de Jesus fazem parte da sua religião. Diz Brito
Tornando pois à continuação do império e vida de Tibério Caesar, conta Paulo Orósio, e Eutropio, que aos anos 16 da sua monarquia, no mês de Março houve um terramoto universal no mundo, acompanhado de um eclipse tão extraordinário, que não houve sábio (havendo grandes naquele tempo) que soubesse dar razão a tão novo modo de oposição como então tiveram o Sol e a Lua : tudo o qual foi aquele geral sentimento que a Natureza mostrou na morte do seu Criador, e nosso Redentor Jesus Cristo, referido no Evangelho Sagrado (Mateus, Marcos), e por coisa tão notável, e que não menos se viu nestas partes de Portugal e Espanha (onde diz Laimundo que se mostravam rochas abertas deste terramoto), que nas de Ásia e Judeia (...)
Também sobre este assunto poderia Bernardo Brito citar Plínio, já que conforme aqui referimos é suficientemente estranho o registo de anomalias que poderiam estar na causa do desajuste do Solarium Augusti, o enorme relógio solar que Octávio Augusto fizera no Campo de Marte, e que a partir dessa altura tinha ficado inútil.
É ainda curioso Brito estabelecer exactamente o dia da morte de Jesus - sexta-feira, 25 de Março, incluindo o nome dos "ladrões" também crucificados (Dimas, arrependido, e Gestas), falando ainda da ressurreição a 27 de Março, de ter feito S. Pedro seu vigário a 4 de Abril, junto ao mar da Galileia, e da "subida ao céu" apenas a 6 de Maio... tendo após 10 dias "consolado e confirmado os seu discípulos com a vinda do Espírito Santo, dando-lhe a força e sabedoria necessárias (...)"
Creio que estes detalhes, com datas precisas, estão completamente omissos na tradição católica.
Ao contrário, as datas adoptadas para a Sexta-Feira Santa usam como referência a Páscoa judaica, ajustada ao calendário lunar e não solar. Isto não deixa de ser interessante porque o carácter universal que tomou o cristianismo, não deixou de se vergar à agenda judaica. Isso poderia ser aceitável no islamismo, que vê Jesus apenas como um profeta, e usa ainda o calendário lunar. No entanto, a Bíblia católica, apesar de considerar Jesus como o Messias, não deixou de integrar o Testamento dos Velhos, incorporando por completo toda a tradição judaica fundamental, enquanto nos Evangelhos são raras as referências a esse texto, praticamente dispensando a sua leitura.

Nota 1: (26/12/2012) Sobre a embaixada que os lusitanos enviaram a Tibério diz Bernardo Brito:
"Por este próprio tempo conta Plínio que mandaram os portugueses de Lisboa uma solene embaixada a Roma, e com ela dar conta ao imperador de um portento que aparecia naquela costa, que era um homem marinho, da forma que vulgarmente o pintam, e saindo em terra, entre as rochas que pendiam sobre o mar, e faziam uma semelhança de cova, tocava uma buzina feita de concha de búzio, com tanta força, que o som dela fez advertir os moradores da terra, em quem a tangia, ficando tão admirados de sua visita, que lhe pareceu matéria bastante para com ela formarem a embaixada."

Nota 2: Convirá não esquecer também a descrição do "monstro-marinho", a Ipupiara de Pero de Magalhães Gandavo.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Fretum trium fratrum

Tive conhecimento apenas há dias da morte de Manuel Luciano da Silva, que passou de forma mais discreta que José Hermano Saraiva, ambos falecidos neste ano de 2012. O meu conhecimento dos dois resumiu-se ao que divulgaram, cada qual à sua maneira e contexto. Há três anos quando começava a pesquisar sobre estes assuntos, o site DightonRock foi talvez dos primeiros onde vi alguma contestação mais consistente às versões oficiais. Nessa altura foram ainda importantes:
- Portugalliae de José Manuel Oliveira, 
- Ilhas Míticas do Atlântico de Rui P. Martins, 
- Causa Mérita de Rui Duque. 

É reveladora a frase que Rui P. Martins tem no final da sua página:
Fica já agora um agradecimento a todos os editores que rejeitaram os meus livros por não ter já publicado (o chamado ciclo vicioso) e por não ser um descendente de alguém famoso. Bem hajam! (e que ardam todos no Inferno)
Esta é uma pura informação de marinheiro, que serve de aviso à navegação seguinte. É um aviso de baixios, onde encalharam tantos esforços de divulgação.
Para que conste, acho que são tudo esforços infantis contra-a-corrente, e refiro-me apenas aos dos editores e seus mentores encobertos. 
A parte não tem nenhum poder sobre o todo. 
Por isso, toda a ilusão de domínio, controlo, poder, etc... não passa disso mesmo, de uma ilusão temporária. No máximo, as dificuldades levantadas, os dramas vividos, cumprirão a posteriori uma justificação de apuramento da consciência.

Um ponto comum nos autores que citei foi dar relevo à exploração dos Corte-Real, e nesse sentido junto mais alguma informação sobre o
Fretum trium fratrum (Estreito dos Três Irmãos)
Esta designação é comummente atribuída aos três irmãos Corte-Real, na expedição de 1500, a mando do Rei D. Manuel, e que já aqui referimos muitas vezes.

No livro "Voyages in Search of the North-west Passage", de Richard Hakluyt (1552-1616) é elucidativa a menção:
And the King of Portugal, fearing lest the emperor would have persevered in this his enterprise, gave him, to leave the matter unattempted, the sum of 350,000 crowns; and it is to be supposed that the King of Portugal would not have given to the emperor such sums of money for eggs in moonshine.
It hath been attempted by Corterialis the Portuguese, Scolmus the Dane, and by Sebastian Cabot in the time of King Henry VII.
And it hath been performed by the three brethren, the Indians aforesaid, and by Urdaneta, the friar of Mexico.
Portanto, temos uma compra do Rei de Portugal (provavelmente D. João III) no valor de 350 mil coroas, dadas ao Imperador de Espanha, que teriam o objectivo natural de silenciar a Passagem Noroeste.
Como Hakluyt diz ironicamente, tal valor não seria dado para "ovos ao luar" (uma receita da época)... seria naturalmente para manter a exclusividade da Rota das Índias.
Por isso, a ocultação de que nos podemos queixar hoje, foi também, como é óbvio, resultado da política comercial que privilegiava "o segredo do negócio".

Hayklut refere-se à tentativa de João Vaz Corte Real e de John Scolvus (John Scolmus, ou ainda Jan Kolna), que teriam participado na expedição comum organizada por Afonso V e Cristiano I da Dinamarca, em 1473, que teria ainda Didrik PiningHans Pothorst (tidos como piratas), bem como Álvaro Martins. Estes exploradores foram recompensados, com capitanias (Corte Real e Álvaro Martins) e com o governo da Islândia (Pining)... e como diria Hakluyt não teria sido devido a "ovos ao luar".
Hakluyt inclui ainda na lista de tentativas falhadas Sebastião Caboto, filho de João Caboto, que teria sido forçado a regressar pela tripulação, ao tentar a Passagem Noroeste.

Mais notável é que Hakluyt não parece ter dúvidas que teria sido conseguida pelos três irmãos Corte-Real, sendo conhecida a história de Gaspar, que desaparece em 1501, do irmão Miguel que desaparece no seu encalce, e do irmão Vasco, que é proibido de os procurar por ordem de D. Manuel.

No entanto, aqui é preciso relativizar, e não cair no mesmo erro que criticamos (aceitar documentos sem olhar às intenções de quem os produz)... há intenções em Hakluyt - uma clara pretensão de convencer a Rainha Isabel I de Inglaterra a patrocinar as viagens pela Passagem Noroeste. Chega aliás a comparar a sua proposta, à proposta de Colombo à outra Isabel, a Católica. O objectivo era atingir o Oriente por essa Passagem Noroeste. 
Vai mais longe, e aqui vemos o problema de quem está fora do controlo da situação:
These things considered and impartially weighed together, with the wonderful commodities which this discovery may bring, especially to this realm of England, I must needs conclude with learned Baptista Ramusius, and divers other learned men, who said that this discovery hath been reserved for some noble prince or worthy man, thereby to make himself rich, and the world happy(...)
Ou seja, Hakluyt citava Ramusio (e "outros") para considerar que a descoberta estaria reservada para alguém devidamente "escolhido"... um autêntico "teórico da conspiração", este conselheiro de Isabel I. No entanto, é seguindo estes "teóricos da conspiração", que achavam que a Inglaterra estava a ficar "fora da submersa jogada" internacional, que Isabel I vai lançar as bases para a ascenção inglesa.
Richard Hakluyt (vitral na Catedral de Bristol)

Como já dissemos foi Hakluyt que traduziu António Galvão e o considerou uma preciosidade... tal como Galvão foi repudiado e acabou na miséria, Hakluyt cita outro exemplo:
Nevertheless, to approve that there lieth a way to Cathay at the north-west from out of Europe, we have experience, namely of three brethren that went that journey, as Gemma Frisius recordeth, and left a name unto that strait, whereby now it is called Fretum Trium Fratrum.  We do read again of a Portuguese that passed this strait, of whom Master Frobisher speaketh, that was imprisoned therefore many years in Lisbon, to verify the old Spanish proverb, “I suffer for doing well.”  Likewise, An. Urdaneta, a friar of Mexico, came out of Mare del Sur this way into Germany; his card, for he was a great discoverer, made by his own experience and travel in that voyage, hath been seen by gentlemen of good credit.
"Sofro por fazer bem...", é o ditado espanhol que Hakluyt usa para descrever a situação de um português que teria sido aprisionado muitos anos, por ter passado esse Estreito dos Três Irmãos, segundo Martin Frobisher. As explorações portuguesas pararam por decreto, e quem o desrespeitasse arriscava o cárcere. Hakluyt cita ainda o globo de Gemma Frisius que diz:

Fretum trium fratrum, per quod Lusitani ad Orientem et ad Moluccas nauigare e conati sunt

Esta afirmação de Frisius "Estreito dos Três Irmãos, pelo qual os Lusitanos navegaram e procuraram o  Oriente e Molucas" (assinalada por R.P.Martins), é uma das provas que Hakluyt usa para fundamentar a existência dessa mesma passagem. Ora, não são conhecidas razões que levassem o holandês Frisius a querer atribuir a navegação aos irmãos portugueses, a menos que ela tivesse de facto ocorrido. Para além disso, quer Ortelius, quer Lavanha, nos seus Theatrum Mundi, tinham contornos da zona ártica demasiado bons para serem apenas um mero acaso.
Há ainda uma curiosa menção ao frade e navegador espanhol André de Urdaneta, que também teria realizado a Passagem Noroeste, no sentido oposto. Porém, a partir daí, a partir do Séc. XVII, essa passagem irá revelar-se um plano falhado. A Inglaterra apostará nessa demanda, seguindo o conselho de Hayklut, e muitos dos nomes acabaram substituídos pelos nomes dos exploradores ingleses. Haveria um Promontório Corte-Real, perto de um rio Polisacus (referindo-se a Jan Scolvus), mas esses nomes foram convenientemente substituídos:
Moreover, the passage is certainly proved by a navigation that a Portuguese made, who passed through this strait, giving name to a promontory far within the same, calling it after his own name, Promontorium Corterialis, near adjoining unto Polisacus Fluvius.
Curiosamente, ainda hoje se mantém o nome "Labrador", referindo-se João Fernandes (Lavrador), que tem sido misturado na expedição de Caboto à Terra Nova. Injustamente parece que o nome de Caboto foi ignorado, e só permaneceu o nome do "lavrador"... Houve, é claro, um anterior João Fernandes ao serviço do Infante D. Henrique, mas não seria "lavrador". Até porque sabemos que as navegações do Infante iam sempre no contorno africano, e as do Atlântico resumiam-se a encontrar os Açores. Descobertos os Açores, que sentido é que fazia continuar para Ocidente? Parece que nenhum, parece que toda a exploração ocidental começara e terminara na descoberta dos Açores. Ora bem, nada mais lógico para a inteligência nacional.

O problema posterior, explica-se com um gráfico de alteração da temperatura:
Variação de Temperatura nos últimos 1000 anos (de john-daly.com)

Ao contrário do que tem sido propagandeado, o aumento de temperatura recente nada tem de tão artificial... e com isto ninguém está aqui a dizer que não há óbvios cuidados a ter com o meio-ambiente e poluição.
O que se passa é que há alguns ciclos naturais de temperatura (talvez pela actividade solar). A temperatura começou a aumentar no final da Idade Média ("Medieval Warm Period") atingindo o máximo no início das Descobertas, e depois vai começar a diminuir sucessivamente. No final do Séc. XIX terá atingido o seu mínimo global ("Little Ice Age").

Qual o problema disto? Os marinheiros dos Séc. XV e XVI estavam ainda a beneficiar desse período quente, as zonas árticas e antárticas não estavam tão inacessíveis à navegação quanto iriam ficar nos séculos seguintes. A Passagem Noroeste seria possível para os irmãos Corte-Real, mas começaria a ser quase impraticável para os exploradores que se seguiriam.

Talvez uma das mais dramáticas ocorrências é a de Hudson, que acabará abandonado pela tripulação, que se recusará a prosseguir na demanda pela Passagem Noroeste. A baía de Hudson que tomou o seu nome aparecia já sinalizada nos mapas de Ortelius e Lavanha. A concretização da passagem é atribuída a Amundsen, já no Séc. XX. 
No entanto, durante todo o Séc. XX a passagem esteve bloqueada pelos gelos, só sendo possível com quebra-gelos. Terá abrido recentemente com o degelo, que se atribui ao "aquecimento global", esquecendo o registo histórico da variação de temperaturas.
Ainda que haja uma nova passagem para os navios entre a Ásia e a Europa, parece que são preferidas as temperaturas mais frígidas, e o eventual perigo de desinteresse no Canal do Panamá é relativo, dada a cessão de controlo pelos EUA desde 1999.

O gráfico anterior é ainda instrutivo se atendermos a que se evidencia um ciclo de circa 500 anos, que colocaria a outra "pequena idade do gelo" no início da Idade Média, e um período mais quente na época romana, algo que já tínhamos sinalizado. Essa temperatura poderia ser de tal forma quente que os romanos consideravam as terras abaixo do Trópico de Cancer como inabitáveis.

Coloquei aqui apenas algumas citações do livro de Hakluyt relevantes para o tema, há ainda uma menção à chegada de índios na época do Império Romano e na época medieval, que Hakluyt associa à Passagem Noroeste. Provavelmente retira parte dessa informação de Galvão, conforme já mencionámos, mas o seu objectivo é forçar a via noroeste, negligenciando a rota nordeste, que depois será tomada por Melgueiro. A viagem de Melgueiro será especialmente notável, pois em 1660 os gelos já tornariam a navegação na Passagem Nordeste uma proeza única.

Nota: Hakluyt tem o nome numa Sociedade "The Hakluyt Society" onde se podem encontrar alguns textos que navegam contra a corrente oficial dos descobrimentos. Curiosamente tem também o nome associado a uma firma de "inteligência" que saiu do MI6 inglês -  Hakluyt Company.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Torre Vítrea de Nennius

Um dos relatos mais surpreendentes que li está na 
Historia Brittonum (c. 830 d.C), 
escrita por Nennius, monge galês. Dificilmente se encontram relatos mais próximos do período conturbado que sucedeu à queda do Império Romano do Ocidente (exceptuando Gildas que não é tão informativo).

Turrim vitream in medio mari
No entanto, talvez o que mais surpreende é uma descrição das primeiras tentativas de colonização da Irlanda, que mais uma vez é atribuída a migrações da Hispânia. Eis a parte mais estranha:
After these came three sons of a Spanish soldier with thirty ships, each of which contained thirty wives; and having remained there during the space of a year, there appeared to them, in the middle of the sea, a tower of glass, the summit of which seemed covered with men, to whom they often spoke, but received no answer. At length they determined to besiege the tower; and after a year's preparation, advanced towards it, with the whole number of their ships, and all the women, one ship only excepted, which had been wrecked, and in which were thirty men, and as many women; but when all had disembarked on the shore which surrounded the tower, the sea opened and swallowed them up. Ireland, however, was peopled, to the present period, from the family remaining in the vessel which was wrecked. Afterwards, others came from Spain, and possessed themselves of various parts of Britain.
A menos de efeito alucinogénico de cogumelos, a informação passada como histórica por Nennius descreve algo muito bizarro. Tratava-se de uma "Torre Vítrea" no meio do mar (turrim vitream in medio mare), e no topo haveria homens, que não respondiam aos hispânicos, que tinham chegado à Irlanda em 30 navios.
Depois de procurar mais informação sobre o assunto, verifiquei haver uma interpretação quase tão bizarra quanto a descrição - tratar-se-ia de um iceberg com focas em cima... pelo nível de apuramento da explicação, pode ser coisa oficial.
Tudo bem, vamos admitir que os hispânicos eram ignorantes, nunca tinham visto um iceberg, chamavam-lhe torre vítrea, e achavam que as focas eram parecidas com humanos. Acontece que Nennius diz que demoraram um ano a preparar o ataque... ou seja, o iceberg ficou ali estacionado durante um ano com as focas em cima. Pior, uma vez sitiado o iceberg, desembarcando todos na sua periferia, e cercadas as focas, o conjunto foi todo submergido, desaparecendo tudo.
Antes de ler a versão explicativa com o iceberg e as focas, interpretei abusivamente, e considerei poder tratar-se de um submergível, com uma torre vítrea de comando e observação, que incomodaria os novos colonos, a ponto de eles considerarem a sua abordagem... e quando o fizeram, submergiu!
Porém, como somos ensinados que nenhum desses aparelhos seria possível naquela época, só a versão das focas ao comando do iceberg estacionário é que deve fazer sentido...

A travessia de 40 anos
Este episódio é o terceiro contado por Nennius. Ao que parece os hispânicos insistiam na colonização da Irlanda, que seria meio inóspita para quem está habituado a climas mais temperados, mas a coisa afigurava-se complicada. Da primeira vez tinham saído da Hispânia mil (escotos) sob o comando de Partholomus, e sendo quatro mil ao fim de alguns anos, todos teriam morrido no espaço de uma semana (pode ter sido dos cogumelos)! Da segunda vez teria sido um tal de Nimech, mas teria regressado ao fim de poucos anos com todos os que o tinham seguido. Desta terceira vez, como vimos, foi o problema das focas... mas terá havido sobreviventes, e com a chegada de nova gente da Hispânia, a colonização acabou por se verificar.

Geoffrey of Monmouth na Historia Regum Britanniae (livro III, cap.XII) conta uma versão posterior mais resumida da colonização. Segundo ele, o mesmo Partholoim (pequena variação no nome face a Nennius), com uma frota de 30 navios (o número da 3ª expedição de Nennius), abordara o rei bretão Barbtruc no sentido de lhe dar asilo, pela sua expulsão da Hispânia. Segundo Monmouth, tratavam-se de "Barclenses" - nome demasiado próximo de "Barcelenses" (aludimos a uma possível origem da região de Barcelos, Barcelona, ou ainda Basca - ver a hipótese "Basclense"). Na sua versão, o rei bretão teria cedido, encaminhando-os para a Irlanda, que se encontrava desabitada, e à data de Geoffrey ainda aí viveriam os seus descendentes.

Num ponto está em acordo com Nennius, que também afirma que a Irlanda estava desabitada à chegada dos escotos. Aliás afirma que a Irlanda seria desabitada até à época da travessia do Mar Vermelho pelos Israelitas.
Surge aqui um novo ponto interessante.
Entre os escotos haveria um nobre de origem cita, com grande família, que tinha sido banido, e que tinha tido um percurso notável. Neste ponto a versão de Nennius coincide parcialmente, numa nobreza cita, com a da Declaração de Arbroath mencionada aqui.
O percurso notável desse nobre cita tem semelhanças com o de Moisés...
Após a sua expulsão da Cítia, ter-se-ia refugiado no Egipto, e dado o desaparecimento da nobreza egípcia no Mar Vermelho, os egípcios consideraram que ele poderia tentar apoderar-se do poder, e expulsaram-no de novo. Nennius refere então:
Thus reduced, he wandered forty-two years in Africa, and arrived with his family at the altars of the Philistines, by the Lake of Osiers. Then passing between Rusicada and the hilly country of Syria, they travelled by the river Malva through Mauritania as far as the Pillars of Hercules; and crossing the Tyrrhene Sea, landed in Spain, where they continued many years, having greatly increased and multiplied Thence, a thousand and two years after the Egyptians were lost in the Red Sea, they passed into Ireland, and the district of Dalrieta. 
ou seja, deambulou 42 anos em África, provavelmente no deserto saariano.
O percurso indicado por Nennius mostra a confusão de nomenclatura. O país montanhoso da Síria, seria provavelmente a Tunísia, e o nome "Síria" estaria muito provavelmente ligado à origem fenícia de Cartago. O rio Malva existe - trata-se do actual rio Moulouya, conforme pode ser verificado aqui, já na zona de Marrocos.

Chegam assim aos Pilares de Hércules, estreito de Gibraltar, e vão passar o "Mar Tirreno" para chegar à Hispânia... Percebe-se imediatamente que o nome Mar Tirreno nada tinha a ver com a limitação dada actualmente (que o circunscreve hoje à área entre a Itália, Sardenha e Sicíla). Tratava-se muito provavelmente de todo o Mar Mediterrâneo, ou pelo menos da parte vizinha ao Estreito de Gibraltar.

continuado a 20/12/2012
Aliás, o nome Tirreno pode sugerir outra origem - da colónia fenícia Tiro (ver).
Como é habitual nestas coisas, podemos estar em presença de uma junção de histórias - por um lado a passagem do Mar Vermelho, por outro lado a deambulação de 40 anos no deserto.
Já falámos do Mar VermelhoEbreus do Ebro, e Nennius referindo-se aos filhos de Jafé (Japheth), netos de Noé, diz:
from the fifth, Tubal, arose the Hebrei, Hispani, and Itali.
[quintus Tubal, a quo Hebraei et Hispani et Itali]

Portanto, inclui no conjunto dos filhos de Tubal três populações distintas: Hebreus, Hispânicos e Itálicos (não necessariamente latinos, talvez etruscos). Estabelece-se mais uma ligação explícita entre Hebreus e Hispânia, para além das várias implícitas que já fomos comentando aqui noutros textos.

É claro que todas estas relações são confusas, as informações são (propositadamente?) contraditórias, e é difícil seguir com alguma certeza, apenas vamos estabelecendo algumas relações, que podem formar um corpo mais consistente. Assim, Nennius acaba por falar numa origem britânica que remontaria ao consul romano Brutus, de onde derivaria o nome Britania. Se por um lado seria o mesmo Brutus que passaria o Lima, num tempo demasiado recente, por outro lado esse tempo é anterior, vai até à Guerra de Tróia. Tal como os romanos, também os britânicos procuram uma descedência por algum Eneias troiano.

O texto de Nennius é especialmente conhecido por referir o Rei Artur, sendo talvez o primeiro fazê-lo. Ilustra a tentativa dos britânicos susterem a invasão dos Saxões, frisando em particular o convite ao seu estabelecimento feito pelo Rei Vortigern. Não indo ao aspecto fabuloso de Monmouth, Nennius reporta 12 batalhas vitoriosas de Artur, em particular a de Mount Baden, onde poderá ter exagerado no número de opositores eliminados só por Artur - 960, num só dia.

Traduções, transcrições, e Filisteus
Adiciono um pequeno detalhe instrutivo... no link inicial, que segui, na tradução da Fordham University de Nova York, aparece:
"The twelfth was a most severe contest, when Arthur penetrated to the hill of Badon. In this engagement, nine hundred and forty fell by his hand alone, no one but the Lord affording him assistance. In all these engagements the Britons were successful. For no strength can avail against the will of the Almighty."
Por outro lado, seguindo a versão transcrita em latim aqui lemos apenas:
"Duodecimum fuit bellum in monte Badonis, in quo corruerunt in uno die nongenti sexaginta viri de uno impetu Arthur; et nemo prostravit eos nisi ipse solus, et in omnibus bellis victor exstitit."

Ou seja, a menos que o tradutor tivesse outra versão, há um claro colorido e uma decoração que não está presente na transcrição do latim. Até o número é diferente num caso diz-se 940, noutro 960.
No entanto, estes detalhes não são assim tão importantes. Pode haver alterações, imprecisões, mas o que importa sempre é a visão de conjunto. De qualquer forma, há detalhes que alteram as coisas, e assim retomando o texto anterior, relativo ao mapa, agora em latim lemos:
at ille per quadraginta et duos annos ambulavit per Africam, et venerunt ad aras Filistinorum per lacum Salinarum et venerunt inter Rusicadam et montes Azariae et venerunt per flumen Malvam et transierunt per Maritaniam ad columnas Herculis et navigaverunt Tyrrenum mare et pervenerunt ad Hispaniam usque et ibi habitaverunt per multos annos et creverunt et multiplicati sunt nimis et gens illorum multiplicata est nimis. 
Portanto, temos o Lago Salinarum (em vez de Osiers), e Montes Azariae (em vez de "hilly country of Syria").  Isto muda um pouco as coisas. Já falámos do Lago Tritonis, e à época de Nennius já deveria estar a transformar-se numa enorme superfície salgada, que é hoje o Chott el-Jerid, de onde o nome "Salinarum". Depois dessa região tunisina, há já na Argélia uma cidade, junto à cadeia montanhosa do Atlas que ainda se chama Azaria. Rusicada era também uma cidade romana na zona argelina (foi identificada a Skikda, cidade costeira), e estes locais estão no mapa anterior.
Os Altares dos Filisteus nesta zona (Tunísia/Argélia-Atlas) é ainda mais relevante. Os filisteus deveriam estar na zona de Gaza, junto a Israel... onde desenvolveram lutas com os Hebreus. Porém, se atendermos a que acabámos de realçar a  conexão dos Hebreus com a Hispânia, podemos perceber que o ponto de conflito com os filisteus poderia ocorrer noutro lado - no Norte de África.

Maximus, Ambrósio, Ida e Conan
A Historia Brittonum de Nennius parece ser encarada como meio fantasiosa, e no entanto, não deixam de ali estar alguns acontecimentos que poderiam passar por falsos e não eram, como os referentes a Maximus (de quem falámos no texto anterior), já que a memória desse imperador tinha sido eliminada por decreto romano.
Nennius, como todos os restantes, terá seguido variada documentação. Poderá é ter seguido alguma que não devia... mas na maioria dos "historiadores" da Antiguidade há esse problema, falam de coisas que são hoje desacreditadas. Escolhe-se assim uma parte do que é dito,  que cola com a versão oficial, e o resto é negligenciado. Não sei se há algum historiador antigo que seja considerado fiável, do princípio ao fim, e se há, é porque se tem apenas uma parte histórica muito limitada e particular (o caso de alguns romanos). Ora, não haver nenhum historiador geral da Antiguidade, fiável, do princípio ao fim, é no mínimo um sintoma do problema subjacente há muito tempo.

Tem-se associado a figura do romano Ambrosius Aurelianus à lenda do Rei Artur (e.g. este filme), mas Nennius, como outros, refere-se a Ambrósio de forma distinta de Artur. O ponto comum seria a resistência ao invasor.
Nennius fala depois de Ida, Rei da Bernicia, reino anglo-saxão. Curiosamente esse nome será também o de (Santa) Ida, mãe dos reis de Jerusalém, e mulher do conde do Bulhão, de que já falámos, e que era Eustácio II, um comandante na invasão normanda em Hastings (1066).

Finalmente, regressando à Torre Vítrea, regressamos a Conan... temos numa edição de 1838 da Historia Brittonum, publicada pela English Historical Society, a seguinte observação:

Turrim vitream: Concerning the tower of glass and its frequent occurrence in the early Welsh legends, see Roberts’s Cambr. Antiq. pp. 75, 78, and Davies’s Mythology of the British Druids, p. 212. O’Connor states that this tower was built by a certain Conan upon the island called Tor-Inis, or Tory Island, and refers to a poem written long before A.D. 908, in proof of the antiquity of the tradition, Prolog. I. xxxvi

Ou seja, que a "Torre Vitrea" seria uma antiga lenda galesa, associada a uma torre na ilha de Tory (ver aqui também), construída por um certo Conan...

Ilha de Tory, onde estaria a Torre Vítrea de Conan (em panoramio)

No segundo filme de Conan (Destroyer), encontra-se justamente um episódio no "castelo de gelo do mago Toth-Amon" (ver), reportando talvez essa associação lendária a Conan e por outro lado à migração do cita via Egipto.

Esta descrição da Torre Vítrea pode ser considerada como alegórica, fantasiosa, associada a outras lendas medievais. Por exemplo, Geoffrey Monmouth (livro III, cap. XV) descreve o episódio do tirano Morvidus que teria sido devorado por um "monstro" na costa da Irlanda.
No entanto, a Torre Vítrea dificilmente pode ser enquadrada no tipo de mitos medievais comuns, não há propriamente nenhuma conotação heróica ou religiosa. Há apenas um episódio que é descrito com algum detalhe, sem qualificativos, explicações ou implicações. Se fosse algo que abalasse menos os preconceitos, seria mais facilmente aceite, assim permanece como desafio às explicações mais racionais.
22/12/2012

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Conan, o bretão

Do longínquo tempo em que o governador da Califórnia representava, não no protocolo, mas sim no cinema, conhecemos um dos personagens fabulosos que marcou gerações - Conan, o Bárbaro:
Arnold Schwarzenegger em Conan (1982, 84)

Conan foi visto como um produto de fantasia moderna, iniciada com o livro de R. Howard, em 1932, depois em banda-desenhada, e passados 50 anos aparece o filme. Era assim mais fácil a Howard introduzir um nome esquecido que foi visto como herói noutro contexto:
Conan, primeiro rei da Bretanha (383-427)

Conan, aparece ainda na fábula como Cimério, ligando-o a outros cimérios, apesar de Howard referir que se tratava de um celta... como o próprio nome indicia (Conan é um nome comum na Bretanha). É natural que Howard ligasse Cymmerian a Cymry - o nome celta de Gales, e que Hyboria invocasse a Hibernia-Irlanda. Com a grande excepção do Rei Artur, os mitos que surgiram na época de queda do Império Romano e transição para a época medieval, acabaram mais ou menos esquecidos, e toda essa época aparece envolta numa enorme névoa histórica.

A informação sobre Conan está, no entanto, bem detalhada na obra de 1854, de Charles Barthelemy:
que toma o moto atribuído a Conan: "Malo mon quam foedari"... "antes morrer que me manchar", e associa os arminhos no escudo da Bretanha a um episódio que Conan tomara como bom presságio - ao desembarcar nas costas da Bretanha, alguns arminhos refugiaram-se sob o seu escudo. 

 
Um arminho. Escudo da Bretanha, com o símbolo dos arminhos.

Talvez não seja despropositado notar que se o latim "ermini" se mantém no catalão, não difere muito no francês "hermines". Ou seja, também poderíamos ter o nome "hermínios" em vez de "arminhos"... e os Montes Hermínios dariam significado a uma fauna entretanto extinta em Portugal (manter-se-à na Galiza).

Antes de retomar o lendário Conan, neste caso o bretão, é adequado numa veneta falar dos Venetos. Charles Barthelemy inicia a sua história com as dificuldades que Júlio César teria sentido na tentativa de anexação da Bretanha (ou Armorica), especialmente no que dizia respeito aos Venetos.
Acontecia que os Venetos eram navalmente superiores aos Romanos... no Oceano Atlântico os quadrirremes eram pouco eficazes, e os Venetos manobravam superiormente apenas com velas.
Barthelemy refere que, finalmente, com um expediente engenhoso, os romanos conseguiram cortar as cordas que operavam o velame, permitindo a abordagem aos navios. A maioria dos barcos venetos foi subjugada, e a independência da Bretanha/Armorica perdeu-se num só dia de batalha. Sucessivamente todos os portos se renderam... Júlio César foi implacável contra os Venetos que não escolheram morrer, e a história de uma Bretanha independente seria retomada quando entra Conan em cena - no final do Séc. IV.

Ora, como é natural, o nome "Venetos" sugere outra região... a "Venetia", a região de Veneza.
Essa ligação foi estabelecida (cf. Vénètes), e também outra ligação com a região de Gwynedd (Gales), denominada Venedotia pelos romanos.
Temos assim uma ligação marítima entre Gales, Bretanha e Veneza... havendo ainda quem adicione uma região polaca, ou eslava, referente aos Wendes, que migrariam para a Sérvia.
Coincidência?
Pelo critério etimológico, não podemos deixar de relembrar a conexão por Gal... deixando Portu-gal, passando à Galiza, aos Gauleses, Galeses, Galicia (Ucrânia/Polónia), ou até à Galatia (Turquia). Isto praticamente evidencia uma conexão marítima de grande escala fora do Mediterrâneo.
Para relembrar esta ligação, feita por onde antes a terra era mar, coloco de novo o mapa ilustrativo:

e assim, a propósito deste texto, notar que há uma razão para uma Grã-Bretanha e outra "pequena" Bretanha - pelo menos em tempos anteriores ambas teriam sido ilhas. César conquista uma Bretanha, Cláudio conquistará a outra, ou parte dela (os Pictos resistirão na Escócia). O mesmo nome, e a sua proximidade, parece prestar-se a confusões nas referências históricas.
Aliás Barthelemy refere que essa conexão entre as Bretanhas era tão presente, que durante vários séculos o rei comum residia em Trinovante - Londres. Conan partiu da Grã Bretanha para conquistar a Bretanha.

Como se as duas ligações marítimas apontadas não fossem suficientes, temos ainda os Pictones na França, ao sul da Bretanha, e os Pictos na Escócia. Etimologicamente ligam-se Vene, Gal, Picto, a distintas partes marítimas.
Coincidência? - A genética falou antes de a calarem... lê-se no Scotsman.com de 21/09/2006:
uma notícia que mostra como a maioria dos ingleses, escoceses e galeses descendem das mesmas tribos que os povos da Península Ibérica, concluindo aliás serem migrações destes.
(...) a research team at Oxford University has found the majority of Britons are Celts descended from Spanish tribes who began arriving about 7,000 years ago.
Even in England, about 64 per cent of people are descended from these Celts, outnumbering the descendants of Anglo-Saxons by about three to one.
The proportion of Celts is only slightly higher in Scotland, at 73 per cent. Wales is the most Celtic part of mainland Britain, with 83 per cent.
Previously it was thought that ancient Britons were Celts who came from central Europe, but the genetic connection to populations in Spain provides a scientific basis for part of the ancient Scots' origin myth.
The Declaration of Arbroath of 1320, following the War of Independence against England, tells how the Scots arrived in Scotland after they had "dwelt for a long course of time in Spain among the most savage tribes".
Olhando para a Declaração de Arbroath, dirigida ao Papa, a "coisa" torna-se ainda mais clara:
Most Holy Father, we know and from the chronicles and books of the ancients we find that among other famous nations our own, the Scots, has been graced with widespread renown.  It journeyed from Greater Scythia by way of the Tyrrhenian Sea and the Pillars of Hercules, and dwelt for a long course of time in Spain among the most savage peoples, but nowhere could it be subdued by any people, however barbarous.  Thence it came, twelve hundred years after the people of Israel crossed the Red Sea, to its home in the west where it still lives today.  The Britons it first drove out, the Picts it utterly destroyed, and, even though very often assailed by the Norwegians, the Danes and the English, it took possession of that home with many victories and untold efforts; and, as the histories of old time bear witness, they have held it free of all servitude ever since.  In their kingdom there have reigned one hundred and thirteen kings of their own royal stock, the line unbroken by a single foreigner.
Não restam muitas dúvidas de como as gaitas (de foles) são comuns a Trás-os-Montes e à Escócia. Também não restam muitas dúvidas de como "os mitos" que foram passando, nas "crónicas dos antigos", são afinal "mitos" com alguma "sustentação genética". Em 1320 os escoceses acabavam de receber uma das duas partes principais dos templários perseguidos em França... Se pelo lado português, os templários se estabeleceram na Ordem de Cristo, pelo lado escocês acabaram por formalizar a Maçonaria, de onde terá saído o "rito escocès".

É ainda interessante estes escoceses traçarem a sua origem a tempos de migrações da "Grande Cítia", ou seja da zona Tartária, a norte do Mar Negro e mar Cáspio. Depois de viverem muito tempo na Península Ibérica, acabam por aportar na Irlanda ("... its home in the west"), e numa grande contracção de tempo falam da destruição dos Pictos e invasões vikings... Para entender melhor isto, é preciso recorrer a Nennius, e à sua Historia Brittonum, do Séc. VIII - o que merece um texto separado.
Por outro lado, o traço genético é mais alargado, e não diz respeito apenas aos escoceses, inclui especialmente os galeses, e por isso reporta a tempos bem mais antigos, talvez próximos dos 5000 a.C. sugeridos pelo estudo genético.
Mas para não alongar nesta variante, voltamos a Conan...

Barthelemy começa por abordar o assunto referindo Cohel (nat King Cole) e o irmão Octavius (Outam), últimos reis de Trinovante-Londres. Diz que Cohel seria pai de Santa Helena, mãe do Imperador Constantino... tese controversa que procurou ligar a consagração imperial de Constantino em York, a uma ascendência britânica. Apesar da origem de Santa Helena ser algo incerta, há enormes hiatos temporais nestas versões. Se a Europa continental tinha um unificador em Carlos Magno, os britânicos procuraram associar-se a Constantino "Magno". Através de Geoffrey de Monmouth, outra referência incontornável para este período britânico, o rei Artur seria descendente do rei Cohel.

Conan aparece como protagonista na sucessão de Octavius seu tio (ou pai?), numa altura em que o imperador romano Graciano estava prestes a ser defrontado por Maximus, um general romano da Hispânia.
Maximus estaria destacado na Grã Bretanha, e como no caso de Constantino, as legiões britânicas irão apoiar a sua pretensão a Imperador Romano. Ele surge como sucessor de Octavius pelo casamento com a filha Elen (outra Santa Helena). A esta sucessão opõe-se Conan, segundo diz Barthelemy, e aparecerá contra Maximus ao lado dos Pictos e Escotos.
Conan perde a batalha, e as legiões proclamam Maximus imperador romano. Maximus tem planos maiores, e propõe a Conan uma aliança para a invasão da Bretanha. Em 383 d.C. Conan desembarca ao serviço desse plano de Maximus, tem os arminhos a recebê-lo, e em breve terá um reino sob seu poder. Maximus prossegue, derrota Graciano na batalha de Lutécia, e durante 4 anos será imperador romano.

Magnus Maximus, Imperador Romano do Ocidente (384-388)

Maximus é primeiro visto como usurpador, mas é aceite com o co-imperador Valentiniano II, até que o tenta depor. Apesar do seu êxito no Império Romano do Ocidente, acabará por ser morto por Teodósio I, Imperador do Oriente, que irá recolocar Valentiniano II no Ocidente. Como era habitual em Roma, a mulher (Elen) e os filhos, serão também mortos. O senado romano declara a sua "memória danada"... e por isso é natural que pouca memória oficial da época se tenha mantido. Na tradição galesa, o nome de Maximus é Macsen Wledig, e Conan Meriadoc aparece como irmão de Elen, sua mulher. 

Com a aniquilação de Maximus, Conan não deixa de ficar no poder da Bretanha mais 40 anos, de acordo com Barthelemy. A incursão de Maximus acaba por deixar o Império do Ocidente fragilizado, e Honório, sucessor de Valentiniano II, terá por ter que negociar as diversas concessões de poder aos suevos, alanos, e godos. Roma já não controlaria a maior parte da Gália e Hispânia. Também a Bretanha teria um acordo de autonomia com Honório.
Assim, o período de Conan acaba por reflectir, segundo Barthelemy, uma grande estabilidade e independência, que atraírá o mundo celta à Bretanha, face ao desmoronar do mundo romano. O sucessor de Conan, será o seu filho Salomon, e apesar de Conan ter favorecido o cristianismo, não deixa de ser interessante este nome, e notar que Maximus teria sido acusado de "judaísmo", por Santo Ambrósio, por se ter oposto ao incêndio de uma sinagoga em Roma...

Finalmente, Barthelemy vai associar Conan a um outro episódio marcante - o martírio de Santa Ursula e das 11 000 virgens. Conan terá solicitado a mão da filha de Dionote, rei da Grã Bretanha, e Ursula terá partido também com a missão de "cristianizar o bárbaro". Por resultado de tempestade, o barco teria sido desviado para uma embocadura do Reno na Holanda, onde Ursula teria sido presa e depois morta pelos Hunos. Desde 406 d.C. que os Hunos tinham forçado a migração das tribos germânicas para oeste do Reno, e essa pressão levara às primeiras incursões bárbaras a que Honório cedeu. Quanto às 11000 virgens, o número é emblemático, por ser implausível que Ursula fosse acompanhada em tal número.
Assim, levantam-se hipóteses instrutivas de como alguma informação é facilmente deturpável ou interpretativa. Uma hipótese diz que "XI M V" foi entendido como 11 mil virgens e deveria ser 11 mártires virgens... outra diz que se referia a Ursula como virgem com 11 anos, etc.
Este exemplo é instrutivo porque são muitas as abreviaturas em latim, o que deixa alguma margem de interpretação e possível distorção face ao conteúdo original dos textos.

Conclusão. Barthelemy refere que Ana da Bretanha, bem como todos os duques anteriores, orgulhava-se da sua ascendência até Conan. A Bretanha seria definitivamente incorporada no Reino da França pelo casamento de Ana da Bretanha, e a sua autonomia seria depois limitada.
A ascendência de Conan seria bretã, não seguia a linhagem goda que resultaria na aristocracia europeia depois das invasões bárbaras. Também dificilmente se poderá invocar uma ascendência germânica aos godos, já que os Alamani eram uma confederação de Suevos. Os suevos acabaram por ser dominados pelos visigodos na Hispania, e por isso grande parte do que se chamaria "alemães" seriam muito mais suevos, de ligação celta, em grande parte inseridos no mundo romano. Os godos teriam uma origem diversa e alargada, sendo escandinava pela parte visigoda, até à Cítia/Tartária (zona Khazar) pela parte ostrogoda.
As monarquias estabelecidas na Europa acabarão todas por ter essa linhagem goda (os monarcas suevos não a teriam e não eram reconhecidos em Roma). Assim, quando os escoceses invocam a sua migração a partir da Cítia, estão a invocar a mesma zona geográfica dos ostrogodos, e talvez a mesma nobreza goda para justificar as pretensões de realeza.
No entanto, pelo traço genético, a população das ilhas britânicas terá essencialmente a mesma origem ibérica, e esse traço alagar-se-ia por uma civilização atlântica que incorporaria ainda a costa francesa, e poderia mesmo chegar a paragens mais orientais, remontando a épocas de ligação com o Mar Negro.
Na parte ocidental, há evidentes traços de ligação cultural, denominada celta, que vão das ilhas britânicas à parte ibérica, onde os monumentos de pedra, de "brita", os menires, cromeleches, dólmens, estão bem presentes. A tradição naval seria uma ligação, tornada clara na menção que se faz acerca da superioridade dos barcos venetos bretões face aos romanos, e a que se ligará também certamente um conexão fenícia.
Toda a mitologia celta britânica, acabará por se fundar numa nacionalidade perdida, desde o tempo do Rei Artur, e de Avalon. As invasões dos Anglos, Saxões e Normandos, acabam por reduzir os bretões praticamente a servos, como é bem ilustrado no conto de Robin Hood. Isso não acontece apenas na Grã Bretanha, por todo o lado, a cultura "celta" permanecerá como um resquício pagão popular. Porém, não apenas pelo nome, a Britania, acabará por conseguir trazer lendas que se perderam noutros tempos e lugares.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Arquitecturas (4)

Tinha arrumado o tópico "Arquitecturas", mas na sequência das pertinentes questões levantadas no comentário do Sid, acrescento mais algumas considerações.

Gillray: Britannia entre a Rocha Democrática e o Remoínho do Poder Absoluto.

O raciocínio humano entricheira-se entre Scila e Caribdis... de um lado forma conceitos que emergem da previsibilidade, por outro lado tende a submergir o que é previsível.
Num universo caótico não seria possível formar conceitos, edificar noções estáveis, e num universo demasiado previsível os conceitos mais complexos seriam desnecessários, a ponto de nem serem cogitados. Este ajustamento é mais do que uma simples "coincidência"...
Para dar um exemplo simples, basta pensar na condução... se a resposta do veículo fosse imprevisível face aos movimentos do volante, ninguém saberia conduzir (nem haveria nada para "saber"...), e por outro lado, após sabermos conduzir, o processo torna-se tão automático que fica submerso, relegado em gestos instintivos - o assunto já não merece reflexão.

Em sociedades de fácil sobrevivência, ao género de "paraísos tropicais", onde a fruta está à distância do braço, o engenho humano fica como acessório de vivência. Mas essa vivência pode transformar-se em problema de sobrevivência pelo engenho complexificador de relações sociais. Quando o mundo ficou sob domínio humano, os humanos passaram a temer o seu maior predador - os "outros".
Os "nossos" maiores inimigos são sempre os "outros"... nos "nossos" confiamos, dos "outros" desconfiamos. É claro que o engenho social conseguiu complexificar ainda mais, e a noção de "traição" deixa o indivíduo essencialmente isolado, face à imprevisibilidade de "todos os outros".
Pode caricaturar-se a situação: - na "lotaria dos animais" o Homem ganhou o paraíso, sem ler o aviso - "a incapacidade de partilha transforma paraísos em infernos".

Creio que já não há ministérios "da guerra", só "da defesa"... legitimando-se agora as guerras como "formas preventivas de defesa". E sempre assim foi... mesmo os mais empenhados conquistadores, em última análise procuravam eliminar ou neutralizar "inimigos", fosse por motivos externos ou internos. O medo dos "outros" é também "o medo dos outros", e auto-alimenta-se.

A "ascendência primata" do Homem parece ter relegado o Homem a um papel menos especial na "criação", libertando-se da visão antropocêntrica religiosa. Porém, não é apenas isso... ao contrário do que parece, legitima uma visão bem mais elitista. Afinal, se a diferença entre um homem e um outro primata for apenas resultado de uma evolução animal, também se pode pretender que a Eugenia possa levar a uma variação de raça, e até de espécie, ao ponto de se gerarem "super-homens". A visão do homem-macaco serve muito mais para justificar o tratamento animal que é dado a certos homens, do que para dar um tratamento humano aos animais... 
Há quem tenha cultivado a pureza na descendência, e não foram apenas os aristocratas de ascendência bárbara-goda, nem os nazis pela ideia de "raça ariana". Aproveito para agradecer aqui a oferta de um livro sobre "jewish eugenics", que me chegou há uns tempos pelo correio, sem que eu tenha percebido como obtiveram o meu endereço, ou qual foi o interesse em que o recebesse.

A falta de verdade, a necessidade de ludibriar, de esconder segredos, tudo isso resulta de uma falta de confiança, de fé nos "outros". Todas as quebras legitimarão ainda maiores desconfianças, e o cumprimento exemplar nunca afastará essa noção, escondida nos mais íntimos medos. Um sintoma típico da necessidade de confiança, sentida por algumas pessoas, acaba por se manifestar em animais de estimação, companheiros de onde não esperam especiais surpresas.
A confiança, a fé, sendo afastada dos outros, seus semelhantes, foi também relegada para um conceito externo, divino. As provações, os infortúnios, seriam compensados numa balança de justiça, repositora da verdade, para além da morte. Com alguma tentativa científica de desmistificação religiosa, e com uma expansão do pragmatismo moderno, a confiança humana passou depois a ter à "cabeça" - o capital. As instituições, os estados, vão perdendo a confiança depositada pelos cidadãos, e progressivamente aceita-se a "pena capital", como último depósito de garantias humanas.

Ao indivíduo que incorporou respostas a alguns porquês na sua infância, a ciência actual surge como estéril a esse tipo de perguntas. Formada pelo pragmatismo experimental, a ciência é essencialmente descritiva, e a sua máxima justificativa é a constatação ou "o acaso". À queda da pedra, acrescenta uma relação de aceleração, uma noção de gravidade, mas está longe de justificar, ou sequer de perguntar, por que razão tal força existe. Existe "porque sim", responde-se, como responde qualquer criança incomodada com uma pergunta. E nem é preciso ir à Física, cheia de "buracos negros", mesmo a Matemática pode estudar os números primos, estabelecer teoremas, mas não explica a razão da imprevisibilidade dessa sequência gerada afinal pela simples aritmética da multiplicação. Aliás, ainda é um problema em aberto saber se há uma infinidade de "primos gémeos"... o problema pode ser colocado a uma criança, mas a sua prova resiste há séculos, ou talvez há milénios, já que Euclides apresentou a prova da infinidade dos primos (simples) há mais de 2200 anos, e esses assuntos tinham a atenção dos gregos.

Acontece que, também por experiência, as coisas têm habitualmente algum nexo de causa, que nos permite uma compreensão do mundo que nos rodeia. É claro que este tipo de arquitectura faz suspeitar de um "desenho inteligente", a compasso da noção de um arquitecto divino. Ora, isso não acrescenta informação, apenas transfere o problema, porque essa mesma noção levanta outros problemas lógicos. Há uma outra resposta, que é parecida com o "porque sim", mas tem implícita uma informação muito maior - "é assim, porque não poderia ser doutra forma". E para se perceber um pouco dessa informação subjacente, volto à imagem de Scila e Caribdis... se não houvesse nenhum nexo, nada seria inteligível, e se o nexo fosse facilmente prescrutável, não seria necessária nenhuma inteligência complexa, porque a complexidade nem sequer existiria. Isto é mais ou menos óbvio, muita gente intui este "ter que ser assim", e ainda que seja entendido não é assumido, nem é reconfortante.
Há uma pretensão subjacente de compreensão absoluta, esquecendo a questão do aprofundamento no remoinho de Caribdis - caso tudo fosse explicado, entendido e corrigido, o que nos motivaria para o dia seguinte?

Também por constatação - algo muito científico - verificamos que as coisas ocorreram de uma maneira e não de outra. Isso levou à noção de determinismo, associada indelevelmente à noção de "destino". Talvez por receio de conotação religiosa, e para evitar a desresponsabilização humana, essa noção caiu em desuso no início do Séc. XX. A modelação humana iria ganhar supremacia face ao desenrolar do universo... ridículo, mas tido como "científico". As coisas eram colocadas desta forma: "a moeda tanto pode cair em cara ou coroa", uma constatação de modelação da possibilidade que escondia a impossibilidade de se saber se iria ser uma coisa ou outra. Não é errado pensar em probabilidades, mas é de um absurdo e arrogância considerar que a nossa incompreensão é que modela o universo. E, no entanto, hoje quase ninguém se atreve a dizer o contrário. Porque dizer o contrário é também assumir a impossibilidade do livre-arbítrio, e há que responsabilizar escolhas...
A noção de decisão surge da modelação interna que fazemos do que nos rodeia. O nosso modelo é obviamente impreciso, e por isso não conseguimos antecipar o resultado. Aliás se isso fosse possível, significaria que nos identificaríamos com o universo, e não haveria surpresas, nem tão pouco razão de ser. Ora, como a nossa modelação é imprecisa, pensamos em cenários, em diferentes possibilidades, e daí surge o conceito de que temos escolhas, e de que uma acção diferente levaria a outro resultado. Temos as mãos atadas ao volante, e seguimos o destino nos carris, sem distinguir se é o volante que vira por acção das nossas mãos, ou se são as nossas mãos que viram por acção do volante que segue os carris... e pensamos que poderíamos ter virado atrás noutra direcção, ou que teremos poder de decisão na próxima curva. Aí não seremos enganados, já vemos os carris, e viramos noutra direcção... seguindo os carris, porque os que víamos eram afinal parte do cenário onde contemplamos as diversas possibilidades.

O aumento da nossa compreensão não reduz necessariamente a nossa incompreensão, porque novos problemas se colocam. A melhor compreensão permite apenas que estejamos "mais sintonizados" com o que nos rodeia. A fabricação de logros, enganos, armadilhas, não é nenhuma evolução especial, e pode ser encontrada como forma de sobrevivência ou defesa em muitos animais, não é propriamente uma invenção da inteligência humana... e se há novidade é em ser usado contra a própria espécie. Aliás, se há espécie empenhada em eliminar os seus próprios elementos, é a humana...
O jogo entre a percepção interna e a realidade externa foi estabelecido há muito na "natureza", e tem um sucesso limitado. Em última análise, serve para caçar alguns, durante algum tempo, até que se torne quase irrelevante pela sua previsibilidade, dada a melhoria de percepção dos sobreviventes, ou pela competição interna que anula os predadores.
No jogo entre a fabricação de realidades e a percepção desse fabrico, uns procuram distorcer a percepção, e os outros apuram a compreensão e identificação das distorções. Uns afastam-se da realidade procurando criar um mundo à sua medida, os outros vão, por força das circunstâncias, apurar a sua percepção para a distinção entre realidade e fabricações.

No limite, uns pretendem uma manipulação artística do universo, transformando-o num teatro dos seus modelos, e para isso vão parasitando tudo, inclusivé as descobertas alheias, dos que abnegadamente vão aumentando a percepção científica. A essoutros, resta a convicção profunda, ou fé, de que o universo não se poderá reduzir a uma manipulação teatral. Uns acreditam que o fabrico de uns tantos artífices terá engenho suficiente para submeter tudo e todos, outros acharão que essa pretensão megalómana é "ligeiramente" excessiva... dado o universo em questão. 

Porém, convirá perceber que se devemos diminuir o drama das hostilidades, algumas dificuldades, adversidades, não podem deixar de existir, sob pena de estagnação... afinal, "viver feliz para sempre" é apenas uma frase aplicável a vegetais, desprovidos de sistema nervoso.

The Cure - "Where the birds always sing" (*) 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A Mina e A Méjica

Neste "peça a peça" vou colocando algumas das coisas que fui vendo ao longo destes três anos, mas que aqui não escrevi, porque acabavam por ser "mais do mesmo". Mais provas, e alguma documentação, que ia sempre ao encontro da tese principal - a História ensinada é uma estória onde se esconde outra história...
Como me vou relembrando de algumas coisas, e encontrando outras novas, acaba por me parecer útil reunir os diversos elementos, que acabam por acrescentar alguns detalhes. O material é tanto que dará para encher muitos textos, mas são essencialmente muitos indícios do mesmo, e não propriamente grandes novidades.
É claro que é fácil rebater um documento isoladamente, enquanto que contra uma extensa lista de documentos e evidências, a Academia usa os expedientes habituais:
- ignora até poder, pode também falar em "algo absurdo" ou em "algo interessante" (é indiferente), mas requer mais explicações (infindáveis, ao bom estilo kafkiano), e quando, esgotando a paciência de todos, finalmente aceita... nada faz, e continua a ignorar como antes, até que venha a nova geração, e tudo se repete. Andamos nisto há séculos... podemos dizer milénios. 
Temos aqui exemplos ilustrativos.

O assunto é sobre a descoberta do Brasil, e menciono três textos.
- Uma bem conhecida carta de Mestre João Faras, um espanhol da migração judaica, ao serviço do Rei de Portugal, D. Manuel, na esquadra que colocou o carimbo de descobrimento no Brasil.
- O livro de Faustino da Fonseca, "Descobrimento do Brazil" e um texto com o mesmo nome, de Garcia Redondo, académico brasileiro, que cita e elogia Faustino. Ambos os textos são do início do Séc. XX, passaram-se 100 anos, e praticamente estão esquecidos. O texto de Garcia Redondo é mais curto, e encontra-se mais facilmente... já o de Faustino não se encontra às primeiras tentativas.

Mestre João
Sobre a carta de Mestre João, descoberta por Vernhagen no Séc. XIX, não há muito a dizer, bastaria um "sem comentários" e ler bem o que ele escreveu. Há uma página razoavelmente completa na Wikipedia, há a documentação na Torre do Tombo, e a transcrição associada:

Excerto da carta de Mestre João (Faras), onde desenha 
o Cruzeiro do Sul para orientação do pólo antártico.

O que tem a descrição de especial? Não é apresentar o Cruzeiro do Sul, pois desde as viagens aceites de Diogo Cão em 1482 seria impossível não o ver...
A maior particularidade é esta citação:
Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem Pero Vaz Bisagudo e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-múndi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa dos antigos e ali achará Vossa Alteza escrita também a Mina.
Portanto, Mestre João, que acaba de chegar ao Brasil com Pedro Álvares Cabral, diz que aquela terra estava num mapa de Bisagudo. 
Resumindo: por acaso acabavam de descobrir o Brasil, mas tinham deixado em Portugal um mapa que já tinha desenhada aquela costa. 
Há gente que engole isto, e de facto só tem um problema de interpretação dado o significado da palavra "des-cobrir" - Cabral conseguiu "descobrir" por sorte, já o mapa de Bisagudo, esse ficou "encoberto" por azar.
Há um detalhe que ninguém parece mencionar, mas que para mim é muito importante... a Mina.
Aquilo que se torna claro é que a Mina era na América, ou antes - havia um Castelo da Mina junto aos incas, e um Forte da Mina no Benim - algo que escrevi há três anos, quando reparei no paralelismo das descrições entre as costas africana e americana.

Faustino da Fonseca e Garcia Redondo
Este episódio do mapa de Bisagudo é notado no livro 
Descoberta do Brazil, de Faustino da Fonseca.
Aliás, terá sido notado a partir do momento em que Francisco Varnhagen vai desencobrir as cartas, e há muito tínhamos referido Cândido Costa, que compilara informação no mesmo sentido. Na transição de 1900 sucedem-se os achados contraditórios, e pela não divulgação, são vários a chegar às mesmas conclusões. Uns terão ficado inconformados, outros terão-se conformado a alguma irmandade que cuida destes desvios.
Faustino da Fonseca, tentará publicar a sua compilação de factos por ocasião do 4º centenário da descoberta do Brasil, em 1900. Como ele diz, foi a popularidade do seu texto que evitou que ele ficasse completamente encoberto, e acabou por ser editado, para ser hoje convenientemente esquecido.
De acordo com a wikipedia, seria afiliado maçon, foi senador e director da Biblioteca Nacional, depois da implantação da República. Não terá sido o primeiro, nem o último director, que demonstrara antes as inconsistências na descoberta do Brasil.

Há muita informação importante no trabalho de Faustino da Fonseca, e são tantos os elementos que ele reúne que acaba por ser difícil retirar alguns do contexto.
Garcia Redondo, em palestra na Academia Brasileira, rendido à demonstração de Faustino, sintetiza assim as conclusões ("O Descobrimento do Brazil", Garcia Redondo, página 34):
  • 1436—Regista André Bianco nas suas cartas e no seu portulano as descobertas do Brazil ou Antilia, Mar de Baga e Mar de Sargaços.
  • 1447—Um navio parte do Porto e vae á Groelandia onde os marinheiros desembarcam.
  • 1448—Regista André Bianco nas suas cartas a existencia do Brazil á distancia precisa de 1500 milhas comprehendidas entre as ilhas do Cabo Verde e o Cabo de S. Roque.
  • 1452—Diogo de Teive e seu filho João descobrem a ilha das Flores e chegam á latitude da terra do Lavrador.
  • 1472—Descobre João Vaz Corte Real a Terra de João Vaz, ou Terra Nova, ou Terra dos Bacalhaus, na America do Norte.
  • 1473-1484—Affonso Sanches descobre as Antilhas.
  • 1487—Viagem á America de Fernão Dulmo e João Affonso Estreito, acompanhados de Martim Behaim, que registou, depois, no globo terraqueo que construiu e no mappa do erario real portuguez, a existencia da peninsula da Florida, das Antilhas e do golfo do Mexico.
  • 1492—Descoberta, entre 30 de Janeiro e 14 de abril, da terra do Lavrador, por João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos.
Para quem começa a ler a documentação, como diz Garcia Redondo, o que é quase impossível é mostrar que foi Colombo o primeiro a realizar tal viagem...
O mais notável será a leitura do próprio Colombo, que vai à "Terra Firme" (Colômbia, Venezuela), para confirmar da existência das terras que el-Rei Dom João II lhe assegurava existirem, ou seja, de toda a América do Sul, em particular do Brasil, demarcado pelo afastamento do meridiano de Tordesilhas.
Conforme diz Faustino da Fonseca, não era Colombo que inovava pela ideia de circum-navegação, essa ideia era vendida a D. João II, e depois a Colombo, por Toscanelli e pela academia externa, que ignorava a extensão prática da América, bloqueadora da passagem.
Reconstrução da visão de Toscanelli (1474)
(esta ideia de Circumnavegação será adoptada depois por Colombo)

Os portugueses é que se afastavam da escolástica, e afirmavam a experiência, "a madre de todas as cousas", conforme dizia Duarte Pacheco Pereira. O relato da extensão americana, que Pacheco descreve ao delimitar correctamente pela parte portuguesa do continente americano, surpreende Humboldt, já que à época as navegações espanholas nenhuma informação traziam da ligação contínua entre a América do Norte e do Sul.

A Méjica
Garcia Redondo vai ainda juntar uma nota sobre Vespúcio, e como a América resultaria de uma manobra francesa para lembrar o seu cartógrafo Rigmann... mas nacionalidades são ali uma capa que esconde outra estrutura, em que os francos são armados em galos. Redondo refere ainda a possibilidade do nome advir de uma designação dos Índios da Nicarágua para "Terras Altas".
Já aqui abordei o tema, e não me oferecem dúvidas que o termo Américo nada tem a ver com Alberico Vespúcio, que depois passou a ser conhecido como Américo...
Notei depois outro detalhe, que aproveito para escrever agora. 
Figueiredo fazia a separação - falava "da Mérica" e nem sempre da América
Ora, entre Mérico e México, temos apenas um ligeiro desvio de "r" para "x", acresce que os espanhóis ainda escrevem alternativamente "Méjico" enfatizando o som "r" no nome.
Por outro lado, Mexica era o nome dado ao povo Azteca, e pronunciava-se Méhícá, onde o "h" pode ser substituído sem grande distorção pelo "rr" do "j" espanhol.
Ou seja, se perguntassem a um português, diria A Mérrica, um espanhol A Méjica.
As suas malaguetas, paprikas ou amrikas, seriam afinal a pimenta, cujo o prato principal seria o ouro, disfarçadamente misturado no paralelo africano da Costa da Malagueta.
Se a Mexica caíu com Cortés, o nome já em uso acabou por brindar um Alberico renomeado Américo, mantendo-se alguma fonética original.

O atlas Miller 
Já vimos como Faustino da Fonseca (1900), Garcia Redondo (1911), ambos membros da Academia das Ciências de cada país, tomaram conhecimento do assunto, moveram-se para publicar as redescobertas, pelos cargos influentes conseguiriam alguma tomada de posição institucional. Porém, isto foi antes da Primeira Guerra Mundial, depois o assunto parece ter ficado algo esquecido, ou talvez não, e houve uma Segunda Guerra Mundial, e depois um grande silêncio.
Só que este problema acaba por aparecer ciclicamente, porque as coisas não batem certo, e alguém descobre, ou porque as coisas passam de uns a outros, quanto mais não seja em conversa casual.
Chegou-me a notícia (via KT-USA) de uma tese de doutoramento polémica sobre o Atlas Miller, de Alfredo Pinheiro Marques, na Universidade de Coimbra (e que parece ser levado o autor a mover processo judicial). Incluía-se um título significativo:

  • MARQUES, Alfredo Pinheiro
    Para o Silêncio da História: Carta ao Primeiro-Ministro do Meu País, sobre a Censura e a Mentira na História de Portugal
    [For the Silence of History: a Letter to the Prime Minister of My Country, on the Censorship and Lies in the History of Portugal], Coimbra - Figueira da Foz: Edição do Autor, 1999; 235 pp., c/il.; Dep. Legal (Portugal) 139040/99, ISBN 972-97193-2-2. The book about the censorship in Portuguese historiography and commemorations, and the international scandal of the 17th International Conference on the History of Cartography, Lisbon 1997.
Apesar de ter a curiosidade inerente em ver o que é dito sobre o Atlas Miller (de que já aqui falei), o título da "Carta ao PM" é suficientemente esclarecedor. Passados 100 anos, não foi Faustino da Fonseca a ter problemas ("O escândalo dos dramas do concurso do Centenário da Índia". Lisboa, Editora Agência Universal Publ., 1898), mas aparece sempre alguém... neste caso o director do Centro de Estudos do Mar. Se Luís de Albuquerque resistiu à tentação, parece que a nova geração nem tanto...
Não tenho grandes dúvidas que há segredos na representação das cartas portuguesas, e o mais simples - que consiste em virar o portulano de Pedro Reinel, será um deles. É bem possível que Alfredo Marques tenha identificado outros e se tenha deparado com o processo kafkiano inerente (felizmente que não é dirigido contra ele). Porém, parece-me que o segredo que escapou a Alfredo Marques é que se tratam mesmo de segredos... ainda hoje.

Essa reacção da parte culta, do culto, vi em inacção e acção há três anos... nos últimos quinze dias de Dezembro de 2009, e não me surpreendeu. Já as manifestações mais ocultas, essas vieram nos quinze dias seguintes, e deram-me uma dimensão suplementar do problema... essas diabruras é bom que fiquem de onde nunca deveriam ter saído.