sábado, 12 de abril de 2014

Ré vista (0)

No final de 2014 vão cumprir-se 5 anos sobre os textos que fui colocando em blogs, a maioria dos quais aqui e no odemaia. Vai sendo pois altura de uma pequena revisitação, e enquadramento actualizado.

Posso fazer uma divisão pessoal dos textos.

1) Tese de Alvor-Silves (de Dezembro 2009 a Dezembro 2010)
1.1) Seis partes de sete (Dezembro 2009) 
1.2) D. Fuas e o canhão da Nazaré (Janeiro a Julho 2010)
1.3) Cola do Dragão e as suas Cores (após Agosto)

2) A questão Gaia (de Dezembro 2010 a Agosto 2011)
2.1) Traffic Signs (até Março 2011)
2.2) Teogonias e o Puto de Vénus (até Agosto)

3) Peça a Peça (desde Setembro 2011, ou Abril 2012)
3.1) Primeiras Arquitecturas - Espiral (Abril até Maio 2012)
3.2) Segundas Arquitecturas - Abraçadabra (até Fevereiro 2013)
3.3) Banho maria (até Dezembro 2013 e continua)

Mais do que um mapa de navegações, tão claro quanto possível (mas com símbolos próprios), o que aqui ficou foi um Livro de Marinharia. Não sabia disso quando comecei a escrever, nem quando escolhi o símbolo do globo de João de Lisboa para o blog.

Há muita coisa que não sei, a maior parte da qual nem me preocupa saber.
O marinheiro não tem que conhecer todos os mares, mas tem que estar preparado para qualquer um.

Porém, não haja confusões. 
Não se tratou de um diário de bordo de navegações na internet...
A noção de "navegar" na internet creio que ficou popularizada com o velhinho Netscape Navigator:
... esse foi o imenso mar que a Google cartografou. São os mapas da Google que hoje definem as rotas, e foram eles que permitiram encontrar ilhas de informação pouco conhecida.

Só que há um detalhe muito importante.
Antes de nos metermos no Oceano há que saber o que procurar e porquê... senão estamos à deriva.

Visitar imensos sites, tal como visitar imensas ilhas, sem outro intuito, é apenas turismo.
Fazer um blog com curiosidades, apanhadas aqui e ali, é como fazer um álbum de fotografias dos sítios onde se foi navegar, ou passear. Depois quer-se mostrar aos outros:
- "Já viste esta? Aqui sou eu e o meu filho na selva do Bornéu!
... Olha agora esta foto do caçador de cabeças! - Queres ver as da Nova Zelândia?"

Pois. A deriva é isso. É não ter orientação. Navegar por navegar. Sem memória, sem critério.
Não é necessariamente mau, pode ser útil, mas não é suficiente.

Aqui encontram-se muitos registos de navegação, mas sempre foi claro ao que ía.
Pelo menos, na minha cabeça foi.
Num mar de mentiras, interessava perceber qual era o batel da verdade. 
Ao que eu ia, encontrei há já algum tempo, agora estou só a cartografar a paisagem circundante.
Por isso, os textos Teogonias e Arquitecturas foram um ponto final, aliás escritos com atraso, e a partir daí há uns detalhes mais importantes que outros.

Lamento, mas não é pelo facto de haver embarcações perdidas que a minha está. 
Não está. Chegou a porto ainda mais seguro do que estava antes. 
Posso viajar, mas sei sempre onde regressar.

Lamento, mas não há ilhas de verdade... há apenas batéis que navegam num mar de ilusões.
A única coisa verdadeira é a estrutura, não é a paisagem.
A paisagem é um adereço, uma máscara... só que a máscara tem que assentar nalguma estrutura.
É essa estrutura que é inabalável, ultrapassa todo o tempo e toda a mentira ocasional.
Somos feitos dessa estrutura.
O pensamento não é nada fluido, assenta em matéria consolidável - as palavras.
As palavras são elásticas, podem até servir a confusão, ou a mentira dos outros, mas não nos enganam  a nós - sabemos o significado que lhes damos.

O que somos então?
Somos meros operadores de palavras?
O que nos faz acreditar que é uma pessoa que escreve um comentário?
Já respondi aqui a textos enviados por máquinas... simplesmente porque podiam também ser enviados por uma pessoa. Tinham nexo para isso, e foram de facto pensados por alguém... 
Um interlocutor desde que apresente nexo nas respostas passará sempre por uma pessoa.
A origem tanto pode estar num humanóide, numa máquina, num habitante de 8 pernas da galáxia Andrómeda, ou no vizinho do lado... é absolutamente indiferente. Tudo se resume a palavras que são reflexo das noções profundas que nos constituem.
Quantas são essas palavras? Fundamentais, são ainda poucas, muito poucas. A maioria das linguagens é redundante, usa muitos sinónimos, ou composições de noções mais simples. 
Não quer isso dizer que não venham a ser precisas mais, simplesmente sentimo-nos completos com as que temos, e isso pode ser uma medida da nossa limitação... ou não. Isso é o tema "hélgia", no odemaia, e aqui não interessa tanto.

Se a origem da comunicação for desconhecida, mas tiver nexo novo e relevante, interessa a origem, ou a comunicação? - Eu preocupar-me-ia pouco com a origem, e muito mais com a comunicação.
Por exemplo, indo a um exemplo típico de filmes de terror... se aparecesse uma mensagem a desenhar-se na parede, era razão para ficar assustado? Pela mensagem, ou pela origem desconhecida? 
Uma mensagem nunca fez mal a ninguém, é quem a envia que pode fazer... por isso interessa apenas o conteúdo. O facto de aparecer de forma estranha, apenas indicaria uma origem sobrenatural. Ora o que assusta o sobrenatural? Saber que há alguém mais potente do que nós? Isso não é novidade para quem se habituou a lidar com a impotência. Aliás, não há nada atroz nos filmes de terror que não tenha sido pensado por humanos, e o pior que conhecemos vem de nós próprios, e dos medos não combatidos.

Por isso, a resposta é sim. Na essência somos operadores de palavras, de noções. Só compreendemos uma coisa quando a assentamos nessas palavras, senão é apenas uma emoção pessoal... e como não treinamos a partilha de emoções, as palavras são vagas e confusas para muitas delas. Funcionamos como máquinas, que perante uma situação a analisam, reduzindo a noções conhecidas, depois processam essa informação, dando uma resposta. Quando não fazemos isso, agimos por impulsos, e essa parte não é completamente nossa, porque não a controlamos racionalmente. É inútil atribuir a nós o que não é nosso... se não controlo o bater do meu coração, o que me adianta atribuir isso a mim? Se não controlamos os sonhos, o que adianta dizer que são produto nosso?

Como já disse num comentário, o nosso suporte físico parece-me tão importante quanto este texto estar a ser visto numa folha de papel, num computador, ou se a letra é Times ou Arial, se o tamanho é 10 ou 12pt.
O texto é o mesmo, o suporte físico é indiferente e irrelevante para o seu conteúdo. Também é indiferente ser escrito em português ou ser traduzido para qualquer outra língua. No entanto, é preciso ter um suporte físico, porque o texto não se escreve no vazio. 
Mais que isso... por muito que se copie fisicamente o texto, o conteúdo é o mesmo.
Por isso, é para mim algo inútil procurar explicações ou divisões biológicas. Não interessam para nada.
Se entender que um animal processa respostas como um humano, é para mim um humano.
No entanto, essa noção é socialmente inútil se os outros não considerarem o mesmo. 
Os outros são sempre um referencial de controlo do acordo. 
Não aprendemos as palavras sozinhos, elas servem a comunicação. Da vibração caótica de múltiplas partículas podem surgir frequências comuns - um universo onde há um acordo de acordes.
Por isso a comunicação é importante, e provavelmente por isso, tudo o que sabia antes estava limitado pelo guardar, por não ver ali interesse ou concerne alheio generalizado.

Este é um registo de marinharia.
O mar é a informação que recolhemos ao longo do tempo, seja na internet, ou onde for. Navegamos na vida, e mais que a história dos outros, convém não perder muito a memória da nossa história.
O único batel que temos é individual, mas podemos comunicar... pelo menos aqui, neste espaço físico.
Ao contrário do que se pensa, o tempo não é linear, tal como a Terra não é.
Os outros batéis desaparecem na linha do horizonte, mas isso não significa que caiam no precipício da morte. A ideia de que o mundo acaba no horizonte visível é apenas uma ilusão local devida à curvatura... e também não se encontra na linha do horizonte com nenhum céu.
A estrutura do batel é suficientemente sólida, mas as vagas são altas e podem meter medo.
Não adianta muito unir os batéis e navegar em comboio quando há tempestade.
A água entra a jorros pelo batel se a compreensão não for suficientemente estanque às ilusões.
Não se afunda, mas pode-se ficar muito tempo isolado à deriva.
Para onde navegamos?
Antes disso é preciso encontrar o nosso porto. Essa é a primeira parte da navegação.
O primeiro passo é que cada um esteja seguro do seu porto, e não pense que é seguindo os outros que o encontra... ou então que tem que haver disputa pelo melhor sítio para apanhar vento. Sem conhecer os ventos, tanto se pode afastar como aproximar da costa. 
Há pretensas naus que cruzam os mares a grande velocidade, com orgulho nas suas velas enfoladas... mas para onde vão? Quo vadis?

Portanto, por muito que veja as velas enfoladas, a pergunta será sempre - já conhece o seu porto?
Só depois de se conhecer bem esse caminho é que se pode saber até onde se pode afastar da costa.
Este é um registo de marinharia, mas não é para marinheiros de água-doce, nem para flibusteiros errantes.

10 comentários:

  1. Muitos parabéns pelos dois blogues... Foi por mero acaso que descobri este blog e tenho que agradecer à Maria da Fonte... porque foi ela que acabou por me dar a dica numa troca de comentários num grupo do Facebook... ;-)
    Continue a sua viagem em busca de mais conhecimento... creio que é essa busca que acaba por nos unir a todos... e cada um segue a sua própria rota e quem sabe para chegar ao mesmo destino...
    Bom.. posto isto... e como não consigo resistir, apesar dos avisos... deixo aqui mais um link ;-)... trata-se de um blog sobre investigação arqueológica em Portugal - mais precisamente sobre o período pré-histórico...
    "This personal blog is about Portuguese ditched and walled enclosures of Recent Prehistory. The aim is to make available information, old and recent, empirical or theoretical, about this kind of archaeological sites in Portugal, in a language that makes it accessible to a larger audience. All are invited to contribute with information, images or bibliography. Hopefully, we can make this an interesting initiative.."
    O curioso é que está escrito em inglês...
    http://portugueseenclosures.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sempre muito simpática, Amélia, obrigado.
      Não conhecia o blog e fiquei interessado. Achei piada andarem à procura dos fossos com o Google Earth. Isto só mostra como o secretismo nacional é bloqueador. A Força Aérea deve ter imagens áreas de todo o país, há imenso tempo... só que nunca as publicariam. Deve ser precisa uma autorização XPTO, e deve estar arquivado em top secret - e assim, usa-se o Google...
      Há instituições nacionais que, de tão sigilosas, vão acabar por guardar o vazio...
      Assim como a Google tornou ridículo o secretismo sobre imagens aéreas, há imensas outras áreas de conhecimento "secreto" que estão a ser reveladas, e tornam obsoleto e ridículo todo o secretismo.
      Mas, para manterem o negócio, vão sempre parecer que escondem ainda alguma coisa relevante.

      É curioso o mapa dos fossos e fortificações... está quase tudo na Estremadura e Alentejo.
      É pena é não se verem mais imagens das peças encontradas - as figuras de Perdigões são muito interessantes. O coelhinho aqui:
      http://portugueseenclosures.blogspot.pt/2012/02/0076-animal-figurines-at-perdigoes.html
      parece-me mesmo muito realista.

      Sobre o inglês, acho que quando é material científico de interesse geral, é mais útil. Eu aqui também escrevi coisas em inglês e teria feito mais se tivesse apanhado algum interlocutor estrangeiro. Basicamente o registo que tenho de visitas é de 60 mil de Portugal, 45 mil do Brasil, e as restantes 30 mil são principalmente dos EUA e Rússia.

      Eliminar
    2. Caro Da Maia

      Como o tempo passa!
      Cinco anos a navegar....e parece que a viagem começou apenas ontem.
      Saímos do Porto de Lagos, uns com Henrique, outros com Pedro.
      Eu, espírito de contradição, fui com Afonso V.
      E nesta Máquina do Tempo, em que seguimos os seus passos, por todos os Mares e atravessámos todas as Passagens, será que algum dia conheceremos o Princípio?

      Um grande abraço de Parabéns

      Maria da Fonte


      Eliminar
    3. Muito obrigado, Maria da Fonte, companheira desde as primeiras ondas.
      Mas, bom só no final do ano é que faz 5 anos, eu estou a antecipar as coisas para não ser surpreendido pela constatação de que passei 5 anos mergulhado nestas profundezas do mar Oceano, ou Ciano.

      Eu saí com o Désir do desejado Pedro, das sete partidas, isso nunca escondi, não é?
      Mas esse Pedro fui deixando passar, quando vi melhor que o DESIR reportava à Cola do Dragão:
      http://alvor-silves.blogspot.pt/2010/11/la-cola-del-dragon-draco-cola.html

      É muita coincidência mencionar o Porto de Lagos, porque eu tinha começado este texto assim.

      Assim, porque fiz férias em Agosto de 2009 em Lagos, e passado pouco mais de um mês encontrei os mapas que me embrenharam no assunto até não mais largarem.
      Estive ali a banhos na Meia-Praia, com Alvor de um lado e Lagos do outro... ainda que tivesse ficado num hotel junto da praia de Dona Ana. Curiosamente acho que nem voltei ao Algarve...
      já bastavam aquelas assombrações que tinha trazido - eh eh!

      No entanto, como era algo mais pessoal, que tento relativizar, faço sempre o esforço de não me alongar com considerações pessoais, e suprimi essa introdução sobre Lagos. É muito curioso que tenha referido isso agora.

      Há muitos Princípios.

      O principal, o primeiro de todos, esse encontrei-o, está aqui:
      http://alvor-silves.blogspot.pt/2013/02/arquitecturas-5.html
      http://alvor-silves.blogspot.pt/2013/10/banho-maria.html

      ... e eu sei que posso não conseguir convencer mais ninguém disso, nem me interessa, mas ali está tudinho, do princípio ao fim do universo, não há rigorosamente mais nada. Apenas eternas repetições não iguais do mesmo.

      É estranho que uma coisa tão simples dê tanta complicação? É.
      Porém, não podia ser doutra maneira. Qualquer átomo, qualquer partícula tinha que ser sempre constituída de alguma coisa anterior, e o que temos são arrumos de universos mais elementares, que se foram complicando a cada repetição. É perfeito, porque a mais ínfima partícula é o universo todo no estado anterior. O infinitamente pequeno é o que acabou de ser infinitamente grande.

      Agora esse é apenas o princípio fundamental, está longe de revelar as complicações que gera. Podemos saber que os grãos de areia se contam um a um, mas estamos longe de conseguir saber o número exacto que há na praia. No entanto, tal como sabemos que há um número determinado de grãos, também é possível saber que tudo está previamente determinado.
      Mais que isso, o equilíbrio é intrínseco e inevitável, mas não é um equilíbrio a curto prazo.

      Há um jogo entre a igualdade e a diferença.
      Queremos igualdade pela justiça, mas não queremos igualdade pela monotonia.
      Queremos diferença pela diversidade, mas não queremos pelo protagonismo ou domínio.
      Porém essas noções nossas são recentes, porque as noções inteligentes são ainda novidade no universo. Sendo recentes, ainda não foram dadas voltas suficientes para distinguir onde as coisas vão ficar estáveis. Não se podem abolir, porque a diversidade exigirá sempre antagonismos, tal como há estrelas de calor máximo e planetas de frio extremo... podemos é escolher climas temperados. O grande ensinamento budista é sempre procurar a linha do meio...

      Abraços, e obrigado.

      Eliminar
  2. Caro Alvor Silves

    O balanço sereno que faz que da sua actividade aqui deste blogue é um espelho da integridade, da honestidade e do nível de cultura que tem colocado nos seus posts ao longo destes anos.

    Por eles tive acesso a áreas omitidas ou "inconvinientes" do conhecimento (história, artes, arqueologia, etc.).

    Bem haja e não perca o ânimo para continuar!

    Clemente Baeta

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro Clemente Baeta, muito obrigado pelas palavras e pela nova visita.
      Até fico um pouco surpreso, porque a ideia de balanço era apenas para reforçar o aspecto crítico e não esperava ler simpáticas palavras.
      A sua visita há um ano fez-me refazer em detalhe o assunto dos Painéis, mas a minha ideia será agora bem mais ligeira para os outros textos.
      Creio que estou em dívida com uma recensão crítica mais aprofundada ao seu livro, e vejo que já tem novo material. Porém, espero que compreenda que quis tirar umas férias dos painéis, e acho que as nossas posições ficaram bem definidas na interessante conversa que trocámos há um ano.

      O principal ânimo deve ser sempre encontrado na nossa vontade, porque se for levado pela vontade dos outros, pelo seu reconhecimento ou rejeição, estaremos profundamente dependentes de algo que não podemos controlar.
      Pode apresentar os melhores argumentos, a fundamentação mais objectiva, e ainda assim deparar com uma parede do outro lado. Por outro lado, pode ver as coisas mais mal amanhadas serem reconhecidas como grandes ideias. Não interessa se é por obstinação, complot, ou fundado desinteresse. Interessa que pode acontecer, tanto num sentido como noutro.
      Por isso, os outros são sempre um referencial que não podemos perder, mas contam tanto quanto nós próprios. Uns não se substituem aos outros.
      Em última análise parece que são tudo opiniões, igualmente válidas, mas não são.
      Até certa altura até podem ser, até ao momento em que há incertezas e falhas ou defeitos de ambas as argumentações.
      Porém, quando uma coisa fica racional e clara como a água, faz-se uma distinção fundamental. Quem aceita a racionalidade, apesar da sua opinião anterior, e quem não aceita, por simples obstinação.
      Podem ser todos contra um, mas aí não há cedências... porque quem ceder ao irracional perde o caminho racional, e vai entrar nas tempestades do caos, onde tudo é possível, porque se perderam todas as referências de racionalidade.
      Por isso, os outros interessam, mas só até ao ponto em que haja comunicação racional viável, porque a opinião irracional é perfeitamente irrelevante, nem que sejam todos contra um.

      Abraços.

      Eliminar
  3. Caro Da Maia

    Foi pelo Porto de Lagos, que passei a maior parte dos últimos quinze anos da minha vida.
    Com Sagres de um lado, e o Alvor do outro.

    Passei. Já não passo.
    Perdi o Mar Oceano, e o Sol, que só existe ao Sul.
    E parte da minha vida.

    Foi o preço que paguei, por viver num país que há cinco séculos, se enredou, num labirinto de subserviência irracional.

    Confesso que até embarquei pelo Tallant. Mas foi só até encontrar o rosto de Afonso V, e perceber a sua verdadeira dimensão.
    Foi então que comecei a olhar para o outro lado do Mar, e percebi, que o fim da minha viagem, já não era na América.

    Que talvez nem tivesse fim.

    Não nos conhecemos uns aos outros, mas quem sabe, talvez nos tenhamos cruzado pelos incontáveis grãos de areia, em Agosto de 2009.

    Abraços

    Maria da Fonte




    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A vida de Afonso V parece-me bastante traumática.
      É o primeiro príncipe, mas fica cedo sem o pai e a mãe é afastada. Fica no meio das guerras dos tios, acabando por matar o tio e sogro, Pedro. A custo consegue evitar que a mulher, filha de Pedro, seja banida, mas ela morre cedo, deixando praticamente a filha Joana como educadora de D. João II.
      Para além desse problema com a corte na juventude, ainda vai ter os problemas com Espanha pela defesa da sucessão da sobrinha, Joana, com quem acaba por se casar, mas que não pode reconhecer depois da derrota de Toro.
      Do princípio ao fim tem a vida massacrada pela influência cortesã dos Bragança, que nunca hesitaram aliar-se a Castela para minar a linha Lencastre. Só descansaram quando trouxeram os Filipes para recuperarem as terras que D. João II confiscara.

      Gil Vicente é bem explícito:
      Afonso de Bragança é o filho primogénito do Mestre de Avis e de Inês Pires. Ela era filha de um suposto sapateiro judeu Pêro Esteves que ficou conhecido como o Barbadão, por fazer promessa de não cortar a barba, dada a honra perdida da filha.
      Ver também "A herança do Barbadão":
      http://books.google.pt/books?id=Fb1XAAAAcAAJ

      O que diz Gil Vicente:

      Ó inferno, eramá! Hiu! Hiu!
      Barca do cornudo, Pero Vinagre(1), beiçudo, rachador d'Alverca(2), huhá!
      Sapateiro da Candosa(3)! Antrecosto de carrapato!
      Hiu! Hiu! Caga no sapato, filho da grande aleivosa(4)!
      Tua mulher(5) é tinhosa e há de parir um sapo(6) chentado no guardenapo! Neto de cagarrinhosa(7)!

      (1) Pero Esteves, o Barbadão, o avô sapateiro judeu.
      (2) Alverca-Alfarrobeira, onde Afonso de Bragança "rachará" o Infante D. Pedro.
      (3) Referência ao avô, sapateiro, e ao confronto junto à Candosa, de que Afonso fugiu:
      http://goismemorias.weebly.com/iminente-batalha-nas-vaacuterzeas.html
      (4) Inês Pires, mãe, pode ser inspiração também para a Farsa de Inês Pereira, juntamente com Beatriz Pereira.
      (5) Afonso casa com Beatriz Pereira, filha única de Nun'Álvares
      (6) Fernando de Bragança, morto depois por D. João II
      (7) Inês Pires

      Isto é praticamente o que já tinha aqui falado, acrescentando que à data não mencionei o sapateiro Barbadão, Pero Esteves.
      http://alvor-silves.blogspot.pt/2012/12/adamastor-26122009.html

      Bom, isto só para dizer que Afonso V foi muito permissivo às jogadas dos Bragança, que só foram parados por D. João II, aí já de forma drástica (o que era natural - o avô, o pai, a mãe, etc... todos tinham sido vítimas dessas jogadas cortesãs da barca do Barbadão).

      Não sei nos cruzámos pelas areias ou ruas de Lagos em 2009, mas acabámos por nos encontrar em palavras, ainda que nunca nos tivéssemos encontrado em vistas... e mantemos uma conversa há anos, em parte nenhuma.

      Abraços continuados.

      Eliminar
    2. Caro Da Maia

      Esta é uma das passagens mais mal contadas da História.
      Acha mesmo que um Infante, ou um Rei, se envolve com a filha de um sapateiro Judeu, e dá um Ducado ao filho de ambos?

      Por amor da Santa!

      Interessante Metáfora, para mal-explicar o poder que os Judeus sempre tiveram em Portugal.

      Inês Pires...Mais uma.
      Porque existem várias.
      Uma suposta Ana Abravanel. Aqui o nível até já subiu... à Banca...Portanto mais perto da verdade.
      Uma Pelicana Judia....aqui desceu outra vez... por conveniência...

      Em Portugal, os Monumentos ou são Romanos, ou são Templários.
      Em Portugal as fontes de deslize, ou são Mouras ou são Judias.
      Pouco abonatório para as Portuguesas....

      Só que a Barca é a do nosso Inferno, e não consta que Baal Zebul, Príncipe dos Demónios e Senhor das Moscas, fosse sapateiro.

      De qualquer maneira, Alfarrobeira, tem mais buracos que queijo suisso.
      Colombo é um Buraco Negro.
      Tordesilhas é mais falso, que as licenciaturas de certos políticos da actualidade.

      E até agora ninguém explicou, qual foi a necessidade de se representar um Infante de Aviz, Mestre do Templo, e diz-se, que de nome Henrique, suposto Rei da África Atlante ( Atlante e não Atlântica), com o rosto do REI DOM AFONSO V.

      De nowhere
      Com abraço

      Maria da Fonte

      Eliminar
    3. Cara Maria da Fonte,
      não é afinal semelhante a história do Mestre de Avis?
      Quem era a mãe, Teresa (Lourenço)? Filha de comerciante (talvez judeu) lisboeta, ou dama galega acompanhante de Inês de Castro?

      Portanto, se Afonso é filho de uma aventura de D. João I, o próprio João é filho de uma aventura de Pedro I com a "anónima" Teresa.
      Isso impediu que lhe dessem o importante Mestrado de Avis, ou que depois o fizessem Rei? Não. Houve resistência, mas muito apoio também.
      Por isso, se João, filho bastardo de Pedro I, comandava uma Ordem Militar, qual o problema?
      Mesmo assim Afonso, seu filho bastardo, só foi Conde de Barcelos e Conde de Ourém pelo casamento com a filha de Nun'Álvares.
      Por isso, João nem pode fazer directamente ao filho o que tinham feito por si... foi preciso casá-lo!
      O ducado de Bragança recebeu-o só depois pelas instigações que fez junto do jovem Afonso V, a que o regente Infante D. Pedro, anuiu.

      De qualquer forma, a Maria da Fonte levanta um ponto muito importante.
      Não era qualquer moçoila que podia aparecer no meio do caminho real e ter um bastardo... quem controlava essas tentações humanas poderia deter um poder efectivo sobre a descendência, como se viu com D. João I, e com D. Jorge. Os filhos de Inês de Castro também rondavam...

      Só que isso começa antes, e com um episódio menos conhecido, mas mais instrutivo!
      Começa com D. Dinis e com Afonso Sanches, seu filho bastardo!
      http://pt.wikipedia.org/wiki/Afonso_Sanches
      Foi de tal forma que Afonso IV teve mesmo guerra com o pai, dada a preferência que evidenciava pelo bastardo, e que ameaçava a sucessão.
      Afonso IV ganhou essa batalha de amores, deve ter procurado evitar fazer o mesmo... mas não conseguiu evitar que o filho D. Pedro I o fizesse!
      Gosta de coincidências?
      Onde chegou a viver Inês de Castro? - Num castelo de Afonso Sanches, entretanto exilado em Espanha...

      Por isso, D. Afonso IV quando elimina Inês de Castro é pela protecção efectiva a D. Fernando, que seria ameaçado pelos filhos bastardos dela.
      Sentira essa ameaça com o favoritismo do pai, D. Dinis, a Afonso Sanches, e não quereria que o neto fosse vítima da mesma trama, que o levou a ter armas contra o pai, na Batalha de Alvalade.

      Ora, há alguma razão que faça começar esse tipo de problemas com bastardos a partir do reinado de D. Dinis?
      Pois, é óbvio, não é?
      Quem tinha acabado de chegar em força? Os templários... e tem aí a ligação judaica pela filiação remota da ordem.

      Acabados de chegar ao reino, quereriam ter influência directa nos destinos da governação, e nada melhor que uma mulher para (des)orientação do rei.
      Por isso, os reis poderiam ter quase todas as mulheres... mas muito provavelmente nem tinham, e eram só conduzidos a algumas, mais facilmente manipuláveis, e previamente arregimentadas para outro tipo de planos externos.

      Assim, o nosso pretendente a rei pode invocar a descendência de Afonso Henriques, como muitos milhares ou milhões entre nós, mas não pode é esquecer a descendência directa do Barbadão (ou talvez nem isso, pois era tido como cornudo).
      A diferença entre Inês Pires e outra irmã, é que uma se fez à linhagem da coroa, e a outra provavelmente teve uma prole campesina. A vergonha do Barbadão é a linha dos Bragança, e a sua honra com outra filha foi esquecida nos linhos beirões, talvez de sapateiros ou outras artes.

      Abraços.

      Eliminar