domingo, 29 de novembro de 2015

Climas do Atlas Miller

De entre os mapas do Atlas Miller, as duas folhas que seriam destinadas ao Oceano Pacífico (mas que são entendidas referir-se à Baía de Bengala, o que é algo ridículo por não coincidir com outro mapa que tem a Baía de Bengala), estavam decoradas de forma fantástica, com um grifo de um lado, um dragão do outro, várias cidades, um contorno de costa completamente irreal, uma embarcação com a cruz de Cristo, e várias outras com o crescente islâmico.

Um dos mapas no Atlas Miller (1519), de Pedro Reinel, Jorge Reinel, ou Lopo Homem.
Às inscrições de cidades cujas letras se podem entender como Maniole, Candiu, Ardua, Xiaz Regio, Meceazes, Cundala Regio, Macaela, Cobari, Zacata, Gala Regio, Corinta, Molor Regio, Bei Regio, referindo-se certamente a locais de mapas ptolomaicos, que não interessa aqui recuperar exactamente, juntam-se outras igualmente estranhas de rios. Uns desapareceram de menção, outros ganharam forma posterior aproveitando a nomenclatura antiga. Aproximadamente esses nomes são Soba, Catabeda, Tocosanus, Sadus, Temala, Phasius, Arabs, In, Palanda, Chriso, Saenus, Vindius, Chaberus, Soana, Tynu, CanaPor exemplo, o rio Chaberus era associado ao Ganges, e outras associações podem ser vistas em bibliografia adequada, como o Dicionário de Geografia Grega e Romana, de William Smith

Notavam-se ainda possessões com a bandeira portuguesa, numas ilhas ou arquipélagos de nomes perdidos Parloco, Mocalor e Batuca (há uma referência a este assunto num texto de L. F. Thomaz de 1995 - The Image of the Archipelago...) Uma outra bandeira estava ligada aos "Chiis" (chineses, à época denominados "chins" - talvez se devendo ler "quins").

Bom, não é bem o tema do Atlas Miller, que foi da atenção cuidada de Alfredo Pinheiro Marques, conforme mencionei antes, que me traz directamente a este texto.

Na altura (há seis anos) achei curiosa a forma da escrita, separando de forma algo exótica as palavras, e num caso pode ler-se apenas LIMA PR  IM  V. Rapidamente percebi que se tratava de CLIMA PRIMUM, o primeiro clima, acima do Equador... mas o "C" estava ausente, a menos que fosse entendido como o "C" do crescente azul. E isto era curioso, porque me pareceu que o nome da cidade Lima no Perú pudesse resultar duma confusão num mapa enigmático deste género, suprimindo o "C" em "CLIMA". A história toponímica contada para Lima é completamente diferente, mas também esquece que os mapas portugueses de João de Lisboa atestam uma história muito distinta para a colonização. 

Claro que esta mudança de Clima para Lima é quase tão especulativa quanto as mudanças de clima que se inventam nos dias que correm, mas não tão mal fundamentada.

Agora, o que interessa mesmo é que há uns minutos fiz uma pesquisa para um dos rios que se encontrava no Atlas Miller. Procurei "Palanda" e ao fim de algumas tentativas fui-me deparar com esta proeza geológica nos Andes, resultante certamente de muitas alterações de clima.

O sagrado monte Mandango - "the sleeping Inca guards over Vilcabamba" (Equador).

Portanto, existe mesmo um rio Palanda no Perú-Equador, cujo nome passa a rio Maya-Chinchipe, saindo das vizinhanças de Lima vai parar a um dos afluentes do Amazonas, o rio Marañon.

A formação geológica, o Mandango, com ângulos bem cortados, coloca em dúvida sobre se será completamente natural, apresentando ainda cumes algo piramidais. Parece pouco conhecido, quando comparado com outras atracções locais (há uma outra Vilcabamba no Perú que foi uma das cidades perdidas de Manco Tupac, mas muito menos conhecida que Machu-Pichu).

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