sábado, 12 de agosto de 2017

Pirâmide de crânios

No mundo quinhentista, um dos vários antecedentes que levaram a uma escalada de tensão entre turcos, árabes e cristãos, ocorreu em 1560, na ilha tunisina de Djerba, num episódio particularmente cruel e macabro. 
Expor corpos mortos, como forma de impor respeito ou terror, terá sido uma prática antiga, em particular medieval, onde desde esqueletos pendurados e cabeças espetadas em lanças, faziam parte de uma paisagem ameaçadora, com o intuito de manter a ordem... a ordem existente, claro está, pouco interessando outra. Mas, estas exibições macabras raramente durariam mais que alguns dias, meses ou anos.

Ora, pela sua duração - durante 320 anos (de 1561 até 1881) - a exibição de uma pirâmide empilhada com crânios de cristãos decapitados, conhecida como Borj er Rous ("Torre de Crânios"), foi talvez uma das mais longas exibições de impiedade, construída ao largo do castelo Borj el Kebir, à vista de todos os que passassem pela ilha de Djerba.

A pirâmide de crânios tinha 9 metros de altura, e teria sido erguida com um número que poderia atingir as 5000 vítimas - soldados invasores.
Estampa com a Pirâmide de Crânios, de soldados cristãos, mortos numa invasão falhada.

O macabro monumento só foi destruído pelos franceses, quando em 1881 a França invadiu a ilha, e a Tunísia ficou então como protectorado francês. As ossadas foram levadas para um cemitério cristão, e em substituição, os franceses ergueram um obelisco com dimensões semelhantes.

Foto com o Obelisco francês, que veio a substituir a Pirâmide de Crânios.

Antes disso, podemos ler um artigo relevante, na revista portuguesa Archivo Popular, que contava a história desta batalha em Djerba, e do destino funesto que ocorrera ao exército enviado por Filipe II, que pretendia recuperar o controlo da ilha, e de Tunis - antes conquistada pelo seu pai, Carlos V. 
Aquando do artigo (1840) o macabro monumento ainda se encontrava em exibição em Zerbi... (Zerbi ou Gerbi, foram outras formas de escrever Djerba):


Extractos da notícia do Archivo Popular em 1840 (nº3 pág. 22 , continuada no nº4 pág. 30)

Brevemente, a esquadra cristã tinha como almirante principal o genovês Giovanni Andrea Doria, incluía as forças do grão mestre maltês Jean de la Vallete (ver Santelmo), e o vice-rei espanhol da Sicília, Juan de La Cerda (ou Lacerda... em ambos os casos, "La Cerda" significa "A Porca", antigo nome dos duques de Medina-Sidónia). 
La Cerda, o vice-rei espanhol, ficara responsável pelo desembarque, onde contava com José de Savedra para o comando das tropas. De início, a população árabe foi apanhada desprevenida, as tropas cristãs lideradas por Savedra cometeram excessos, particularmente atrozes, e segundo o Archivo Popular, isso motivaria uma vingança desesperada (usando uma comparação notável com os índios norte-americanos). Acresceria ter sido uma vítima de Savedra a princesa Zobah, filha única do chefe árabe Yokdah, provavelmente um corsário, para aguçar a forma da vingança. 
Tendo sido eficazes os pedidos de ajuda árabes à armada turca, levaram à fuga do almirante Doria, e à fuga de La Cerda (que nem havia desembarcado), ficando os soldados cristãos liderados por Savedra à sorte do cerco da população, tendo sido todos decapitados, por ordens de Yokdah, que teria sido particularmente cruel com Savedra, colocando depois o seu crânio no topo da pirâmide.  

O crânio no topo da pirâmide, do comando da armada, não foi a cabeça que ficou no topo da pirâmide de caveiras. Filipe II não estava, Doria escapou, e La Cerda também, ficando apenas Savedra como crânio visível, já que a inteligência se guardou convenientemente nos bastidores.

Ao contrário de Carlos V, seu pai, Filipe II nunca ousou participar nas incursões à Tunísia. Em 1574, Tunis acabou por cair em domínio turco (até à conquista francesa), e o Mediterrâneo continuou a ser alvo dos diversos ataques da armada turca, por Turgut Reis, com ênfase em Malta, e os raides de corsários bérberes estendiam-se até ao Atlântico, do Algarve às costas da Irlanda e Islândia. Algo que praticamente só terminou com o domínio marítimo de ingleses e franceses no Séc. XIX.

Nesta expedição, conhecida como Batalha de Djerba a derrota cristã foi enorme, tendo perdido mais de 60 navios e uma estimativa de 14 000 homens.
O monumento vitorioso foi bastante macabro, e foi repetido pelos turcos, na concepção da Torre das Caveiras, aquando da primeira tentativa de revolta da Sérvia, em 1809... já que os rebeldes de Stefan Sindelic preferiram fazer-se explodir, do que serem empalados pelos turcos.
A ideia de que as civilizações muçulmanas, ou cristãs, têm na base uma filosofia religiosa que promove o respeito pela "pessoa humana", confirma-se... sempre que não há excepções, e as excepções ao respeito humano, foram quase sempre a regra. Para conveniência da reescrita histórica, esta pirâmide macabra é colocada como "obra de corsários, piratas", parecendo que durante 320 anos, nenhum poder islâmico teria capacidade de fazer o que os franceses fizeram - demolir!

Também aqui vemos como certas derrotas são convenientemente ocultadas, nos bastidores da história de Filipe II, e outras empresas mais francas e destemidas, como a de D. Sebastião, tiveram o badalo acusatório sempre a funcionar. Como se o Infante D. Henrique não tivesse sido levado também a empreender uma desastrosa aventura terrestre a Tanger, onde salvou a sua vida em troca da vida do seu irmão, o Infante D. Fernando. 
A cobardia, desonra e falta de carácter, parecem manter um lugar cimeiro na história mundial da falta de vergonha, mais preocupada com alguns fins alcançados, do que com a falta de princípios pelo meio. Enquanto os historiadores continuarem a ser piores que bobos da corte do despotismo vencedor, é certo que a moralidade reinante continuará pelas ruas da amargura.


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Viriato I, Apimano, Cesarão, Cancheno...

A lista de celebridades lusitanas contra o poder romano, normalmente só inclui um nome - Viriato.
No entanto, há várias referências a outros protagonistas, e em particular a dois Viriatos.

Viriato I
Este primeiro Viriato podemos vê-lo mencionado em [1], em 3 pontos distintos:

  • "Em Portugal houve dois Viriatos: um era Regulo, que passou com Annibal a Italia acompanhado de seus vassallos, como refere Silio Itálico lrv. 3, o outro foi mais conhecido, e destro na lança, que no cajado, como diz Camões, e segundo aííihna Justino liv. ult, não produziu Hespanha outro varão mais valeroso em muitos séculos do que Viriato."  (pg. 269)
  • (a propósito de Aníbal): "constavam suas tropas, além de africanos, de um grande número de Lusitana soldadesca, vetones, turdulos, e celtas, da qual era commandante Viriato I." (pg. 150)
  • "Escolhida pois Itália para theatro da guerra, principiou Anibal a assombrar os romanos; e sendo muitas, e repetidas as batalhas, em que os nossos occupavam sempre as testas dos exercitos, como lugares mais arriscados, vencendo os cônsules Cneyo Servilio, Cajo Flaminio, Lucio Emilio, e Cayo Terencio, nenhuma grangeou para a fama nome de maior permanência, que a chamada batalha de Canas; na qual depois do primeiro Viriato ter morto seis mil romanos, lhe tirou a vida o cônsul Paulo Emilio, cuja perda resarciram os nossos incitados da indignação, e vingança, chegando a escalar cincoenta mil soldados inimigos em recompensa de um só Viriato."  (pg. 150)  [Sil. Ital. lib. 10. Resond. lib. 3. de Antiquít.]

Apimano, Cesaron e Cancheno
  • "Entre os nossos capitães, que deixaram resplandecente nome na venerável duração da memória, foram Apimano, Cesaron, Chancheno, Viriato, e Sertório, cujas gloriosas proezas occupam até as historias dos que pertenderam diminuir-lhe a fama." (em [1])
  • "N’este governo (de Marco Manilio) floreceu um insigne capitão bracarense, chamado Apimano, a quem se seguio Cesaron, que ambos aterraram os romanos." (em [1], p.153)
  • "Os Lusitanos tendo escolhido para seu Capitão o esforcado Apimano, abismaram as Aguias Romanas, e puzeram essa perturbação a toda a Roma. Senhor das campanhas o nosso Capitão Apimano, imperiosos com o seu governo os Lusitanos ganhavam victorias, e fora ellas muitas Cidades. Por sua morte escolheram para successor de Apimano ao Lusitano Cesaron e o fizeram seu commandante com tanta fortuna, e gloria da Pátria , como susto e terror da mesma Roma. A passo largo buscava o Pretor Lucio Mumio ao nosso Cesaron , que encontrou erabaracado na passagem do Guadiana, e se valeo deste embaraço para o esperar em Villa-Viçosa, onde medidas valerosamente as armas, cedeo o valor Lusitano ao maior numero de forças Romanas, e quando os nossos fugiam, Cesaron para; inrísta a langa contra os tímidos, compóe-se logo hum esquadrão , os Lusitanos todos correm a buscar as suas bandeiras , e conseguem derrotar ínteíramente o Inimigo, com perda de maís de dez mil Romanos. Que valor! Que herocidade! "   (em [2])
  • "Triunfante entrou Cesaron por Lusitania , carregado dos despojos Romanos , quando em outro encontro nos desbaratou Mumio, e perdeu a vida Cesaron. Os Lusitanos elegeram logo por seu Capitão a Cancheno, Cidadão de Lisboa, que ganhou a Cidade de Cunisturgi, penetrando até Gibraltar, sem haver quem lhe impedisse o passo. As nossas tropas se dividiram, humas forao continuar a guerra na Andalusia, outras passaram a conquistar em África as Cidades Carthaginezas." (em [2])
  • Capítulo XXVI da Monarchia Lusytana de Bernardo de Brito: "De como os portugueses de Entre-Douro e Minho tomaram por seu capitão a um bracarense chamado Africano e das Guerras que fizeram aos Romanos"
  • Capítulo XXVI da Monarchia Lusytana de Bernardo de Brito: "Da guerra que os portugueses tornaram a tomar contra Roma, debaixo da Capitania de Cesaron, e da insigne victória que alcançaram do Pretor Lúcio Mumio."
  • "Victoriosos os Bracarenses e aliados, foram queimando tudo desde o Guadiana até ao Estreito de Gibraltar, sem dar perdão a morador, ou edifício, que pertencesse ao povo Romano; subiram pela Anduluzia tão felizes que os Vetões Portugueses da Extremadura juraram perder as vidas por defender as bandeiras do General Bracarense Africano; ganharam Cidades, e Presidios Romanos, em que deixaram novas guarnições; só lhes resistiam os Blastofenices, cercada a Cidade, e Apimano querendo dar exemplo ao exército no escalar os muros, foi o primeiro que subiu para montallos; porém os defensores que já se julgavam perdidos, querendo vender caras as vidas, mataram Apimano às lançadas; e o exército vendo-se sem Capitão, perdeu logo o costume de vencer, cada hum buscou a sua pátria, e cessou por algum tempo a guerra. Elegeram os Bracarenses, e aliados em lugar de Apimano outro Português valoroso, chamado Cesarão, este prevendo o despique dos Romanos compôs nosso exército entrou nas terras, que obedeciam a Roma, e foi tal o damno, e o roubo, que a toda a presla os vexados pediram ao Consul Quinto Fulvio Nobilior viesse socorrellos, e domar os povos de Celtiberia, e os Numantinos, de quem os Romanos sempre tiveram receyos bem fundados..."     (em [3]) 
  • "Vemos Apimano,  nome que a Historia nos transmittiu como de um esforçado  capitão, e com grandes talentos para a guerra, ser nomeado general d'aquelle povo : vêmol-o obrigar os povos vizinhos a insurgirem-se contra o poder de Roma, e reunirem-se às suas bandeiras : vêmol-os lançarem-se sobre os romanos e expulsarem-os das suas terras : vêmol-os, em fim, ousarem esperal-os novamente em campo, vencerem-os, e tomarem-lhes até o proprio arraial, onde acharam ricos despojos! A noticia d'esta derrota immediatamente se enviou de Roma novo Pretor que perdeu tambem a pri meira batalha que se aventurou a offerecer aos Lusitanos : e estes atravessaram o Guadiana, e fizeram tributario todo o paiz até o Estreito ! Depois de tantas derrotas, estes feitos de armas podem reputar-se maravilha". (em [4])
  • "Neste meio tempo Apimano morreu na escalada de Blatophenice; e este golpe fatal desvaneceu, em parte, as esperanças dos Lusitanos, que levantaram immediatamente o cerco para na patria fazerem as ultimas honras funebres ao seu general. -  Bem conheceu este povo as tençôes de Roma com aquelle reforço que mandou à Peninsula, sob as ordens de novos capitães, e por isso tractou quanto antes da sua defeza. Noméaram para general a Cessarão ou Cœsaras, que servira sob as Ordens de Apimano." (em [4])
Só depois deste trio: Apimano, Cesarão e Cancheno, é que sucede Viriato a reunir as tropas contra os romanos, e sendo quem teve mais exito, terá aniquilado a memória do primeiro Viriato. 
Estes três nomes desaparecem quase por completo na literatura do Séc. XX, mas reais ou lendários, fizeram parte da literatura ou historiografia portuguesa.

Referências:
[1] "Mappa de Portugal. Antigo e Moderno." de João Baptista de Castro (1700-75), edição de 1870 revista e acrescentada por Manuel Bernardes Branco.
[2] "Gabinete Histórico", de Cláudio da Conceição, edição de 1818 dedicada a D. João VI.
[3] "Academia dos humildes, e ignorantes", de Joaquim de Santa Rita (1762).
[4] "História de Portugal" de Francisco Araújo (1852)




sexta-feira, 4 de agosto de 2017

São Martinho e São Sebastião, de El Greco

A 4 de Agosto de 1578 deu-se a batalha de Alcácer Quibir, e o desaparecimento de D. Sebastião, com 24 anos de idade. Deixamos aqui dois dos seus retratos mais conhecidos, e depois uma representação de São Martinho, pelo pintor espanhol "El Greco", de origem grega.

 


Que o quadro de El Greco, realizado uns 20 anos depois de Alcácer-Quibir, na figura de S. Martinho me fez lembrar imediatamente as representações anteriores de D. Sebastião, pois isso não há nada a fazer, e que o tenha visto pela primeira vez exactamente neste dia (4 de Agosto), também não.

Adiante... porquê São Martinho?
Ora, acontece que Malyn Newitt no seu livro "Portugal in European and World History", diz na página 93, algo muito interessante, a propósito da "Armada Invencível" de Filipe II:
"The flagship of the Armada was the now veteran São Martinho, which had accompanied Dom Sebastião to Morocco and had already served three times as the flagship of Spanish armadas in the Atlantic."
Ou seja, existia um grande galeão português, de nome São Martinho, que teria acompanhado D. Sebastião na expedição de Alcácer-Quibir, e que encabeçava em 1588, dez anos depois, a frota comandada pelo Duque de Medina-Sidónia, no planeado ataque à Inglaterra. (Esta informação é razoavelmente diferente da que consta na Wikipedia, enfatizando que o galeão teria sido construído em 1580.)

Independentemente do resto, ficam algumas questões: 
- o que aconteceu aos galeões, naus, ou caravelas, que transportaram o exército de D. Sebastião a Marrocos? Aparentemente, de Tanger terão regressado a Portugal, sem uma boa parte do exército de D. Sebastião, que acabou preso em Marrocos; 
- quem teria dado a ordem de regresso, uma vez que o rei estaria "desaparecido em combate"?
- ou ainda, quem tinha ficado com o comando da força naval estacionada em Tanger? estaria excluída a opção de atacar navalmente Laracha, para proteger uma retirada? 

Doménikos Theotokópoulos, muito antes de ser catalogado como "El Greco", começou por pintar, assim que chegou a Toledo, em 1577, a figura de um São Sebastião algo confiante e indiferente às setas que lhe atravessavam o corpo:

Porém, no final da sua vida, entre 1610-14, irá fazer um outro retrato de São Sebastião, muito mais estilizado, e o qual chegou ao Séc. XX dividido em duas partes, tendo a parte de cima sido recortada. 

Não penso que tenha havido propriamente uma vontade de mutilar a parte superior, mas muito mais uma vontade de separar a parte superior da parte inferior. Para perceber a razão desta necessidade de separação, mostramos a parte inferior do quadro de S. Martinho e a parte inferior deste quadro:
... ora o que se veria em ambos os quadros seria a mesma paisagem - Toledo à distância, com as mesmas muralhas, arcos e pontes.

A inconveniência do assunto seria estabelecer a relação entre um e outro... entre um São Martinho, que tem uma figura de cavaleiro que - desde as feições, à armadura, à cor do cabelo, e jeito das mãos - se pode identificar com o retrato de D. Sebastião feito por Cristovão de Morais; e entre o outro, que sendo de São Sebastião, se identificaria naturalmente com o monarca sacrificado, pelo nome do santo.

Além de tudo o resto, a genialidade de El Greco parece evidente, mesmo na técnica... como se tivesse saltado uns séculos para antecipar o movimento modernista parisiense, onde Picasso viveu, e muito se terá inspirado nele. 
Que El Greco não poderia ignorar o drama de D. Sebastião, isso parecerá visível até para um cego, pois para um grego sob domínio veneziano e sob ameaça turca, que chega a Toledo no momento em que D. Sebastião vai desaparecer em África, combatendo a expansão turca, seria difícil considerar que em nada lhe interessava a matéria. 
Porém, por outro lado, trabalhando para Filipe II, já terá sido uma sorte ter resistido o quadro de São Martinho, facilmente argumentando que o modelo poderia ser um qualquer outro cavaleiro alourado, com armadura da época, e que não fosse D. Sebastião, montado no seu cavalo branco - até porque faltava o nevoeiro (... e mesmo assim a pintura original acabou nos EUA). 
Que outra associação mais directa levaria a que lhe "cortassem as pernas", parece ter acontecido literalmente com o segundo quadro de São Sebastião, dado exibir a mesma paisagem de Toledo, que esteve assim, com a parte das pernas separada do corpo.

Que o mendigo se encontra numa posição semelhante à reservada ao canídeo, no quadro de Cristovão Morais, e que o último São Sebastião terá afinal passado da posição de cavaleiro à posição de martírio, poderá ou não relacionar-se com o destino dos pretendentes sebastianistas, que acabaram condenados e mortos... sendo o Prisioneiro de Veneza mais credível que os outros.

Enfim, tudo poderá não passar de uma pequena série de coincidências... como também se pode encarar como uma série de coincidências - o sol nascer e pôr-se todos os dias. A diferença está na compreensão - num caso pode ficar-se dependente de rezas e sacrifícios para o sol ir renascendo, noutro tipo de compreensão isso tornou-se simplesmente ridículo...


Aditamento [5/08/2017]:
Donizetti, o grande compositor italiano do "Elixir do Amor", teve seu último sucesso na grande ópera "Dom Sebástien", cantada em francês e estreada em Paris em 1843, com base numa peça ficcionada de P. Foucher, com um grande sucesso teatral em 1839.

Dom Sebastien - ópera de Donizetti (em 1998, pela Orquestra de Bolonha).

Apesar do libreto ser inspirado no tema da sucessão do rei português, juntava num mesmo palco D. Sebastião, Camões, o Prior do Crato, e até uma princesa árabe, visando adicionar à história elementos exóticos e românticos.
Donizetti terá escrito a Mayr:
           «Neste momento estou a escrever uma nova ópera em cinco actos para Paris. É D. Sebastiano di Portogallo - você vai reconhecer a história da mal fadada expedição organizada pelo rei contra os mouros, a perda do seu exército e a sua morte que ainda hoje permanece misteriosa. O assunto resume-se a isto. Vai ainda incluir o grande poeta Camões - a inquisição que trabalha secretamente para tornar Portugal num escravo de Espanha - um pouco de tudo na realidade.»

Esta foi a última ópera das 75 escritas por Donizetti, que após isto foi entrando num estado de demência progressivo, levando à sua morte alguns anos depois.
Esta ópera é especialmente pouco conhecida em Portugal, onde não sei se alguma vez terá sido apresentada, apesar do grande sucesso que teve na sua estreia em Paris, há quase 175 anos.


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Raczynski: Les arts en Portugal (1846)

Conde Atanazy Raczynski
Os condes Raczynski foram considerados uma das famílias mais influentes na Polónia, até pelas ligações que teriam aos Habsburgos, que dominavam o Império Austro-Húngaro. Como em toda a boa família aristocrata, um aspecto muito relevante é a sua capacidade serpentina, ou seja, a faculdade de se tornarem praticamente invertebrados, ou vertebrados altamente flexíveis, o que no caso significou colaborar com a ocupação prussiana da Polónia no Séc. XIX.

O conde Atanásio Raczynski serviu o consulado do governo prussiano em Portugal, durante 1842-48, e aproveitou a sua estadia nestas paragens bárbaras para relatar (em francês) o "estado da arte" em Portugal, num conjunto de 29 cartas compiladas sob o título "Les arts en Portugal".

O relato acaba por ser importante, porque só uns 20 anos antes é que Cirilo Machado, em 1823, tinha compilado sistematicamente um registo de pintores, gravadores, escultores e arquitectos que tinham trabalhado em Portugal, com o título: 


... sendo por isso considerado o primeiro historiador da arte portuguesa. 
Aliás Cirilo Machado nem sequer teria publicado a obra, foi por iniciativa do seu editor (da Impressora de Victorino Rodrigues da Silva), que a obra saiu sob a forma de livro, e viu a luz do dia.
Como estas coisas tendem a apagar-se de novo, porque afinal as sombras vivem do ocultar da luz, estive entretido a colocar estas menções na Wikipedia em português, onde praticamente não havia qualquer referência ao assunto. Mas quero destacar especialmente as palavras do editor ao publicar a obra de Cirilo Machado:
"Julgamos fazer à Pátria, e à Glória Nacional algum serviço publicando estas Memórias, que seu Autor recolheu com sumo trabalho, e que a sua modéstia, e natural encolhimento não ousou publicar em sua vida. Ninguém poderá duvidar que são muito escassas, e até inéditas as notícias de todos aqueles Artistas, que enobreceram a Nação por meio de suas Obras, quando os Vasaris, Rafaeis Sopranes, Rossis, Leonardos da Vinci, e Palominos se ocuparam em deixarem à posterioridade um monumento precioso, tem havido entre nós o mais ingrato silêncio, não perpetuando a memória de muitos Portugueses nelas insignes."
No entanto, como seria de esperar, o impacto desta obra foi reduzido, e só tive conhecimento dela notando o nome de Cirilo Machado como título da 27ª carta de Raczynski. Mesmo o relato de Raczynski, apesar de extensamente divulgado à época, teve um impacto europeu reduzido, e a arte portuguesa continuou como uma pequena nota de rodapé europeia, escrita em francês.

No entanto, Atanásio Raczynski vai começar por apresentar uma tradução de um texto notável de Francisco de Holanda, resultado da sua estadia em Roma, onde este teve a oportunidade de travar extensas conversas pessoais, acerca de pintura, com o famosíssimo Miguel Ângelo. Um livro com esses diálogos está disponível em português:

de Francisco de Holanda (1546)

É sobre esses diálogos que me interessa fazer uma pequena consideração, porque Francisco de Holanda diz o seguinte no prólogo:
Mas de uma coisa é infamada Espanha e Portugal, e esta é que em Espanha, nem em Portugal, não conhecem a pintura, nem fazem boa pintura, nem tem sua honra a pintura; e vindo eu de Itália há pouco tempo trazendo os olhos cheios da altura do seu merecimento e os ouvidos dos seus louvores, conhecendo nesta minha pátria a grande diferença com que esta nobre ciência é tratada, determinei-me bem, e como fez César ao passar do rio Rubicão, o qual era muito vedado com armas aos romanos, assim eu (se me é licito comparar, sendo pequeno, com homem, tamanho senhor) me ponho como verdadeiro cavaleiro, e defensor da alta princesa pintura, oferecido a todo o risco por defender o seu nome, com minhas poucas armas e possibilidade.
.........................
Isto é especialmente curioso, porque dificilmente vemos hoje que a Espanha tenha tido um problema de pintura (o mesmo não se passando em Portugal). Contudo, basta reparar que a sucessão de grandes vultos da pintura espanhola, de El Greco e Velasquez a Picasso, passando por Goya e tantos outros, toda essa sucessão é posterior ao reinado do imperador Carlos V, que aliás escolheu o italiano Ticiano como retratista.
À data em que escreve Francisco de Holanda (1546), Doménikos Theotokópoulos estava numa Creta ocupada por Veneza, tinha 4 anos, e estava ainda muito longe de se tornar conhecido como "El Greco". Portanto, a frase justifica-se por não terem ainda aparecido os primeiros grandes vultos da pintura espanhola.
Mas a frase de Holanda ainda surpreende, por revelar que o impacto de Nuno Gonçalves, ou mesmo Grão Vasco, entretanto falecidos, se tinha havido algum, teria sido puramente nacional, e muito circunscrito. Com efeito, nem o trabalho de Grão Vasco, desenvolvido especialmente em Viseu, teria merecido a fama cortesã lisboeta. Quando D. Manuel tomou posse do reinado, os Painéis de S. Vicente teriam desaparecido do olhar público, e provavelmente só terão sido brevemente desenterrados durante a posterior "reinação" de D. Sebastião. Como essa obra, tantas outras, inconvenientes às mitologias manuelina e bragantina, terão sido varridas para debaixo do tapete.

Finalmente, com a descoberta das pinturas rupestres em Altamira, e em tantas outras cavernas  e grutas espanholas, ficou bastante caricato ver-se escrito que, em Espanha, "não conhecem a pintura, nem fazem boa pintura". É claro que tal conhecimento antigo, pré-histórico, estaria afastado de Francisco de Holanda, e do comum cidadão renascentista, mas não estaria fora do conhecimento de alguns círculos próximos do poder de Roma, não se resumindo aí a uma academia de jogos florais.

Para terminar, ainda com uma referência a Raczynski, Joaquim de Vasconcelos que, em 1896, edita a obra ("Quatro diálogos da pintura antiga..."), diz o seguinte:
Finalmente, abonam a boa educação literária do Holanda, as precoces relações com André de Resende, uma celebridade peninsular, que tinha regressado em 1533 a Portugal com relações universais, europeias. A amizade entre os dois é anterior à saída do Holanda, que partiu aos 20 anos. Raczynski, que quasi nada sabia da história da Renascença literária em Portugal, e ainda menos da história dos humanistas portugueses, avaliou mal a posição do nosso pintor na corte e na sociedade do seu tempo, antes da viagem à Itália. Não percebeu como Holanda, educado nos paços de dois Infantes, e pensionista d’El-Rei, pôde entrar facilmente nas relações de Miguel Angelo, o qual sabia muito bem que atrás do Rei de Portugal estava seu omnipotente cunhado, o César [Carlos V]. Vittoria Colonna sabia-o igualmente; não ignorava que os Colonnas tinham parentes em Portugal, os Sás Colonnezes, uma numerosa e ilustre família. Não estava em Roma o Cardeal D. Miguel da Silva, amigo de Castiglione, e certamente da Marquesa, para lho lembrar?
............ 3/08/2017

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Monistichon, de Nicolau Coelho

Nicolau Coelho do Amaral escreveu em 1554 obras que antecedem a Monarquia Lusitana de Frei Bernardo de Brito, de que já aqui falámos. Em particular, escreveu em latim o curto manuscrito:

de Nicolau Coelho do Amaral

em que apresenta uma cronologia da Monarquia Lusitana muito semelhante à de Bernardo de Brito, que é mais extensa e detalhada.
Para os que acusam Bernardo de Brito de ter inventado Laimundo de Ortega e as suas antiguidades lusitanas - "De Antiquitatibus Lusitaniae", pode ver-se perfeitamente que o resultado seria praticamente o mesmo, que neste Monostichon de Nicolau Coelho, que não citou tal obra, e apresenta a mesma ordenação de eventos:

1. de Iobel sine Tubal; 2. de Ibero; 3. de Iubalda; 4. de Brigo; 5. de Tago;
6. de Beto; 7. de Geryone; 8. de tribus fratribus; 9. de Hispali; 10. de Hispan;
11. de Hercule; 12. de Hespero; 13. de Atlante; 14. de Sic Oro; 15. de Sicano;
16. de Sic Ano sine Sic Ulo; 17. de Luso; 18. de Sic Ulo alio; 19. de Testa; 20. de Romo;
21. de Palatoo; 22. de Caco; 23. de Erythreo; 24. de Gorgoris; 25. de Habide.

Aliás, desde a apresentação dos registos de Beroso por Ânio de Viterbo que as alterações da cronologia divulgada por Annio foram menores, e muitas das críticas vulgares podiam ser igualmente feitas aos portugueses e espanhóis que lhe deram algum crédito - e que incluem André Resende, João de Barros ou até Camões - sendo autores anteriores, e suficientemente distantes de uma visão ibericista filipina, que muitos argumentam estar na origem da propagação de tal mitologia.

Aliás podemos ver que os portugueses da época foram razoavelmente conservadores e cautelosos na adopção das histórias de Annio de Viterbo, e talvez o primeiro registo seguidor se tenha verificado por influência do historiador flamengo João Vaseu ou do espanhol Florián de Ocampo.

O nome do frei Nicolau Coelho do Amaral é hoje praticamente desconhecido, mas sendo o nome Nicolau Coelho associado a um navegador que acompanhou as viagens de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, muito elogiado nos Lusíadas, convém referir que Bernardo de Brito o tomava apenas como Nicolau Coelho, sem ver qualquer confusão de nome com o navegador secundário elogiado nos Lusíadas. A eventual importância deste frei Nicolau Coelho, é que teria sido o primeiro a assumir por completo a versão lendária da Monarquia Lusitana, uns vinte anos antes da publicação dos Lusíadas, já que André de Resende só o fizera muito parcialmente.

O que está em causa pode ser facilmente entendido, conforme já o disse antes.
A Bíblia no seu Velho Testamento apenas apresentava a versão judaica duma "história antiga", indo ao ponto de um detalhe excessivo, para um encadeamento de personagens menores, tribais. Referências a outros povos e culturas são praticamente inexistentes, sintoma de uma religião que professa apenas um "povo eleito por Deus". Num florescimento do cristianismo que aceitava o Velho Testamento, seria um incómodo negar a existência antiga de paragens que não tivessem tido contacto judaico. Os registos de Flávio Josefo e Eusébio de Cesareia apontavam para um sacerdote caldeu, de nome Beroso que, após a invasão de Alexandre Magno, teria escrito em grego (por volta de 290-280 a.C.) uma "História da Babilónia", a pedido de Antíoco. Essa versão ajustaria com o registo judaico seguido por Flávio Josefo, mas também ajustaria com outras narrativas.
Os manuscritos de Beroso estavam perdidos e só se conheciam as referências de outros, nomeadamente Sincelo no Séc. IX, que terá assim compilado uma história das dinastias egípcias. O texto de Laimundo de Ortega, sendo também do Séc. IX, poderia usar as mesmas referências, verdadeiras ou falsas.
Não parece ter grande significado saber se Ânio de Viterbo teve acesso a uma versão original ou falsificada de Beroso, já que o próprio registo de Beroso seria duvidoso. Convém notar que a história judaica tinha sido reescrita após a libertação dos judeus do cativeiro babilónico, por Ciro, e por isso não é de estranhar que tome tantos pontos comuns com outros registos babilónicos. Certamente que os babilónios não quiseram fazer dos judeus os protagonistas da sua história, e por isso a versão judaica, feita ao tempo de Ciro, seria convenientemente modificada.
Nem tão pouco seria claro que Beroso quisesse transmitir aos gregos uma versão independente dos acontecimentos, mas tão somente uma versão adaptada, semelhante à que os judeus teriam tido acesso. Numa perspectiva de que os vencedores reescrevem a história, qualquer ideia diferente teria pouco sucesso, e aparentemente Beroso terá tido bastante sucesso entre os gregos, ao ponto de lhe ter sido erguida uma estátua em Atenas.

O que parece ter bastante significado será o que se seguiu... num misto de adopção e crítica à divulgação de Beroso por Ânio de Viterbo. Primeiro, porque pretendeu-se resumir todas as conjecturas à cópia viterbense de Beroso, quando há múltiplas referências que não resultam daí. A crítica preguiçosa seguiria esse caminho fácil. Depois, porque se muitos são os nomes que parecem ser simples modificações convenientes para uma história fabricada, outros detalhes seriam completamente redundantes e injustificados.
Os principais detractores parecem esquecer é que se estas histórias particulares de cada nação foram banidas, como se tivessem peste, mas a história judaica não sofreu qualquer abalo.
O Velho Testamento, com as suas lendas e personagens, continuou a ser propalado como texto fundamental, especialmente entre protestantes, para além dos óbvios judeus. Mas não apenas no aspecto religioso explícito, como também no aspecto religioso-científico:

- Será perfeitamente aceitável ver alguém escrever "cidade do tempo do rei Salomão", ou "castelo do tempo do rei Artur", mas algo desgraçado alguém escrever "citânia do tempo do rei Brigo".

E a razão será simples... há mitologia politicamente correcta, e politicamente incorrecta! Apenas isso.

domingo, 25 de junho de 2017

A pinha na pinha

Uma outra tradição do S. João são os martelinhos, agora de plástico, com o sucesso da novidade introduzida nos anos 70, e que substituiu o uso mais antigo dos alhos-porros:
A enorme multidão que se junta no S. João, na cidade do Porto
e alhos-porros contra molhos de erva cidreira, à venda com manjericos.

A wikipedia remete o culto a tempos pagãos, associando-a a uma festa de fertilidade, onde o alho-porro tomaria o papel masculino e a erva cidreira o papel feminino, invocando mesmo uma antiga canção recolhida por J. Leite Vasconcelos (Revista Lusitana, Vol. 32-34, 1934), que dizia:
Até os moiros da Moirama festejam o S. João, 
com pandeiras e violas, com canas verdes na mão
... podendo informar que a tradição se teria mantido forte, mesmo durante a ocupação árabe.

Ora, procurando um significado para os "alhos-porros", vamos muito rapidamente discorrer sobre Baco, ou Dionísio, daí passar às vacas, às pinhas, ao santo Tirso, a Osíris, ao caduceu de Hermes, às representações dos Annunaki, com a sua árvore da vida, e à Cabala, passando pela glândula pineal.
A sequência, que assim parece resultar de alguém que não bate bem da pinha, já estava parcialmente feita, e o resto são outras junções naturais, que me agradam encontrar. Se são conexões mais ou menos forçadas, fica ao leitor de julgar, por si próprio.

i) Do alho-porro a Baco com o tirso
Começamos com uma representação do deus grego Dionísio, equivalente ao romano Baco:
O deus Dionísio exibindo o seu Thyrsus (imagem daqui)

Ora, esta imagem de Dionísio dá uma ligeira ideia de que o deus se preparava para ir também ao S. João do Porto, munido do seu alho-porro... mas não se trata bem de um alho-porro. 
O bastão era encimado por uma pinha, envolvido em hera e ramos de videira, tem um nome que não é alheio ao Porto - já que o nome desse bastão é Tirso, e perto do Porto encontra-se Santo Tirso (e mesmo que o nome da localidade seja remetido a um deus galaico, Turiaco, há quem tenha feito a natural associação).

Como Baco era um deus associado à sexualidade libertina, mesmo que as suas seguidoras sejam agora designadas de bacantes, parece fazer mais sentido popular que fossem chamadas pelo simples feminino de Baco, ou seja, Bacas... o que, fora da região do Porto, se lê "Vacas", que afinal é o nome ainda usado para mulheres menos contidas sexualmente.

Que o símbolo Tirso parece sugerir um elemento fálico, é opinião praticamente unânime, e que as bacantes usassem os tirsos como arma nos bacanais (festas em honra de Baco), parece bater certo com o bater da pinha na pinha dos moços, passando as pinhas no S. João a mais simpáticos alhos-porros evitando causar males à pinha. O comum uso da palavra pinha para cabeça encima bem com o assento desta na espinha.

Finalmente, outro elemento digno de nota é que nos rituais de Baco a representação do lado feminino se fazia em conjunto, com um cântaro... por um lado conveniente recipiente para o vinho do deus Baco, e por outro, uma representação associável ao útero feminino.
Um cântaro com duas esfinges e uma possível "árvore da vida" - (Museu do Louvre)

ii) A pinha de Osíris aos Annunaki
No caso dos bacanais, a pinha podia ainda ser envolta em mel, simulando a ejecção seminal, mas passando esses detalhes desnecessários, encontramos em Osíris, o deus egípcio, um bastão também encimado por uma pinha
 
... este bastão egípcio, ao ser enrolado por duas serpentes, não deixa de lembrar o caduceu dos deus greco-romano Hermes/Mercúrio, que se tornou um símbolo do comércio, e onde o uso da pinha foi substituído por um par de asas.

Por outro lado, nas representações de Annunaki (ou Anedotos), vemos o uso sistemático de uma pinha, mas aí sem encimar um bastão. O mesmo uso de uma pinha simples pode ser visto no Vaticano, em vestígios de tempos romanos, mesmo que o Papa não deixe de usar habitualmente um ceptro encimado parcialmente por uma pinha, de onde sai um Cristo crucificado:
 
A gigantesca Pinha de Bronze no Vaticano, e o ceptro papal com uma pequena pinha (img).

Em algumas representações dos Annunaki, para além do uso da pinha numa mão e de uma bolsa na outra, estes ladeiam uma estrutura que é encarada como representante de uma "árvore da vida":
Dois Annunaki ladeiam uma "árvore da vida" (imagem)

Repare-se na semelhança desta figura com a representada no cântaro (em cima), onde em vez dos Annunaki, apareciam duas Esfinges. A questão é que se a pinha pretendia representar o elemento masculino, então parece que a bolsa, tal como o cântaro, poderia ser usada para uma representação do lado feminino. 
O formato desta suposta "árvore da vida", com diversas ligações intrincadas, já foi associado a outro símbolo cabalístico, por exemplo usado pelo judeu espanhol Gikatilla, no seu Portaelucis (e cujo título também pode servir de anagrama para Portucaelis), ainda que aí o número de nodos tenha ficado fixo a 10 (e depois a 11).

Porém o que é mais interessante, é que tirando as ligações, o que vemos na imagem em cima, no centro, é uma possível representação de um Tirso.

Tanto mais que há outras imagens de Anedotos (ou Annunaki) que parecem mostrar isso mesmo:
Nesta imagem, em que os Anedotos aparecem disfarçados de peixe, e não com uma máscara de águia, ao centro, no lugar da "árvore da vida" vemos o que nos parece ser um Tirso.
Também pode ocorrer que neste caso se pretendesse figurar o tirso masculino, e na imagem anterior se pretendesse representar uma versão mais complicada do cântaro feminino.

iii) A pinha e a glândula pineal
Finalmente, outra relação que é apontada segue no caminho místico da "pinha" poder pretender significar um conhecimento profundo da "glândula pineal", nomeadamente com uma relação com dimensões superiores... ou como René Descartes chegou a pretender, estar ali uma ligação entre o corpo e a alma. Ou ainda, mais esotericamente, ver uma relação entre o olho de Osíris e a posição dessa glândula, enquanto "terceiro olho".
Neste caso é mais fácil seguir a versão científica. 
A glândula pineal liberta hormonas que regulam o sono, num período de cerca de um dia (circadiano), permitindo manter o ciclo do sono, independentemente da luz do dia. Inicialmente poderá ter funcionado como um olho primitivo dos vertebrados, mas a evolução dos vertebrados fez perder esse olho, mantendo em praticamente todos a glândula pineal, para uma regulação interna do sono.
Portanto, se a glândula pineal parece permitir o acesso a uma nova dimensão, ela ocorre através do nosso encontro diário com o mundo dos sonhos, e não é nenhum exclusivo humano, já que essa glândula existe praticamente em todos os outros vertebrados.
Neste caso a única relação visível com a pinha é o seu formato minúsculo lembrar uma pinha... e daí o nome que lhe foi dado.



quinta-feira, 22 de junho de 2017

O fogo - tradição junina e joanina

Lembro-me de em criança ver saltar as fogueiras de S. João.

Num texto que aqui escrevi há 4 anos sobre Fernão de Oliveira,  citei o manuscrito onde ele remetia para Vitrúvio e Diodoro Sículo, a especulação de que a linguagem teria tido como origem um grande fogo nos Pirinéus:
"(...) primeiro souberam falar os da nossa terra. Porque Vitrúvio diz no 2º livro dos seus Edifícios que, ajuntando-se os homens a um certo fogo, o qual por acerto com grande vento se acendeu em matos, e ali, conversando uns com os outros, souberam formar vozes e falar. E não dizendo ele onde foi esse fogo, conta Diodoro Siculo, no 6º livro da sua Biblioteca, que foi nos Montes Pirinéus (...)"
Gramática da Linguagem Portuguesa. Fernão de Oliveira (1536)

Sim, lembro-me de ver saltar as fogueiras de S. João. Creio que nunca saltei, porque enquanto criança era um bocado "flor-de-estufa", e o fogo assustava-me o suficiente para me afastar dele.
festa junina terá passado a festa joanina por razão do condicionamento católico que varreu toda a Europa durante a Idade Média. 
Ou seja, como é sabido, as festas do solstício, que assinalavam a entrada do Verão foram reprimidas, e a população encontrou nova forma de comemoração... usando o pretexto do nascimento de S. João Baptista. De acordo com o Evangelho de S. Lucas, o primo de Jesus teria nascido 6 meses antes, o que dava um jeito providencial. Assim, se o Natal entrava na comemoração do solstício de Inverno, o S. João entrava na comemoração do solstício de Verão. 
Por isso, as comemorações juninas, de Juno, de Junho, passaram a comemorações joaninas, de S. João... especialmente conhecido pelo baptismo - pela água! Apesar da pequena contradição, de usar o "fogo pagão" para celebrar S. João que proclamara o uso da "água purificadora", a Igreja tinha a sapiência suficiente para não forçar demasiado a quebra das velhas tradições.
Tinha pelo menos mais tolerância do que as multas até 5000 euros, passadas agora a quem decidir levantar uma lanterna de Kongming, afinal o mesmo balão de S. João que no ano passado o primeiro-ministro e o presidente da república ajudaram a lançar no Porto. Se repetirem a graça este ano, os dois máximos representantes do estado, ajudam à festa, oferecendo uma multa aos foliões. 
Um pouco na linha sarcástica das companhias de seguros, que todos os anos nos dizem que temos o "vencimento" do "prémio" do seguro. Alguém se poderá queixar da falta de sentido de humor desta sociedade?

Ora, o baptismo foi pensado como necessário porque o nascimento encerrava um "pecado original", coisa notável que Santo Agostinho, no "brilho" do seu intelecto pantanoso, argumentara ser transmitido hereditariamente desde Adão e Eva, e que para salvação da alma impura, desobediente às instruções de Deus sobre a Árvore do Conhecimento, fariam o ignoto ser encharcado com água benta pela cabeça. 
Praxe a que não escapou Deus, pois o próprio Jesus foi baptizado pelo primo, permitindo assim salvar-se do pecado original, ou seja da desobediência hereditária contra si mesmo. Isto se alguém quiser dar sentido às diversas narrativas religiosas que primam pela completa ausência de nexo.
Mas, a população ao invés de comemorar a data com um banho purificador, preferiu manter o fogo.

Fogo que, no desenrolar do politicamente correcto, tende a tornar-se num espécime em vias de extinção, e não admiraria que, no espaço de algumas décadas, as crianças só o venham a vislumbrar por acidente, por proibição de fósforos, isqueiros, etc...

No entanto, na história da humanidade, sempre foi dado ao fogo um papel marcante. Teriam as fogueiras servido para afastar animais perigosos, para manter quentes os abrigos em tempos frios, especialmente na Idade do Gelo, teria também o fogo sido usado para a cozinha, inclusive para fundir e cozinhar novos materiais metálicos, e tendo até o fogo sido associado à criação da linguagem, conforme citava Fernão de Oliveira, o seu papel foi marcante na História. 
Os Pirinéus estavam naturalmente associados ao fogo pelo nome, já que o prefixo "Pyro" significava fogo em grego, mas com a transliteração do upsilon em "u" e não em "y", isso remeteria a palavra grega para "Puro". A pureza do fogo constou de diversas religiões, como nos rituais de druidas, no zoroastrismo, ou até na inquisição cristã. 
Como o fogo apenas se propaga com matéria combustível, que é matéria orgânica, o fogo é posterior ao aparecimento da vida, e de certa maneira reduz as diversas combinações do carbono a carbonizações, de onde apenas restam resíduos carbónicos, as cinzas. Assim, se o carbono nas suas combinações orgânicas permitiu uma multiplicidade de formas, o fogo permitia destruir todas, e pela destruição renovar a criação.

O fogo florestal não apresenta nenhuma novidade para sociedades que se habituaram a conviver com ele durante milénios, tirando as vantagens e desvantagens. A única novidade da sua imprevisibilidade relativa é a sistemática e desavergonhada incompetência que procura usar isso como justificação da sua incúria.

sábado, 10 de junho de 2017

Caral-chupa-cigarro, berrões e Gobekli Tepe

Os nomes são de dois locais, com as mais antigas construções registadas: 
Caral-Chupa-cigarro e Bandurria são as mais antigas encontradas na América; (Perú ~ 3000 a.C.) 
Gobekli Tepe tem a datação como mais antiga do mundo (Turquia ~ 10 000 a.C.).

As construções de Caral (esq.) e Bandurria (dir.), no deserto costeiro peruano.

A descoberta destas construções é recente, basicamente tornaram-se conhecidas na transição para este milénio. Soube da existência de Caral por um comentário do José Manuel num texto que publiquei sobre Gobekli Tepe (há quase 7 anos):

Acerca da cultura de Caral, no Perú tem a particularidade de ser contemporânea ou até anteceder as primeiras grandes construções no Egipto, mostrando algumas semelhanças de estruturas pirâmidais, que podem ter influenciado as civilizações seguintes, chegando aos Incas, Maias e Aztecas. Há ainda figuras no solo, que podem anteceder as que se encontraram no deserto de Nazca. 
Mas, por outro lado, essa cultura de Caral apresenta figuras em alto relevo e esculturas razoavelmente diferentes (nalguns aspectos semelhantes a outras encontradas em Jericó e em Ain Ghazal, Jordânia):
Alto relevo (esq.) e esculturas (dir.) na Zona de Caral-Chupacigarro 

Conexões entre o observado no Perú e em Gobekli Tepe foram já interpretadas por Hugh Newman neste texto: 
mas não é sobre esse ponto que irei focar neste texto.


Berrões em Gobekli Tepe
Interessa-me reiterar a comparação que em 2010 coloquei entre algumas estátuas vistas em Gobekli Tepe e os berrões (as esculturas de porcos, javalis), tão comuns em Portugal, que praticamente coabitam com a paisagem nas vilas mais antigas, sendo o berrão mais conhecido a chamada Porca de Murça (ou os Touros de Guisando, em Ávila, Espanha).
Vejamos uma pequena comparação entre o que encontramos em Portugal, e o que também aparece em Gobekli Tepe:

 
Berrões em Trás-os-Montes, estando o da direita na Torre de Dona Chama (em Mirandela).

Em baixo, estátuas de 3 berrões no museu em Gobekli Tepe (esq.) e um outro (dir.):
 

Esta comparação ocorre em paragens e tempos bastante diferentes, que se unem pelo nome antigo comum de Ibéria - no Cáucaso e na península ibérica. Mas a semelhança das formas acaba por ser evidente, no uso de um único bloco de pedra, esculpidos de forma semelhante... e veja-se o detalhe da presa, que evidencia um proeminente canino inferior.
Como a datação dos berrões portugueses é apenas especulativa, e sem uso do carbono 14, as esculturas, que estão normalmente abandonadas, e mal tratadas, são associadas a um período pouco anterior à invasão romana - normalmente o séc. II ou III a.C.

Malas em Gobekli Tepe
Por outro, também conforme já fizemos um texto sobre a representação de bolsas num período pré-histórico, nomeadamente numa comparação entre as bolsas dos Anunaki e as bolsas representadas na pinturas rupestres da serra da Capivara:

veja-se o caso das representações mesopotâmicas e brasileiras:

Bolsas dos "Anunaki" na Mesopotâmia (em cima), e pinturas rupestres no Brasil (em baixo):

A esses dois aspectos, junta-se ainda a observação de que tais representações de bolsas também estão presentes em Gobekli Tepe (como referido num comentário):

As 3 bolsas ou malas, esculpidas em Gobekli Tepe.

... e portanto vemos que há uma certa influência, quase mundial, na escolha de temas, em tempos pré-históricos. Como já falámos do tema do uso dessas bolsas, que permanece uma estranha incógnita no seu propósito, não vamos especular mais.

Gobekli Tepe - uma cápsula temporal
O caso de Gobekli Tepe tem ainda uma outra particularidade, que não é muito referida, mas que junta mais mistério ao achado. É que se concluiu que o santuário teria sido enterrado propositadamente, e assim ficou guardado de outras interferências, até que foi desenterrado em 1995... funcionando assim como uma cápsula do tempo, que se prolongou por 12 mil anos.
Portanto, tal como aconteceu em muitos montes que esconderam dólmens no seu interior, e que se encontram espalhados pela Europa... veja-se o caso da Andaluzia, com os dólmens de Antequera - por exemplo, o dólmen de Menga, o dólmen de Viera, e o tholos de El Romeral, também no caso de Gobekli Tepe, um monte tapou o local, não fazendo suspeitar durante muitos séculos que em baixo de um monte turco, estariam as ruínas de um complexo arquitectónico vindo do final da Idade do Gelo.

Tholos de El Romeral - vista exterior do monte (esq.) e vista interna (dir.)

Já referimos também como estes montes artificiais, como as mamoas, podem ter sido usados como forma de garantir a estrutura do dólmen, mas há uma grande diferença entre Gobleki Tepe e os dólmens de Antequera e outros, encontrados nas ilhas britânicas ou mediterrânicas... é que Gobleki Tepe tem uma datação atribuída de ser 6 mil anos mais antiga.

Vemos ainda que o tipo de escultura dos chamados "guerreiros lusitanos" não parece ser muito diferente de estátuas encontradas em Gobekli Tepe:

 
Guerreiros lusitanos (citânia de Sanfins, e Museu de Arte Antiga) - esquerda e centro;
Escultura de homem em Gobekli Tepe - direita.

Na comparação entre estas estátuas, vemos uma pose semelhante - ambos têm os braços juntos ao corpo, fazendo depois segurar algo nas mãos - no caso dos guerreiros lusitanos, foi pensado ser um escudo, no caso de Gobekli Tepe não se identifica nenhuma arma... mas as semelhanças de postura e estilo, não se deixam de colocar.

Não é nada claro, conforme se tem pretendido, que Gobleki Tepe seja um caso único, mesmo que haja quem diga poder ter sido ali o "Jardim do Éden", dado que fica entre as nascentes dos rios Tigre e Eufrates. Poderão haver outros montes que encerrem ainda vários segredos, talvez tão ou mais antigos do que Gobekli Tepe.  
Fica a questão de saber se, ao fecharem o santuário, se tratou de encerramento ou ocultação?

sábado, 3 de junho de 2017

Orla americana

Um pequeno relato que determinou a Alberico Vespúcio a fama de primeiro explorador do continente americano, foi primeiramente intitulado "De ora antarctica per regem Portugallie pridem inventa", que é como quem diz "Da orla antárctica, pelo rei de Portugal (regem Portugallie) há muito (pridem) descoberta (inventa)". 
Depois o relato foi republicado na Alemanha com o título que lhe deu fama "Mundus novus"... interessando perder a ideia de que o continente americano tinha sido "há muito descoberto" pelo rei de Portugal - na altura, D. Manuel, conforme o próprio reconhecia.
O relato de Vespúcio, que traduzo em baixo (usando o original em latim e uma tradução inglesa), é um misto de fanfarronice infundada, misturada com o reconhecimento implícito de que estaria como passageiro, aterrado de medo, e conduzido pelo mestre do navio português (ao mesmo tempo que se gabava não haver piloto algum que soubesse tanto de cosmografia quanto ele...).
Sendo apenas nesta viagem de 1501 que Vespúcio se dá conta da grandeza do continente americano, será tanto mais ridículo associá-lo a qualquer descoberta, quanto ele afirma que os navegadores portugueses que o acompanhavam conheciam há muito aqueles mares... mas, é claro, só ele saberia de cartografia(!)

O ridículo desta historieta internacional tão mal engendrada, visando apenas publicidade enganosa, nem é o uso de guias portugueses, ao estilo de Hillary ter subido o Everest com o auxílio do sherpa Norgay, ou de Stanley e Livingstone se terem servido do trabalho de guias portugueses, nas suas explorações africanas... É pior, porque neste caso Vespúcio ia como passageiro numa expedição do rei português, que por sinal tinha declarado a descoberta do Brasil um ano antes, com Pedro Álvares Cabral (ou Duarte Pacheco Pereira, que se queixava ter estado no Brasil, a mando de D. Manuel, dois anos antes de Cabral).
Nada disso parece importar, e se os espanhóis exasperaram depois com o relegar do nome de Colombo para o nome de Américo, na ideia de que "América" homenagearia Vespúcio (esquecendo que não se chamou "Vespucia"... mas enfim!), tratava-se em ambos os casos de italianos (pelo menos na versão oficial), metidos ao mar sem qualquer experiência de navegação, e sem perceberem muito bem para onde eram levados.
Colombo insistiu até ao fim na ideia de que chegara às Índias, Vespúcio via na costa brasileira um continente novo, desligado das ilhas das Caraíbas que Colombo visitara, e parecia desconhecer por completo as viagens africanas que os portugueses tinham feito abaixo do Equador, cinquenta anos antes.
Talvez mais notável, é que Vespúcio afirma ter chegado a 50º de latitude sul, ou seja, praticamente esteve apenas a 2º do Estreito de Magalhães em 1501, revelando bem como a sua viagem foi cuidadosamente planeada pelos portugueses, para evitar que soubesse mais do que interessava.
Ou isso, ou estamos no nível do espectador que acha tão normal que os ET's falem inglês, como Vespúcio parecia achar normal conseguir comunicar com os indígenas logo na primeira viagem!

Be ora antarctica per regem Portugallie pridem inventa 
(Da orla Antárctica, pelo Rei de Portugal há muito descoberta)

O relato de Vespúcio é enviado aos seus patronos conterrâneos, os Medicis, e a menção "Antárctica" é usada apenas para nomear o continente abaixo do Equador - a América do Sul, não havendo qualquer relação com o continente gelado que depois viria a ser descoberto. O uso definitivo do nome América, em substituição de "Índias Ocidentais", acaba apenas por resultar da opção dos Estados Unidos em tomar "América" como seu nome.

Fica aqui o relato ------------------------------------------------------------------------

Da orla Antárctica, pelo Rei de Portugal há muito descoberta

Albericus Vesputius saúda primeiro Laurentio Petri de Medicis.
Numa ocasião anterior, escrevi-lhe sobre o meu regresso das novas regiões que encontrámos e explorámos com a frota, a custo e pelo comando deste sereníssimo rei de Portugal; e a estas regiões podemos chamar com razão um novo mundo. Porque nossos antepassados ​​não tinham conhecimento delas, e isso será inteiramente novo aos que ouvirem.
Pois transcende a opinião dos nossos antigos, na medida em que a maioria deles sustentou que não havia um continente a sul da linha equinocial, mas apenas o mar, a que chamaram Atlântico. 
E se alguns deles disseram que um continente havia, negaram com abundantes argumentos de que seria uma terra habitável. Mas essa opinião é falsa e totalmente contrária à verdade - a última viagem o declarou. Pois nessas partes do sul encontrei um continente mais densamente povoado, e abundante em animais, do que a nossa Europa ou Ásia ou África e, além disso, um clima mais ameno e delicioso do que em qualquer outra região conhecida por nós, como saberá de nossa conta, que estabelecemos sucintamente pois apenas o principal importa, e as coisas mais dignas de comentários e memórias vistas ou ouvidas por mim, neste novo mundo, aparecem em baixo.

No quatorze do mês de Maio, de mil e quinhentos e um, partimos de Lisboa, em boas condições de vela, em conformidade com os comandos do referido rei, nestes navios, na finalidade de buscar novas regiões para o sul, e durante vinte meses seguimos continuamente esse curso austral.
A rota desta viagem foi a seguinte: 
- Nosso curso foi estabelecido para as Ilhas Fortunadas, assim chamadas, mas que agora são as Ilhas Canárias. Estas estão no terceiro clima e na fronteira do ocidente habitado. Daqui, por mar, contornámos toda a costa africana e parte da Etiópia até ao Promontório Etíope, assim chamado por Ptolomeu, que é agora Cabo Verde, e Beseghice dos Etíopes. Essa região, Mandinga, fica 14 graus dentro da zona tórrida, ao norte do equador; é habitada por gentes e povos negros.
Tendo recuperado nossa força e assumido o que nossa viagem exigia, içámos âncora e partimos. 
Direccionando o nosso curso sobre o vasto oceano em direção à Antártida, por um tempo virámos a oeste, devido ao vento Vulturnus; e, a partir do dia em que partimos do referido promontório, navegámos por dois meses e três dias antes que qualquer terra nos aparecesse. Mas o que sofremos naquela vasta extensão do mar, quais perigos do naufrágio, o desconforto do corpo que sofremos, e a ansiedade da mente, pois isso deixo para o julgamento daqueles que, por rica experiência aprenderam bem o que é buscar o incerto e descobertas então ignoradas. E se numa palavra eu posso resumir, saberá que dos sessenta e sete dias da nossa viagem, tivemos quarenta e quatro de chuva constante, trovões e relâmpagos - tudo tão escuro que nunca vimos sol de dia, ou céu limpo à noite.
Por isso, o medo nos invadiu e logo abandonamos quase todas as esperanças da vida. Mas durante estas tempestades de mar e céu, tão numerosas e tão violentas, o Altíssimo ficou satisfeito em nos apresentar um continente, novas terras e um mundo desconhecido. À vista disto, ficámos cheios de alegria como qualquer um pode imaginar, caindo no lote daqueles que tiveram refúgio de calamidades e azares hostis. 
Foi no dia sete de Agosto, de mil e quinhentos e um, que ancorámos nas margens dessas partes, agradecendo ao nosso Deus numa cerimónia formal, com a celebração de uma missa coral. Sabíamos que a terra era um continente e não uma ilha, tanto porque se estendia por uma costa muito longa e inflexível, e porque estava repleta de habitantes infinitos. Pois nela encontrámos inúmeras gentes e povos, e espécies de todo tipo de animais selvagens que são encontrados em nossas terras e muitos outros nunca vistos por nós, o que demoraria muito para falar em detalhe. A misericórdia de Deus brilhava sobre nós quando desembarcamos naquele ponto, pois havia uma escassez de lenha e água e, em poucos dias, teríamos acabado nossas vidas no mar. A ele seja honra, glória e acção de graças.

Adoptámos navegar a costa do continente para oriente, a nunca perder de vista. Navegámos até ao final, e chegámos a uma curva onde a costa girou para o sul. A partir desse ponto em que tocámos a terra naquele canto, foram cerca de trezentas léguas, em que a navegação frequentemente desembarcava e havia relações amigáveis ​​com as pessoas, como direi mais abaixo. 
Esqueci-me de escrever que, do promontório de Cabo Verde para a parte mais próxima desse continente, são cerca de setecentas léguas, embora eu deva estimar que navegámos mais de mil e oitocentas, em parte pela ignorância da rota e da vontade do mestre do navio. De conhecimento, em parte devido a tempestades e ventos que nos impediram do curso correto e nos obrigaram a colocar frequentemente.
Porque, se meus companheiros não me tivessem atendido, que conheciam a cosmografia, não haveria nenhum mestre dos navios, nem o próprio líder da própria expedição, que saberia onde estávamos dentro de quinhentas léguas. Pois nós estávamos errantes e incertos no nosso curso, e apenas os instrumentos para tomar as altitudes dos corpos celestes nos mostraram precisamente o nosso verdadeiro caminho - e estes eram o quadrante e o astrolábio, que todos os homens conheciam. Por esta razão, eles me fizeram objecto de grande honra. 
Pois mostrei-lhes que, embora fosse um homem sem experiência prática, através do ensino da carta marítima para navegadores, eu era mais habilidoso do que todos os mestres dos navios do mundo inteiro. Pois estes não têm conhecimento, excepto daquelas águas às quais frequentemente navegavam. 
Agora, quando o referido canto de terra nos mostrou uma tendência do sul da costa, concordámos em navegar além e perguntar o que poderia haver nessas partes. Então navegámos ao longo da costa cerca de seiscentas léguas, e muitas vezes desembarcámos e nos associámos com os nativos dessas regiões, e por eles fomos recebidos de maneira fraternal. Moraríamos também com eles, durante quinze ou vinte dias continuamente, mantendo relações amigáveis ​​e hospitaleiras. Parte desse novo continente encontra-se na zona tórrida, além do equador em direcção ao pólo antárctico, pois começa oito graus além do equador. Nós navegamos ao longo desta costa até passarmos pelo trópico de Capricórnio e encontrámos o pólo antárctico cinquenta graus mais alto do que esse horizonte. Avançámos até dezassete graus e meio do Círculo Antárctico, e o que eu tenho visto e aprendido sobre a natureza dessas raças, suas maneiras, seu trato, a fertilidade do solo, a salubridade do clima, a posição dos corpos celestes no céu, e especialmente sobre as estrelas fixas da oitava esfera, nunca vistas nem estudadas pelos nossos antepassados, estas coisas eu devo relacionar em ordem.

Em primeiro lugar, quanto às pessoas. Encontrámos nessas partes uma multidão de pessoas como ninguém poderia enumerar (como lemos no Apocalipse), uma raça que direi gentil e acessível. 
Todos os dois sexos ficam nus, não cobrindo nenhuma parte de seus corpos. Assim como saem dos ventres de suas mães, ficam até a morte. Têm realmente grandes corpos de constituição quadrada, bem formados e proporcionados, sendo na cor avermelhados. Isso aconteceu, porque estando nus são tingidos pelo sol. Também têm cabelo abundante e preto. Ao andar, e a jogar os seus jogos, são ágeis e dignos. Também têm um semblante bonito, que no entanto destroem, furando suas bochechas, lábios, narizes e orelhas. Não se pense nesses buracos como pequenos, ou que tenham apenas um. Nalguns, vi em uma única face sete perfurações, onde em qualquer uma, seria capaz de prender uma ameixa. Eles preenchem esses buracos com pedras azuis, mármore, cristais muito bonitos de alabastro, ossos muito brancos e outras coisas preparadas artificialmente de acordo com seus costumes. Mas se pudesse ver uma coisa tão inusitada e monstruosa, como um homem ter em suas bochechas e lábios sete pedras, algumas das quais com uma medida e meio de comprimento, não deixaria de se espantar. Pois eu o vi frequentemente, e descobri que sete dessas pedras pesavam dezasseis onças, além do facto de que em suas orelhas, cada uma perfurada com três furos, eles têm outras pedras penduradas em anéis, e esse uso aplica-se apenas aos homens. As mulheres não furam o rosto, mas apenas as orelhas. 

Têm um outro costume, muito vergonhoso e além de toda crença humana. Pois as suas mulheres, sendo muito dadas à luxúria, fazem com que as partes privadas de seus maridos cresçam até um tamanho tão grande que parecem deformados e repugnantes, e isso é conseguido por uma técnica deles, que consiste na mordidela de certos animais venenosos. Em consequência, muitos deles perdem os órgãos por falta de atenção, e continuam sendo eunucos. 
Não têm nenhum pano de lã, linho ou algodão, uma vez que não precisam disso. Nem têm bens próprios, mas todas as coisas são mantidas em comum. Vivem juntos sem rei, sem governo, e cada um é seu próprio mestre. Casam com todas as esposas que quiserem, e o filho convive com a mãe, um irmão com uma irmã, um primo masculino com uma mulher e qualquer homem com a primeira mulher que conhece. Eles dissolvem os casamentos quantas vezes quiserem e não observam nenhum tipo de lei a esse respeito. 

Além do facto de que não têm igreja, nem religião, mas não são idólatras, o que mais posso dizer? 
Eles vivem de acordo com a natureza, e podem ser chamados Epicurianos, em vez de Estóicos. 
Não há comerciantes entre os seus, nem há trocas. As nações se guerreiam sem arte ou ordem. 
Os anciãos, por meio de certos esquemas, inclinam os jovens à vontade deles e inflamam-nos às guerras em que se matam cruelmente, e àqueles a quem trazem. Os cativos domésticos da guerra preservam-nos, não para poupar as suas vidas, mas para que sejam usados como comida. Porque eles se comem uns aos outros, os vencedores comem os vencidos, e entre outros tipos de carne, a humana é comum na dieta deles. 
É tão certo este facto porque um pai já foi visto comer filhos e esposa, e eu conheci um homem, com quem também falei, que tinha a reputação de ter comido mais de trezentos corpos humanos. Também permaneci vinte e sete dias numa determinada aldeia onde vi carne humana salgada suspensa nas vigas entre as casas, assim como connosco é costume pendurar bacon e porco. Digo mais... eles próprios se perguntam por que não comemos nossos inimigos, ou não usamos sua carne como alimento, que dizem ser a mais saborosa. 
Suas armas são arcos e flechas, e quando avançam para a guerra, não cobrem nenhuma parte de seus corpos para protecção, e então procedem como animais nesta matéria. Nós nos esforçámos para dissuadi-los e persuadi-los a desistir desses costumes depravados, e eles prometeram que deixariam. 

As mulheres, como eu disse, andam desnudas e são muito libidinosas, mas têm corpos que são bastante bonitos e limpos. Nem são tão horríveis como se pode imaginar, pois, na medida em que são rechonchudas, a feiúra é menos aparente e é na maior parte oculto pela excelência de sua estrutura corporal. Foi para nós uma questão de espanto que ninguém tinha um peito flácido, e as que tinham filhos não eram distinguidas das virgens pela forma e encolhimento do ventre. E nas outras partes do corpo foram vistas coisas semelhantes, de que não faço menção. Quando tiveram a oportunidade de copular com os cristãos, exortadas pela luxúria excessiva, elas se prostituíram. 
Vivem cento e cinquenta anos, e raramente caem doentes, e se são vítimas de qualquer doença, curam-se com certas raízes e ervas. Estas são as coisas mais notáveis ​​que sei acerca deles.

O clima era muito temperado e bom, e como consegui aprender dos seus relatos, nunca houvera nenhuma praga ou epidemia causada pela corrupção do ar. A menos que morram de morte violenta, vivem por muito tempo. Isto considero ser porque os ventos do sul estão sempre soprando lá, e especialmente o que chamamos de Eurus, o que é o mesmo para eles como o Aquilo é para nós. 
São zelosos na arte da pesca, e o mar está repleto e é abundante em todos os tipos de peixes. Não são caçadores. Isso eu julgo ocorrer porque existem muitos tipos de animais selvagens, especialmente leões e ursos, inúmeras serpentes e outras bestas horríveis e feias, e também porque as florestas e árvores têm um tamanho enorme e se estendem por toda parte. Não se atrevem, nus, sem protecção e sem armas, a se expor a tais perigos.

A terra nessas partes é muito fértil e agradável, abundante em numerosas colinas e montanhas, vales ilimitados e rios poderosos, regados por fontes refrescantes e cheios de florestas largas, densas e impenetráveis, cheias de todo tipo de animais selvagens. 
As árvores crescem até um tamanho imenso sem cultivo. Muitas delas produzem frutos deliciosos para o gosto e benéficos para o corpo humano. Algumas na verdade não o são, e não há frutas como as nossas. Inúmeras espécies de ervas e raízes crescem lá, das quais fazem pão e excelente comida. Também têm muitas sementes completamente diferentes das nossas. 
Não têm metais de nenhuma espécie, excepto o ouro, que nessas regiões existe em grande abundância, embora não trouxéssemos nada na nossa primeira viagem. Os nativos chamaram a nossa atenção que, nos distritos distantes da costa, há uma grande abundância de ouro, e por eles é respeitado e estimado. São ricos em pérolas como lhe escrevi antes. Se eu tentasse contar o que há e escrever sobre as numerosas espécies de animais e o grande número deles, seria também uma questão muito vasta. 
Realmente acredito que o nosso Plínio não tocou numa milésima parte das espécies de papagaios e outros pássaros, outros animais, que também existem nas mesmas regiões, tão diversos na forma e na cor, pois Policleto, o mestre da pintura em toda a sua perfeição, teria ficado aquém de descrevê-los.

Todas as árvores são perfumadas e emitem cada todas e cada uma goma, óleo ou algum tipo de seiva. Se as propriedades destas fossem conhecidas por nós, não duvido que seria salutar ao corpo humano. Se o paraíso terrestre estiver em qualquer parte desta Terra, considero certamente que não estará muito distante destas partes. Sua situação, como relatei, está para sul, num clima tão temperado que invernos gelados e verões ardentes não são experimentados.
O céu e a atmosfera são serenos durante a maior parte do ano, e desprovidos de vapores espessos, as chuvas caem levemente, em três ou quatro horas, e desaparecem como uma névoa. 
O céu está adornado com as mais belas constelações e formas entre as quais eu notei cerca de vinte estrelas tão brilhantes quanto vemos Vénus ou Júpiter. Considerei os movimentos e as órbitas destes, medi suas circunferências e diâmetros pelo método geométrico, e verifiquei que elas são de maior magnitude. 
Vi nesse céu três estrelas como Canopus, duas de facto brilhantes, a terceira fraca. 
O pólo antárctico não é representado com uma grande e uma pequena Ursa, como o nosso pólo árctico, nem qualquer estrela brilhante é vista perto dele, e daquelas que se movem ao redor dele com o circuito mais curto, existem três que têm a forma de um triângulo ortogonal, a meia circunferência, o diâmetro, tem nove graus e meio. Subindo com estes para a esquerda é vista uma Canopus branca de tamanho extraordinário que, quando atinge o meio do céu, tem essa forma:

Depois disso, vêm duas outras, cuja meia circunferência, o diâmetro, tem doze graus e meio; e com elas é vista outra Canopus branca. Seguem-se sobre estas seis outras estrelas mais bonitas e mais brilhantes entre todos os outros da oitava esfera, que no firmamento superior têm uma meia circunferência, um diâmetro de trinta e dois graus. Com elas gira uma Canopus negra de tamanho enorme. São vistas na Via Láctea e têm uma forma como esta, quando observada na linha do meridiano:

Eu observei muitas outras estrelas muito bonitas, cujos movimentos anotei com diligência e descrevi lindamente com diagramas num livro pequeno que tratava desta minha viagem. Mas, neste momento, é este sereno Rei que o tem, e espero que mo restabeleça. 
Nesse hemisfério, vi coisas incompatíveis com as opiniões dos filósofos. Um arco-íris branco foi visto duas vezes pela meia-noite, não só por mim, mas por todos os marinheiros. Da mesma forma, frequentemente vimos a Lua nova nesse dia, quando estava em conjunção com o Sol. Todas as noites naquela parte do céu, inúmeros vapores e meteoritos brilhantes voam. Disse há algum tempo, respeitando esse hemisfério, que realmente não pode correctamente ser falado como um hemisfério completo comparando-o com o nosso, ainda que se aproxima tanto dessa qualquer forma, que podemos ser autorizados a chamá-lo assim.

Portanto, como disse a partir de Lisboa, quando começámos, trinta e nove graus e meio distante do Equador, navegámos para além do Equador cinquenta graus, o que junta em cerca de noventa graus, o que na medida em que faz um quarto de um grande círculo, de acordo com o verdadeiro sistema de medida que nos transmitiram os nossos antigos, é evidente que navegámos uma quarta parte do mundo. E por esse cálculo, nós que vivemos em Lisboa, trinta e nove e meio graus de latitude norte, deste lado do Equador, dá em relação aos cinquenta graus além da mesma linha, na latitude sul, um ângulo de cinco graus numa linha transversal.
Para que compreenda mais claramente: uma linha perpendicular desenhada, quando nos levantamos, de um ponto no céu em cima, o nosso zénite está sobre a nossa cabeça; desce sobre o seu lado nas costelas. Assim, surge que estando numa linha vertical, mas eles estão numa linha desenhada lateralmente. É assim formado um tipo de triângulo ortogonal, a posição de cuja linha vertical ocupamos, enquanto eles a base; e a hipotenusa é extraída do nosso zénite para o deles, como é visto no diagrama. Estas coisas que mencionei são suficientes quanto à cosmografia.


Estas foram as coisas mais notáveis ​​que eu vi nesta minha última viagem, a que eu chamo meu terceiro capítulo. Os outros dois capítulos constavam de duas outras viagens que fiz ao Ocidente sob o comando do sereno Rei das Espinhas, durante as quais anotei as maravilhosas obras realizadas por esse sublime criador de todas as coisas, o nosso Deus. Mantive um diário de coisas notáveis ​​que, se algum dia eu me concederem lazer, eu poderei reunir essas coisas singulares e maravilhosas, escrevendo um livro de geografia ou cosmografia, para que a minha memória possa, viver na posteridade e que o imenso trabalho do Deus Todo-Poderoso, em parte desconhecido para os antigos, mas conhecido por nós, possa ser entendido. Consequentemente, rezo ao Deus mais amado para prolongar os dias da minha vida, que com o Seu favor e a salvação da minha alma eu possa realizar da melhor maneira possível a minha vontade. Os relatos das outras duas jornadas guardo no meu gabinete, e quando este sereno Rei me devolver o terceiro, eu me esforçarei para recuperar meu país e descansar. Lá poderei consultar especialistas e receber de amigos o auxílio e o conforto necessários para a conclusão deste trabalho.

A vós, peço perdão por não ter transmitido esta minha última viagem, ou melhor, o meu último capítulo, como lhe prometi na minha última carta. Saberá o motivo quando lhe digo que ainda não obtive a versão principal deste Rei mais sereno.
Ainda considero privadamente a realização de uma quarta jornada, e disso estou tratando. Já me prometeram dois navios com seus equipamentos, para que eu me possa aplicar à descoberta de novas regiões ao sul, ao longo do lado oriental, seguindo a rota do vento chamado Africus. Nessa viagem eu penso em realizar muitas coisas para a glória de Deus, para a vantagem deste reino e a honra da minha velhice. E não espero mais que o consentimento deste Rei mais sereno. Deus conceda o que é o melhor. Saberá o que virá disto.

Jocundus, o tradutor, está transformando esta epístola do Italiano para a língua Latina, para que os latinistas possam saber quantas coisas maravilhosas são descobertas diariamente, e que a audácia daqueles que procuram escrutinar o céu e a soberania, e conhecer mais do que é lícito saber, possa ser mantido sob controle. Na medida em que, desde tempo remoto, quando o mundo começou, a vastidão da Terra e o que estava aí contido era desconhecido.


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