terça-feira, 10 de abril de 2018

dos Comentários (36) a cana dá - Canada e Canadá

Junto aqui um texto de David Jorge que me chegou por email há uns tempos, e que só agora tive oportunidade de partilhar, com a autorização do autor.

Começa com uma comunicação do Almirante Gago Coutinho, que tinha lido há 8 anos atrás, mas a que nunca fiz aqui referência. É claro que a projecção mediática de Gago Coutinho era muito grande na altura, tendo sido altamente propagandeada a sua travessia aérea do Atlântico Sul, mas também não foi por isso que as suas dúvidas sobre a prioridade das explorações portuguesas na América ficaram na história. 
Já muito antes, Faustino da Fonseca, em Portugal, e Garcia Redondo, no Brasil, tinham compilado uma quantidade enorme de informação, conforme relatei aqui:

... e mais concretamente registam que os mapas de Andrea Bianco têm afirmada a existência das "Antilias" em 1436, e reafirma a existência do Brasil em 1448. No entanto, dão como primeira presença portuguesa nas Antilhas, a de Afonso Sanches (antes de 1483). Antes disso já teria existido a viagem de João Vaz Corte-Real, em 1472. 
Talvez ainda mais curiosa é a ligação de Martin Behaim a uma viagem de João Afonso do Estreito... cujo apelido "do Estreito" é suposto vir de uma aldeia madeirense. Viajou com Fernão Dulmo, na proposta de explorar a América a Ocidente, projecto financiado por D. João II... sim, o mesmo rei que recusou depois essa ideia original de Colombo!

Bom, interessa a passagem de Gago Coutinho que diz:
Como estes navegadores são em espírito açoreanos, deduz-se que era exactamente nos Açores onde a suspeita de terras de Oeste era mais forte, fundada naturalmente no facto de lá irem dar à costa frequentes vezes detritos vegetais, que a corrente do Gulf-Stream trazia do Golfo do México.
Esses detritos poderiam ser também canas do Canadá, ou por essa ponta segue o texto de David Jorge.

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______________________ David Jorge, email em 19 de Março de 2018 _____________________

Sobre Cortes Reais
Faço o meu comentário ao seu post recente "Teatro dos Descobrimentos (2)" pois tenho um anexo que ainda não coloquei na biblioteca, pois estou a criar uma apenas para monografias.

Numa tentativa de juntar um pouco mais de informação ao seu artigo, anexo um documento com o título:

em Julho de 1933, segundo seu autor o ALMIRANTE GAGO COUTINHO

Poderá ver aqui que Gago Coutinho estudou e apresentou uma tese com o ponto de vista de quem conhece o mar e os ventos para de que modo Gaspar ou Miguel terão chegado às costas norte americanas utilizando a volta do mar.

Todo o ensaio parece-me muitíssimo interessante, no entanto destacaria da página 16 adiante para entendermos melhor a sua conclusão.

Relativamente ao Canada
Antes de mais aviso, que este texto é de opinião e ainda não tem a justificação factual suficiente que o comprove na integra.
Quero explicar porque escrevo sempre Canada e nunca Canadá.
Não tem propriamente a ver com o inglesismo do termo mas sim com o que me parece a verdadeira origem da palavra.
(...) 
Posso afirmar, que conheço os nome de alguns dos grupos de povos das First Nations que habitariam o Nordeste da America do Norte por volta do século XVI, e que nunca em momento algum foi ou em qualquer das escolas que frequentei, ouvi falar ou estudei, que em tempos remotos existiu uma tribo de Canadaas ou de Kandaas. 

Dos grandes grupos de "First Peoples" do NordEste da América, por volta de 1500, fariam parte além dos Mi'kmacs (notar que o Nasi era Micas em Portugal) - que foram dizimados devido a uma mistura com os europeus de tal forma que hoje em dia pouco resta da sua cultura (e o que há é contado já depois da ocupação Inglesa), os Iroquois apoiantes ora de Ingleses ora dos Franceses, perduraram, os Algonquins que fugiram para o norte para sobreviver aos "invasores", e, no interior do Rio São Lourenço (notável ter o mesmo nome da ilha de Madagascar), onde hoje se encontra a província do Ontário, poder-se ia encontrar o grupo dos Hurons homenageados pelos Ingleses com o nome de um Lago.

O wikipedia lista as diversas tribos destes grandes grupos no seguinte link: 
onde podemos verificar a total ausência dum Canadaas ou Kandaas ou algo a que se assemelhe a Canada.

Há no outro lado o atlântico um grupo cultural, os Haida, famosos pelos seus totens e reconhecimento por serem grandes navegadores do pacifico.

De entre os grupos nativos mais virados para o mar, os Haida além de pescadores exímios eram também excelentes na construção de embarcações e tal como os povos da Polinésia, também tinham o objectivo de colonizar ilhas, ocupando o grande arquipélago de ilhas da Colômbia Britânica quase a 80%.

A razão por lembrar os Haida ("povo" do mar) é porque existe um termo "Canuck", usado na costa oeste para descrever o "Canadiano Francês" ou o "Holandês Canadiano" pelos ingleses (agora "americanos"), e por se tratar de uma palavra que poderá ter ascendência nativa da palavra kanata (com tradução para vila ou abrigo). [segundo a wikipedia]

Assim os Kanucks, das kanatas, teriam (segundo também a wikipedia) "roubado" a expressão aos Havaianos onde Kanaka (significa o mesmo que kanata). 
Temos Kanakas no Havai, temos Kanatas na Costa Oeste do Canada e temos Kanataa como a razão pelo qual se chama Canadá ao Canada.


 
Típica casa Havaiana

Chegamos então ao Canada sem assento.
Nos açores, todos conhecem as canadas e o priberam descreve-as como:

1. Azinhaga, atalho.
2. Fila de estacas, através de um rio, para indicar o vau.
3. Sulco formado pelas rodas dos veículos.
4. Faixa de terreno baixo, mais ou menos em forma de canal.


Como portugueses sabemos que as canadas servem para abrigar, além de delimitar, ou de encaminhar.

Seguem-se imagens das algumas reconstituições de aldeias e (paliçadas) dos povos das primeiras nações do Canada e dos EUA.


Forte Algonquin (Forte Inglês dos Algonguins)

Layout esquemático de como seria a aldeia Algonquin antes da colonização.

Layout de uma vila típica Huron ou Iroquois

Layout de uma Vila Huron ou Iroquois

Reconstituição de uma aldeia de Hurons, Iroquois ou Algonquin. 
(Repare-se nas “Paliçadas”)

Outra reconstituição arqueológica, semelhante à que visitei em Sault Saint-Marie no Canadá.

Aspeto idealizado de uma aldeia no Nordeste da América do Norte.

Em todas as imagens temos uma "paliçadas" a que podemos chamar "canadas" que protegem as vilas.

Por outro lado temos as vilas posicionadas sempre junto a um curso de água, normalmente um rio com vários tributários que em termos de segurança eram um meio de escapatória em caso de ataque por uma outra tribo, assim como as "as vias de comunicação e transporte".

Um Português que chegasse à desconhecida costa NordEste da América do Norte, descreveria o território pelas suas vias navegáveis se fosse do continente, pois estaria habituado a esse tipo de navegação e faria a ligação a "casa" e descreveria o território como um território com milhares de ilhas, na verdade um numero incontável.

Um Português dos Açores, associaria o vislumbre destes territórios não pelos rios navegáveis, descreveria sim as ilhas, e o que lhe pareceria mais comum além das ilhas, os povos, que morariam em aldeias, protegidas por "canadas" tal como o terrenos de cultivo dos Açores.


Canadas a Trilhos a “Trails”
É notável relembrar que canadas são também trilhos, e o Canada é um país repleto de trilhos (de notar que “Trail” EN, nada tem a ver com C A N A D A, assim como “Sentier” ou “Piste” em FR, no entanto tanto “canada” PT como “cañada” em ES têm tudo a ver.

Os povos nativos do Canada não teriam estradas, por essa razão faria sentido também reconhecer que, para qualquer lado que se fosse nestes territórios ter-se-ia de seguir, por exemplo a “canada” grande (the great trail) ver no wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Great_Trail

Repare, que embora os povos da costa negociassem matéria prima diferente dos povos do interior, as peles e milho vindas do interior do território teriam de chegar à costa por terra pelas canadas.


Canas que Chegavam aos Açores
Para finalizar, relembro que Gago Coutinho menciona as "canas" que chegavam aos Açores.

Eram trazidas pelas correntes, desde os rios da América do Norte até à costa dos Açores (ainda hoje isso acontece).
O vislumbre dos exploradores ao reconhecerem algo que apenas chegava às suas “terras” em alturas de temporal, deve ter sido digno de um “eureka”.  

Assim, o mistério da origem dos detritos que flutuavam até à costa dos açores, tinha agora uma origem conhecida.
Este era o território de onde as canadas que os açorianos recebiam na costa vinham.

[Anexo artigo da wikipedia sobre uma canada nos açores - Canada do Graciosa ]

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Aditamento: (14/04/2018) 
Em comentário a este texto, João Ribeiro salienta a semelhança com as cabanas, choupanas, e choças, apontando para o programa de J. Hermano Saraiva no Museu de Etnologia:


e ainda para um outro link acerca da "Choça do Pastor".

Sendo evidente a semelhança no aspecto e material de construção, merecerá cuidado perceber até que ponto há ligações na forma da estrutura e técnica de construção. Certamente que tal reflexão não terá escapado aos estudos antropológicos, se notarmos ainda semelhanças com as chamadas "Palhotas" africanas, que existem sob diversos aspectos, mais ou menos comuns, entre diversos povos, desde os aborígenes australianos, aos indígenas da Papua e Nova Guiné, até aos índios da Amazónia.

Pode ser apenas uma semelhança de solução, encontrada independentemente, ou pode ser um legado comum, passado desde os tempos mais primitivos.

domingo, 8 de abril de 2018

Fim da Evolução - Sentinela Sul

Não muito longe da ilha Sentinela Norte, está, a ilha Sentinela Sul:


... com uma pequena diferença - esta ilha é muito mais pequena, e está desabitada.
Enquanto a ilha a norte tem aprox. 50 Km2, a ilha a sul não chega a ter 2 Km2, e provavelmente nunca reuniu condições para a sustentabilidade de uma pequena população indígena.

A próxima afirmação seria lacónica:
- Num ponto de vista universal, as espécies na ilha norte e na ilha sul, poderiam contribuir o mesmo para o conhecimento universal.

A novidade para o conhecimento universal não se trata de possuir mais ou menos tecnologia, porque no final de contas, tudo isso se resume a pouco, no sentido em que haver animais capazes de autênticas obras de engenharia civil, como as térmitas, não significa que esses animais procurem mais ou menos o sentido do universo que os envolve. Não é a tecnologia ter parado na Idade da Pedra, que é o problema principal.
Para esse tipo de mistérios, as sociedades tribais começaram por desenvolver a religião, e só depois, com aparecimento das civilizações, desenvolveram a ciência.

Dos Sentineleses não se conhece nada sobre a religião, mas os Onge e Jarawa têm uma religão, e será de suspeitar que possa ser similar.
Os Onge consideram as suas ilhas como centro de um universo dividido em 6 camadas inferiores e superiores, onde habitam seres responsáveis pelos fenómenos visíveis - por exemplo as monções são assim justificadas. Consideram que estes seres produziram o Sol e a Lua, que são simples discos, ao contrário de considerarem que o Sol é casado com a Lua e que as Estrelas são os filhos, como acontece com os Jarawa. Não têm o conceito de uma divindade completamente boa ou má, nem noções de Céu ou Inferno, nem acham que os espíritos são imortais... provavelmente vão passando de camada em camada. Mais curiosamente, achavam que o homem branco era um espírito desse mundo na camada superior. Não seria muito diferente de uma religião onde os espíritos onkoboykwe funcionariam como americanos - popularmente responsabilizados por todas as novidades que apareciam.

Interessa que têm uma explicação para o seu universo, explicação que tem tanto de irracional, quanto as múltiplas outras religiões que se foram formando, e ganhando adeptos, em todo o mundo.
O problema de todas as religiões é sempre o mesmo - não há só uma, porque não há nenhuma razão racional para existir apenas uma, quando as razões de fé são tipicamente irracionais. Basicamente são um folclore artístico literário, que podemos achar mais ou menos interessante. Por exemplo, a religião grega envolvia histórias absurdas, insólitas ou macabras, mas com um substrato interpretativo que pode ser bastante interessante.

A religião serve o propósito de explicação universal, mas existindo milhares de religiões com explicações alternativas, e sem qualquer base de verificação se uma ou outra faz mais sentido racional, acabou por desenvolver-se a ciência como religião única, não dependente da criatividade do contador de histórias, ou da sua capacidade de convencimento.
Infelizmente, a ciência foi caindo num esquema pouco racional, e parece preciso usar uma palavra diferente, racionalidade, para a distinguir dos vendedores de banha da cobra, que abundam na ciência dos nossos dias, sobretudo a partir de Karl Popper (inclusive).

Uma ilha chamada Terra
O que vemos nas ilhas Sentinela, não será muito diferente de uma ilha no espaço - que é a Terra.

Admitindo que a população da ilha norte tinha encontrado um equilíbrio na sua relação com a natureza, não sentido necessidade de evoluir, estando "satisfeita" com a sua vida... não sentiria as necessidades que normalmente atribuímos à espécie humana - uma permanente inconformidade, ou insatisfação com a ausência de respostas.

Ou a população dispensou essa necessidade de justificação, ou tem-na desenvolvido e mais ninguém sabe! Como parece que não a tem, e não evoluiu na sua busca de explicação, então funciona para o universo como qualquer outra espécie animal, satisfeita com o seu lugar na natureza. Dali não se espera mais, e nem parece sair mais, do que uma repetição ancestral, de muitas centenas ou milhares de anos. E reafirmo, o problema não será na evolução tecnológica, embora creia que uma coisa não se faz sem a outra.

Entendendo a Terra da mesma forma, numa altura em que a pressão social, da hierarquia existente, tende a abafar tudo o que não seja politicamente correcto, caminhamos para uma situação que poderá visar uma estagnação, no sentido de manter a ordem social conforme está. Uma espécie de feudalismo moderno, que poderá remeter para tempos de trevas, onde a liberdade de pensamento será um inconveniente a evitar. Nessa situação, mesmo que nos iludamos com mais uns tantos brinquedos tecnológicos, a estagnação filosófica será garantida pelo politicamente correcto, e em muito pouco iremos diferir da estagnação na ilha Sentinela Norte, ou na ilha Sentinela Sul... ou seja, o ponto de vista universal, passaremos a ser totalmente dispensáveis, para a sua explicação.

domingo, 25 de março de 2018

Fim da Evolução - Sentinela Norte

Uma das simples questões que não tem uma resposta simples, é por que razão houve tribos que não evoluíram, e praticamente ficaram estagnadas no Paleolítico? - É daquelas questões em que o "politicamente correcto" aconselha a não responder, porque arriscamos a ser mal entendidos.

Um caso particular, diz respeito a uma tribo completamente isolada, no Oceano Índico, no Arquipélago Andamão, tribo que terá entre 50 a 400 pessoas, e que domina a pequena ilha Sentinela Norte, com uma área pouco superior à ilha do Porto Santo.

Desde 1880 foi registada a primeira tentativa de contacto, com o desembarque de um navio inglês, mas com infrutíferos resultados, um contacto nunca foi estabelecido -  ou porque a resposta era extremamente violenta (na maioria dos casos), ou porque os indígenas desapareciam na floresta, quando um desembarque era feito. Há alguns vídeos que ilustram respostas agressivas, e em 2006 dois pescadores acabaram por ser mortos. Aparentemente, o tsunami de 2004 não os afectou, e quando um helicóptero avaliava os danos, foi recebido a tiro de flechas. 


A Índia que administra a ilha, organizou um contacto mais amistoso em 1991, e acabou por decidir declarar a zona proibida, deixando os nativos à sua sorte... conforme terá acontecido nos últimos milhares de anos.  

Não é caso único... e há uma lista razoável de mais de uma centena de tribos que resistem ao contacto "civilizacional", muitas das quais no Brasil, na selva amazónica.

De um modo geral, estas tribos chegaram pelo menos ao estado fulcral que determinou o ascendente humano face ao meio-ambiente - o arco e a flecha. Mesmo sendo desconhecida, todas as tribos têm alguma espécie de língua, têm habitações rudimentares, mas no caso da Sentinela, não têm agricultura e julga-se que nem sequer dominam o fogo.

Fim da Evolução...
O problema que se coloca nestas tribos é a ausência de passo seguinte... foi como se tivessem atingido um estado de harmonia com a natureza, e entre si, que lhes prescindiu evoluir.
O problema que se coloca, em oposição, será perceber se a evolução civilizacional, que se desenvolveu na restante parte do mundo, teria ocorrido?
- É aqui que se coloca uma resposta simples, tão típica do Séc. XIX, que argumentaria que nem todas as raças estariam predispostas a uma evolução civilizacional.
Não me parece que essa abordagem simplista seja minimamente satisfatória.

Para chegar ao estado estável do "arco e flecha", que permitiu viver com considerável desembaraço, houve razoáveis passos evolutivos, e não haveria razão aparente para terminar ali a "evolução".
Mas a pergunta surge de outra forma - haveria então razão para continuar a "evoluir"?

No caso da ilha da Sentinela, sendo esta suficientemente rica para fornecer sustento a uma centena de habitantes, que assim entraram em equilíbrio no ecossistema, o problema maior seriam as relações dos habitantes entre si. Tendo desenvolvido um conjunto de tradições culturais, que resolvessem de forma satisfatória esses problemas entre si, a situação poderia ficar estável. Tanto mais que, por razões de espaço numa pequena ilha, não havia propriamente possibilidade de desenvolver dois clãs, que se opusessem. A economia ainda que hierárquica, seria comunitária, de completa partilha familiar - sendo certo que todos os elementos seriam pelo menos primos entre si.

Ou seja, é perfeitamente aceitável considerar que a evolução da tribo parasse quando não tinha razão objectiva para exigir novos desenvolvimentos tecnológicos. Como isso ocorreu em diferentes tribos, de diferentes raças, não parece que tivesse qualquer motivo genético profundo. Aliás, também nos anos 60, com certas comunidades hippies, se desenvolveu uma ideia anti-evolutiva, no sentido de comungar em sintonia com a natureza, em economia de partilha.

Tradição
O aspecto crucial que determinaria a necessidade de continuar, ou não, a evoluir, seria uma tradição enraizada na sociedade. Para um aglomerado pequeno, com uma história de sucesso na sua sobrevivência, como no caso da ilha Sentinela, a tradição impor-se-ia de forma determinante, e as inovações seriam vistas como novidades ameaçadoras ao equilíbrio alcançado. A educação dos jovens seria feita nesse pressuposto, e por exemplo, uma expansão para além da ilha seria possivelmente vista como indesejável.
Assim, apesar da criatividade ser possivelmente educada como inconveniente, isso não significaria que os elementos da ilha não tivessem possibilidade de exibir a sua criatividade, fora das circunstâncias tradicionais em que tinham sido educados. 
Aliás, não é difícil associar os períodos de maior estagnação criativa exactamente aos períodos em que a educação social era mais dirigida ou condicionada por uma tradição dominante. Aconteceu isso durante o período medieval, quer ocidental, quer oriental, na China.

O fim de uma evolução não é necessariamente marcado por uma imposição contra as pessoas, é sobretudo conseguido numa forma de acomodar as ambições da população ao que estas podem obter na sociedade.
Quando as ambições eram limitadas à ilha de Sentinela, uma pequena população familiar pode satisfazer e limitar os seus desejos áquele espaço abundante, mas quando as ambições ultrapassam o pequeno cenário familiar, então a Terra foi-se revelando um pequeno espaço para tanta ambição, e a evolução teve que prosseguir sem limites.

sexta-feira, 23 de março de 2018

dos Comentários (35) - Velha Zelândia

Por email de João Ribeiro recebi a indicação de um documentário bastante interessante sobre as "velhas" origens da Nova Zelândia.

New Zealand Ancient History Documentary "The Redheads"

O tema principal do documentário é a história mal contada, enfim nada de espantar... mas neste caso incide em particular sobre a presença de pessoas com cabelo louro ou ruivo, no meio dos maoris.
Os próprios maoris, têm origem incerta numa migração polinésia que teria levado à colonização das ilhas do Pacífico. No caso da Nova Zelândia, a "estória" oficial coloca a colonização maori como recente, em 1280, ou seja, ao tempo do reinado de D. Dinis. 

Segundo, o documentário, os próprios maoris reconheciam a presença de outras tribos, quando chegaram à Nova Zelândia. O problema resulta na presença de indígenas com cabelo louro e ruivo, o que necessitava de explicação adicional, não se devendo a interacção com os colonos ocidentais.

Ao longo do documentário podemos ver a presença de mulheres louras, uma das quais mostra o traço dos seus ancestrais, com fotos onde igualmente se apresentavam como louros...
Foto antiga com criança Putiputi e pai Tonini, ambos louros, e descendente deles (à direita)

A história que lhe teria sido passada pela sua família, seria uma origem na zona da Pérsia/Índia, segundo ela, de refugiados da guerra descrita na saga indiana Mahabharata. Esses refugiados, teriam seguido o caminho de África até se estabelecerem na América, primeiro no México, zona de Aztecas e Maias, depois no Perú, zona dos Incas. 
Aí novas guerras teriam-nos afastado de novo, até arriscarem um percurso no Pacífico, onde teriam chegado à Ilha da Páscoa (Rapanui), Taiti, e finalmente à Nova Zelândia (Aotearoa). O percurso é assim ilustrado:

O documentário segue um rumo mais estranho quando a descendente de Putiputi e Tonini faz um teste de DNA, que é dito concordar com origens na Pérsia... indo ao mesmo tempo embarcar no aspecto de semelhanças de monumentos, esculturas, e até escrita. Neste caso, já abandonando o tema da Nova Zelândia, mas procurando juntar outras semelhanças conhecidas, algumas das quais a que já fizemos referência.
Semelhança entre Anedotos da Pérsia e do Equador (possivelmente de origem falsa)
Semelhança entre inscrições na Ilha da Páscoa e na Civilização do Indu (??).

Um problema com quem desmonta versões oficiais é que tem que ter o triplo do cuidado... e aqui não houve esse cuidado ao misturar com as possíveis falsificações remetidas à colecção do Padre Crespi (e que são abundantemente divulgadas por Klaus Donna). Não havendo esse cuidado, uma pequena incorrecção pode colocar em causa a certeza de tudo o resto.

Finalmente o vídeo termina com uma exploração arqueológica de muros que nos fazem lembrar tantos outros existentes nas ilhas açorianas, ou na serra dos Candeeiros, e que neste caso poderia ter levado a uma datação de 2 mil anos, e assim bem anterior à presença maori. No entanto, o documentário refere que o projecto foi terminado no momento em que iriam ser oficializados os resultados das datações.
Muros neo-zelandeses possivelmente com mais de 2 mil anos...

Conclusão...
Ainda que o documentário tenha interesse e coloque interrogações pertinentes, segue por caminhos menos seguros, ou duvidosos, comprometendo uma parte com outra. A versão oficial tem sempre "costas quentes", não precisa de responder a tudo, e quando erra notoriamente, só raramente se dá ao trabalho de rectificar o erro... porque muito poucos se interessam verdadeiramente.

Quando se coloca crédito num passado com tradição oral de 160 gerações, é preciso entender que isso corresponde a um número de avós da ordem de 10 mil biliões, e mesmo que se reduzam a poucos milhares, por serem os mesmos... só se mantém um passado desprezando os outros. Mesmo ao fim de 10 gerações, digamos 200 anos, já são mil avós e é complicado garantir que não houve pelo meio um marinheiro inglês ou holandês.
Uma terra passada em memória, que depois é identificada à Índia ou Pérsia, seria uma terra tão mal descrita que poderia ser qualquer uma, e assim toda a história parece pouco mais que um wishful thinking, colado a informação posterior. Afinal, também os povos das ilhas Salomão têm cabelo louro, e estão mais perto para explicação.
No entanto, é claro que restam muitas peças soltas, na falta de explicações sobre toda a exploração marítima em redor das ilhas do Pacífico.

Aditamento: (25/03/2018)
Um outro documentário da mesma Plumtree Productions:
https://www.youtube.com/watch?v=9RITfMMxcRc
que junta mais uma série de evidências sobre a presença antiga na Nova Zelândia.

sábado, 17 de março de 2018

Teatro dos Descobrimentos (2)

Recupero o assunto do mapa do Museu da Marinha.
Como escrevi há pouco tempo, comprei uma cópia do mapa há uns anos, e não ligando mais ao assunto, deixei-o enrolado conforme o comprei... mas tendo voltado a falar nisto, desenrolei-o.

Sem querer falar de novo sobre a origem do mapa, há outros aspectos que merecem notas detalhadas.

1. Origem do mapa
Como o próprio mapa indica (embora não se veja isto nas reproduções "vintage"), foi:

"Executado pelo pessoal técnico do Museu de Marinha - Maio de 1970"


... e é justamente nesse aspecto "técnico" actual que se colocam também algumas questões.

1. América do Norte
- Primeiro, aparece uma cidade perdida no meio do Canadá, justamente com o nome Canadá!
Não há nenhuma cidade aí... os cinco grandes lagos apontados no Canadá serão (de cima para baixo):
- Great Bear Lake, Great Slave Lake, Lake Athabasca, Reindeer Lake, Lake Winnipeg.

Trata-se de uma das zonas mais desabitadas do mundo, um frio labirinto de montes e pequenos lagos, no estado canadiano de Sasktchewan, onde aparecem os Lagos Atabasca e Reindeer, que limitam a referência à tal "cidade Canadá". 


- Segundo, aparece uma viagem de Gaspar Corte Real (1500-01) que, partindo dos Açores, terá rodeado toda a península da Florida, basicamente até ao Mississipi (~Nova Orleães), para depois seguir sempre junto à costa da América do Norte até Cape Breton, onde aparece uma bandeira nacional. Nada disto foi alguma vez reportado... que eu saiba!
- Terceiro, fica definido todo um território que engloba as províncias do Quebéc e Labrador, Terra Nova, sob uma grande coroa nacional.
- Quarto, aparecem pequenos montes em forma de pirâmide... um dos quais na zona onde se poderá localizar Monks Mound, um monte que é a maior pirâmide artificial da América. O outro(s) seria no Canadá, junto à Baía de Hudson, mas nada se conhece aí (pelo menos por enquanto).
- Quinto, a viagem de João Rodrigues Cabrilho em 1542 tem a seta conforme partisse bem acima de S. Francisco na Califórnia em direcção ao México... e não no sentido oposto, conforme é suposto. 

2. América do Sul
- O problema na América do Sul começam por ser todas as bandeiras portuguesas no lado oriental da costa, ao longo de toda a Argentina (escrita "Terra de Gigantes"). Como as bandeiras coincidem com o percurso da viagem de Fernão de Magalhães, poderá pensar-se numa atribuição nacional por via da nacionalidade do explorador, mas isso não aconteceu com Cabrilho, onde não são assinaladas bandeiras.

- Além disso junto à cidade do Lima, escrita "Cidade dos Reis", aparecem duas bandeiras, uma castelhana, mas a outra portuguesa, ao tempo da "união ibérica". Isso deve referir claramente a origem do piloto nacional, tanto que depois são colocadas as quinas nas Novas Hébridas (agora Vanuatu), como ponto de chegada da sua viagem.
- Vemos ainda as diversas ilhas atlânticas descobertas pelos portugueses. 

3. Gronelândia
O único problema da Gronelândia é a marcação da viagem de "João Fernandes Labrador - 1495", partindo dos Açores e assim mostrando a perfeição do contorno que encontrámos, desde o início, no mapa de Cantino.

4. China e Japão
Começo por notar que nada é escrito na península da Coreia, nem no Vietname (então Conchichina).

Pontos no Japão: 
- Kioto e Tokio, que têm as mesmas letras, estão colocadas em simetria.
- Não longe de Tokio está Yokohama, e mais abaixo Tana Shima, que corresponde à ilha de Tanegashima, onde foram feitas as primeiras armas de fogo pelos japoneses... após a célebre história dos portugueses naufragados (António da Mota, Francisco Zeimoto e António Peixoto). Aliás, a navegação de António da Mota (ao que consta num junco...) é assinalada a vermelho - justamente até Tana Shima, ou seja, Tanegashima.
- Duas bandeiras portuguesas - uma em Nagasaki, outra em Tanegashima. Nagasaki era o principal porto de comércio português, e a cidade esteve mesmo sob administração portuguesa de 1580 a 1586. Será de supor que o mesmo possa ter ocorrido em Tanegashima.


Pontos na China:
- Cidade de Cantão - está desenhada, tal como mais acima deve estar desenhada Pequim (mas não mencionada).
- Bandeira na Ilha Formosa, que foi descoberta por portugueses, e que depois passou a ser também espanhola, até que os holandeses conquistaram a ilha aos espanhóis em 1642.
- Passando a ilha de Ainão, surge a exploração de Jorge Álvares que chega à China em 1513.

5. Molucas
- Nas Filipinas - Cebu, vemos a cruz do local da morte de Fernão de Magalhães.
- Mais abaixo vemos as ilhas Molucas (antes, ilhas Malucas) com bandeira portuguesa, e está marcado o fim da viagem de António de Abreu, que terminou esta exploração em 1512, nas ilhas de Timor e Banda.
- Vemos depois a Austrália, sem qualquer marcação (demoraria 100 anos, depois da viagem de Abreu, até ser marcada parcialmente pelos holandeses), e os estranhos desenhos de cangurus, bem como mais a sul, os eucaliptos. Presume-se acreditar que estes bonecos tenham sido feitos em 1970 pelo pessoal técnico...

Ou seja...
Não há grandes dúvidas que a marcação da viagem de Pedro Queirós terá ocorrido depois de 1606, e por isso, essa inscrição no mapa teria que ser posterior. Acresce a menção às "Novas Hébridas", que só poderia ocorrer depois da viagem de Cook, ou seja, depois de 1760.

No entanto, não está neste mapa a viagem de David Melgueiro - pela passagem Nordeste, rota que era habitual mencionar em 1970, como uma das proezas nacionais.
Por outro lado, um dos aspectos mais estranhos, é a inclusão da viagem de Gaspar Corte Real pela costa americana desde a Florida, ao mesmo tempo que era atribuída a sua navegação à Gronelândia, antes de ter desaparecido em 1501.

Não querendo sobrecarregar o assunto com detalhes, o mapa mantém as suas incoerências, juntando inscrições e um recorte de costa próprio do Séc. XX, com uma formação estética e técnica do Séc. XVI. O mapa que aparece como "vintage" é uma variante deste que, incluindo as rotas das viagens, será posterior a 1606 e talvez anterior a 1660 (por não incluir a viagem de Melgueiro), e se também tiver a designação "Novas Hébridas" então não é um mapa antigo...

domingo, 11 de março de 2018

dos Comentários (34) ... um judeu Nasi

A abreviatura Nazi para "Nationalsozialismus", relativa ao partido NSDAP de Hitler, seria usada pelos opositores, e ganhou especial uso no exterior, sendo usada raramente pelos nazis, para se identificarem.
Curiosamente, um principal problema que os Nazis identificaram foram os judeus AshkeNazis, e não dou ênfase especial à palavra ashkenazi terminar com nazi.

O problema com os judeus tinha ficado bem caracterizado pelo Imperador Guilherme II (Wilhelm II), quando a Alemanha perdeu a 1ª Guerra Mundial:
(...) "Let no German ever forget this, nor rest until these parasites have been destroyed and exterminated from German soil!" (...) [Wilhelm] further believed that Jews were a "nuisance that humanity must get rid of some way or other. I believe the best thing would be gas!"
in Wikipedia, citando John Röhl: 
The Kaiser and His Court: Wilhelm II and the Government of Germany 
(Cambridge University Press, 1994), p. 210 

Portanto, a ideia de eliminar os judeus através de câmaras de gás não foi um original nazi, e a conservadora Alemanha imperial, não deixaria de partilhar o mesmo tipo de sentimentos.

Quando se fala na "solução final" como sendo o plano nazi de "gasear" os judeus, é preciso notar que o termo se aplicou a encontrar um destino final para a comunidade judaica, e nunca constaram documentos de que o termo se referisse à eliminação por gás - excepto talvez as palavras do imperador deposto em 1919, e exilado na Holanda até morrer em 1941. O imperador tendo sido inicialmente um adepto das ideias nazis, acabou por desprezar Hitler, e também o sucesso militar desse plebeu.

Os Rothschild lideravam um plano de fazer renascer um estado israelita... em Israel, no contexto da declaração de Balfour em 1917. Havia outras soluções que os alemães preconizavam, e assim sugeriam a ida para o Canadá, Austrália ou para a Rússia (cf. Oblast judeu), ou de certo modo, para sítios onde não houvessem problemas em ter que desalojar outras comunidades existentes. Conforme se sabe, um problema óbvio da localização em Israel foi o desalojar da comunidade palestiana árabe.

Ora, os judeus andavam em diáspora praticamente desde a invasão muçulmana ocorrida no Séc. VII, tendo-se espalhado por todo continente europeu, e Mar Mediterrâneo, em comunidades que chegaram a ser bastante mal tratadas pelos anfitriões. No entanto, havia uma forte convicção religiosa de que não deveriam regressar, até que o Messias aparecesse... e por isso nem todos os judeus teriam a ideia de largar tudo, e ingressar num novo estado israelita (isso seria mais uma ideia dos Ashkenazi).

Tudo se modificou decisivamente com o chamado "holocausto judaico", porque ficaria aí óbvio que os judeus não tinham outro lugar, do que criar a sua própria nação. Mesmo assim, e ainda que à custa de algumas bombas terroristas, a efectivação do Estado Israelita tenha sido rápida, após a 2ª Guerra Mundial, houve um considerável número de judeus que ficou onde estava, e não foi para Israel, ajudar na construção de um novo estado. Poderia ser duvidoso o efectivo sucesso de Israel, caso não tivesse havido um efeito dramático que os uniu após o holocausto, na procura do melhor sucesso para um estado ameaçado pelos vizinhos árabes.

Yosef Nasi
Se os nazis acabaram por ter sucesso de reunir os judeus no regresso a Israel, pelas piores razões, já muito antes tinha havido alguém que procurou reunir os judeus junto ao Mar da Galileia, na cidade de Tiberias. 
A cidade israelita de Tiberias, junto ao Mar da Galileia.

Era português de nascimento em 1524, com o nome "João Micas", e ficou com o nome hebraico de Yosef Nasi. A sua tia, Gracia Mendes Nasi igualmente judia portuguesa, foi uma figura influente que permitiu a fuga de centenas de judeus portugueses, que assim escapavam dos processos da Inquisição.
Se a tia era já uma figura influente da comunidade sefardita exilada em Constantinopla, o sobrinho Yosef Nasi tornou-se bastante próximo dos sultões Suleiman I e Selim II, tendo sido nomeado Duque de Naxos. 
Foi isso que lhe permitiu ser o primeiro a tentar reinstalar os judeus em Israel, algo que ia contra a política religiosa mais ortodoxa, que só aceitava o regresso a Israel com a vinda do Messias.

Assim, de forma estranha... foram primeiro os Nasis que procuraram reinstalar os judeus em Israel, ainda no Séc. XVI, e foram só depois os Nazis que provocaram a efectiva criação do Estado de Israel, a seguir à 2ª Guerra Mundial, essencialmente por uma significativa migração dos Ashkenazis.

Este tópico resultou de um email que recebi de David Jorge, mencionando a figura de Yosef Nasi, e também uma significativa migração de judeus para Ragusa (actualmente Dubrovnik). 

Pareceu-me curiosa a semelhança do nome, e especialmente curioso, resultar do mesmo propósito - o regresso judaico a Israel. Yosef Nasi morre em 1579, um ano depois de D. Sebastião ter desaparecido em Alcácer Quibir, onde o rei português, tão odiado pelos judeus, visava travar o avanço otomano.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Estado da Arte (12)

Na região do país basco, entre Santander e Bilbau, está a Caverna de Cullalvera com inscrições pré-históricas, que tem uma entrada com 30 metros de altura... 



... e que serve de apresentação a uma interessante pequena palestra de Genevieve von Petzinger, que é bastante elucidativa, do tipo de investigação que decidiu fazer sobre a arte rupestre.
Não se focou na imagem dos animais, mas sim nos múltiplos desenhos geométricos que polvilham as cavernas, e que segundo ela, são mais do dobro das representações de animais.


Em particular, ficou mais conhecida por definir 32 símbolos geométricos frequentes, que aparecem na arte rupestre, comuns a diversas cavernas europeias.

1) Timidez...
Desculpem, mas só pintamos se ninguém ver!
Conforme é dito no vídeo, é suficientemente estranho só encontrar os primeiros símbolos depois de se entrar 800 metros na caverna. As paredes não eram boas para escrever?
Uma situação mais típica, é outra... todos os registos na entrada acessível podem ter sido destruídos, e só os registos mais inacessíveis, ou considerados pouco relevantes, foram poupados.
Porquê?
Para simplificar, coloquemo-nos ao tempo romano do imperador Augusto, que finalmente arrumou com toda a resistência ibérica. Os chefes locais ainda poderiam ser tentados a mostrar aos jovens a sua ascendência a tempos mais gloriosos, fazendo-os visitar cavernas magnificamente pintadas, ao estilo de Altamira. Ora esse despertar de consciência nacionalista, seria um rastilho para rebelião e inconveniente para uma potência invasora. Assim, tudo o que seriam símbolos visíveis de um passado notável, deveriam ser ocultados.
Por isso, com escopro e martelo, nada seria mais fácil do que destruí-los. 
Como se isso não fosse muito ético, fica a esperança de que os desenhos tenham sido reproduzidos em pergaminho, e mandados para Roma, para as catacumbas do Vaticano, antes de serem destruídos.

Podemos perguntar, isso não implicaria igualmente destruir monumentos megalíticos?
A questão é que uma civilização estar associada a monumentos de pedra não trabalhada, não se compararia minimamente com a sofisticação e imponência que os edifícios romanos tinham.
Acrescia um problema maior... as pinturas pré-históricas mostrariam animais extintos, como bisontes, mamutes, tigres de dente-de-sabre, etc. Isso remeteria para um passado demasiado longínquo, que convinha ser ignorado. Tanto pior quando o cristianismo começou a despontar a sua faceta mais ortodoxa, que foi levando à destruição de referências a outras divindades, vistas como diabólicas.
Basta lembrar que esse mesmo espírito levou a que no tempo de Teodósio, em 393 d.C. tivessem terminado os jogos olímpicos, e abandonada a cidade pagã de Olímpia, que os acolhia.

Por outro lado, ainda uma explicação mais simples, é que seria natural que os sítios mais acessíveis, podendo ser facilmente vandalizados, não fossem convenientes a desperdiçar tempo com pinturas demoradas e sofisticadas. No entanto, em contraponto, convém não esquecer as diversas pinturas ou relevos, encontrados ao ar livre, que contrariam essa tendência.

2) Montanheses
Acima de 500 metros só cabras e montanhas...
Depois há um pequeno grande problema!
Na Idade do Gelo o nível do mar estaria umas boas centenas de metros abaixo do actual, por isso o mais natural seriam as povoações estarem concentradas junto ao nível do mar, e hoje em dia isso significa... umas boas centenas de metros submersas, como foi exemplificado no caso da Caverna Cosquer. Ou seja, aquilo que recuperamos enquanto registo civilizacional, é apenas aquilo que está acima do nível da água, e que antigamente seriam regiões em altitude, ou montanhosas.
Curiosamente uma boa maioria das cavernas pré-históricas encontra-se na zona basca, onde a diferença entre o anterior nível marítimo e o actual, seria menos significativa, o que não é muito diferente da zona occitana, onde ocorre a mesma frequência de pinturas rupestres.

Não estamos a falar apenas da questão do nível do mar, porque a Idade do Gelo também é supostamente fria... e assim os ambientes mais elevados, onde a densidade atmosférica seria menor, seriam igualmente os mais frios, e os menos convidativos à vivência.

Para se entender melhor a questão, pensemos que o nível do mar subitamente passava a ser superior a 5000 metros... o que temos como vestígios humanos acima dessa altitude? Praticamente só não ficaria submersa a região montanhosa dos Himalaias, e como Lhassa está abaixo de 4000 metros de altitude, praticamente não ficaria uma única povoação significativa, só restariam montanheses nepaleses...

3) Os símbolos geométricos
O que há e o que falta...
Conforme é colocado por Petzinger, o problema não está apenas no que está representado, está também em tudo o que não foi representado!
Não se vêem desenhos de árvores, de pássaros, dificilmente se encontram referências às fases da Lua, às constelações, não há desenhos de rios, de mares, de nuvens, de armas, são praticamente raras ou quase inexistentes figuras humanas,  etc...
Parece ter havido um propósito de desenhar apenas certas coisas, muito específicas... como fossem os animais que constituíam parte da dieta paleolítica.
A razão pela qual há essa selecção de temas, parece um aspecto fulcral, sem grandes respostas convincentes. Uma possibilidade, que já considerei, seria o uso da técnica da camera obscura para a fazer as pinturas com um elevado nível de precisão.
Mas, conforme é referido, surge um grande número de símbolos abstractos, geométricos, cuja intenção ultrapasaria uma representação concreta. A sua difusão, ou presença comum em diferentes paragens, mostra que haveria contactos reais entre os diveros grupos pré-históricos, e mesmo que se pretenda algum significado, na tentativa de servir de passo conducente a uma línguagem escrita, o ponto principal que Petzinger consegue é mostrar que o conjunto existe, sem avançar nada mais, do que escassas especulações.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Números em Éfeso

Há uns tempos fiz uma visita turística às ruínas de Éfeso, e este era o aspecto geral das ruínas da antiga cidade grega, focando em especial a "reconstruída" Biblioteca de Celso (à esquerda), e que era considerada a terceira maior do seu tempo, após Alexandria e Pérgamo.

 As ruínas de Éfeso, com a Biblioteca de Celso. 

Não se tratando de um blog de trivialidades históricas, ou de viagens, vou deixar os detalhes de parte, exceptuando dois.

- O primeiro é que entrámos 10 Km no interior da Turquia, para reencontrar esta cidade "costeira", que tinha um dos maiores portos da Antiguidade... e isto é mais uma, das dezenas (ou talvez centenas) de situações, em que se evidencia como na Antiguidade o nível do mar seria mais alto!

- O segundo detalhe está explicado em duas fotos que tirei a uma mesma pedra, no exterior. 

A pedra estava junto a várias outras, sem nenhuma identificação especial, parecendo ser restos por classificar, da exploração arqueológica. 
Pedra em Éfeso, com os algarismos 6 1 numa face...

... e com os algarismos 7 3 na face oposta.

Ora, o detalhe interessante é que ao contrário das restantes pedras, que tinham inscrições especialmente em grego, ou romano, esta pedra tinha grandes algarismos, com os números 61 e 73, numa inscrição que seria mais própria de ter sido feita no Séc. XX, do que em tempos antigos... 

Pior, se tivesse sido feita em tempos antigos, teria que ser no tempo de domínio árabe, já que o sítio foi completamente abandonado depois da invasão otomana, no Séc. XV, e não se notavam nenhuns símbolos, de presença árabe, ou otomana. 
Não consegui saber mais nada sobre a pedra, mas também não me preocupei em saber... poderia ser uma pedra colocada para marcação das escavações arqueológicas recentes - o que seria o mais natural como explicação, mas que não justificaria o destaque dado à pedra naquele conjunto, nem justificava a degradação da pedra.

Assim, ainda que tivesse arrumado o assunto, não deixei de o guardar na memória, como "oopart" , até porque esta questão já não era nova na minha opinião...

A questão é que os algarismos que usamos parecem ter uma lógica intrínseca, podendo representar o número de ângulos formados pelas linhas - ou seja, o 1 sinaliza 1 ângulo, o 2 pode significar 2 ângulos, o 3 relacionar 3 ângulos, e até o 4 invoca 4 ângulos... 

A razão desta observação, prende-se com o símbolo de 1 ser diferente do simples traço I que era usado pelos romanos, e a conclusão segue normalmente até ao 4, mas não extrapolei assim para 5 e seguintes (aqui o 7 e 9 parecem-me extremamente forçados) - simplesmente os restantes poderiam ter mudado de forma, ou de posição.
O ponto engraçado era o mesmo - o zero seria uma bola - zero ângulos!

Ainda que seja incerta a origem desta conjectura, o proponente que vi associava esta representação aos fenícios... algo que contraria a teoria habitual sobre a numeração fenícia, e que fica sem ter outra justificação, que não seja uma conveniência própria. 

Também não é habitual ver-se uma distinção entre as 12 letras que são feitas sem traços redondos:
 - AEFHILMNTVXZ
e as 11 letras que usam traços redondos:
 - BCDGJOPQRSU
... considerando as 23 letras do alfabeto português tradicional.
Múltiplas coisas podem ser ditas, querendo especular sobre o assunto, mas não interessa estar a especular sobre coisa nenhuma, sem que se veja alguma razão ou sentido nisso.

Os números hindo-árabes
Não é difícil encontrar derivações que fazem os números aparecer, desde um sistema Brahmi até à forma ocidental que eles hoje têm... Deve notar-se que há mesmo entre os árabes diferenças significativas, consoante estejam a Ocidente ou a Oriente da Líbia.

Evolução dos números hindo-árabes até à forma ocidental (wikipedia).

Um caso típico será um telefone egípcio que irá apresentar dígitos em árabe, que são bastante diferentes daqueles a que chamamos "árabes" no Ocidente.
Dígitos/algarismos árabes num telefone egípcio actual.

Portanto os Algarismos (nome devido ao matemático persa Al Guarismi, Al Khwarizmi, Séc.IX), terão tido diversas variantes, sendo claro que nessa versão oriental, os três primeiros dígitos seguem uma lógica do número de vértices na parte superior da letra.

Sendo Éfeso uma cidade grega na costa turca, o seu sistema numérico era esperado ser semelhante ao grego, que depois influenciou o romano. Ou seja, seria uma numeração baseada no valor das letras, e se tal podia ser prático, também poderia levar a confusões desnecessárias.
Não me parece nada impossível que, comerciantes mais pragmáticos, como eram os fenícios, ou os gregos, necessitassem de outro tipo de numeração mais eficaz. Tal seria possível de ocorrer em qualquer cidade, e Éfeso seria apenas um possível exemplo.
Da mesma maneira que as letras latinas chegaram até hoje sem qualquer alteração significativa, seria possível que um conjunto de dígitos viesse a ser guardado até que houvesse autorização para ser usado de novo!
Claramente que a matemática grega estava desenvolvida a um ponto tão avançado, que só por teimosia ou feroz proibição, não iriam preferir usar uma representação posicional, como o fizeram os Caldeus ou Babilónios.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Almadraba de Cadiz

Numa gravura do Séc. XVI, de Georgius Houfnaglius, podemos ver as "Torres de Hércules":

"La muy noble y muy leal ciudas de Cadiz" por Georgius Houfnaglius (Séc. XVI), com as duas Torres de Hércules.

Legenda: 1- Mar Oceano, 2 - Sant Sebastiano, 3- Santa Catherina, 4- Torres de Guardia, 5- Yglesia Maior, 6 - Castillo;
7- Puerta del Muro, 8- Camino para la ysla, 9- Puntal, 10- Goertas de Safia, 11- Arenas, 12- Torres de Hercules;
13- Stanca, 14- La Baija, 15- Los puercos, 16- Tierra firma d'España, 17- Punta de Sant Lucar, 18- Scipiona;
19- Rotta, 20- Sant Catalina, 21- Pa barra, 22- Puerto Sta Maria, 23- Mar Oceano, 24- La Ysola.

As torres não exibem nenhuma dimensão impressionante, e aparecem aqui a enquadrar ou limitar uma "almadrava", técnica da pesca de atuns. Usamos também a expressão "armação" como em "Armação de Pêra", para designar essa pesca com rede, que redunda numa matança dos animais encurralados.

Relevam para este assunto, textos aqui publicados:
mas esta gravura é curiosa por englobar dois aspectos de tradição antiquíssima - por um lado, a almadrava enquanto armação para "pesca em massa"; e por outro lado as Torres de Hércules.

Conforme já referimos nesses textos anteriores, não restam vestígios ou sinais de quaisquer Torres de Hércules em Cádis. No "maremoto" cultural que ocorreu com o Terramoto de 1755, o que restou de vestígios da primeira torre, passou a ser designado como "Torregorda", e ainda assim encontramos apenas esse nome numa praia.

Mapa de Cádis com o local onde se erguia uma das torres, notando que a paisagem, 
que vemos na gravura acima, estaria orientada para a cidade de Cádis, seguindo o istmo de terra.

Na gravura, a presença de homens em ambas as torres parece indicar uma altura que estaria entre os 10 e 20 metros, e a utilidade das torres parecia aqui muito ligada a esta pesca de atum, ainda que possa não ter sido esse o propósito inicial da sua construção. E também não é nada claro que estas duas torres fossem ou não as chamadas Colunas de Hércules.

O nome Torregorda liga-se a Montegordo, pelo sufixo "gordo", e devido à história dos pescadores de atum que viram as suas cabanas incendiadas pelo Marquês de Pombal, que os queria empurrar para a nova Vila Real de St. António.

Nota: Ainda procurei alguma referência a um "Monte Hércules", sem sucesso... mas curiosamente em 1873, devido a uma descrição falsa de um capitão J. A. Lawson, sobre a Nova Guiné (ver pág. 22), acreditou-se existir aí uma montanha com quase 10 Km de altura, e assim maior que o Everest. Só passadas uma década tal pretensão foi declarada falsa.


Adenda - Dolmen de Poitiers
Ainda do mesmo autor, G. Houfnaglius, não deixa de ser curiosa uma figura que traz de um antigo dólmen às portas de Poitiers (França), onde se vêem vários sujeitos a deixarem marca da sua passagem:

Actualmente este dólmen "pierre levée" ainda sobrevive, junto a uma estrada de Poitiers, mas apresenta a pedra superior partida (ver megalithic.co.uk)

domingo, 18 de fevereiro de 2018

do Sótão (10) «Ré vista (5) ...»

Disse há pouco tempo, num comentário, que a linguagem servia para a compreensão e entendimento humano, e não para o contrário.
- No entanto, como conjugamos isso com todo o desentendimento que se propaga por sua via?
... e falamos de conflitos, que muitas vezes passam de guerras de palavras a guerras efectivas!

Surge este assunto a propósito de um texto que seria o 5º da série "Ré vista", e que não concluí.
Aliás, nunca mais escrevi nenhum texto para essa série, e esta foi só uma razão parcial para isso.

O propósito da série era rever, ou seja "re-ver", ver a ré, ver de novo o que tinha ficado escrito atrás.
O último texto tinha sido o Ré vista (4) escrito no mês anterior, onde tinha ficado no 19º tópico aqui publicado em 2010 (... e ainda bem que não prossegui porque já está a chegar aos 500 textos)!

Bom, e conforme é fácil ler no que se segue, ao rever o 20º texto, um comentário de Maria da Fonte, fez-me coincidir referências a "Cruz", com a notícia da morte de Paulo Cruz, alguém que aqui comentara extensivamente.
Essa coincidência fez-me parar, e ali parei a série "Ré vista".

Também se pode notar que o texto se inicia com uma referência ao ex-primeiro ministro que acabara então de ser detido e constituído arguido... mas esse é um detalhe insignificante.

Coloco aqui ainda outro texto, que não tinha título, e ficou igualmente pendurado nessa altura. Seria o início de uma abordagem genérica a "muros e barreiras", numa perspectiva meio ética e filosófica. Não me lembro se na altura já se falava dos muros que a Hungria veio a construir em 2015, para evitar o acesso dos refugiados. Mas não era nada de novo... a imperial Espanha há muito que os erguera para proteger os seus dois resquícios africanos, e assim não se sentir humilhada pela posse de Gibraltar, pela imperial Inglaterra.

___________________  26 de Novembro de 2014  ________________

Dado o assunto do momento, o título apropriado por esta altura seria mais do género "Réu visto" e não tanto o feminino "Ré vista". Porém aqui a ré é da rectaguarda, no sentido da ré que te aguarda, ou da ré que te a guarda.

(020) West fall é capaz de ser o primeiro dos textos "complicados". Porquê? 
Para perceber isso, veja-se o comentário da Maria da Fonte que ali está:
E se a Cruz tiver outro significado?
Se for o símbolo de uma Herança Ancestral.
Nefer, era representado com um Coração estilizado em coração de cordeiro, cravado numa Cruz, colocado sobre a Traqueia.
Se a Cruz for o símbolo da Voz, do som das ideias? (...)
O significado que tinha na altura fica agora diferente, depois da passagem tempestiva do Paulo Cruz por este blog. Repito que as coincidências são o que são, estamos educados para não lhes dar importância, mas por vezes elas aparecem, desafiantes.


___________________  10 de Novembro de 2014  ________________

Um muro evidente em Melilla (foto de J. Palaizon)

A postura local leva rapidamente a um erguer de muro.
O muro protege o adquirido, mas não deixa de ser um simples muro.
O muro pode ser físico, herança de um arremesso hispânico à costa marroquina, onde o Duque de Medina-Sidónia quis imitar os portugueses na Seta africana.
Porém Melilla não era Ceuta, e por isso esta Seta era a verdadeira Cepta.

Barreira
Qualquer barreira entre corpos, ou é indetectável, e a sua existência é desconhecida, ou é detectada, e a sua existência é questionada.
- Há a ilusão habitual de que o questionar barreiras arbitrárias pode ser evitado.
- Não pode.

A perspectiva local é intrinsecamente ignorante do contexto global. É uma visão exacerbada do "eu" que, ainda que preze o "tu", despreza o "ele". Respeita os segundos, para definir terceiros.

Só que esta visão de grandeza é tão pequenina, tão pequenina, que mete dó... porque os terceiros são sempre a parte monstruosamente maior, aliada de todo o caos universal.

A redução, ou controlo, dos efeitos caóticos é um rotundo nada, porque ou seca a fonte caótica, e congela toda a inspiração, ou a deixa solta, e nesse caso é incapaz de controlar o caos.
É algo triste ver a mediocridade reinante, tão presa à visão pequena do seu enorme umbigo.

Definida uma barreira, a questão universal inevitável é - quem fica de um lado e quem fica do outro?
A arbitrariedade da escolha é a arbitrariedade da barreira, e carece de fundamento.
Não há herança, só há errança, num acaso e espasmo temporal.
A existência de semelhantes, invoca um princípio de reflexão inevitável:
- Colocados uns no lugar de outros, o que fariam esses de diferente face a estes?
Fariam pior... sim, talvez o mesmo.

A lógica que preside à construção da barreira actua com a mesma arbitrariedade na sua destruição.

Interessa avaliar a sua estrutura moral, ou seja, até que ponto resiste à tensão dos desequilíbrios que traz consigo. Trata-se de uma simples questão física, onde a temperatura financeira aparece quase em razão inversa da temperatura climática. Os pontos mais quentes estão localizados nos centros financeiros, e os pontos gélidos estão dispersos pela restante parte subdesenvolvida.
Assim, a termodinâmica financeira, acentuadas as diferenças, exerce um fluxo natural dificilmente separável por um simples muro.
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